PLÁGIO É CRIME. OS PERSONAGENS E A HISTÓRIA DESTE LIVROS SÃO ORGINAIS E DE MINHA AUTORIA!
...𝐴𝑛𝑛𝑖𝑘𝑎 𝐻𝑎𝑟𝑑𝑒𝑛 ⸙...
Encarei o pedaço de papel rasgado sobre o meu balcão enquanto rabiscava com a caneta azul um rosto qualquer. Tracei uma mandíbula delicada e depois migrei para nariz largos e olhos redondos. A caneta voava sem muito critério sobre o papel, mas um rosto feminino nascia dos meus rabiscos.
Suspirei ao terminar os detalhes mais rápido do que gostaria. Acho que fiz isso tantas vezes na vida que simplesmente não preciso mais pensar no processo criativo de um rabisco. Soltei um riso anasalado encarando a mulher careca naquele pedaço de papel.
Levantei a cabeça dando uma boa olhada na loja. As araras estavam organizadas e alguns balcões tinham roupas bagunçadas. Revirei os olhos quando mais uma cliente pegou uma blusa e ao invés de dobrá-la, embolou e jogou sobre as demais camisetas. Me perguntava qual era a dificuldade em facilitar o nosso trabalho, ou de não ser inconveniente.
Notei minha colega de trabalho passar pela cliente e lançar-lhe um olhar de desprezo pelas costas. Balancei a cabeça negativamente enquanto segurava o riso para a cena. Lucille, minha companheira de trabalho, tinha o hábito de não ser doce com os clientes, o que rendeu a ela algumas mudanças de setor. Mas não tinham coragem de demiti-la, ninguém quer trabalhar nessa loja.
O salário daqui é bom, mas sempre nos pedem para fazer coisas na qual não fomos contratadas. Os clientes são entojados e a loja tem alguns processos de racismo no histórico. Processos este que me fez pensar seriamente se deveria me candidatar a vaga, como mulher negra, não é muito inteligente se colocar em ambientes como este. Mas estão em processo de limpeza de imagem.
— Mocinha! — A mão com anéis dourados bateu contra o meu balcão me despertando do meu breve devaneio.
Uma mulher alta e ruiva, parecendo estar na faixa dos seus trinta anos me encarava como se estivesse entediada ou talvez sem muito tempo para perder. Suas mãos estavam abarrotadas de roupas. Me toquei que ela esperava que eu entregasse a plaquinha com a quantidade de peças.
Dei um sorriso amarelo e peguei todos os cabides de sua mão, contando peça por peça, com bastante calma. Isso pareceu deixá-la ainda mais impaciente. Peguei duas placas e entreguei a ela, que agradeceu de forma rude e entrou nos provadores.
Ficar no setor dos provadores era um verdadeiro tédio. Não tinha muito o que fazer a não ser esperar que alguém viesse até mim para que eu tivesse o mínimo de contato humano. De vez em quando, uma colega ou outra vinha pra cá para que pudéssemos fofocar um pouco, nos aproveitamos dos provadores masculinos que estão quase sempre vazios.
— Quanta falta de educação. — O sotaque francês carregado me chamou atenção.
Levei meus olhos para mulher a minha frente. O batom vinho em seus lábios finos faziam um contraste bonito com seus olhos verdes. Dei um sorriso para ela e já tomei as roupas de sua mão, fazendo a contagem de sempre.
— Trabalha aqui há muito tempo? — Ela perguntou, enquanto eu me virava para pegar as plaquinhas de numeração. Assenti positivamente para a pergunta. — É sério? Acho que nunca te vi por aqui.
— Talvez eu estivesse com outro cabelo. — Dei meu melhor sorriso simpático. Ela balançou a cabeça para a minha resposta, veio para o lado do balcão e me analisou de cima abaixo. Apesar de me sentir constrangida, soltei uma risada para não parecer mal educada.
O lado ruim de trabalhar com o público é que, qualquer coisa que você fizer, por mais natural que seja, o cliente pode se ofender e acabar te prejudicando de alguma maneira. Então, procuro sempre ser simpática mesmo que o ambiente esteja uma verdadeira merda.
— Você é muito bonita para estar trabalhando numa loja de roupas, querida. — Ela falou indignada. Seu tom de voz mesclado com o sotaque francês a deixava engraçada e ao mesmo tempo simpática.
— Bom, nem sempre conseguimos tudo o que queremos, minha senhora. — Falei gentilmente.
— Senhora? Que ultraje! — Ela levou a mão ao peito, como se estivesse ofendida. — Qual o seu nome, minha querida. — Perguntou, apoiando o cotovelo no meu balcão.
— Annika. — Respondi.
— Que nome lindo, minha querida. — Falou como se estivesse encantada comigo. — Me chamo Angélique. — Comecei a ficar extremamente envergonhada pela forma pela qual me olhava, parecendo analisar meu rosto milimetricamente.
Passei meus olhos ao redor rapidamente, desejando que algum olhar conhecido encontrasse o meu e entendesse meu pedido de socorro ou que pelo menos algum cliente aparecesse e interrompesse essa conversa de maluco.
Já atendi todo o tipo de pessoa nesse lugar. Aqueles que dizem que na loja do lado é mais barato, os que me humilharam por prazer e até os que já tentaram furtar alguma coisa. Mas uma senhora de meia idade tentando flertar comigo era a primeira vez.
— Obrigada. — Falei, batendo os dedos sobre o balcão, inquieta.
— Mas me diga, o que você queria fazer que não conseguiste? — Ela dobrou a pilha de roupas e colocou sobre o meu balcão, cruzando os braços sobre o peito.
