...Este capítulo tem gatilhos para situações de racismo....
...𝐴𝑛𝑛𝑖𝑘𝑎 𝐻𝑎𝑟𝑑𝑒𝑛 ⸙...
As horas passaram rapidamente enquanto estive diante do papel sobre a madeira da minha nova mesa.
Tive tempo o suficiente para terminar parte do desenho que tinha em mente e só parei quando Amélie bateu à porta, chamando-me para almoçar. Guardei o desenho dentro da gaveta da escrivaninha e desci. Damian não protestou quando aleguei que preferia comer junto com os outros funcionários, mas pela sua cara, pude notar que não ficou satisfeito.
Segundo Daniel, o almoço era em minha homenagem, me contou que Damian pediu para que fizessem feijoada. Fiquei surpresa, mas feliz o suficiente para comer dois pratos montanhosos.
Depois de comer, voltei para o meu quarto e comecei a polir o desenho que comecei de manhã, tratando de abrir de uma vez uma das caixas que me foi dada, já que ficaram jogadas num canto sem nunca terem sido tocadas. Abri uma delas com força bruta, me chocando com a quantidade de canetas coloridas de marca cara, esse homem só pode ser louco. Eu não conseguiria comprar metade delas nem com um ano de salário no meu país.
Peguei as canetas necessárias e voltei ao desenho.
Com o passar das horas, minha mesa se encontrava coberta de pedaços de borracha e o chão com algumas canetas que rolaram e eu não tive coragem de me inclinar para buscá-las. Varri a mesa com as mãos para jogar toda a borracha para longe e olhei sorridente para a minha arte, sentindo que cada hora em frente esse papel tinha valido a pena.
O vento gelado adentrou meu quarto, balançando as cortinas e eu me inclinei na cadeira para olhar a janela aberta. O céu amarelado sinalizava o pôr do sol e eu sequer me dei conta disso.
Hoje o dia passou mais rápido que o normal.
Apesar de estar acordada desde as quatro da manhã, não me sinto tão cansada, acredito que a conversa com Damian tenha deixado o meu cérebro trabalhando por tempo demais. O pequeno momento que tivemos à beira da piscina me fez ter vontade de conversar mais com ele para entendê-lo, pois ao invés de sanar minhas dúvidas, criou mais perguntas sobre quem ele é por baixo daquela faixada carrancuda.
Com o turbilhão de pensamentos, me vi incapaz de deitar e tirar um cochilo que fosse. Descontei toda a hiperatividade num pedaço de papel.
Batidas na porta me fizeram pegar o desenho e jogá-lo dentro da gaveta desajeitadamente. Virei para trás, e Damian entrou em meu quarto sem esperar que eu dissesse se poderia ou não.
— O jantar está quase pronto, quando terminar de comer, suba e não desça mais, entendido? — Ele parou no meio do quarto, me bombardeando com suas palavras ríspidas. Franzi o cenho, confusa com seu tom levemente grosseiro, e então me lembrei de que esse é o seu estado normal.
Na piscina foi apenas um lapso.
— Por quê? — Questionei.
— Porque eu estou mandando. Coma, suba e não desça. — Dado o seu aviso, ele se retirou.
Ri de mim mesma por acreditar que ele fosse decente, fingiu direitinho esse filho da puta. Ele vai ser sempre um escroto do caralho e eu espero que ele seja atropelado por um carro quando estiver indo para o trabalho na segunda feira, praguejei-o sem pena.
Levantei-me da cadeira e saí do quarto batendo a porta para quem quisesse ouvir e corri para o andar de baixo.
Fui até a biblioteca, encontrando-a vazia.
Fiz a madeira bater contra a parede propositalmente e fui até o escritório, vendo-o sentado em sua poltrona, organizando alguns papéis. Empurrei a porta contra o batente fazendo o barulho estrondoso ecoar, ele ergueu os olhos diante das papeladas, arqueando uma sobrancelha para mim.
— Quer quebrar a porta? — Ele perguntou, voltando a focar no que fazia. Não, eu gostaria de quebrar sua cara.
— Uma hora você parece ter sido abençoado com bondade e na outra você é completamente escroto. Qual é o teu problema? — Questionei, me aproximando da mesa e me sentando em uma das cadeiras com meus dedos entrelaçados sobre meu colo, indignada.
Ele me encarou como se não soubesse do que estou falando, me deixando ainda mais irritada.
— Não me lembro de ter feito nada, pelo menos não nos últimos meses.
— Você tem que me obedecer, coma, suba e não desça. — Engrossei a voz, imitando-o.
— Ah, é isso — ele soltou uma risada anasalada — só mandei que não descesse após o jantar, não pensei que fosse se magoar com algo tão bobo.
