Comprada Por Damian Lefèvre

Comprada Por Damian Lefèvre

Capítulo 1: A Proposta.

PLÁGIO É CRIME. OS PERSONAGENS E A HISTÓRIA DESTE LIVROS SÃO ORGINAIS E DE MINHA AUTORIA!

...𝐴𝑛𝑛𝑖𝑘𝑎 𝐻𝑎𝑟𝑑𝑒𝑛 ⸙...

  Encarei o pedaço de papel rasgado sobre o meu balcão enquanto rabiscava com a caneta azul um rosto qualquer. Tracei uma mandíbula delicada e depois migrei para nariz largos e olhos redondos. A caneta voava sem muito critério sobre o papel, mas um rosto feminino nascia dos meus rabiscos.

  Suspirei ao terminar os detalhes mais rápido do que gostaria. Acho que fiz isso tantas vezes na vida que simplesmente não preciso mais pensar no processo criativo de um rabisco. Soltei um riso anasalado encarando a mulher careca naquele pedaço de papel.

  Levantei a cabeça dando uma boa olhada na loja. As araras estavam organizadas e alguns balcões tinham roupas bagunçadas. Revirei os olhos quando mais uma cliente pegou uma blusa e ao invés de dobrá-la, embolou e jogou sobre as demais camisetas. Me perguntava qual era a dificuldade em facilitar o nosso trabalho, ou de não ser inconveniente.

  Notei minha colega de trabalho passar pela cliente e lançar-lhe um olhar de desprezo pelas costas. Balancei a cabeça negativamente enquanto segurava o riso para a cena. Lucille, minha companheira de trabalho, tinha o hábito de não ser doce com os clientes, o que rendeu a ela algumas mudanças de setor. Mas não tinham coragem de demiti-la, ninguém quer trabalhar nessa loja.

  O salário daqui é bom, mas sempre nos pedem para fazer coisas na qual não fomos contratadas. Os clientes são entojados e a loja tem alguns processos de racismo no histórico. Processos este que me fez pensar seriamente se deveria me candidatar a vaga, como mulher negra, não é muito inteligente se colocar em ambientes como este. Mas estão em processo de limpeza de imagem.

— Mocinha! — A mão com anéis dourados bateu contra o meu balcão me despertando do meu breve devaneio.

  Uma mulher alta e ruiva, parecendo estar na faixa dos seus trinta anos me encarava como se estivesse entediada ou talvez sem muito tempo para perder. Suas mãos estavam abarrotadas de roupas. Me toquei que ela esperava que eu entregasse a plaquinha com a quantidade de peças.

  Dei um sorriso amarelo e peguei todos os cabides de sua mão, contando peça por peça, com bastante calma. Isso pareceu deixá-la ainda mais impaciente. Peguei duas placas e entreguei a ela, que agradeceu de forma rude e entrou nos provadores.

  Ficar no setor dos provadores era um verdadeiro tédio. Não tinha muito o que fazer a não ser esperar que alguém viesse até mim para que eu tivesse o mínimo de contato humano. De vez em quando, uma colega ou outra vinha pra cá para que pudéssemos fofocar um pouco, nos aproveitamos dos provadores masculinos que estão quase sempre vazios.

— Quanta falta de educação. — O sotaque francês carregado me chamou atenção.

  Levei meus olhos para mulher a minha frente. O batom vinho em seus lábios finos faziam um contraste bonito com seus olhos verdes. Dei um sorriso para ela e já tomei as roupas de sua mão, fazendo a contagem de sempre.

— Trabalha aqui há muito tempo? — Ela perguntou, enquanto eu me virava para pegar as plaquinhas de numeração. Assenti positivamente para a pergunta. — É sério? Acho que nunca te vi por aqui.

— Talvez eu estivesse com outro cabelo. — Dei meu melhor sorriso simpático. Ela balançou a cabeça para a minha resposta, veio para o lado do balcão e me analisou de cima abaixo. Apesar de me sentir constrangida, soltei uma risada para não parecer mal educada.

  O lado ruim de trabalhar com o público é que, qualquer coisa que você fizer, por mais natural que seja, o cliente pode se ofender e acabar te prejudicando de alguma maneira. Então, procuro sempre ser simpática mesmo que o ambiente esteja uma verdadeira merda.

