Júlia:
Chegamos à casa de praia duas horas depois. Havíamos comprado essa casa junto com nossos amigos para termos um lugar onde pudéssemos relaxar e nos desconectar das pressões do dia a dia. Mas, mesmo esse refúgio parecia incapaz de aliviar a tensão que pairava entre mim e Anderson.
Após nossa pequena discussão no carro, só trocamos palavras básicas: "Preciso ir ao banheiro", "Tá com fome?" ou "Quer água?". Tudo o que estava além disso ficava preso, sufocado pelo silêncio desconfortável.
Eu nunca tive — e ainda não tenho — dúvidas sobre o quanto amo Anderson. Amo ele com tudo o que sou. Ele é o amor da minha vida. Mas desde que perdemos nosso bebê e todas as nossas tentativas de engravidar falharam, algo no nosso relacionamento se quebrou.
É nosso sonho.
É o meu sonho.
Saí do carro e abri a porta de trás para Flora. Ela desceu imediatamente, animada, como sempre. Flora já conhecia o lugar, então a deixei correr solta pelo quintal, livre e alheia à carga emocional que eu carregava. Enquanto isso, ouvi o som de buzinas e risadas ecoando na entrada da casa. Os carros dos nossos amigos estavam chegando.
Anderson tirou nossas malas do porta-malas: duas pequenas de rodinhas e uma mochila com os produtos de higiene. Sem dizer nada, ele levou tudo para o quarto que dividíamos. Observei-o desaparecer pela porta e soltei um longo suspiro.
Eu não aguentava mais essa situação. Esse peso, essas discussões que, embora parecessem pequenas, consumiam nossa energia. Não eram saudáveis, eu sabia disso. Mas também sabia que, uma vez iniciadas, eram inevitáveis.
Minutos depois, ele voltou para fora, caminhando em direção aos amigos que já haviam estacionado seus carros. Olhei para ele de longe, desejando com todas as minhas forças que encontrássemos uma forma de resolver tudo isso. Nossos amigos estavam aqui. Precisávamos fingir que estava tudo bem — pelo menos por agora.
Respirei fundo e fui me juntar a eles, decidida a, pelo menos, aproveitar o momento e tentar me reconectar com Anderson. O tempo que tínhamos nessa casa precisava significar alguma coisa.
— Dinda?
Peguei Carolina no colo com um sorriso, seus cabelos ruivos brilhando ao sol.
— Oi, meu amorzinho! — falei, enchendo-a de beijos. — Que saudades de você.
— Eu também senti saudades, dinda! Vamos pra praia?
— Mais tarde, prometo. — Beijei sua testa e a coloquei no chão com cuidado. Ela correu animada até Anderson, que a pegou no colo sem hesitar.
— Minha princesa! — disse ele, enchendo-a de beijinhos na bochecha antes de jogá-la para cima, arrancando gargalhadas altas e contagiantes.
Aquela cena aqueceu meu coração, mas também trouxe um nó na garganta. Anderson seria um pai maravilhoso. Não havia dúvidas disso.
Victor, o filho mais velho de Jaqueline e Roberto, apareceu com sua energia de sempre, trazendo um sorriso genuíno para meu rosto. Beijei seus cachinhos carinhosamente.
— Oi, Victor! Que saudades do meu jogador de UNO preferido.
Logo, Maria, a bebê de um ano e três meses, balbuciava palavras incompreensíveis, segurando uma boneca de pano com suas mãozinhas pequenas. Sorri ao vê-la.
— E essa princesa? Tá ficando cada vez mais linda, hein? — comentei, me abaixando para fazer carinho em sua cabecinha.
Mesmo em meio à alegria das crianças, eu não conseguia afastar o peso que carregava. Depois de um tempo brincando com elas, me afastei discretamente e fui até a cozinha, onde encontrei Daniele e Mariana preparando algo para as crianças.
— Ju, tá tudo bem? — Mariana perguntou, me observando atentamente enquanto eu pegava um copo d’água.
Soltei um suspiro longo antes de responder:
— Não exatamente. Eu e Anderson tivemos outra discussão no carro.
Daniele levantou os olhos do que estava cortando na bancada e veio até mim.
— Sobre o quê?