— Não estou magoada, só queria que você não me tratasse como um cachorro ou propriedade. — Falei frustrada.
— Não me leve a mal, Annika, mas de certa forma, você é minha propriedade. — Ele falou guardando os papéis em uma pasta, sem sequer me olhar. — E você não foi barata, artigo de luxo eu diria. — Ele disse por trás de um sorriso irônico. Cada palavra sua fez o meu corpo esquentar de ódio.
— Você só pode estar brincando.
— Annika, só não desça, tudo bem? Depois conversamos, estou ocupado agora, se você puder se retirar. — Ele apontou para a porta.
Rosnei de raiva e me lavantei. Saí de seu escritório fazendo questão de puxar a porta com tudo e sorri ao ouvir seu grito em protesto a minha atitude.
Decidida, me tranquei no quarto e sequer respondi Amélie quando veio insistir para que eu descesse para comer. Ela até perguntou se eu queria que ela trouxesse comida para mim, mas recusei. Assim, ela saiu da minha porta.
Algumas horas se passaram, trazendo consigo o silêncio aos corredores. Não ouvi um murmúrio por um longo tempo, logo deduzi que os empregados foram para seus quartos.
O único som que fui capaz de escutar, em determinado momento, foram os dos passos de Damian e sua porta abrindo e fechando duas vezes num intervalo de vinte minutos.
E então, o completo silêncio de novo.
Depois disso, a quietude rompeu-se novamente com o barulho alto de motor e dos latidos das cachorras de Damian. Sai da minha cama tomada pela curiosidade e fui investigar da janela do meu quarto. O portão principal aberto dava passagem para dois carros pretos entrarem. Apertei os olhos, tentando enxergar quem eram as pessoas que saíam dos veículos, mesmo sem conhecer nenhum daqueles rostos.
Avistei o segurança segurando as cachorras para que não corressem até os carros.
Inclinei um pouco mais sobre o parapeito da janela e vi Damian de pé recebendo aqueles que chegavam, muito bem-vestido por sinal. Saí de perto da janela e caminhei até a porta, girei a maçaneta devagar com medo de fazer algum ruído e sai, fechando-a com cuidado.
Andei na ponta dos pés pelo corredor até chegar na escada e me escorei na parede, segurando meu cabelo para que ele não me denunciasse os espiando. Damian os recebia numa postura diferente, apesar de formal, pareciam ter certa intimidade.
— Vamos ao meu escritório. — Ele os chamou, guiando-os na direção do cômodo. Dois deles pareciam mais velhos, e havia um nitidamente mais novo, sem muita postura e tagarela.
Os segui com os olhos e quando ouvi a porta do escritório bater desci as escadas, um degrau de cada vez, torcendo para que a madeira não rangesse e me denunciasse.
Ao chegar à porta, coloquei o ouvido na madeira para ouvir a conversa.
Para a minha decepção, foi o papo mais entediante da minha vida. Falavam sobre negócios, ações e coisas parecidas que fez-me arrepender de descer.
— Damian, você já foi mais gentil. Não irá nos oferecer um whisky? — Ouvi a voz de um deles e revirei os olhos
Que homem mais sem personalidade. Falando sobre negócios e bebendo whisky. Fiz careta, debochando de sua voz pomposa atrás da porta.
— Você já conhece a casa Heron, pode ir buscar se quiser. — Ouvi Damian dizer e arregalei os olhos.
Essa é a minha deixa. Afastei-me da porta cautelosamente e me pus a andar a passos largos para longe do escritório, tentando não ser percebida.
Não podia ser rápida, nem devagar demais.
Virei à esquerda no pequeno corredor para chegar à escada do hall e tentei subi-la de dois em dois, mas fui descoberta antes de chegar no quarto.
— Ei, ei, ei. — A voz do tal Heron soou, me fazendo parar no segundo degrau da escada, não consegui passar disso. Me virei hesitante, meu medo maior sendo Damian me descobrindo fora do quarto. — Quem é você? — Ele falou baixo. Olhei em direção ao escritório, com medo de que fossemos ouvidos.
Esse é o rapaz mais novo, parece ter menos idade que eu, chutaria uns vinte e dois anos. Ele se aproximou da escada e, instintivamente, subi um degrau.
— Você é muda? — Ele perguntou, esticando a mão para tentar me tocar, mas eu desviei.
— Não encoste em mim. — Praticamente sussurrei. Ele me olhou com um sorriso sarcástico.
— Olha só, a negrinha tem boca. Você é o que? Prostituta, acompanhante de luxo? — Ele perguntou, me comendo com os olhos. O encarei com desprezo após sua frase racista.
Só quero voltar ao meu quarto, se Damian me ver aqui ele corta a minha cabeça.