— Você é muito bonita para estar trabalhando numa loja de roupas, querida. — Ela falou indignada. Seu tom de voz mesclado com o sotaque francês a deixava engraçada e ao mesmo tempo simpática.

— Bom, nem sempre conseguimos tudo o que queremos, minha senhora. — Falei gentilmente.

— Senhora? Que ultraje! — Ela levou a mão ao peito, como se estivesse ofendida. — Qual o seu nome, minha querida. — Perguntou, apoiando o cotovelo no meu balcão.

— Annika. — Respondi.

— Que nome lindo, minha querida. — Falou como se estivesse encantada comigo. — Me chamo Angélique. — Comecei a ficar extremamente envergonhada pela forma pela qual me olhava, parecendo analisar meu rosto milimetricamente.

  Passei meus olhos ao redor rapidamente, desejando que algum olhar conhecido encontrasse o meu e entendesse meu pedido de socorro ou que pelo menos algum cliente aparecesse e interrompesse essa conversa de maluco.

  Já atendi todo o tipo de pessoa nesse lugar. Aqueles que dizem que na loja do lado é mais barato, os que me humilharam por prazer e até os que já tentaram furtar alguma coisa. Mas uma senhora de meia idade tentando flertar comigo era a primeira vez.

— Obrigada. — Falei, batendo os dedos sobre o balcão, inquieta.

— Mas me diga, o que você queria fazer que não conseguiste? — Ela dobrou a pilha de roupas e colocou sobre o meu balcão, cruzando os braços sobre o peito.

  Franzi o cenho, estranhando sua pergunta. Encarei-a por alguns segundos, talvez minutos, tentando decifrá-la, tentando entender o que ela queria com tantos assuntos e perguntas. Sua expressão era de interesse, ela de fato pareceu curiosa sobre mim.

— Eu pretendia fazer desenho. — Não dei muitos detalhes, apenas respondi o necessário. Ela abriu a boca como se lembrasse de algo.

— Eu sabia que tinha algo especial em você, querida. Posso estar ficando velha, mas meu faro ainda é de um labrador! — Ela falou sorrindo, numa animação que julguei exagerada.

  Puxou a bolsa atravessada no corpo e abriu-a, mexendo em diversos papéis, até tirar um cartão pequeno dali de dentro. Ela estendeu-o para mim, e eu, hesitante, peguei de sua mão.

  O papel cinza claro tinha o nome da empresa gravado em metálico vermelho, com o número de contato em baixo e um site. Olhei a parte traseira, mas não havia nada além daquilo. Voltei meu olhar para ela, tentando entender do que se tratava.

— Aqui você pode encontrar a chave para realizar esse sonho, querida. Estamos procurando por pessoas talentosas, dispostas a arriscar tudo para seguir o seu sonho. — Ela falou sorridente, fazendo a propagando de sua empresa.

— Olha, eu estou bem. Obrigada. — Estendi de volta o cartãozinho para ela.

Ela segurou no meu pulsou e colocou o cartãozinho sobre a minha palma e fechou meus dedos sobre ele. A encarei como se ela estivesse louca e ela abriu um sorriso ainda maior.

— Você pode precisar! — Ela desferiu tapinhas na minha mão e simplesmente se virou e foi embora.

  Encarei a cena embasbacada, chocada. O choque se transformou em raiva quando percebi a pilha de roupas na qual eu seria obrigada a dobrar e repor graças a essa mulher louca. Bufei indignada. Isso só pode ser brincadeira. Eu ainda preferiria que ela apenas fosse escrota e se mandasse do que toda essa maluquice.

  Coloquei o papel dentro do bolso da minha calça e recolhi as roupas, frustrada e irritada. Abandonei meu posto na entrada dos provadores e fui pendurar as roupas no lugar.

— Qual foi da coroa rica? — Gabriel, um dos meus colegas, perguntou enquanto fingia organizar as roupas ao meu lado.

— Só mais uma sem parafuso. O dono disso aqui deveria abrir uma clínica psiquiátrica também, todos os clientes são loucos. — Falei irritadiça.