— Sobre... tudo, Dani. Sobre as coisas de sempre. A gente mal consegue conversar sem acabar discutindo. É como se estivéssemos presos em um ciclo que não termina.
Mariana cruzou os braços, preocupada.
— Isso tem que parar, Ju. Não é bom pra nenhum de vocês.
— Eu sei, Mari. Mas às vezes parece que estamos tão distantes... Não sei como consertar isso.
Daniele colocou a mão no meu ombro.
— Vocês precisam conversar de verdade. Não adianta empurrar as coisas pra debaixo do tapete só porque estamos aqui.
— E se a conversa só piorar tudo? — perguntei, quase num sussurro.
Mariana se aproximou e me abraçou.
— Se você não tentar, nunca vai saber, Ju. Vocês se amam, dá pra ver isso de longe. Mas precisam enfrentar isso juntos.
Engoli em seco e assenti, sabendo que elas estavam certas. Mas a verdade é que meu medo de falhar mais uma vez era quase insuportável.
O cheiro de carne assando na churrasqueira se misturava ao som das risadas das crianças brincando no gramado e das conversas descontraídas dos adultos. A área da piscina estava cheia de vida, como sempre acontecia quando nosso grupo se reunia.
Anderson estava dentro da piscina com Roberto, Paulo e Elizeu, brincando de passar a bola de um lado para o outro enquanto as mulheres terminavam de organizar o almoço na mesa próxima.
Eu observava Anderson de longe, tentando ignorar o aperto no peito. Ele parecia tão leve e descontraído, como se nada estivesse errado entre nós.
— Júlia, vem ajudar aqui! — Daniele chamou, me tirando dos meus pensamentos.
— Já vou! — respondi, me aproximando da mesa onde ela e Mariana terminavam de colocar os acompanhamentos.
Logo o almoço estava servido. Uma grande mesa foi montada perto da churrasqueira, à sombra de uma área coberta. As crianças se sentaram primeiro, e logo todos estavam acomodados. Anderson saiu da piscina, secando o cabelo rapidamente com uma toalha, antes de se juntar a nós.
— Com licença. — Ele passou por trás de mim, apoiando a mão suavemente no meu ombro enquanto pegava o prato. Meu corpo ficou tenso com o toque, mas tentei não demonstrar.
Pouco depois, ele voltou com o prato cheio e, para minha surpresa, se sentou ao meu lado. Não disse nada, mas pegou a faca e começou a cortar a carne no meu prato com calma, como fazia desde o início do nosso relacionamento.
— Aqui, meu bem. — Ele disse baixo, colocando os pedaços cortados de volta no meu prato e empurrando-o levemente na minha direção.
Senti meus olhos arderem, mas pisquei rápido, tentando disfarçar.
— Obrigada. — Murmurei, com um pequeno sorriso antes de dar uma garfada.
Anderson parecia alheio às conversas ao redor. Ele comia em silêncio, mas de vez em quando seus olhos encontravam os meus, como se buscasse algo que nem ele conseguia expressar em palavras.
Roberto, que estava sentado do outro lado da mesa, interrompeu o momento:
— Anderson, você ainda tem aquela ideia de expandir a empresa para fora da cidade?
Anderson desviou os olhos de mim e começou a falar sobre trabalho, animado. Fiquei ouvindo em silêncio, sem conseguir tirar da cabeça o gesto simples de ele cortar minha carne. Às vezes, são essas pequenas coisas que lembram por que vale a pena lutar por um relacionamento.
Mas enquanto todos conversavam e riam, eu me perguntava se o que tínhamos era forte o suficiente para superar tudo o que enfrentávamos.
Eu iria recuperar meu casamento.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 24
Comments
Luciana
Julia filho não precisa necessariamente sair de vc. vc pode adotar um criança. tem tanta criança precisando de amor carinhoso. lute garota pelo seu casamento pelo seu amor. hj em dia está tão difícil encontrar alguém verdadeiro que quando você encontra vc tem que segura com unhas e dentes
2025-01-28
2
Arilene Vicente
Poxa Julia lute pelo seu casamento, vcs são tão lindo juntos, e com certeza logo vcs terão um lindo bebê 😌
2025-01-28
1
Angela
vai ser doloroso ler essa estória...
mas vamos lá porque vai ser lindo no final ❤️
2025-03-08
0