Júlia:
Cresci e me criei em Penha, mas aos 18 anos decidi me mudar para Florianópolis para cursar minha faculdade. Cismei que a universidade de lá era melhor que qualquer outra perto de casa, e depois de muita conversa, meus pais me deixaram ir assim que terminei o ensino médio.
Foi a melhor decisão da minha vida. Se eu não tivesse saído de Penha, talvez nunca tivesse conhecido Anderson, nunca teria me apaixonado por ele, e minha vida teria tomado um rumo completamente diferente.
Meu pai, Erasmo Noronha, é dono do melhor sorvete da região. Minha mãe, Flávia Noronha, é professora de história. Mas nem sempre foi assim. Até os meus sete anos, nossa realidade era bem diferente. Papai trabalhava em uma firma e sustentava a casa como podia, mas as dificuldades eram enormes. Passamos por tempos em que, algumas noites, não tínhamos quase nada para comer.
Meus irmãos, Daniel e Pedro, ajudavam como podiam. Eles vendiam salgados na rua, enquanto minha mãe conciliava os estudos no EJA com a nossa criação. Ela sempre foi contra crianças trabalharem cedo, mas meus irmãos insistiam que queriam ajudar. Então, ela fazia os salgados, e eles saíam para vender.
Meu pai saía de casa às cinco da manhã e só voltava por volta das onze da noite. Eu mal o via durante a semana, mas nos finais de semana ele compensava o tempo perdido. O que eu mais gostava era quando ele chegava tarde da noite e trazia marmitas com as sobremesas que sobravam do refeitório. Ele odiava doces, o que sempre achei curioso, considerando que hoje ele é dono de uma sorveteria.
A vida mudou muito desde então, mas algumas coisas sempre ficam. Como a sensação de lar toda vez que volto para cá.
— Minha filha, você está cada vez mais linda! — Mamãe me envolveu em um abraço apertado. — Mas precisa nos visitar mais, não aguento acompanhar sua vida só pelas redes sociais.
— Oi, mãe. Me desculpe. Você sabe como é... O trabalho consome a gente, e quando vejo, o fim de semana já passou voando.
— Tudo bem. O importante é que veio. — Ela sorriu e, em seguida, virou-se para Anderson. — Oi, Anderson! Meu genro favorito! Como você está? Entrem, entrem!
— Olá, dona Flávia! Melhor impossível. — Anderson respondeu simpático, segurando minha mão.
Enquanto isso, Flora, folgada como sempre, já tinha invadido a casa, se jogando no sofá da minha mãe como se fosse a dona do lugar.
Passamos pelo portãozinho de grade e logo avistamos meu pai na churrasqueira, bem em frente à casa. O cheiro de carne assando se misturava à música de Reginaldo Rossi, que tocava alto. E lá estava ele, cigarro pendurado nos lábios, como sempre.
— Pai, esse cigarro ainda vai te matar.
— E essa sua implicância ainda vai me matar primeiro. — Ele rebateu, piscando para mim.
Antes que eu pudesse retrucar, uma voz conhecida chamou minha atenção.
— Olha só quem deu o ar da graça! — Me virei e vi Daniel se aproximando, um sorriso zombeteiro nos lábios, ao lado de sua namorada, Letícia.
— Você, como sempre, um palhaço. — Revirei os olhos, mas o abracei forte. — Parabéns pela promoção, mano!
— Valeu, maninha! — Ele agradeceu e logo se virou para Anderson. — E aí, cunhadão!
Os dois se cumprimentaram e, logo depois, Pedro chegou com a esposa, Hanna, que estava grávida de Isabel. Eles já tinham Milena, de três anos, e Jasmine, de oito, filha que Pedro assumiu quando ela ainda tinha um aninho e meio.
— Finalmente a família completa! — Mamãe comemorou, nos puxando para dentro. — Agora, vamos aproveitar esse dia como deve ser!
Estávamos todos reunidos na área da churrasqueira, conversando e aproveitando o momento em família, quando o portão se abriu e uma voz artificialmente animada ecoou pelo quintal.
— Nossa, quanta gente! Parece até festa de fim de ano em família!
Revirei os olhos antes mesmo de me virar para olhar. Laiana.
Minha prima nunca gostou de mim, e a recíproca sempre foi verdadeira. Desde a infância, ela fazia questão de me diminuir de forma sutil, sempre tentando me superar em tudo. Mas, com o tempo, ficou claro que não era só competitividade: ela adorava bancar a amiga na frente dos outros, mas, por trás, era venenosa.
E, para completar, desde que conheceu Anderson, fazia questão de lançar olhares e indiretas, mesmo sabendo que éramos casados.
— Oi, Laiana. — Falei, forçando um sorriso educado.
— Oi, prima! Quanto tempo! Você tá tão... diferente. — Ela me analisou dos pés à cabeça, como se estivesse tentando encontrar algo para criticar.
Anderson, que estava ao meu lado, apenas assentiu educadamente. Mas Laiana, claro, não perdeu a chance de se jogar na frente dele.
— Anderson! Você continua lindo! — Ela sorriu de forma exagerada, ignorando completamente a minha presença. — Como você aguenta essa chata da Júlia, hein?
Meu sangue ferveu, mas antes que eu pudesse responder, Anderson apenas sorriu de canto e disse, seco:
— Eu amo minha mulher. Simples assim.
A resposta dele foi tão firme e direta que Laiana ficou sem graça por um instante. Mas, como a descarada que era, logo se recompôs e continuou com as investidas disfarçadas.
— Ah, claro, claro... Mas, me diz, como anda o trabalho? Você deve ser tão ocupado... — Ela tocou de leve no braço dele, e eu quase viro a churrasqueira nela.
Anderson, no entanto, nem se mexeu. Apenas cruzou os braços e olhou para mim com um sorrisinho cúmplice antes de responder:
— Ocupado, sim. Mas sempre arranjo tempo pra minha esposa. Ela é minha prioridade.
Senti um calor bom no peito ao ouvir aquilo.
Laiana, percebendo que não estava conseguindo o que queria, forçou um sorriso e mudou de assunto, fingindo que nada tinha acontecido. Mas eu sabia que, por dentro, ela estava morrendo de raiva.
E quer saber? Melhor ainda.
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Atualizado até capítulo 24
Comments
F Valeria Feliciano
pq tem sempre uma prima cobiçando o q não merece?? kkkkkkkkkkk
2025-02-16
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