— Ninguém. Posso ir agora? — Perguntei entediada.
— Está me pedindo permissão? Que adorável, vejo que Damian a educou bem. — Ele subiu um degrau, me fazendo recuar. Segurei no corrimão quando meu pé escorregou, conseguindo me manter de pé.
O barulho dos sapatos de Damian contra o piso soaram e eu me desesperei.
— Damian! — O rapaz esbravejou ao vê-lo — Não me contou que havia mais visitas na casa. — Disse num tom animado e desceu o degrau que estava, ficando ao lado de Damian que me lançava um olhar repreendedor.
— Temos coisas importantes a serem resolvidas. — Ele disse, virando-se para voltar ao escritório, mas sendo impedido pelo rapaz.
— Não vai nos apresentar? Pensei que fossemos amigos, Dam. — Heron falou, fazendo Damian travar a mandíbula. Parecia com raiva.
— Eu acho que isso não é da sua conta, Heron. — Ele disse, sem tirar os olhos de mim. Me pergunto em quantas maneiras de me matar ele deve estar pensando nesse momento.
— Não sabia que gostava de mulheres negras, é verdade que elas são as melhores? — Heron soltou, me fazendo abrir a boca em completo choque. Essa foi a frase mais nojenta e racista que já ouvi em toda a minha vida. — Quanto ela cobra?
— Ela não é prostituta, Heron. — Disse, ríspido.
— Ah, então é daquelas que você traz aqui e depois descarta. Você escolheu bem dessa vez, as outras não eram tão gostosas. — Ele fez seu breve monólogo e Damian se manteve em silêncio, esperando que ele terminasse o seu show.
Heron fez menção em se aproximar novamente, mas Damian o puxou pela gola da roupa, impedindo-o de chegar perto de mim.
— Encoste nela e eu juro que faço você se arrepender. — Disse numa calmaria assustadora e sorriu amigavelmente para o rapaz. Me arrepiei dos pés à cabeça com sua voz branda.
Meus olhos se mantiveram arregalados, e eu só queria uma deixa para poder subir correndo para o quarto de onde eu não deveria ter saído.
— Você caiu no meu conceito, Damian. Está namorando esse tipo? — Falou em meio a risadas.
Damian passou por ele e segurou o meu braço, arrastando-me escada acima. Dessa vez fui obrigada a agradecê-lo mentalmente por isso, mesmo que suas mãos estivessem me machucando. Ele me arrastou pelo corredor até o meu quarto e abriu a porta para me colocar para dentro.
— Sossega dentro desse quarto. Quando a reunião acabar a gente vai conversar. Entendeu? — Ele falou, me olhando nos olhos. Fui capaz de assentir apenas, ainda em choque com as palavras daquele homem repugnante.
Depois disso, ele me deixou sozinha com a minha raiva e pensamentos. Respirei fundo, sacudindo as mãos para me acalmar.
Então, por ser negra, sirvo para ser uma prostituta, mas o título de namorada não me caberia? Essa foi a insinuação mais grotesca que já ouvi, e eu já ouvi muita coisa em vinte e seis anos. Me sentei à beira da cama, chocada, tentando a todo custo jogar o sentimento degradante para o fundo do meu âmago, escondê-lo até a hora de dormir.
Minha cabeça não me permitiu esquecer nem por um segundo nas duas horas que se passaram. As palavras de Damian ecoavam dentro da minha cabeça como num teatro vazio, se repetindo várias e várias vezes.
Me levantei inquieta, caminhando de um lado para o outro no quarto, sentindo um incômodo na boca do estômago.
Ansiedade de merda.
A porta se abriu em abrupto e Damian apenas chamou-me e saiu. O incômodo na barriga aumentou, com medo da conversa que teremos. Caminhei para fora do quarto e vi a porta do seu aberta, cautelosamente, adentrei, vendo-o afrouxar sua gravata e bagunçar o cabelo, antes perfeitamente penteado.
— Vamos conversar como se você fosse uma criança, de repente assim você entende. — Ele falou, sentando-se na cama para retirar seus sapatos. Fiquei o observando se desarrumar em silêncio, tentando não me prender aos detalhes, como ele desabotoando cada botão de sua camisa social até que seu peitoral ficasse parcialmente exposto.
Virei o rosto para a janela, repreendendo-me mentalmente.
— Quero que você recapitule, em voz alta, sua curta trajetória até aqui. — Ele ordenou. Franzi o cenho sem entender o seu objetivo, mas acatei seu pedido.
— Fui enganada, cheguei a França, fui mantida por algumas horas num hotel abandonado nojento, dopada e depois levada a um tipo de teatro. — Falei, senti nojo ao lembrar daquelas mãos me tocando embaixo do chuveiro.
— E o que aconteceu nesse teatro?
