...𝐴𝑛𝑛𝑖𝑘𝑎 𝐻𝑎𝑟𝑑𝑒𝑛 ⸙...
Subi as escadas correndo em completo desespero, enquanto Damian caminhava a passos largos atrás de mim sem se preocupar em correr também, pois sabe que não tem para onde fugir. Entrei em meu quarto, desesperada, e usei o meu corpo como barreira contra a porta, na tentativa de evitar a sua entrada.
— Abra a porta, Annika! — Do outro lado ele vociferou, a voz grave fez com que meu corpo se arrepiasse em terror.
Ele empurrou a porta para entrar e eu tentei segurá-la, mas Damian — maior e mais forte — a abriu em questão de segundos, e avançou para cima de mim como um touro, me jogando contra a cama. Tentei me afastar, mas ele se sentou sobre a minha barriga, com cada perna ao lado do meu corpo, me impedindo de me mover, estava difícil para respirar.
Me debati sob ele, implorando por misericórdia enquanto meu rosto era tomado por lágrimas.
Não demorou para que suas mãos estivessem sobre o tecido da minha blusa, rasgando-a como se fosse papel. Seus dentes faiscaram num sorriso malicioso ao ver meus seios expostos, eu sequer conseguia mover os meus braços para tentar me proteger do seu olhar amedrontador.
Fechei os meus olhos, não querendo visualizar a cena. Só faça de uma vez e me deixe sozinha, eu só quero que isso acabe.
— Annika, Annika! — Mãos balançaram meu corpo fazendo-me abrir os olhos, ao ver a imagem do seu rosto, gritei assustada e empurrei meu corpo para trás até minha cabeça bater na cabeceira da cama. — Ei, ei, calma! — Ele falou baixo.
Olhei em volta, o quarto iluminado pela luz amarelada do abajur do criado mudo me fez perceber que tudo não passou de um sonho ruim.
— Tive um pesadelo. — Falei, sentindo minha garganta seca. Levei minhas mãos ao rosto, trêmula, ainda com aquela sensação terrível.
Senti a cama afundar e tirei as mãos do rosto para olhá-lo sentar-se à beira.
— Ouvi os seus gritos do meu quarto e vim checar. — Ele me olhou parecendo preocupado.
O fitei sob a meia luz, ainda confusa sobre o que é real ou sonho. Com medo de ainda estar adormecida e a imagem dele sendo gentil ser fruto da minha imaginação. Levei a mão ao peito tentando acalmar o coração que bate descompassadamente.
Damian fez menção em se aproximar e eu me afastei.
— Tenho uma ideia do que pode ter sido. — Ele falou e eu desviei o olhar para baixo.
É óbvio, não é?
— Que horas são?
— São quatro da manhã, tens tempo para dormir.
— Não conseguiria nem se quisesse. — Falei cabisbaixa, evitando seus olhos claros.
Num leve suspiro, ele se levantou e estendeu a mão para eu segurá-la, olhei para ele e para a sua palma.
— Vamos até a cozinha. — Ele falou, balançando a mão, insistindo para que eu a segurasse. O fiz apenas para levantar-me da cama e a soltei assim que de pé. Um arrepio percorreu meu corpo ao tocar o chão, o piso gelado me fez andar na ponta dos pés para fora do quarto.
Damian caminhou na minha frente pelo corredor e notei a porta de seu quarto aberta, me tocando de que nunca a vi assim ou sequer já vi seu quarto por dentro. Descemos as escadas e eu procurei segurar no corrimão por conta da escuridão, para não tropeçar e acabar caindo.
Logo, chegamos à cozinha. Damian caminhou até os armários e se abaixou, pegando uma panela pequena. Puxei uma cadeira e sentei-me à mesa enquanto ele buscava o pote de açúcar e a caixa de leite dentro da geladeira.
Nesses meses em que estou aqui, nunca o vi chegar perto do fogão, cheguei questionar se ele sabia como ligá-lo. Cruzei os braços sobre a mesa e me deitei neles, esperando-o terminar seja lá o que estava fazendo.
Não demorou para que o cheiro de açúcar sendo caramelizado tomasse a cozinha. Levantei a cabeça quando o aroma familiar adentrou minhas narinas, me perguntei de onde eu conhecia esse cheiro.