Franzi o cenho, estranhando sua pergunta. Encarei-a por alguns segundos, talvez minutos, tentando decifrá-la, tentando entender o que ela queria com tantos assuntos e perguntas. Sua expressão era de interesse, ela de fato pareceu curiosa sobre mim.
— Eu pretendia fazer desenho. — Não dei muitos detalhes, apenas respondi o necessário. Ela abriu a boca como se lembrasse de algo.
— Eu sabia que tinha algo especial em você, querida. Posso estar ficando velha, mas meu faro ainda é de um labrador! — Ela falou sorrindo, numa animação que julguei exagerada.
Puxou a bolsa atravessada no corpo e abriu-a, mexendo em diversos papéis, até tirar um cartão pequeno dali de dentro. Ela estendeu-o para mim, e eu, hesitante, peguei de sua mão.
O papel cinza claro tinha o nome da empresa gravado em metálico vermelho, com o número de contato em baixo e um site. Olhei a parte traseira, mas não havia nada além daquilo. Voltei meu olhar para ela, tentando entender do que se tratava.
— Aqui você pode encontrar a chave para realizar esse sonho, querida. Estamos procurando por pessoas talentosas, dispostas a arriscar tudo para seguir o seu sonho. — Ela falou sorridente, fazendo a propagando de sua empresa.
— Olha, eu estou bem. Obrigada. — Estendi de volta o cartãozinho para ela.
Ela segurou no meu pulsou e colocou o cartãozinho sobre a minha palma e fechou meus dedos sobre ele. A encarei como se ela estivesse louca e ela abriu um sorriso ainda maior.
— Você pode precisar! — Ela desferiu tapinhas na minha mão e simplesmente se virou e foi embora.
Encarei a cena embasbacada, chocada. O choque se transformou em raiva quando percebi a pilha de roupas na qual eu seria obrigada a dobrar e repor graças a essa mulher louca. Bufei indignada. Isso só pode ser brincadeira. Eu ainda preferiria que ela apenas fosse escrota e se mandasse do que toda essa maluquice.
Coloquei o papel dentro do bolso da minha calça e recolhi as roupas, frustrada e irritada. Abandonei meu posto na entrada dos provadores e fui pendurar as roupas no lugar.
— Qual foi da coroa rica? — Gabriel, um dos meus colegas, perguntou enquanto fingia organizar as roupas ao meu lado.
— Só mais uma sem parafuso. O dono disso aqui deveria abrir uma clínica psiquiátrica também, todos os clientes são loucos. — Falei irritadiça.
Caminhei pela loja com Gabriel em meu encalço, tagarelando enquanto eu arrumava outras araras e dobrava algumas roupas, as colocando em seu devido lugar. Ele falava sobre seu último fim de semana, algo sobre ter ficado extremamente bêbado ao ponto de não se aguentar em pé.
Gabriel é um rapaz legal, menos quando resolve falar pelos cotovelos. Às vezes é difícil pará-lo, então a maioria de nós só deixa que ele fale como uma criança até que se canse. Por ser muito legal, ninguém tem coragem de mandá-lo calar a boca.
— Você vai estar livre esse fim de semana? — Ele cruzou os braços e apoiou o ombro na pilastra.
Havia esse outro detalhe sobre ele que me irritava. Desde que comecei a trabalhar aqui, Gabriel pareceu disposto a tentar me levar para sair a todo custo. E mesmo eu despistando várias vezes, ele não saía do meu pé. Eu sempre tentava ser o mais delicada o possível para não o magoar, e acabar deixando um clima tenso no ambiente de trabalho. Talvez este fosse o problema.
— Estarei sim, mas não para sair com você. — Falei enquanto ria de sua cara indignada.
— Por que você vive me dando fora? — Perguntou frustrado.
— Por que você vive insistindo? — Retruquei.
— Você tem trauma ou algo assim por acaso? Eu sou um bom partido, Annika. — Ele colocou as mãos sobre a cintura. Sua pose e sua fala ultrajante me fizeram fazer uma careta.
Ignorei-o e caminhei de volta para a porta dos provadores. A moça que havia entrado anteriormente estava ao lado do balcão batendo pé, com as roupas amontoadas em mãos. Respirei fundo, com medo do que viria.
Ela me encarou irritada, mas para a minha sorte, não falou nada. Apenas jogou em mim as roupas que não levaria e a placa de numeração, virou as costas e caminhou em direção ao caixa. Virei o rosto para Gabriel e com o olhar, pedi para que ele organizasse para mim.
Ele bufou e tomou as roupas da minha mão, indo guardá-las em seus devidos lugares.
Permaneci ali, parada, em pé, esperando por alguém como sempre, geralmente, movimento não é muito bom no início da semana. De segunda a quarta os dias são tranquilos, mas a tranquilidade me matava aos poucos. Os segundos pareciam horas quando dentro da loja, e as horas se passavam em segundos quando em casa.
O tempo passou e a minha hora chegou.
Fui para o vestiário da loja e peguei minhas roupas no armário. Meus pés estavam me matando, então me arrumei o mais rápido que pude para chegar em casa e poder tomar um banho quente e relaxar. Não me demorei e me despedi daqueles que ficaram desejando-os um bom encerramento.
O ônibus me deixou na frente de casa. Saltei e caminhei para a porta enquanto procurava pelas minhas chaves dentro da bolsa. Abri-a e entrei, trancando-a após.
Fui para o meu quarto, arrancando a blusa e desabotoando a calça jeans apertada. Joguei minha bolsa sobre a cama e tirei a calça jeans que colava no meu corpo por conta do suor.
