Capítulo 7: Prazer, Damian Lefèvre.

...𝐴𝑛𝑛𝑖𝑘𝑎 𝐻𝑎𝑟𝑑𝑒𝑛 ⸙...

  Um pesadelo terrível me fez despertar suada e confusa. Passei a mão pelo meu rosto molhado, aflita com as imagens ainda frescas na minha mente. Olhei em volta, me deparando com aquele homem sentado na poltrona da penteadeira do quarto, me encarando fixamente. Empurrei meu corpo para trás no colchão até minhas costas baterem contra a cabeceira. O que ele está fazendo me encarando desse jeito? Me perguntei, receosa com as possibilidades.

  Fiz uma análise mental do meu corpo, checando se não há nenhum incômodo ou desconforto nas minhas partes íntimas, com medo dele ter feito algo enquanto eu dormia, mas tudo parecia perfeitamente bem.

Ele seguiu me encarando sem esboçar nenhuma emoção, com seu corpo inclinado para frente, os cotovelos apoiados nas pernas e os dedos entrelaçados na frente do nariz, fez-me sentir em constante análise.

  Ele parece me olhar para não perder nenhum movimento.

— Como dormiu? — Ele perguntou, jogando o corpo para trás, encostando as costas na poltrona e cruzando as pernas.

  Pensei um pouco, tentando formar algo na minha cabeça, mas tudo ainda é um misto de emoções e todas muito negativas. Me perguntei se o seu questionamento é algum tipo de teste. Se eu disser que dormi mal, terei uma surpresa negativa? Escolhi o silêncio e ele suspirou.

— As roupas serviram em você? — Perguntou, sua voz não esboçava nada, tornando difícil de entender quais são suas reais intenções.

  Assenti, com medo de perder algum movimento dele para a minha direção. Ele balançou a cabeça, encarando cada centímetro do meu corpo, me deixando desconfortável. Puxei o travesseiro e o coloquei sobre as minhas pernas, percebendo isso, ele soltou um sorriso irônico. Ele se levantou, e, lentamente, caminhou até o pé da cama com as mãos no bolso.

— Logo comprarei peças novas para ti. Você sequer sabe o meu nome, não é? — Ele falou, dando um riso anasalado. Neguei. — Damian Lefèvre, é um prazer conhecê-la, e o seu? — Sarcasmo tomava sua voz, como se estivesse se divertindo.

— Annika Harden. — Respondi, com medo do que ele faria se eu ficasse quieta.

— Esse nome não me parece muito brasileiro. — Ele disse.

— Meu pai era árabe. — Respondi sem pensar. Ele apenas assentiu, não parecendo muito interessado na minha história.

— Vou esperar que escove seus dentes, senhorita Annika. Você tem dois minutos. — Dito isso, ele saiu.

Quem escova os dentes em dois minutos?

  Incrédula, me levantei e me arrastei até o banheiro. Meu cabelo desgrenhado no reflexo do espelho me fez torcer o nariz em desaprovação. Na pia branca, uma escova de dente ainda na embalagem junto a pasta esperavam por mim. Com medo do que poderia acontecer caso ultrapassasse o tempo imposto por ele, escovei meus dentes o mais rápido que pude, enxaguando minha boca ao terminar.

  Saí e rumei hesitante para a porta do quarto, ele me esperava de braços cruzados ao lado. Pude reparar em suas roupas e franzi o cenho ao vê-lo de roupa social dentro da própria casa, me perguntei se isso é normal por aqui.

— Três minutos. — Ele checou o relógio. Engoli em seco, sentindo aquela coleira apertada contra o meu pescoço. — Vamos. — Ele apontou para que eu fosse na frente.

  E assim ele guiou num tour por sua mansão.

  Ele manteve sua mão sobre minha nuca o tempo inteiro, apertando toda vez que queria que eu olhasse para algum lugar específico, me deixando desconfortável e irritada. Já não era o suficiente a droga da coleira, suas mãos precisavam estar o tempo inteiro em mim? Me perguntei, irritadiça.

Damian me levou por todo o lugar, desde o seu escritório à biblioteca — esta que me deixou chocada com suas estantes enormes, abarrotadas de livros que eu sequer consegui entender o que diziam em suas capas —, da cozinha à área da piscina, que ocupa quase que toda a parte de trás da mansão. Me mostrou também a parte da casa onde os empregados dormem, tendo um quarto para cada um deles e por último me levou ao porão onde suas bebidas ficam armazenadas.

  Me apresentou aos seus seguranças, empregada e cozinheiros como uma amiga que está de viagem — para esconder deles o que de fato eu sou — e ordenou que se falassem comigo, que fosse em inglês para que eu compreendesse.

  Seus empregados agiam como bons filhos, falando quando permissão era dada e se retirando quando o homem os liberava, o tom de voz sempre baixo e não se atreviam a olhá-lo diretamente enquanto ele os apresentava. Já os seguranças, esses pareceram ter mais liberdade, um deles até apertou a minha mão quando Damian me introduziu a conversa, mas colocou um dos Pitbulls para pular na minha perna propositalmente, arrancando risada do seu chefe e um grito histérico de mim. 