— Isso vai lhe ajudar a dormir, bom, eu espero, funcionava com o Victor. — Ele falou e encheu uma caneca com o leite antes de vir até mim e colocá-lo sobre a mesa. Encarei o líquido com pedaços de açúcar boiando e me lembrei, minha mãe costumava fazer leite com açúcar queimado quando eu ficava gripada e não conseguia dormir por conta da tosse severa.
Me permiti sorrir. Segurei na alça da caneca e assoprei antes de dar a primeira bicada na bebida, tomando cuidado para não queimar a língua. O da minha mãe era muito mais doce que esse, quase uma explosão de açúcar.
Bebi mais um pouco, agora um gole maior.
O silêncio se estabeleceu entre nós por bastante tempo, até que eu terminasse de beber o leite. Me senti pesada no momento em que o leite acabou, de fato, isso é tiro e queda.
— Damian — comecei, me sentindo tola no momento em que abri a boca, mas continuei — existe alguma possibilidade de não precisar mais usar isso aqui? — Perguntei, apontando para a coleira.
Ele suspirou e pegou o copo para levá-lo a pia.
— Sinto muito, Annika — Ele me encarou com pesar ao voltar para a mesa —, sei que na primeira oportunidade você correria portão a fora.
Ele está certo, mas precisei tentar.
— É incômoda.
— Está apertada? — Assenti.
Ele se levantou e pediu para o acompanhar.
Fomos até o andar de cima, mais especificamente para a porta do seu quarto. É a primeira vez que terei a oportunidade de ver como é por dentro. Caminhei cautelosamente atrás dele para dentro do cômodo, ele acendeu a luz e eu me surpreendi com o quão normal é. Não sei dizer o que eu esperava.
Mas a televisão antiga e pequena me chamou atenção. Nunca vi nada do tipo a não ser o rádio antigo na biblioteca em uma das estantes.
— Televisão? — Apontei. Ele virou por um instante e depois voltou a mexer na gaveta da mesinha de cabeceira.
— Não funciona. — Ele falou. Estranhei, quem mantém uma televisão que não funciona em casa?
Continuei a analisar o cômodo, o vento adentrando o quarto pelas janelas abertas balançava as cortinas dando-me visão ampla do céu. Talvez, se não fosse a poluição, ele estaria coberto por estrelas e seria ainda mais bonito.
Damian entrou no meu campo de visão, tirando-me dos devaneios.
— Avise quando estiver frouxo o suficiente. — Ele disse, trazendo consigo o maldito controle. Apertou o botão três vezes até que a coleira, antes apertada no meio da minha garganta, afrouxasse, descendo um pouco mais no meu pescoço.
— Está melhor. — Avisei e ele apenas se virou e guardou o controle de volta na gaveta. — Eu vou para o meu quarto, obrigada por isso e pelo... Leite.
— Não há de quê. — Ele disse.
Saí do seu quarto fechando a porta e entrei no meu, na porta logo em frente.
Diferente do que imaginei, ao me deitar, o sono esvaiu-se do meu corpo quase que instantaneamente. Algo se manteve claro em minha mente, o que me deixou acordada durante o restante da madrugada.
Vi o sol nascer diante de mim e adentrar o quarto pela brecha da cortina, os passarinhos já cantavam e a movimentação dos funcionários pelos corredores começou.
Seis em ponto da manhã é o horário em que a casa inteira acorda para começar a arrumá-la e a preparar o café da manhã.
Frustrada por não ter conseguido dormir, pulei para fora da cama e fui para o meu banheiro. Encarei meu rosto inchado no espelho e fiz cara de desgosto, parece que cada dia que passa eu fico mais feia, mas quem conseguiria ser manter bela na atual conjuntura, perguntei-me. Deixei de lado a auto depreciação e tirei as roupas do dia anterior, me tocando de que não tomei banho antes de dormir, apenas na parte da tarde.
Uau, estou convivendo tanto com franceses que estou pegando o hábito de ser imunda.
Ri do meu pensamento e entrei embaixo do chuveiro. Pela manhã o dia é sempre frio, ótimo para tomar um banho bem quente e relaxar cada músculo do corpo. Aproveitei para lavar o cabelo, já estava mais que na hora.
Ao fim do meu banho, escovei os meus dentes, e fui atrás do pijama que Damian me deu, extremamente confortável.
