Júlia
Acordei com um leve enjoo e uma preguiça absurda de sair da cama. Talvez tenha sido o churrasco de ontem ou o fato de ter comido doce demais. Suspirei, espreguiçando-me, enquanto Anderson dormia ao meu lado, virado de costas.
Dormi na casa dos meus pais porque choveu muito à noite, e ninguém quis arriscar voltar com a BR molhada. Melhor prevenir do que remediar. Hoje, combinamos de ir ao Beto Carrero com minha família, e, apesar de estar animada, eu me sentia estranhamente melancólica.
No café da manhã, tudo me irritou. O barulho do liquidificador, minha mãe perguntando mil vezes se eu queria suco ou café, Daniel mastigando de boca aberta. Pedro rindo atoa. Até Anderson, que normalmente era minha calmaria, conseguiu me tirar do sério ao demorar para se arrumar.
— Amor, pelo amor de Deus, vamos logo! — resmunguei, batendo o pé impaciente na porta do banheiro.
Ele saiu secando os cabelos com a toalha, arqueando a sobrancelha.
— Tá apressada por quê? O parque não vai sair do lugar.
Revirei os olhos.
— Porque eu quero chegar cedo, aproveitar tudo! Mas se depender de você, vamos perder metade do dia.
— Júlia, são nove da manhã. O parque abre às dez. Tá cedo ainda.
— Não importa, Anderson! Só se arruma logo!
Ele soltou um suspiro e terminou de se vestir sem discutir, mas percebi que estava ficando irritado com meu tom.
Fomos para o carro, e assim que saímos da garagem, começamos a discutir por uma besteira.
— Não precisava ter falado daquele jeito com a sua mãe no café. — Ele disse, mantendo os olhos na estrada.
— Eu só disse que não queria mais suco! Qual o problema nisso?
— O problema é que você foi ríspida sem necessidade. Ela só tava sendo gentil.
Bufei, cruzando os braços.
— Ah, me poupe, Anderson! Hoje tudo que eu faço te incomoda?
— Eu só tô falando que você tá diferente. Tá estressada, qualquer coisa te tira do sério.
Senti um nó na garganta, e, para piorar, meus olhos começaram a arder.
— Se você acha que eu tô insuportável, por que não me deixa em casa? Assim não precisa lidar comigo.
Ele me olhou rapidamente, sem acreditar.
— Eu não disse isso. Mas olha pra você! Tá chorando por quê agora?
— Eu não sei! — Falei, frustrada, enquanto limpava uma lágrima que desceu sem permissão.
Ficamos em silêncio pelo resto do caminho. Eu odiava quando brigávamos, e odiava mais ainda me sentir tão sensível sem motivo.
“Deve ser TPM”, pensei. Só podia ser. Essa oscilação de humor, o estresse, o choro do nada… Sim, só podia ser isso.
Chegamos ao Beto Carrero em silêncio, e eu ainda sentia aquele nó na garganta. Estava irritada comigo mesma por ter começado uma discussão idiota e, ao mesmo tempo, magoada porque Anderson parecia impaciente comigo.
Assim que descemos do carro, minha mãe veio animada com os ingressos na mão, sem perceber o clima estranho entre nós.
— Vamos direto para a Fire Whip! — Daniel sugeriu, empolgado.
— Eu prefiro o Rebuliço. — Letícia disse, segurando a mão dele.
— Júlia, você vem comigo na Big Tower? — Pedro perguntou, sorrindo.
Eu já estava prestes a responder que sim, quando um enjoo esquisito subiu pelo meu estômago. Fiz uma careta e levei a mão à barriga.
— Tá tudo bem? — Anderson perguntou, preocupado.
— Só um mal-estar. Acho que comi demais no café da manhã.
— Tem certeza? Você ficou estranha desde cedo.
— Pelo amor de Deus! Eu tô bem.
Ele ergueu as mãos em rendição e ficou em silêncio, mas percebi que não gostou da minha resposta. Eu não queria brigar de novo, mas estava difícil controlar meu humor.
Nos dividimos em grupos para os brinquedos, e eu fui com Letícia e Hanna e as meninas para algo mais tranquilo. Enquanto esperávamos na fila, Letícia me encarou desconfiada.
— Júlia… Você tá enjoada, sensível, chorando do nada… Você não acha que pode estar grávida?
Soltei uma risada curta, sem humor.
— Não, eu tô de TPM.
— Tem certeza?
Engoli em seco. A verdade era que… não. Eu não tinha certeza. Meu ciclo sempre foi meio bagunçado por conta do estresse, e com tudo que vinha acontecendo, eu nem tinha prestado atenção nisso.
Um frio percorreu minha espinha.
— Eu… Não sei.
Hanna sorriu de lado.
— Então acho que seria bom você fazer um teste, né?
Meus pensamentos ficaram acelerados. Será que era só paranoia? Ou… poderia realmente ser?
Um medo incessante me atingiu. Ter um filho era o meu maior sonho, o que eu mais ansiava no mundo. Mas também era minha maior insegurança, meu trauma mais profundo, o medo que me assombrava todas as noites.
— Não tem necessidade de teste nenhum. — respondi, tentando parecer firme, mas minha voz saiu mais baixa do que eu queria. — Eu tô de TPM, é só isso.
Letícia cruzou os braços e arqueou uma sobrancelha.
— Júlia…
— Eu tô falando sério. — interrompi, tentando esconder o desconforto que crescia dentro de mim. — Eu conheço meu corpo, sei quando estou prestes a menstruar.
— Mesmo? — Hanna questionou, com aquele olhar de quem sabia mais do que dizia.
— Sim. — afirmei, ainda que por dentro eu estivesse longe de ter certeza.
A verdade era que eu não queria alimentar esperança. Não queria me permitir sonhar com algo que talvez nunca acontecesse. Porque, se fosse só uma ilusão, a queda seria ainda pior.
Eu não suportaria perder de novo.
— Vamos focar no dia de hoje, tá? — forcei um sorriso. — Não quero estragar o passeio com essas paranoias.
Letícia suspirou, parecendo relutante, mas não insistiu mais. Hanna também não disse nada, mas pelo olhar dela, eu sabia que a conversa não tinha terminado ali.
E eu? Eu apenas empurrei aquele medo para o fundo da minha mente, me agarrando à única coisa que parecia segura no momento: a negação.
Eu já tinha feito um teste no último mês. Aliás, fiz dez. E todos deram negativo, assim como os outros quinhentos mil que eu já havia feito antes — tá, talvez eu estivesse exagerando, mas era assim que parecia.
Toda vez era a mesma coisa: esperança, ansiedade, medo... e, no final, a frustração esmagadora. O ciclo se repetia sem piedade, como uma tortura silenciosa.
Então, por que dessa vez seria diferente? Por que eu me daria ao trabalho de passar por isso de novo?
Melhor nem alimentar expectativas. Melhor não me iludir. Melhor acreditar que era só TPM, porque se fosse outra coisa... eu não sabia se estava pronta para lidar com isso.
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Atualizado até capítulo 24
Comments
Cláudia Ferreira da Silva
quando aconteceu comigo foi exatamente assim, quando fui fazer o exame de sangue a atendente toda contente e eu fui uma grossa dizendo que não estava grávida, coitada não tinha culpa de nada e no final eu estava grávida.....
2025-02-04
2
Josianny Josi
torcendo pra ser uma gravidez de gêmeos e uma gravidez linda tudo tranquilo por que eles merecem principalmente ela
2025-02-04
1
Meire
Se ela agir assim durante toda a gravidez coitado do Anderson, vai sofrer muito!
2025-02-20
1