  Caminhei pela loja com Gabriel em meu encalço, tagarelando enquanto eu arrumava outras araras e dobrava algumas roupas, as colocando em seu devido lugar. Ele falava sobre seu último fim de semana, algo sobre ter ficado extremamente bêbado ao ponto de não se aguentar em pé.

  Gabriel é um rapaz legal, menos quando resolve falar pelos cotovelos. Às vezes é difícil pará-lo, então a maioria de nós só deixa que ele fale como uma criança até que se canse. Por ser muito legal, ninguém tem coragem de mandá-lo calar a boca.

— Você vai estar livre esse fim de semana? — Ele cruzou os braços e apoiou o ombro na pilastra.

  Havia esse outro detalhe sobre ele que me irritava. Desde que comecei a trabalhar aqui, Gabriel pareceu disposto a tentar me levar para sair a todo custo. E mesmo eu despistando várias vezes, ele não saía do meu pé. Eu sempre tentava ser o mais delicada o possível para não o magoar, e acabar deixando um clima tenso no ambiente de trabalho. Talvez este fosse o problema.

— Estarei sim, mas não para sair com você. — Falei enquanto ria de sua cara indignada.

— Por que você vive me dando fora? — Perguntou frustrado.

— Por que você vive insistindo? — Retruquei.

— Você tem trauma ou algo assim por acaso? Eu sou um bom partido, Annika. — Ele colocou as mãos sobre a cintura. Sua pose e sua fala ultrajante me fizeram fazer uma careta.

  Ignorei-o e caminhei de volta para a porta dos provadores. A moça que havia entrado anteriormente estava ao lado do balcão batendo pé, com as roupas amontoadas em mãos. Respirei fundo, com medo do que viria.

  Ela me encarou irritada, mas para a minha sorte, não falou nada. Apenas jogou em mim as roupas que não levaria e a placa de numeração, virou as costas e caminhou em direção ao caixa. Virei o rosto para Gabriel e com o olhar, pedi para que ele organizasse para mim.

  Ele bufou e tomou as roupas da minha mão, indo guardá-las em seus devidos lugares.

  Permaneci ali, parada, em pé, esperando por alguém como sempre, geralmente, movimento não é muito bom no início da semana. De segunda a quarta os dias são tranquilos, mas a tranquilidade me matava aos poucos. Os segundos pareciam horas quando dentro da loja, e as horas se passavam em segundos quando em casa.

  O tempo passou e a minha hora chegou.

  Fui para o vestiário da loja e peguei minhas roupas no armário. Meus pés estavam me matando, então me arrumei o mais rápido que pude para chegar em casa e poder tomar um banho quente e relaxar. Não me demorei e me despedi daqueles que ficaram desejando-os um bom encerramento.

  O ônibus me deixou na frente de casa. Saltei e caminhei para a porta enquanto procurava pelas minhas chaves dentro da bolsa. Abri-a e entrei, trancando-a após.

  Fui para o meu quarto, arrancando a blusa e desabotoando a calça jeans apertada. Joguei minha bolsa sobre a cama e tirei a calça jeans que colava no meu corpo por conta do suor.

  O papelzinho cinza caiu do bolso quando tirei a calça. Abaixei e o peguei, encarando os números e as letras gravadas ali, pensando sobre as palavras da francesa na loja. Talvez não fosse uma má ideia, pensei comigo mesma.

  Mas deixarei isso pra depois.

  Joguei o papel na cama e rumei para o banheiro. Abri o registro, deixando o vapor da água quente tomar conta do banheiro. Adentrei o boxe e me enfiei embaixo do chuveiro, deixando a água ardente bater contra os meus ombros, relaxando cada músculo do meu corpo. Enquanto me ensaboava, pensei sobre a mulher na loja e sobre a oportunidade. Talvez eu devesse investir no meu talento, no que eu sempre quis fazer e tentar alavancar isso de algum jeito.

  Como ela disse, eu não deveria estar trabalhando numa loja. Apesar de não ver problema em estar num trabalho comum, as vezes sinto que percorri o caminho errado e desperdicei o meu tempo, talvez essa seja a minha oportunidade de pelo menos tentar.