Sentei-me à penteadeira e comecei a desembaraçar o meu cabelo umedecido. Ele já está enorme, quase encostando na cintura e começando a me dar trabalho para desembaraçar, acho que está na hora de cortá-lo.
Duas batidas leves foram desferidas na porta e Amélie colocou a cabeça para dentro, ao me ver sentada, entrou com um sorriso no rosto.
— Bom dia, minha linda. — Disse ela, carregando um cesto que usa para recolher as roupas sujas.
— Bom dia, Amélie. — Falei, lançando lhe um sorriso.
— Olha só, seu francês está impecável — Ela parabenizou com um sorriso largo no rosto e continuou — está tudo bem com você? Ouvi gritos de madrugada, fiquei preocupada, mas quando cheguei no corredor o vi entrar no seu quarto então decidi dar meia volta e ir embora. — Ela disse ao se aproximar de mim e largar o cesto no chão, colocando suas mãos na cintura como uma mãe preocupada.
— Tive um pesadelo, ele ouviu e veio ver se estava tudo bem. — Falei enquanto repartia o cabelo para ser mais fácil de desembaraçar. Passei o pente grosso da ponta do cabelo e subi até a raiz, sentindo dificuldade no processo.
— Entendi. — Ela disse e catou o cesto de volta e foi para o banheiro pegar minhas roupas sujas.
Quando saiu, chamei sua atenção.
— Amélie.
— Sim, Anni. — Ela se virou para mim.
— Ele fez leite quente pra me ajudar a dormir... E parecia preocupado comigo. — Falei, desacreditada das minhas próprias palavras mesmo que tivesse as vivido.
Amélie arqueou as sobrancelhas e ficou parada sem saber o que dizer. Respirou fundo e se aproximou novamente, abaixando-se ao meu lado, apoiando suas mãos em minha perna para se equilibrar.
— Olha Anni, você pode me achar louca depois do que eu vou dizer aqui, mas nós duas sabemos que as chances de conseguir ir embora são mínimas — Ela falou, lambendo os lábios antes de continuar parecendo caçar as palavras adequadas para o seu discurso —, mas você está em uma mansão, na França, com um homem rico e bonito no quarto ao lado.
Abri a boca em choque com sua fala, sem acreditar em uma palavra do que estou ouvindo.
— Amélie! — Falei em repreensão.
— Eu sei, eu sei. Ele é um carrasco, mas vamos lá Anni, você já olhou para ele? Já reparou bem no homem que está dormindo do outro lado do corredor? Posso ser uma mera empregada com o dobro da sua idade, mas eu não sou cega. Você não precisa se deitar com ele se não quiser, mas pelo menos faça-o gastar sua fortuna com você. — Ela disse e se levantou me deixando sozinha.
Não, eu nunca o olhei dessa forma, na verdade, eu evito até falar com ele. Por que caralhos eu o olharia com segundas intenções, por favor! Encarei-me no espelho, pasma. O que foi que acabou de acontecer aqui?
Terminei de desembaraçar meu cabelo e saí do quarto, para o meu azar, dei de cara com Damian saindo do dele. Ele fechou a porta e me encarou, olhando-me de cima a baixo.
— Dormiu bem? — Ele perguntou, me pegando de surpresa.
— Sim, quer dizer, não, não consegui dormir. — Gaguejei como uma idiota, ainda com as palavras de Amélie rodando na minha mente.
— Deveria tentar, hoje é sábado, tem o dia inteiro para dormir se quiser. — Ele falou, mas um zumbido no meu ouvido quase o fez inaudível.
Cometi o erro de reparar em seu cabelo molhado e bagunçado, e como se o diabo brincasse com meu psicológico, uma gota pingou de uma mecha de cabelo até o seu peitoral desnudo e arrisco dizer que vi tudo em câmera lenta.
— Sim, claro, eu vou lá, na biblioteca. — Falei rapidamente, dando passos desajeitados para longe dele.
— Eu te acompanho. — Ele sinalizou para que eu fosse na frente.
— Não, quer dizer, eu vou na cozinha, depois na sala e aí vou der uma volta no jardim e só depois eu vou para a biblioteca. — Gesticulei enquanto ele encarava como se me faltasse um parafuso.
— Tudo bem, boa ida a cozinha, sala e jardim. — Ele riu e saiu andando na minha frente.
