...𝐴𝑛𝑛𝑖𝑘𝑎 𝐻𝑎𝑟𝑑𝑒𝑛⸙...
Na manhã seguinte, fui trabalhar com o meu estômago formigando em ansiedade. Passei o caminho inteiro para o trabalho checando o meu celular, ansiando por uma resposta imediata a meu e-mail.
No vestiário, coloquei meu uniforme e desci para organizar algumas roupas que estavam fora de ordem no setor masculino. Dobrei algumas calças e camisetas, pendurei alguns moletons e fui para o setor feminino, este sendo mais organizado que o anterior.
— Bom dia, flor do dia! — Elena, minha colega de trabalho me abordou animada. Dei um sorriso amarelo para ela enquanto organizava alguns blazers nas araras.
— Animação às sete da manhã, Elena? — Olhei-a, curiosa.
Ela mordeu o lábio, mostrando uma clara hesitação em abrir a boca. Me mantive em silêncio, enquanto me colocava a caminhar pelos corredores até a parte de acessórios. Olhei a bagunça dos óculos com desgosto. Mesmo que boa parte das pessoas que frequentam essa loja tenham dinheiro, lhes faltam bons modos.
Essas senhoras não conseguem colocar nada no lugar, provavelmente por terem empregadas para fazerem o serviço.
— Eu conheci um cara! — Elena finalmente soltou o que estava entalado. Sua voz saindo aguda de empolgação.
— Esse pelo menos paga a conta do restaurante? — Perguntei, com um sorriso irônico. Ela revirou os olhos.
— Não só a conta. Ele me levou para jantar em um restaurante caro ontem, apareceu na minha porta com um buquê enorme. — Ela disse em êxtase, completamente sonhadora. Sorri enquanto ela falava.
— Fico feliz por você, Elena.
Terminado meu breve serviço extra, fui para a ala de provadores novamente, com Elena grudada no meu pé, dei a volta no balcão e apoiei meus cotovelos sobre a madeira, encarando minha colega.
— E você? — Ela perguntou, me fazendo franzir o cenho em confusão. — Quando você vai dar chance pro Gabriel?
Não consegui conter a risada. Balancei a cabeça em negação ao pensar que o rapaz pediu para ela vir até mim e sondar sobre o meu interesse. Não seria a primeira vez e minha reposta continuará a mesma.
— Não vou transar com meu colega de trabalho Elena. — Falei, convicta.
— E quem disse em transar? Então você quer transar com ele? — Perguntou com um sorriso malicioso tomando conta do seu rosto.
— Não enche, Elena. — Revirei os olhos para ela.
Uma cliente veio em nossa direção, e imediatamente mudei minha postura e coloquei o melhor sorriso social no rosto. Entreguei a plaquinha com o número um estampado e logo ela adentrou nos provadores femininos.
Elena continuou parada diante do meu balcão, tagarelando sobre como eu deveria dar uma chance ao Gabriel. E eu apenas murmurando e deixando que ela fantasiasse e imaginasse como seria um relacionamento entre mim e ele. Elena é legal, mas assim como Gabriel, ela não sabe a hora de fechar a boca.
Até onde eu sei, a amizade deles começou aqui. Quando fui contratada no ano passado, eles já eram bastante próximos. E desde que Gabriel falou a Elena que tem interesse em mim, ela tomou o posto de cupido.
Procuro sempre ser gentil e politizada com ambos, zelando pela camaradagem, mas de vez em quando fica difícil não mandar os dois se foder.
— Você não tem um chão pra limpar não, Elena? — Perguntei, tentando findar ao assunto que se estendia.
— Assim você me ofende. — Ela colocou a mão no peito, sentida.
— Olá, bom dia. — Ignorei-a novamente quando outra cliente se aproximou. Elena pareceu entender finalmente e foi embora fazer o seu trabalho. Aproveitei o momento e tirei discretamente o celular do bolso, caçando na aba de tarefas alguma notificação do meu e-mail.
Não havia nada ainda.
Bufei em completa frustração, mas o que eu estava esperando? Uma resposta rápida de uma empresa grande e provavelmente com vagas concorridas? Guardei o celular novamente no bolso e fiquei debruçada sobre o balcão, esperando até que minhas pernas se cansassem de ficar em pé e eu me sentasse na cadeira atrás de mim.
E assim foi o dia inteiro. Ao menos hoje foi mais movimentado que de costume, até formou fila para o provador.
No horário de almoço, contei para Elena e Gabriel sobre a mulher de ontem e sobre a minha inscrição. Ambos motivaram-me. Durante o restante do meu dia, fiz algumas pausas para ir ao banheiro e Elena ficou no meu lugar para que eu finalmente pudesse mexer no celular, ansiando pelo maldito e-mail.