O papelzinho cinza caiu do bolso quando tirei a calça. Abaixei e o peguei, encarando os números e as letras gravadas ali, pensando sobre as palavras da francesa na loja. Talvez não fosse uma má ideia, pensei comigo mesma.
Mas deixarei isso pra depois.
Joguei o papel na cama e rumei para o banheiro. Abri o registro, deixando o vapor da água quente tomar conta do banheiro. Adentrei o boxe e me enfiei embaixo do chuveiro, deixando a água ardente bater contra os meus ombros, relaxando cada músculo do meu corpo. Enquanto me ensaboava, pensei sobre a mulher na loja e sobre a oportunidade. Talvez eu devesse investir no meu talento, no que eu sempre quis fazer e tentar alavancar isso de algum jeito.
Como ela disse, eu não deveria estar trabalhando numa loja. Apesar de não ver problema em estar num trabalho comum, as vezes sinto que percorri o caminho errado e desperdicei o meu tempo, talvez essa seja a minha oportunidade de pelo menos tentar.
Fechei o registro e me enrolei na toalha, saindo do boxe às pressas.
No quarto, peguei meu notebook e me joguei na cama completamente molhada, sem me importar em molhar o colchão. Coloquei o laptop sobre a cama e batuquei os dedos ansiosamente enquanto ele ligava. Catei o cartãozinho para olhar o site da tal empresa.
Meu notebook não é dos melhores então demorou um pouco para que carregasse o Chrome. Digitei o endereço do site, sendo redirecionada até que rápido.
O site tinha a mesma palheta de cores do cartão, cinza e vermelho, bem-feito e organizado. Naveguei entre as abas disponíveis, desde a apresentação até a aba de relato de alunas. Notei que todas eram mulheres e de diversas etnias, algumas sequer falavam inglês, mas havia legendas.
O site informava que eles tinham sede em diversos países ao redor do mundo. Mas o único lugar que eles ainda não tinham, era em solo brasileiro.
Mordi o interior da minha bochecha, inquieta, pensando na possibilidade de viajar para fora. Totalmente surreal e imprudente sair do meu país sozinha para estudar em um lugar onde não conheço ninguém, e não terei nenhum auxílio financeiro.
Fui para a aba de inscrição, e lá havia diversas explicações sobre a empresa. O texto começava falando quanto tempo eles têm de mercado, e estranhei o fato de nunca ter ouvido falar neles. A julgar que eles se apresentam como algo grande, eu deveria ao menos me lembrar de algo parecido, mas nada me vinha a mente.
"Nossa empresa é comandada apenas por mulheres, esse projeto surgiu com o intuito de dar oportunidade aquelas que são desafortunadas. Seja por não ter uma estabilidade financeira ou falta de amparo social.
Abraçamos mulheres de toda nacionalidade e etnia. Aqui, além de aprimorarmos seus talentos naturais, também damos oportunidade de estudo e emprego.
Não temos uma sede em seu país? Não se preocupe! Nós arcamos com as despesas da sua viagem. Aqui, além de ter um local para que possam dormir, comer e beber, também fornecemos empregos e estágios para vocês.
Assim, terão a oportunidade de estudar e trabalhar conosco, e quem sabe, até mesmo fazer parte da nossa equipe. Seja como professor ou olheira!"
Li todas aquelas palavras com um brilho nos olhos. O sorriso largo tomou conta do meu rosto sem nenhum pudor, arrisco dizer que estava sorrindo como o Coringa em seu momento de maior loucura. Afobada, fui para a aba de inscrição do site.
Lá, eles pediram meu nível de escolaridade, perguntaram como encontrei a empresa deles dentre outros questionamentos padrões antes da real inscrição. Na aba seguinte, coloquei meu nome completo, data de nascimento dentre outras informações pessoais que me foram pedidas. Digitei tudo rápido demais, tendo que apagar algumas vezes e reescrever meu próprio endereço.
Passei para a última página. Franzi o cenho quando pediram meu peso e a minha altura. Faziam séculos que eu não media minha altura ou peso. Coloquei uma numeração próxima da qual eu me lembrava, deixei meu E-mail para contato e finalizei tudo. Fechei o notebook e joguei meu corpo para trás no colchão. Encarei o teto, ainda com aquele sorriso dominante nos lábios. Por Deus, é a oportunidade da minha vida!
Gostaria de ter para quem contar.
...𝐴𝑛𝑛𝑖𝑘𝑎 𝐻𝑎𝑟𝑑𝑒𝑛⸙...
Na manhã seguinte, fui trabalhar com o meu estômago formigando em ansiedade. Passei o caminho inteiro para o trabalho checando o meu celular, ansiando por uma resposta imediata a meu e-mail.
No vestiário, coloquei meu uniforme e desci para organizar algumas roupas que estavam fora de ordem no setor masculino. Dobrei algumas calças e camisetas, pendurei alguns moletons e fui para o setor feminino, este sendo mais organizado que o anterior.
— Bom dia, flor do dia! — Elena, minha colega de trabalho me abordou animada. Dei um sorriso amarelo para ela enquanto organizava alguns blazers nas araras.
— Animação às sete da manhã, Elena? — Olhei-a, curiosa.
Ela mordeu o lábio, mostrando uma clara hesitação em abrir a boca. Me mantive em silêncio, enquanto me colocava a caminhar pelos corredores até a parte de acessórios. Olhei a bagunça dos óculos com desgosto. Mesmo que boa parte das pessoas que frequentam essa loja tenham dinheiro, lhes faltam bons modos.