Deixei que ele se distanciasse o suficiente para praguejar Amélie em voz alta. Como ela pôde fazer isso comigo a essa altura do campeonato, pensei que fossemos amigas! Caminhei até as escadas e decidi ir direto para o jardim.
O sol já tomava o céu, mas a sombra era fria.
Virei à direita e andei até a área da piscina. Para a minha sorte, parte dela estava sob o sol, então fui até a área ensolarada, dobrei a calça do meu pijama até meus joelhos e sentei-me à beira, com meus pés dentro da água gelada. No início foi difícil por conta da temperatura, mas depois não senti mais diferença.
Apoiei minhas mãos no chão, tombando a cabeça para trás, aproveitando o sol no meu rosto.
Há algum tempo não sei o que é tomar um banho de sol. Dias quentes se tornaram uma saudade, pois apesar de não ser frio o tempo todo aqui, ainda não é quente o suficiente como no Brasil. Saudade das praias e até do ônibus lotado para chegar no trabalho. Como será que Elena e Gabriel estão?
Como uma armadilha, meu cérebro me levou de volta a cozinha nessa madrugada e as palavras de Amélie soaram no background da cena. Rosnei frustrada, como ela pôde colocar isso na minha cabeça sem dó? Eu não cogitaria algo assim nem nos meus piores pesadelos.
— Não ia para a cozinha? — Sua voz quase me fez ter um ataque cardíaco.
Coloquei a mão sobre a testa para tapar o sol dos meus olhos e o olhei, ainda sem camisa e com sua calça de moletom cinza. Virei o rosto rapidamente para a água.
— Mudei de ideia. — Falei despretensiosamente. Ele se abaixou ao meu lado e sentou-se no chão. Continuei focada nos meus pés dentro d'água, policiando-me em evitar olhá-lo.
— Como você se sente? — Perguntou e eu dei de ombros.
— Bem, por que não estaria?
— Bom, não sei. Quem gritou a madrugada toda por conta de um pesadelo foi você, só estou checando.
— E você se importa? — Virei a cabeça para encará-lo, ele revirou os olhos azuis para mim.
— Por que você vive na defensiva?
— Porque será, Damian? Eu nem imagino um motivo. — Disse irônica.
— Já pedi desculpas por aquele dia.
— Entrar no meu quarto com um presente caro não é um pedido de desculpas, eu tenho pesadelos quase toda noite. — Falei.
Ele ficou me olhando em silêncio e eu precisei desviar o olhar. Minha cabeça começou a me pregar peças ao ver seus olhos azuis iluminados pelo sol. Não deixarei as ideias malucas de Amélie me confundirem!
— Sei que desculpas não vão apagar o que aconteceu, mas imaginei que se eu fosse legal, você seria capaz de esquecer. Estava errado então, o que é engraçado, porque eu nunca estou. — Seu discurso começou bem, mas ele cagou no fim dele.
Ri incrédula de suas palavras, o que tem de grande, tem de egocêntrico.
— Valeu a tentativa.
— O pesadelo dessa noite... — Ele tentou abordar o assunto e eu balancei a cabeça.
— Você me acordou antes que algo pior acontecesse. — Falei, balançando meus pés na piscina. Sobre isso eu precisaria agradecê-lo, pois sei bem o que aconteceria se não tivesse sido acordada.
Ele se sentou na beira da piscina como eu, colocando seus pés dentro d'água após dobrar a barra da calça de moletom.
— Não sou um ser humano ruim, Annika. — Ele falou, sua voz carregada de um sentimento desconhecido.
— Sinto muito Damian, mas é difícil de acreditar.
— Gostaria de ter a quem culpar, uma infância difícil ou pais abusivos, mas para minha sorte, ou azar, não há nada de ruim no meu passado que eu possa usar como justificativa para o que eu fiz. — Ergui a cabeça para olhar seu perfil, é a primeira vez que o vejo falar abertamente sobre algo. Me surpreendi que ele foi capaz de ser sincero o suficiente para dizer tais palavras sem hesitar. — Na verdade, há algo, mas ainda assim, o que eu fiz foi culpa minha e não do que aconteceu há anos atrás.
Sua declaração me deixou curiosa. O que aconteceu no passado de tão ruim assim? Será a morte da tal namorada?
— Não me reconheci naquele momento, fora uma raiva sobrenatural, mas ainda foi a minha raiva. Sinto muito pelo que eu fiz, Annika, espero que, eventualmente, você note que eu não sou tão ruim assim. — Ele virou o rosto.