  Fechei o registro e me enrolei na toalha, saindo do boxe às pressas.

  No quarto, peguei meu notebook e me joguei na cama completamente molhada, sem me importar em molhar o colchão. Coloquei o laptop sobre a cama e batuquei os dedos ansiosamente enquanto ele ligava. Catei o cartãozinho para olhar o site da tal empresa.

  Meu notebook não é dos melhores então demorou um pouco para que carregasse o Chrome. Digitei o endereço do site, sendo redirecionada até que rápido.

  O site tinha a mesma palheta de cores do cartão, cinza e vermelho, bem-feito e organizado. Naveguei entre as abas disponíveis, desde a apresentação até a aba de relato de alunas. Notei que todas eram mulheres e de diversas etnias, algumas sequer falavam inglês, mas havia legendas.

  O site informava que eles tinham sede em diversos países ao redor do mundo. Mas o único lugar que eles ainda não tinham, era em solo brasileiro.

  Mordi o interior da minha bochecha, inquieta, pensando na possibilidade de viajar para fora. Totalmente surreal e imprudente sair do meu país sozinha para estudar em um lugar onde não conheço ninguém, e não terei nenhum auxílio financeiro.

  Fui para a aba de inscrição, e lá havia diversas explicações sobre a empresa. O texto começava falando quanto tempo eles têm de mercado, e estranhei o fato de nunca ter ouvido falar neles. A julgar que eles se apresentam como algo grande, eu deveria ao menos me lembrar de algo parecido, mas nada me vinha a mente.

  "Nossa empresa é comandada apenas por mulheres, esse projeto surgiu com o intuito de dar oportunidade aquelas que são desafortunadas. Seja por não ter uma estabilidade financeira ou falta de amparo social.

  Abraçamos mulheres de toda nacionalidade e etnia. Aqui, além de aprimorarmos seus talentos naturais, também damos oportunidade de estudo e emprego.

  Não temos uma sede em seu país? Não se preocupe! Nós arcamos com as despesas da sua viagem. Aqui, além de ter um local para que possam dormir, comer e beber, também fornecemos empregos e estágios para vocês.

  Assim, terão a oportunidade de estudar e trabalhar conosco, e quem sabe, até mesmo fazer parte da nossa equipe. Seja como professor ou olheira!"

  Li todas aquelas palavras com um brilho nos olhos. O sorriso largo tomou conta do meu rosto sem nenhum pudor, arrisco dizer que estava sorrindo como o Coringa em seu momento de maior loucura. Afobada, fui para a aba de inscrição do site.

  Lá, eles pediram meu nível de escolaridade, perguntaram como encontrei a empresa deles dentre outros questionamentos padrões antes da real inscrição. Na aba seguinte, coloquei meu nome completo, data de nascimento dentre outras informações pessoais que me foram pedidas. Digitei tudo rápido demais, tendo que apagar algumas vezes e reescrever meu próprio endereço.

  Passei para a última página. Franzi o cenho quando pediram meu peso e a minha altura. Faziam séculos que eu não media minha altura ou peso. Coloquei uma numeração próxima da qual eu me lembrava, deixei meu E-mail para contato e finalizei tudo. Fechei o notebook e joguei meu corpo para trás no colchão. Encarei o teto, ainda com aquele sorriso dominante nos lábios. Por Deus, é a oportunidade da minha vida!

  Gostaria de ter para quem contar.

Mais populares

Comments

Pedro

Pedro

a francesa tá achando que a annika é cigarro, pra ser traficada? mds tô com medo do desfecho

2025-02-08

1

Marta Monteiro

Marta Monteiro

iniciando leitura do 📖 em janeiro 2025, isso é furada garota 😮‍💨

2025-01-08

3

SilvanaGouveia-SG _Gouveia

SilvanaGouveia-SG _Gouveia

Tadinha vai ser traficada , tão bobinha

2025-01-21

1

Ver todos

Baixar agora

Gostou dessa história? Baixe o APP para manter seu histórico de leitura
Baixar agora

Benefícios

Novos usuários que baixam o APP podem ler 10 capítulos gratuitamente

Receber
NovelToon
Um passo para um novo mundo!
Para mais, baixe o APP de MangaToon!