capítulo 02 - o passado

Um carro preto, em alta velocidade e na contramão, atingiu o nosso carro com tudo. O impacto foi brutal. Eu, sentada no banco de trás, não fui muito machucada. Mas o que vi... aquilo jamais saiu da minha cabeça.

Minha mãe foi comprimida contra o metal retorcido. O sangue escorria, o último grito abafado escapando de sua boca. O som seco do pescoço se quebrando.

E, ao fundo, os gritos desesperados do meu pai.

Depois disso, não me lembro de mais nada. Tudo que me restou foi uma vaga lembrança da minha mãe e a única herança que ela deixou para mim: um pequeno colar dourado, em formato oval, com o desenho de uma rosa azul na frente.

Com o tempo, meu pai se entregou à bebida e às drogas. Não demorou para que enlouquecesse de vez. Era difícil vê-lo naquele estado... Mas pior ainda era sentir.

Cada vez que, de alguma forma, eu o fazia lembrar de minha mãe, ele me batia. Seu nome virou um tabu dentro de casa. Não podíamos pronunciá-lo. Era como se fingir que ela nunca existiu fizesse a dor desaparecer.

Então, veio aquele dia.

Eu tinha dezesseis anos quando alguém bateu à nossa porta.

Ao abrir, me deparei com uma mulher segurando um bebê nos braços. Ela tinha cabelos loiros médios, desbotados e sem brilho. Seu rosto não era exatamente bonito, mas o corpo, sem dúvida, compensava. Seus olhos franzidos e a expressão carrancuda tornavam sua aparência ainda mais rígida.

Sem aviso, ela me jogou a criança nos braços e, empurrando a porta, entrou sem pedir permissão.

— JEREMY! VOCÊ TÁ AQUI? APAREÇA LOGO, EU VI SUA LATA-VELHA LÁ FORA! — gritou, sua voz irritada ecoando pela casa.

— Senhora! — tentei chamar sua atenção, mas ela simplesmente me ignorou.

Meu pai saiu do quarto. Ao vê-la, sua expressão endureceu. Ele então olhou para mim e, em seguida, para a criança que eu segurava. Seu rosto empalideceu.

Eles foram para o quarto, onde conversaram — ou melhor, discutiram — por cerca de duas horas. Enquanto isso, fiquei na cozinha, segurando o bebê nos braços. Era um garotinho de olhos castanhos claros... Os mesmos olhos do meu pai.

Eu não conseguia parar de encará-lo.

Do outro cômodo, os gritos da discussão vinham em ondas, abafados pela parede. O tempo passou, até que, finalmente, a mulher saiu bufando, bateu a porta com força e se foi.

Deixando o bebê para trás.

Levantei da cadeira e caminhei até a porta com ele nos braços, mas a voz do meu pai me deteve.

— Não vá.

Virei para encará-lo. Ele suspirou, esfregando o rosto cansado. Então, me explicou.

Meu pai engravidou aquela mulher quando os dois se conheceram. Agora, depois de ter o bebê, decidiu que não queria ser mãe. Estava de partida para outro país e não queria carregar aquele "peso".

Parei por um momento, encarando a criança em meus braços.

Um pai sem estabilidade mental ou financeira.

Uma mãe que simplesmente o abandonou.

Como alguém pode deixar para trás algo tão pequeno? Tão frágil?

Tão adorável?

Eu o abracei forte, simpatizando com meu meio-irmão recém descoberto. Eu cuidaria dele.

— Jorel.

Meu pai ergueu uma sobrancelha.

— O quê?

— Esse é o nome dele. Jorel.

E, a partir daquele momento, ele não era mais só um bebê abandonado.

Ele era meu irmão.

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Comments

km

km

mulher desgraçada, pai desgraçado. irmãos fofos/Hey/

2025-02-20

1

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