capítulo 06 - o fim...ou começo?

Um homem entrou, vestindo uma longa capa cinza que cobria seu corpo por completo. Luvas negras ocultavam suas mãos, e, apesar do traje volumoso, Vitória percebeu que ele era alto — cerca de 1,90m — e possuía uma estrutura corporal imponente. Algo nele exalava mistério, como se não pertencesse àquele lugar.

— Desculpe, mas já estamos fechando — disse Vitória, mantendo um tom educado, porém firme.

O homem não respondeu. Em vez disso, caminhou calmamente até o balcão e apontou para uma das opções no cardápio: chá de crisântemo.

Vitória hesitou por um instante, sentindo um arrepio sutil percorrer sua espinha. Algo nele a incomodava, mas não queria problemas. Suspirou, foi até a cozinha e preparou o chá com movimentos ágeis. Assim que ficou pronto, colocou a xícara diante do cliente e disse o valor:

— 6.000 wons – aproximadamente 22 reais.

O homem retirou do bolso uma moeda dourada e colocou-a sobre o balcão. Vitória pegou o dinheiro, mas imediatamente notou algo estranho: a moeda era reluzente, parecendo recém-forjada, mas sua textura indicava antiguidade. No centro, havia um símbolo esculpido — um lobo de três olhos, envolto por uma serpente que mordia a própria cauda, formando um círculo. Em sua borda, estava gravado um nome desconhecido: "Drakmûn".

Vitória nunca tinha visto aquilo antes, mas decidiu não questionar. O homem pegou a xícara, levou-a aos lábios e bebeu calmamente, sem emitir uma única palavra. Após alguns minutos, simplesmente se levantou e saiu da cafeteria, sem pressa.

Foi então que Vitória notou algo no chão: um pequeno pedaço de papel dobrado.

— Espere! Acho que você deixou cair isso aqui! — chamou, pegando a carta e correndo até a porta.

Mas o homem já não estava mais lá. Olhou para os lados, confusa. Não havia como ele ter sumido tão rápido.

Com o coração batendo acelerado, Vitória fechou a porta, voltou ao balcão e desdobrou a carta com dedos trêmulos. A caligrafia era elegante e fluida, mas o conteúdo a fez prender a respiração:

"Os tempos difíceis não duram para sempre. Sei que carrega fardos pesados e, às vezes, sente que está sozinha no mundo. Mas há força em você — mais do que imagina. Tudo irá melhorar. Tenha fé, continue em frente, e lembre-se: nem todas as respostas vêm quando queremos, mas elas sempre vêm quando precisamos."

Vitória piscou algumas vezes, sentindo a visão turva. Uma lágrima ameaçou cair, mas ela engoliu seco e respirou fundo. Não sabia quem era aquele homem, nem por que ele lhe deixara aquela mensagem, mas precisava daquelas palavras mais do que admitia.

Guardou a carta no bolso, limpou o rosto rapidamente e, sem mais demoras, apagou as luzes da cafeteria. Fechou a porta e atravessou a rua, pronta para enfrentar mais uma noite de trabalho no mercadinho.

Mas, no fundo, algo dentro dela dizia que sua vida nunca mais seria a mesma.

No caminho para casa, Vitória desbloqueou o celular e enviou uma mensagem rápida para a tia:

"Me liga assim que puder tia"

A resposta veio pouco depois, um áudio curto seguido de uma foto de Jorel cochilando no sofá, seu pequeno corpo encolhido entre as almofadas. A tia disse com voz cansada, mas carinhosa:

— Assim que esse pestinha acordar, eu te ligo, tá? Se cuida, menina.

Vitória sorriu de leve. Chegando em casa, largou a mochila no canto, foi até o banheiro e lavou o rosto. O cansaço começava a pesar em seus ombros. Preparou um lamen rápido e comeu em silêncio, sentindo a mente vagar.

Pouco depois, desceu para o mercadinho. Seu colega de trabalho, Ricardo, estava encostado no balcão, terminando de organizar algumas caixas de salgadinhos. Ele era alto, magro e sempre usava um boné virado para trás, o que fazia com que o cabelo escuro e bagunçado caísse levemente sobre os olhos. Tinha um sorriso fácil e um jeito descontraído, mas naquele momento parecia exausto.