Essas senhoras não conseguem colocar nada no lugar, provavelmente por terem empregadas para fazerem o serviço.
— Eu conheci um cara! — Elena finalmente soltou o que estava entalado. Sua voz saindo aguda de empolgação.
— Esse pelo menos paga a conta do restaurante? — Perguntei, com um sorriso irônico. Ela revirou os olhos.
— Não só a conta. Ele me levou para jantar em um restaurante caro ontem, apareceu na minha porta com um buquê enorme. — Ela disse em êxtase, completamente sonhadora. Sorri enquanto ela falava.
— Fico feliz por você, Elena.
Terminado meu breve serviço extra, fui para a ala de provadores novamente, com Elena grudada no meu pé, dei a volta no balcão e apoiei meus cotovelos sobre a madeira, encarando minha colega.
— E você? — Ela perguntou, me fazendo franzir o cenho em confusão. — Quando você vai dar chance pro Gabriel?
Não consegui conter a risada. Balancei a cabeça em negação ao pensar que o rapaz pediu para ela vir até mim e sondar sobre o meu interesse. Não seria a primeira vez e minha reposta continuará a mesma.
— Não vou transar com meu colega de trabalho Elena. — Falei, convicta.
— E quem disse em transar? Então você quer transar com ele? — Perguntou com um sorriso malicioso tomando conta do seu rosto.
— Não enche, Elena. — Revirei os olhos para ela.
Uma cliente veio em nossa direção, e imediatamente mudei minha postura e coloquei o melhor sorriso social no rosto. Entreguei a plaquinha com o número um estampado e logo ela adentrou nos provadores femininos.
Elena continuou parada diante do meu balcão, tagarelando sobre como eu deveria dar uma chance ao Gabriel. E eu apenas murmurando e deixando que ela fantasiasse e imaginasse como seria um relacionamento entre mim e ele. Elena é legal, mas assim como Gabriel, ela não sabe a hora de fechar a boca.
Até onde eu sei, a amizade deles começou aqui. Quando fui contratada no ano passado, eles já eram bastante próximos. E desde que Gabriel falou a Elena que tem interesse em mim, ela tomou o posto de cupido.
Procuro sempre ser gentil e politizada com ambos, zelando pela camaradagem, mas de vez em quando fica difícil não mandar os dois se foder.
— Você não tem um chão pra limpar não, Elena? — Perguntei, tentando findar ao assunto que se estendia.
— Assim você me ofende. — Ela colocou a mão no peito, sentida.
— Olá, bom dia. — Ignorei-a novamente quando outra cliente se aproximou. Elena pareceu entender finalmente e foi embora fazer o seu trabalho. Aproveitei o momento e tirei discretamente o celular do bolso, caçando na aba de tarefas alguma notificação do meu e-mail.
Não havia nada ainda.
Bufei em completa frustração, mas o que eu estava esperando? Uma resposta rápida de uma empresa grande e provavelmente com vagas concorridas? Guardei o celular novamente no bolso e fiquei debruçada sobre o balcão, esperando até que minhas pernas se cansassem de ficar em pé e eu me sentasse na cadeira atrás de mim.
E assim foi o dia inteiro. Ao menos hoje foi mais movimentado que de costume, até formou fila para o provador.
No horário de almoço, contei para Elena e Gabriel sobre a mulher de ontem e sobre a minha inscrição. Ambos motivaram-me. Durante o restante do meu dia, fiz algumas pausas para ir ao banheiro e Elena ficou no meu lugar para que eu finalmente pudesse mexer no celular, ansiando pelo maldito e-mail.
O final do dia chegou mais uma vez.
Tratei de organizar as roupas que não foram levadas pelas clientes em seus devidos lugares, e rumei para o vestiário junto de Elena e o restante do pessoal que já haviam fechado as portas da loja.
Dentro do bolso, meu celular apitou pela primeira vez no dia. Catei ele apressada, quase o derrubando no chão do vestiário. O nome brilhando na tela me fez dar um grito agudo, assustando as mulheres ao meu redor.
— Elena! Eles mandaram um e-mail. — Abri o e-mail, lendo-o com bastante atenção.
"Olá, Annika! Estamos felizes com a sua inscrição, mas percebemos que não temos uma sede em seu país (ainda). Não se preocupe, isso não será um problema.
Temos representantes disponíveis no Brasil, capazes de conduzir uma entrevista. Sua avaliação será amanhã de manhã, as 10:30 (Dez e meia da manhã). Segue abaixo o endereço."
Li atentamente o e-mail, sentindo o meu estômago revirar de ansiedade a cada palavra. Elena estava com a cabeça praticamente enfiada no meu celular, segurando o meu pulso para que eu virasse a tela para ela ler também.
Mas amanhã ainda é dia de trabalho, é impossível estar em dois lugares ao mesmo, terei que abrir mão da entrevista ou do meu emprego.
Mordi o lábio, titubeando entre manter o que já estava certo ou arriscar tudo.
— Você vai nessa entrevista! — Elena falou, chamando a minha atenção, me libertando dos pensamentos intrusivos. Olhei-a hesitante.
— Eu não sei, e se der tudo errado?
— Ao menos você tentou! — Ela disse, ficando diante de mim e colocando suas mãos em meus ombros. Olhei em seus olhos firmes e encorajadores.
— Me deseje sorte? — Ela balançou a cabeça e me deu um breve abraço. Suspirei e guardei as roupas de trabalho na bolsa e vesti as minhas roupas normais para poder ir embora.
Me despedi do restante das meninas e parti.