Por um segundo me vi perdida na imensidão azul como o mar, agora mais claros que o normal por conta do sol batendo na lateral do seu rosto. Ele é um homem bonito, mas com defeitos demais, o que é uma pena. Damian pode conseguir a mulher que quiser com um estalar de dedos, mas o desejo de ter alguém a sua mercê parece maior do que viver algo genuíno. E eventualmente ele estragaria tudo com essa personalidade terrível.
Me vi analisando seu rosto, me perguntando como seria sem a barba e o bigode.
— Acho que terei bastante tempo para ver isso, não é? — Falei com pesar, ciente de que jamais sairei daqui.
— Comeu alguma coisa? — Ele perguntou e eu neguei — E por que não?
— Não estou com fome.
— Está tentando adoecer?
— Talvez. — Dei um riso anasalado.
— Apesar de você não me achar um ser humano digno do seu respeito ou admiração, eu genuinamente me preocupo. — Ele disse, me fazendo abaixar a cabeça.
São palavras difíceis de acreditar. Apesar de ter sido agressivo comigo uma única vez, não dá para confiar em um homem que vai deliberadamente a um leilão de pessoas. Pessoas essas que foram enganadas e forçadas a estarem naquela situação decadente.
Ainda me lembro do homem me banhando naquele boxe.
Há momentos em que me pego pensando na quantidade de mulheres compradas, usadas, espancadas e talvez mortas que passaram por aquele lugar. Quantas delas tiveram a sorte de encontrar alguém que minimamente as respeitassem como ser humano. Nunca descobrirei essa estatística.
— Por que você estava lá? Naquele teatro? — Olhei-o novamente.
Desviou o olhar do meu, e num suspiro, ele falou:
— Procurando por algo, eu acho. — Ele disse, me deixando confusa, o que ele encontraria num leilão criminoso?
— Pelo que? O que você poderia encontrar em um lugar como aquele? — Perguntei, querendo tirar dele algo que o humanizasse.
— Chega. Levanta e vai comer alguma coisa. — Ele se levantou e estendeu a mão para me ajudar a levantar. Tirei meus pés da água e segurei em sua mão, ficando de pé rapidamente com sua ajuda.
Apesar do silêncio entre nós, minha cabeça ficou barulhenta até chegarmos na casa. Ele foi resolver alguma coisa em seu escritório e eu fui para a cozinha, perdida em meus próprios pensamentos. Daniel, Amélie e mais três funcionários conversavam a mesa quando cheguei, tomando seus cafés.
Não interrompi a conversa que tinham, abri a geladeira como um ato automático, absorta das coisas a minha volta. A fechei novamente, sem pegar nada dela. É possível que ele não seja tão ruim assim ou eu só estou me deixando enganar? O que ele procurava ao ir até aquele teatro? Suas palavras tinham uma carga emocional diferente.
Puxei uma cadeira vaga na mesa e sentei-me, em completo silêncio, com os olhos perdidos.
— É possível que ele não seja um monstro? — Perguntei de repente, atraindo os olhares para mim.
— Ele quem, Annika? — Daniel tomou a frente ao perguntar, olhei-o sem dizer nada. Como telepatia, ele entendeu exatamente de quem eu estava me referindo. — Monstro eu não sei, mas que é desagradável, isso ele é. Não sei por que você não vai embora, já falei que esse tipo de convivência não é saudável.
Amélie e eu tivemos uma rápida troca de olhares após as palavras de Daniel. Ah, se ele soubesse.
— Ah sim, isso é. Ele é bem desagradável. — Charles, outro funcionário falou. Me surpreendi, já que esses nunca davam suas opiniões sobre nada.
— Mas é um gato! — Foi a vez de Amélie abrir a boca, fazendo todos a olharem chocados. — O que foi? — Ela perguntou e eu apenas balancei a cabeça em negação.
— Você poderia fingir ter um pouco de respeito, sabia? — Daniel repreendeu, Amélie deu de ombros e eu apenas ri da situação.
— Vou subir antes que ele me veja fofocando com vocês e resolva chicotear a todos nós. — Me levantei, deixando de lado a ordem para tomar o café da manhã.
A conversa com Damian me fez ter algumas ideias e pretendo colocá-las num papel até a hora do almoço.
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Atualizado até capítulo 31
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