— Boa noite, Vih. Meu horário já deu, vou nessa.

— Boa noite, Ric. Se cuida, hein.

— Você também. Até amanhã.

A noite seguiu tranquila. Tão tarde, dificilmente apareciam clientes, e os poucos que vinham eram universitários com olheiras profundas, pegando energéticos e cafés para mais uma madrugada de estudos. Vitória conhecia aquele olhar cansado e desesperado.

Seu celular estava guardado em casa, já que não precisava usar o armário do trabalho por morar tão perto. Assim que o relógio marcou o fim do turno, fechou a loja e atravessou a rua para casa.

Ao chegar, pegou o celular. Um arrepio percou sua espinha.

Chamadas perdidas. Áudios. Mensagens erradas.

O nome da tia na tela. Mas, ao tocar nos áudios, percebeu imediatamente: não era ela. Era Jorel.

Vitória sentiu o estômago afundar enquanto pressionava o play.

— Vivi... a titia saiu... tinha um moço estranho aqui... não sei o que fazer...

A voz infantil estava embargada, tomada pelo medo. As mensagens digitadas eram desconexas, letras embaralhadas e palavras incompletas.

A tia nunca o deixava sozinho por tanto tempo. Se saía, era para ir até a vizinha ou levar o lixo para fora. O suficiente para Jorel nem notar. Mas agora... agora ele estava desesperado. E havia um homem dentro de casa.

O sangue de Vitória gelou.

Ela tentou ligar para a tia. Apenas chamava. Tentou o pai. Sem resposta.

Digitou freneticamente: "Pai, vá para a casa da tia AGORA. Tem algo errado!"

O medo começou a transbordar, e as lágrimas caíram sem controle. Com dedos trêmulos, tentou uma última vez ligar para a tia. A chamada foi atendida.

Vitória sentiu o coração parar.

— Alô?! Tia? Jorel?!

A resposta veio em forma de uma respiração pesada. Não era sua tia. Nem Jorel.

Então, a voz do irmão rompeu o silêncio. Fraca. Trêmula. Mas carregada de emoção crua.

— Desculpa, Vivi...fui um fardo pra você...

Vitória se engasgou com um soluço.

— Jorel, campeão, não! Você nunca foi um fardo! Você é tudo pra mim! Você me deu um motivo para viver!

Um silêncio. E então, com as últimas forças, ele sussurrou:

— Vivi... vive por você... obrigada...Eu te amo maninha.

Um estrondo. Vidro quebrando.

A ligação se tornou caos. Sons de luta. Passos pesados. Móveis sendo arrastados. E então... o silêncio absoluto antes da chamada cair.

Vitória congelou.

Um vazio tomou conta de seu peito, um buraco impossível de preencher. O tempo parou. O mundo parou. Jorel não estava mais lá. Sua tia também.

Ela não sentia mais as pernas. O celular escorregou de seus dedos e caiu no chão. Seu irmão, seu menino, seu campeão... seu Jorel se foi.

Uma onda de arrependimento a engoliu. Por que não ficou com ele? Por que não chegou antes? Por que não protegeu quem mais amava?

O ar ficou pesado. A casa parecia uma jaula. Ela não podia ficar ali.

Saiu sem pensar. Sem pegar nada. Sem rumo.

Seus pés corriam pelo asfalto, mas sua mente já não estava ali. Ela não conseguia respirar. As ruas passavam borradas, distorcidas pelas lágrimas incessantes.

E então—

Luzes.

Uma buzina ensurdecedora.

Por algum motivo, Vitória lembrou-se da carta deixada pelo homem misterioso.

Um caminhão.

Tudo ficou branco e, depois, era só escuridão e frio absurdo.

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Quando acordei...

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km

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PERA UQ I O FINAL FELIZ DOS IRMÃO/Frown/

2025-02-20

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/Hunger//Drool/

2025-02-20

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