Segui a oeste, apertando o passo para chegar o mais rápido o possível no ponto de ônibus. Com o celular em mãos, lendo e relendo aquele e-mail, ainda desacreditada. De repente, minha mãe veio à mente, fazendo-me questionar como ela se sentiria com essa notícia se estivesse aqui... Independentemente de onde estiver, ela está feliz com essa pequena conquista que farei valer a pena.
Sinalizei para o ônibus junto de outras pessoas ali, e logo ele parou. Uma pequena fila se formou e começamos a subir aos poucos, pagando a passagem e tomando os lugares vagos. Me sentei nos últimos bancos, pois eram os que sempre ficavam vazios. Pelo solavanco, poucos escolhiam sentar-se ali;
O ônibus encheu.
A viagem até em casa fora rápida, pela primeira vez na semana não houve engarrafamento, e por alguma razão, encarei aquilo como um sinal divino para mim. Só de não ter que ficar presa dentro de um ambiente fechado cheio de pessoas, por mais de trinta minutos, já é uma vitória.
O ônibus parou algumas quadras antes da minha casa graças a alguns passageiros, decidi descer e seguir andando ao invés de fazê-lo parar duas vezes na mesma rua. Segurei minha bolsa próxima ao meu corpo como de costume e rumei apressada até minha casa.
A rua não estava deserta, crianças jogavam bola e seus parentes os observavam de seus portões, tomando conta delas. Sorri para aqueles que se dispuseram a acenar para mim ao me reconhecer e entrei em casa. Estava abafada, então abri a janela da sala para entrar um pouco de ar fresco e fui até meu quarto, sentei-me na cama, colocando minha bolsa no chão.
Tirei meus tênis e meias, colocando-as dentro do sapato, me livrei da blusa e da calça jeans, podendo respirar livre do aperto dos botões. Agora preciso separar a roupa que usarei amanhã para a avaliação, e claro, controlar a minha ansiedade.
Me levantei e abri o meu guarda-roupa, ficando de frente para diversas peças, que agora, pareciam inúteis. Tudo pareceu muito vulgar. Optei pelo conjunto mais tradicional para uma entrevista.
Blusa de manga, calça jeans e tênis.
Deixei as peças dobradas sobre a cadeira da minha penteadeira para o dia seguinte e fui para o banheiro tomar um banho para relaxar e tentar dormir. Atrasos não serão tolerados por mim mesma amanhã.
Tomei uma ducha rápida e quente, tentando não pensar nas inúmeras possibilidades que me esperam amanhã. Vesti minhas roupas de dormir após secar o meu corpo e apaguei as luzes do meu quarto.
Deitei-me e encarei a escuridão até pegar no sono.
...𝐴𝑛𝑛𝑖𝑘𝑎 𝐻𝑎𝑟𝑑𝑒𝑛 ⸙...
Minha noite foi um tormento.
Assim que peguei no sono, fui aprisionada em pesadelos confusos, os cenários mudavam tão rápido que eu fui incapaz de acompanhar cada detalhe das monstruosidades que estavam nele. Acordei diversas vezes durante a madrugada, suada e tremendo.
Me pergunto se gritei em algum momento, pois minha garganta dói como se tivesse sido estrangulada.
E foi esse tormento até as 07:00, horário em que eu desisti de dormir e decidi me levantar para tomar um café forte o suficiente para me manter acordada por três dias. Apesar de não ser uma fã assídua da bebida, era a única coisa que eu tinha em mente para espantar o sono naquele momento; as 08;30 organizei a cozinha e depois fui tomar um banho rápido para depois vestir minhas roupas.
Organizei todos os meus documentos dentro da minha bolsa e o meu portfólio, me certificando de não esquecer nada que pudesse prejudicar-me hoje. As 09:00 em ponto chamei um Uber, e aguardei na porta de casa.
O carro que me levará ao meu destino chegou finalmente. Praticamente corri na direção do veículo, confirmando o nome do motorista antes de sentar no banco traseiro.
Partimos em direção ao meu destino.
Minha cabeça não parou um segundo durante todo o caminho, causando tremedeira nas minhas pernas. O motorista até ofereceu uma água ao me ver nitidamente aflita. Não deveria, mas aceitei, o calor terrível e o meu nervosismo me fez pingar em suor. Ainda bem que passei desodorante, pensei comigo.
As 10:24 finalmente chegamos no centro da cidade. O trânsito não estava tão tranquilo quanto desejei que estivesse, e se parássemos em mais um sinal, eu poderia acabar me atrasando. Dei o valor da passagem ao motorista e saltei para fora do carro.
Coloquei a mão sobre a testa, tapando o sol e dei uma boa olhada para a cena diante de mim.
O prédio todo espelhado, entretanto, menor do que imaginei, com árvores tomando o caminho até a entrada de vidro fumê. Respirei fundo e caminhei até a porta, abrindo-a e sendo recebida pelo ar gelado do ar-condicionado e o cheiro forte de desinfetante. Olhei para o balcão da recepção completamente vazio e me vi perdida. Girei em meu eixo, caçando ao redor algo — ou alguém — que pudesse me auxiliar, mas não há ninguém no meu campo de visão. Caminhei até o balcão, e me debrucei, checando se não havia alguém ali embaixo mexendo em alguma coisa. E nada.
Bufei, frustrada. Talvez eu esteja no prédio errado, pensei. Mas é impossível, o endereço é exatamente este. Será que cheguei cedo demais?