— Fui leiloada e vendida.
— Bingo! Você foi vendida, eu fui o comprador. Logo... — Ele incentivou que eu completasse.
— Eu lhe pertenço. — Falei, já exausta da conversa.
— Acertou de novo. Então, se eu quisesse — ele se levantou e se aproximou de mim, segurando o meu queixo delicadamente, tão perto que consegui sentir o calor emanar do seu corpo. Ou isso sou eu? — poderia dizer: Annika, tire a sua roupa e deite-se nesta cama. Mas não, eu apenas disse: fica na porra do seu quarto.
Engoli em seco.
As palavras proferidas calmamente, mas tingidas de sarcasmo fizeram meu estômago revirar. Contrai os meus músculos, sentindo algo que julgo errado, até mesmo criminoso. Dei um passo para trás, mantendo uma distância segura o suficiente para meus pensamentos fluírem com clareza.
Até certo ponto, ele tem razão. Não era uma ordem difícil de entender ou seguir, eu só precisava ficar dentro do meu quarto — que já é algo que faço deliberadamente.
Entretanto, o que me incomodou, fora a forma que dirigiu a palavra a mim. Posso ter sido comprada, mas ainda gostaria de ser tratada como ser humano e não como animal de estimação. E isso foi o que meu cérebro conseguiu pensar, mas a minha boca permaneceu calada.
Os pensamentos estão claros, mas não consigo me concentrar o suficiente para externalizar. Apertei os olhos, tentando me recompor.
— Eu só fui beber água. — Foi a única coisa que saiu da minha boca, mas fraca demais para passar veracidade.
— Estou tentando ser legal, acredite, mas você parece querer dificultar as coisas. — Falou, um pouco frustrado. Retirou sua blusa social, jogando-a na cama e depois desabotoou o cinto da calça.
Não. Não. Não.
— Eu só fiquei curiosa para saber o porquê de não poder descer. — Falei, dessa vez em inglês. O francês se tornou um borrão na minha cabeça por um segundo.
— Pensei que tinha ido beber água. — Ele deu um sorriso irônico e eu abaixei a cabeça, focando nos meus pés e apenas neles.
Pude ver sua sombra aproximando-se de mim novamente. Seus dedos tocaram meu queixo para erguer minha cabeça e eu me vi completamente paralisada. Não consegui me mexer enquanto ele olhava nos meus olhos, e acredito que minha cara não está das melhores agora.
— Eu sei o quanto Heron pode ser escroto e o que ele falou lá embaixo foi a coisa mais leve que você poderia ouvir dele. — Fui aprisionada no azul do seus olhos enquanto falava, e pude notar algumas manchas esverdeadas em sua íris. Os olhos de Damian são muito bonitos, pensei. — Precisei me segurar ali, e se ele fizesse algo pior eu teria que intervir e não seria bom.
Ele se afastou, me deixando atônita. Meu corpo estava quente, minha boca abriu e fechou inúmeras vezes, mas nada saiu pelos meus lábios.
— Vá para o seu quarto e tente dormir, já está tarde. — Ele disse.
— Porque faz negócios com esse tipo de gente? — Perguntei se repente.
— Infelizmente, Annika, não escolhemos essas coisas. Ou no seu país você só trabalhou com pessoas onde as ideias eram alinhadas as suas? — Ele fez um questionamento válido, queria eu poder trabalhar atendendo gente decente.
— Eu só não gostei da forma que falou comigo, você pode ter me comprado, mas gostaria que, pelo menos, me tratasse como se eu fosse um ser digno de respeito. — Fui sincera.
Ele suspirou.
— Peço desculpas pela forma que falei com você, não foi a minha intenção, apesar do que eu disse no escritório. — Ele me lançou um sorriso sem dentes.
Fiquei um pouco satisfeita com aquela resposta.
— Boa noite. — Dei as costas e saí do seu quarto.
Atravessei o corredor de volta para o meu e fechei a porta. Arrastei-me para a cama e me deitei e ncarando a luz do teto até que minha visão ficasse turva.
Meu cérebro repetiu as imagens de Damian por horas a fio.
Quando fechava os olhos, — voltando para a tentativa falha de adormecer — era transportada para o quarto do outro lado do corredor, com imagens vívidas o suficiente para me fazer sentir o perfume dele espalhado pelo ar.
Demorou horas para que eu pegasse no sono, e quando finalmente consegui, me vi num cenário aterrorizante que me fez acordar no meio da madrugada.
E minha noite foi assim até o dia seguinte.
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Atualizado até capítulo 31
Comments
Shirley Gomes
tudo bem a situação não e beeem normal mas ela e bem chata
2025-02-25
1
railza
gostando , posta mais
2025-01-06
1