O final do dia chegou mais uma vez.
Tratei de organizar as roupas que não foram levadas pelas clientes em seus devidos lugares, e rumei para o vestiário junto de Elena e o restante do pessoal que já haviam fechado as portas da loja.
Dentro do bolso, meu celular apitou pela primeira vez no dia. Catei ele apressada, quase o derrubando no chão do vestiário. O nome brilhando na tela me fez dar um grito agudo, assustando as mulheres ao meu redor.
— Elena! Eles mandaram um e-mail. — Abri o e-mail, lendo-o com bastante atenção.
"Olá, Annika! Estamos felizes com a sua inscrição, mas percebemos que não temos uma sede em seu país (ainda). Não se preocupe, isso não será um problema.
Temos representantes disponíveis no Brasil, capazes de conduzir uma entrevista. Sua avaliação será amanhã de manhã, as 10:30 (Dez e meia da manhã). Segue abaixo o endereço."
Li atentamente o e-mail, sentindo o meu estômago revirar de ansiedade a cada palavra. Elena estava com a cabeça praticamente enfiada no meu celular, segurando o meu pulso para que eu virasse a tela para ela ler também.
Mas amanhã ainda é dia de trabalho, é impossível estar em dois lugares ao mesmo, terei que abrir mão da entrevista ou do meu emprego.
Mordi o lábio, titubeando entre manter o que já estava certo ou arriscar tudo.
— Você vai nessa entrevista! — Elena falou, chamando a minha atenção, me libertando dos pensamentos intrusivos. Olhei-a hesitante.
— Eu não sei, e se der tudo errado?
— Ao menos você tentou! — Ela disse, ficando diante de mim e colocando suas mãos em meus ombros. Olhei em seus olhos firmes e encorajadores.
— Me deseje sorte? — Ela balançou a cabeça e me deu um breve abraço. Suspirei e guardei as roupas de trabalho na bolsa e vesti as minhas roupas normais para poder ir embora.
Me despedi do restante das meninas e parti.
Segui a oeste, apertando o passo para chegar o mais rápido o possível no ponto de ônibus. Com o celular em mãos, lendo e relendo aquele e-mail, ainda desacreditada. De repente, minha mãe veio à mente, fazendo-me questionar como ela se sentiria com essa notícia se estivesse aqui... Independentemente de onde estiver, ela está feliz com essa pequena conquista que farei valer a pena.
Sinalizei para o ônibus junto de outras pessoas ali, e logo ele parou. Uma pequena fila se formou e começamos a subir aos poucos, pagando a passagem e tomando os lugares vagos. Me sentei nos últimos bancos, pois eram os que sempre ficavam vazios. Pelo solavanco, poucos escolhiam sentar-se ali;
O ônibus encheu.
A viagem até em casa fora rápida, pela primeira vez na semana não houve engarrafamento, e por alguma razão, encarei aquilo como um sinal divino para mim. Só de não ter que ficar presa dentro de um ambiente fechado cheio de pessoas, por mais de trinta minutos, já é uma vitória.
O ônibus parou algumas quadras antes da minha casa graças a alguns passageiros, decidi descer e seguir andando ao invés de fazê-lo parar duas vezes na mesma rua. Segurei minha bolsa próxima ao meu corpo como de costume e rumei apressada até minha casa.
A rua não estava deserta, crianças jogavam bola e seus parentes os observavam de seus portões, tomando conta delas. Sorri para aqueles que se dispuseram a acenar para mim ao me reconhecer e entrei em casa. Estava abafada, então abri a janela da sala para entrar um pouco de ar fresco e fui até meu quarto, sentei-me na cama, colocando minha bolsa no chão.
Tirei meus tênis e meias, colocando-as dentro do sapato, me livrei da blusa e da calça jeans, podendo respirar livre do aperto dos botões. Agora preciso separar a roupa que usarei amanhã para a avaliação, e claro, controlar a minha ansiedade.
Me levantei e abri o meu guarda-roupa, ficando de frente para diversas peças, que agora, pareciam inúteis. Tudo pareceu muito vulgar. Optei pelo conjunto mais tradicional para uma entrevista.
Blusa de manga, calça jeans e tênis.
Deixei as peças dobradas sobre a cadeira da minha penteadeira para o dia seguinte e fui para o banheiro tomar um banho para relaxar e tentar dormir. Atrasos não serão tolerados por mim mesma amanhã.
Tomei uma ducha rápida e quente, tentando não pensar nas inúmeras possibilidades que me esperam amanhã. Vesti minhas roupas de dormir após secar o meu corpo e apaguei as luzes do meu quarto.
Deitei-me e encarei a escuridão até pegar no sono.
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Atualizado até capítulo 31
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