O barulho de saltos batendo contra o piso roubou a minha atenção e ao mesmo tempo aliviou minha aflição de ter cometido um erro. Uma mulher alta e esbelta se aproximou de mim a passos graciosos, segurando uma prancheta e com um sorriso encantador estampado nos lábios, estendeu sua mão para mim e eu, desajeitadamente, a segurei em um breve cumprimento.
— Bom dia. Você deve ser Annika, correto? Me chamo Beatrice. — Perguntou sorridente, ainda segurando minha mão. Assenti a pergunta, sendo tomada pelo nervosismo imediato.
— Sim, sou eu. — Respondi.
— Sua entrevista é agora. Serei responsável por ela, tudo bem pra você? — Sua beleza e simpatia me deixaram um pouco perdida, então apenas assenti, mesmo não tendo prestado muita a atenção no que ela havia acabado de dizer.
Ela me guiou pelo térreo até chegarmos nos elevadores. Como de costume, segurei na alça da minha bolsa, como se isso fosse me ajudar ou proteger de alguma coisa. Entramos no elevador, e o clima pareceu pesar. Meus olhos se tornaram perdidos, sem saber para onde mirar. Se olhasse para ela, ficaria constrangida. Então mantive minha cabeça baixa, encarando meus tênis. Meu olhar caiu brevemente sobre seus saltos pretos abertos na parte da frente e notei suas unhas bem-feitas e delicadas.
Essa, de fato, é uma mulher bonita dos pés à cabeça.
Chegamos ao último andar do prédio e ela tratou de me guiar pelos corredores até uma sala de reuniões. Beatrice fez a gentileza de abrir a porta para mim, lancei um sorriso tímido para ela e adentrei, puxando uma cadeira para me sentar. Ela sentou-se na cadeira de frente para mim na mesa de vidro.
— Primeiro eu preciso saber, você tem inglês fluente? — Indagou ela, cruzando as mãos sobre a mesa.
— Cem por cento não, mas consigo me virar bem se necessário. — Respondi hesitante. Nunca fui para fora do Brasil, mas já fiz alguns cursos, só tenho um pouco de dificuldade em formular algumas frases.
Ela sustentou o olhar em mim por alguns segundos e depois levou para a prancheta sobre a mesa. Involuntariamente, minhas pernas começaram a balançar. Estou nervosa.
— Vinte e cinco anos, solteira, sem filhos. — Ela começou a ler a minha ficha com tudo o que eu havia respondido na aba de cadastro do site deles. — Qual é o seu objetivo de vida, Annika?
Sua pergunta me fez pensar. Há alguns dias atrás meu único objetivo era não morrer de fome, mas de ontem para hoje, ele mudou completamente.
— Quero trabalhar com arte e aprimorar o que eu já sei. Apesar de me considerar boa, ainda há muito o que melhorar. — Respondi com sinceridade.
— Trouxe seu portfólio? — Ela perguntou, arqueando as sobrancelhas. Assenti e puxei minha bolsa. Peguei minha pasta com desenhos e, receosa, empurrei-a sobre a mesa em sua direção.
Ela abriu a pasta cautelosamente, folheando e se demorando em algumas páginas. Fazia caras e bocas à medida que meus desenhos passavam diante de seus olhos, e eu não soube dizer se eram expressões positivas ou não. Ela fechou a pasta com uma expressão enigmática.
— Você tem um talento e tanto, Annika. Por que demorou tanto para investir nele? — Ela me olhou, parecendo indignada e ao mesmo tempo, impressionada.
Dei de ombros sem muita certeza do que responder a ela.
Se paro para pensar sobre isso, inúmeros fatores me surgem a mente: falta de oportunidade, o dinheiro que nunca foi suficiente e a morte da minha mãe. Depois de seu falecimento, não me sobrou nada, nem mesmo pessoas para me apoiar. Quando ela se foi, eu me curei sozinha da depressão, desisti de fazer faculdade e foquei em trabalhar. Ao menos, a casa é própria.
A avaliação durou por mais uma hora e meia.
Perguntou se tenho familiares, e eu neguei. Perguntou sobre meu financeiro, sobre minha vida social e amigos. E, bom, tive que dizer a verdade. Tenho colegas de trabalho, mas não os considero próximo o suficiente para chamá-los de amigos.
Perguntou sobre meu trabalho, qual era a minha função lá. Respondi que nós fazíamos de tudo, mesmo que não fossem nossas obrigações. Quando citei o nome da loja, Beatrice torceu o nariz. A fama negativa chega longe.
— Bom, Annika. Se você tivesse que viajar amanhã mesmo, você conseguiria? — Indagou. Olhei-a assustada.
— Amanhã? — Perguntei, pasma.
— Sim, amanhã. Uma menina adorável veio para uma entrevista ontem, e hoje ela desistiu. E por que não dar a passagem a você? — Ela sorriu. Uma alegria devastadora me tomou, me fazendo sorrir como o coringa. Balancei a cabeça desesperadamente, completamente disposta a viajar hoje mesmo.
— É claro, eu posso sim. — Falei entusiasmada.
— Maravilhoso! — Ela exasperou animada. — Mas estas são para a França, vi que sua preferência no site era Londres.
Da sua prancheta, ela tirou a passagem de avião.
— Não tem problema, França é legal. — Falei ansiosa.
— Seu passaporte está em dia? — Ela perguntou.
Arregalei os olhos ao ouvir a palavra. Eu não me toquei de que precisaria de um para viajar. Percebendo meu espanto, ela apenas acenou com as mãos, fechou minha pasta e devolveu.
