Anderson:
Fiquei com o restante do pessoal, aproveitando algumas atrações. Mas, na hora do almoço, nos reunimos todos à mesa, comentando sobre os brinquedos, rindo das expressões assustadas de quem teve coragem de encarar os mais radicais.
Como sempre, peguei o pedaço de carne do prato e cortei para Júlia, um hábito que carregávamos desde os tempos de namoro. Era automático, sem nem precisar pensar. Ela me olhou por um instante, como se quisesse dizer algo, mas apenas suspirou e pegou o garfo.
— Tá sem fome? — perguntei, notando que ela mexia na comida sem muito entusiasmo.
— Um pouco — respondeu de forma vaga, forçando um sorriso.
Algo nela parecia diferente. Estava mais calada, distraída, e até mesmo sua impaciência — que normalmente era um traço dela quando estava irritada — parecia mascarada por uma inquietação silenciosa.
— Se quiser, a gente pode ir embora mais cedo — sugeri.
— Não, tá tudo bem. Só tô cansada.
Fiquei observando-a por mais um tempo, sem insistir. Mas alguma coisa me dizia que não era só cansaço.
O resto do dia foi tranquilo, aproveitamos o parque ao máximo. Júlia ainda parecia um pouco distante, mas tentava disfarçar. Fiz questão de segurá-la pela mão em alguns momentos, trazendo-a para perto de mim, e ela retribuía com pequenos sorrisos.
Quando o sol começou a se pôr, decidimos ir embora. Pegamos a estrada e passamos rapidamente na casa dos pais dela para buscar Flora. Assim que abri a porta do carro, a nossa folgada saiu correndo para o banco de trás.
— Parece que alguém gostou do passeio — comentei, acariciando a cabeça de Flora antes de entrar no carro.
A viagem de volta foi silenciosa. Poucos minutos depois de pegarmos a estrada, Júlia dormiu profundamente, a cabeça apoiada na janela. Olhei para ela de relance algumas vezes, notando sua expressão serena, mas ainda cansada.
Chegamos em casa por volta das nove da noite. Desci do carro e abri a porta do passageiro, encontrando Júlia ainda dormindo.
— Amor… chegamos — murmurei, mas ela apenas resmungou baixinho, sem abrir os olhos.
Sorri de leve e, sem pensar duas vezes, passei um braço por trás de suas costas e outro sob suas pernas, erguendo-a com cuidado. Flora desceu do carro e seguiu na frente, abanando o rabo.
Entrei em casa com Júlia nos braços, sentindo sua respiração calma contra meu peito. Subi as escadas devagar e a levei direto para o quarto, deitando-a na cama com todo o cuidado. Tirei seus tênis e puxei o cobertor sobre ela antes de me abaixar e beijar sua testa.
— Boa noite, minha pequena.
Ela apenas suspirou, se virando para o lado, e eu sorri antes de ir tomar um banho rápido.
...(...)...
O dia começou como qualquer outro. Cheguei com Júlia à empresa por volta das oito e meia, no nosso horário habitual. No elevador, aproveitei o breve momento a sós para puxá-la para perto, segurando sua cintura e roubando alguns beijos. Ela sorriu contra minha boca, mas logo o elevador chegou ao nosso andar, e nos separamos. Aqui dentro, éramos sócios, não marido e mulher.
Cada um seguiu para sua sala, e eu fui direto para minha mesa, organizando mentalmente a lista de coisas que precisava resolver. Mas antes de qualquer coisa, chamei Yana, minha secretária.
— Preciso que marque uma consulta com um ginecologista especializado em reprodução humana, no nome de Júlia e Anderson Borges.
Yana anotou rapidamente.
— Para quando, senhor?
— Veja um dia livre na minha agenda e na dela.
— Certo, senhor. Assim que estiver confirmado, envio por e-mail.
— Obrigado.
Ela assentiu e saiu da sala.
Suspirei, passando a mão pelo rosto. Júlia não tinha mencionado mais nada sobre a fertilização in vitro desde nossa última conversa, mas eu queria pelo menos tentar levá-la a mais uma consulta. Talvez um especialista pudesse ajudá-la a enxergar a situação com menos medo e mais esperança.
No fundo, eu só queria ver minha mulher feliz. Se isso significava dar um passo adiante, então eu faria de tudo para que ela se sentisse segura.
Passei os próximos minutos encarando a tela do computador, mas minha mente estava longe. O assunto da fertilização in vitro não saía da minha cabeça. Eu sabia o quanto Júlia queria ser mãe, o quanto ela sonhava com isso, mas também sabia do medo que a consumia.
Ela não falava sobre isso abertamente, mas eu via nos olhos dela. A insegurança, o receio de passar por tudo de novo.
Respirei fundo e tentei focar no trabalho. Abri alguns relatórios, fiz algumas ligações e respondi e-mails. No entanto, meu pensamento sempre voltava para Júlia.
No meio da manhã, levantei para pegar um café. Ao passar pela porta da sala dela, vi que estava concentrada no computador, mordendo o lábio do jeito que fazia quando estava absorta em algo.
Bati levemente na porta e entrei.
— Como está indo sua manhã? — perguntei, me encostando no batente.
Ela ergueu os olhos e sorriu de leve.
— Agitada, mas nada fora do normal. E você?
— Trabalhando e pensando em você.
Ela arqueou a sobrancelha, divertida.
— Nossa, que ocupado.
Soltei um riso baixo e me aproximei.
— Eu marquei uma consulta para nós.
O sorriso dela vacilou um pouco.
— Que tipo de consulta?
— Com um especialista em reprodução humana.
Ela desviou o olhar, respirando fundo.
— Anderson…
— Amor, escuta. — Me ajoelhei ao lado da cadeira dela e segurei sua mão. — Não tô te pressionando a nada. Só quero que a gente vá lá, converse, tire dúvidas. Se você ainda não quiser, tudo bem. Mas pelo menos ouve o que ele tem a dizer.
Ela me olhou por alguns segundos, claramente hesitante.
— Você sabe que meu problema não é tentar de novo. Meu medo é… passar por tudo de novo.
— E é por isso que devemos conversar com um especialista. — Apertei a mão dela. — A gente não precisa decidir nada agora. Só quero que a gente vá junto.
Júlia suspirou e assentiu devagar.
— Tudo bem. Vamos.
Sorri, aliviado, e beijei sua testa.
— Obrigado, meu amor.
Eu só queria que ela soubesse que não estava sozinha. Que, independente do que acontecesse, eu estaria com ela em cada passo desse caminho.
.........
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Atualizado até capítulo 24
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