— Não se preocupe, Só precisarei dos seus documentos, a gente da um jeito. — Disse ela, piscando um olho para mim. Um pouco chocada, acenei positivamente com a cabeça, pegando meus documentos de dentro da bolsa. — Amanhã, às sete será o seu voo. Mandarei alguém para lhe entregar seu passaporte amanhã, tudo bem? — Perguntou gentilmente e eu assenti.
Ela pegou minhas coisas sobre a mesa e caminhou até uma impressora. Tirou a cópia de todos os meus documentos e me devolveu o original. Colocou-os preso na prancheta e me lançou um último sorriso daquele dia.
Me levantei ao fim da nossa conversa, agradecendo-a por ter sido gentil comigo. Beatrice me acompanhou até o lado de fora do edifício e ficou aguardando ao meu lado até que meu Uber chegasse.
Chequei as horas, faltava pouco para o meio-dia.
Meu Uber chegou, despedi-me de Beatrice e entrei no carro. Dei bom dia ao motorista e logo ele acelerou para longe do centro. Encarei a passagem de avião em minhas mãos, feliz e ao mesmo tempo chocada. Tratei de guardá-la dentre os meus desenhos para não correr o risco de perdê-la. Em pouco tempo minha vida mudará para melhor, pensei alegre.
Aos poucos, grandes edifícios foram se transformando em casas e a rua asfaltada em terra, finalmente estava na porta de casa. Agradeci e paguei ao motorista o valor alto da corrida.
Entrei em casa e tranquei a porta.
Joguei minha bolsa no sofá e fui para a cozinha enquanto arrancava meus sapatos e os deixava pelo caminho. Abri a geladeira e peguei a garrafa d'água. Como se a ficha caísse, sorri como louca e comecei a pular de alegria.
— Finalmente a minha vida tá caminhando. — Falei sonhadora, enchendo um copo com água. Suspirei e me preparei para fazer o meu almoço. Guardei a garrafa e peguei coisas para fazer um arroz e temperar o feijão — que estava na geladeira. — Com a felicidade em mim, a comida vai ficar mais saborosa do que nunca; triturei alho para refogar, não me preocupando muito com acompanhamentos.
Acendi o fogo e coloquei na panela um fio de óleo, joguei um pouco de alho e deixei dourar. Enquanto isso, lavei um pouco de arroz. Em seguida, o joguei na panela, mexendo até que ficasse douradinho e joguei a água para cozinhar.
Elena me veio a mente. Então larguei o que estava fazendo para pegar o meu telefone dentro da bolsa. Eu precisava contar isso a ela.
— Fala comigo, gatinha. — Proferiu assim que atendeu a minha ligação.
— Vou viajar amanhã! Para a França! — Falei animada. Pude ouvir uma voz masculina gritando do outro lado do telefone junto a ela, franzi o cenho ao reconhecer a voz.
É de Gabriel.
— Mas você já vai amanhã? Você ao menos sabe inglês? Tá com passaporte feito? — Elena perguntou preocupada e desconfiada.
— No inglês eu consigo me virar, mas o passaporte eles disseram que vão resolver para mim.
— Como eles vão fazer um passaporte em vinte e quatro horas, Annika? Tem certeza de que não é um golpe? Eles te pediram dinheiro? — Me bombardeou, tirando de mim uma risada.
— Para de ser chata, Elena. Vai com tudo, Annika, qualquer coisa é melhor que ficar mofando naquela loja. — A voz de Gabriel surgiu novamente ao telefone, mas um pouco distante.
— Tá pegando, é? — Perguntei com malícia para Elena, logo sons de vômito soou na ligação, dos dois.
— Prefiro morrer a pôr minha boca nessa xereca suja da Elena. — Gabriel gritou do outro lado da linha. Prendi a risada em solidariedade a minha colega.
— Cala a boca, pau de sebo.
— Enfim, vou deixar vocês brigarem. Só liguei para contar a novidade.
Me despedi dos dois e desliguei. Balancei a cabeça incrédula, eles agem como duas crianças. É engraçado vê-los discutindo no horário do almoço por exemplo, sempre pensei que um dia esses dois ficariam juntos, mas nada aconteceu entre eles, não que eu saiba.
Voltei para a cozinha e enquanto o arroz estava na panela em fogo alto, fui dourar mais alho para temperar o feijão.
Após longos minutos nesse processo, finalmente pude colocar a minha comida e sentar-me na sala.
Sentei-me no sofá e liguei a TV, colocando no jornal, só para não ficar no completo silêncio. A reportagem falava alguma coisa sobre uma onda de desaparecimento que está acontecendo no exterior. Não prestei muita atenção e troquei de canal. Almoçar assistindo desgraça é a última coisa que preciso.
Deixei na novela mexicana que passa sempre no horário de almoço.
Depois de um tempo sentada — mais entretida com a novela do que gostaria — levantei-me e lavei a louça da cozinha. Verifiquei as horas no meu telefone, e ainda faltava muito para poder me deitar e dormir.
Abri o Whatsapp e mandei algumas para Elena, pedindo para que ela e Gabriel sugerisse algo para fazermos juntos. Essa será a primeira vez que sairemos, não sou muito sociável e não curto criar laços com colegas de trabalho, mas agora nem somos mais, pensei comigo mesma e ri.
Elena respondeu em poucos minutos, gostando da ideia e já recomendando um barzinho para nos encontrarmos. Fiquei grata com a sua iniciativa de sugerir um local, até porque eu não saberia dizer nenhum para irmos. Melhor começar a arrumar minhas malas, pensei.
Peguei minha bolsa no sofá e fui para o meu quarto, caçando mochilas decentes e algumas bolsas que fossem grandes o suficiente para caber tudo o que preciso.
— Maquiagem, calcinhas e sutiãs, roupa de sair, roupa do dia a dia, toalha, shampoo... — Verifiquei tudo após colocá-los na mala.
Não tenho muitas coisas para levar, sequer roupa suficiente para encher duas mochilas. O que fez volume foram meus estojos com canetas, lápis, cadernos e pastas com desenhos guardados desde os meus quatorze anos.
Suspirei cansada ao fechar o zíper da mala e da mochila, com a respiração ofegante por ter dobrado todas as minhas roupas do armário. Me joguei no colchão, meu peito subindo e descendo com certa rapidez.
Sou completamente sedentária.
Chequei as horas no celular e não se passaram nem duas desde que comecei a arrumar as minhas coisas. Bufei, o universo parece estar de brincadeira comigo, fazendo o tempo passar ainda mais devagar. Decidi tirar um cochilo.
Coloquei o celular para despertar as 18:00 e abracei o meu travesseiro, fechando os olhos e me forçando a dormir.
As horas de passaram e meu celular despertou.
As sete da noite nos encontramos no bar que Elena havia sugerido e as sete e meia nós entramos no estabelecimento. O local não estava cheio, então conseguimos um lugar para nos sentarmos com certa rapidez. Para a minha sorte, uma mesa mais afastada do palco com música ao vivo foi a que se tornou a nossa.
Ainda consigo ouvir a música, mas não tão alta, o que torna o ambiente mais suportável. Não sou muito fã de músicas ao vivo, pois sempre calha de ser um cantor não tão bom, com instrumentos desafinados e caixa de som estourada.
Sinônimo de tortura.
— O que vão querer beber, que eu vou lá e peço. — Gabriel se prontificou, ficando de pé com sua carteira nas mãos.
— Traz uma Heineken pra mim. — Elena pediu.
— Uma caipifruta de morango e pede para deixar bem docinha. — Falei. Se tem algo que não suporto, é o gosto forte de álcool em bebidas.
Decidi me limitar aquela única bebida na noite de hoje, para que eu não tenha uma ressaca amanhã. Se eu perco o horário do voo me jogo na frente do primeiro carro que estiver passando na avenida.
Gabriel nos deixou a sós, com a barulheira e algumas pessoas passando por nossa mesa sambando e esbarrando vez ou outra em nossas costas. Mulheres lindas passavam de um lado para o outro, umas acompanhadas de rapazes, outras com grupo de amigas, chamando a atenção de diversos homens. — Estivessem eles acompanhados ou não.
Elena ficou entretida com seu celular e só me restou analisar todos a minha volta.
Um rapaz jovem de calça jeans e blusa preta investia contra uma mulher no balcão, parecendo insistente demais enquanto ela tentava despistá-lo. Seu sorriso parecia forçado, e ela lançava olhares para a amiga, que ria da situação. Perto dos músicos, mulheres se ofereciam para o vocalista, outras cantavam a música em plenos pulmões e outras mantinham o samba no pé e o copo de cerveja intacto, sem derramar nenhuma gota. Admirei essas.
A fila para o banheiro do bar estava grande, a para ser atendido no balcão também, mas Gabriel já voltava com nossas bebidas.
— Aqui, gatinha, sua bebida. — Disse ele, me entregando o copo e um canudo. Sorri em agradecimento. Bati o canudo na mesa para rasgar o papel e o coloquei dentro do copo.
Uma delícia, doce como mel.
— Quanto foi? — Perguntei, na intenção de fazer uma transferência para ele mais tarde no valor da bebida. Ele apenas negou com a cabeça, indicando que não precisava disso.
— Mas a sua foi dezesseis, aguardo o Pix mais tarde. — Ele disse a Elena, fazendo-a ficar incrédula. Revirei os olhos para os dois e beberiquei mais da minha bebida.
Lugares como este não são os meus favoritos, mas estou conseguindo ver beleza por aqui. Há muitas pessoas de diversos tipos se embebedando e passando vergonha pelos cantos do bar e algumas se pegando sem pudor. Vi um casal batendo boca próximo a fila do banheiro e cutuquei meus colegas para que admirassem aquela cena assim como eu. Nós três encaramos a discussão, até a mulher jogar toda a bebida nele.
No automático, viramos para o lado contrário e caímos na risada daquela cena trágica. Seja lá o que o homem tenha feito, talvez tivesse merecido aquele banho de cerveja.
— Vamos dançar? — Gabriel sugeriu, segurando na minha mão.
— Eu não sei sambar. — Falei, envergonhada. Ele me olhou como se eu tivesse acabado de cometer um crime e Elena como se eu fosse louca.
— Como assim, você, não sabe sambar? — Elena perguntou incrédula.
— Só porque sou negra? — Arqueei a sobrancelha. Os dois assentiram ferozmente.
Ri e revirei os olhos.
Após um tempo, minha bebida acabou, e eu já me encontrava alegre e um pouco sonolenta. Verifiquei as horas e já se aproximava das dez da noite. Alertei aos dois sobre o horário, avisando que pegaria um Uber para voltar para casa. Insatisfeitos, concordaram e pediram para que eu mandasse mensagem quando chegasse.
E assim, chamei o carro pelo aplicativo e me despedi dos dois quando o mesmo chegou.
Em casa, me livrei de tudo o que me apertava e incomodava, desde o vestido aos meus calçados. Entrei em meu quarto apenas de calcinha e sutiã, pus meu celular para despertar às cinco da manhã e me aproveitei do álcool para pegar no sono.
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