  Não foi engraçado, pensei que morreria.

  Ele me levou até a sala, aquela que a porta estava entreaberta quando cheguei na noite anterior. Nada de especial por aqui. Um sofá marrom disposto a frente da janela e uma mesinha de centro de vidro logo adiante, uma lareira logo na parede em frente e acima dela um quadro que deduzi ser sua família.

Arqueei a sobrancelha ao observar todo o ambiente, fazendo uma breve comparação com cenários de filmes e novelas.

  Ele se sentou no sofá, cruzou as pernas e ficou me encarando enquanto me mantive de pé, com as mãos à frente da minha pélvis.

— Vamos as regras básicas, sim? Caso não entenda algo que eu disser, repetirei sem problemas. — Ele disse devagar e eu assenti. — É proibido conversas sem contexto com os funcionários ou qualquer coisa que os distraia de seus afazeres e brincar com os cachorros está fora de cogitação, até porque você perderia um braço se tentasse. — Ele falou devagar, fazendo algumas pausas para checar se eu havia entendido, meu cérebro se perdeu em algumas palavras, mas ao saber a tradução da palavra anterior eu consegui encaixar num contexto. — Agora as suas regras. — Ele sorriu, fazendo um arrepio subir pelo meu braço. — Você pode ir para onde você quiser, claro, dentro dessa casa. Caso ouse tentar colocar seus pés para fora do portão, essa gargantilha lhe dará um choque que vai paralisar o seu corpo.

  Arregalei os olhos, pasma com o que acabei de ouvir. Levei minha mão até o meu pescoço, temerosa.

— Caso abra a boca para pedir uma ajuda que seja, essa pessoa sofrerá as consequências, e eu não acho que você quer ter sangue nas mãos, não é mesmo?. — Engoli em seco, não posso colocar uma pessoa inocente em risco. Não poderei sequer pedir ajuda. — Você fará tudo o que eu mandar, na hora em que eu mandar e se não fizer... — Ele apontou para o meu pescoço e eu entendi. 

  Virei um animal de estimação, ele vai me controlar até se cansar.

  Minhas mãos umedeceram com o suor e o tremor súbito me tomou, senti minhas pernas ficarem fracas. Tantas imagens deploráveis passaram pela minha mente, situações humilhantes que me marcarão pro resto da minha vida. Nunca fui uma mulher de rezar, mas talvez eu devesse começar.

  Cambaleei para a poltrona, massageando minha têmpora. Um riso incrédulo escapou pelos meus lábios, desacreditada da merda em que me meti. Eu poderia ter só continuado na minha medíocre zona de conforto e nada disso estaria acontecendo. Respirei fundo, e o encarei, analisando sua face com cautela pela primeira vez.

— Por quê? — Perguntei num ímpeto de coragem. Ele franziu a testa e apertou os olhos, parecendo curioso. — Qual é o objetivo disso? Por que eu? — Deixei o desespero falar por mim. Desespero por respostas e por uma solução que me tirasse daqui.

— Gosto da ideia de controlar alguém. — Ele respondeu sério.

— Você já não faz isso com seus empregados? — Deixei escapar, fazendo-o me fuzilar com o olhar. Encolhi meu corpo, arrependida do que disse.

— Você deveria agradecer a Deus, ou seja lá para quem você implora por piedade, que eu dei o maior lance naquele leilão. — Ele disse, ríspido. — Outro já teria espancado e estuprado você.

— Você demora mais? — Falei numa fagulha de fúria, comandada pelo sentimento de injustiça.

  Num piscar de olhos, ele atravessou a sala até mim e agarrou na minha mandíbula, apertando-a com força. Ele aproximou o rosto do meu, me deixando assustada. Meu corpo inteiro enrijeceu e eu só senti as lágrimas de desespero escorrerem pela minha bochecha.

— Acho melhor você me respeitar para não dar fim a sua sorte. — Ele disse e me largou. Meu corpo caiu em cheio de volta na poltrona novamente, trêmulo por conta do choro descompassado.

  Me encolhi no assento, chorando como uma criança desesperada e perdida. Não me importei com o olhar dele sobre mim, eu só preciso pôr tudo para fora. Todo o meu desespero, tristeza e pavor.

— Tenho coisas para resolver agora a tarde. — Ele disse, me encarando deplorável em sua poltrona. — Está ciente das regras, espero que não as quebre.

  Dito isso, ele me deixou sozinha com minha angústia naquela sala. Sem remorso do que acabara de fazer.

— Eu vou sair daqui, nem que seja a última coisa que eu faça! — Jurei a mim mesma nessa sala vazia.

  Encolhida na poltrona, eu pude ver pela janela o sol se pôr, dando espaço para a escuridão da noite. Do lado de fora, luzes no jardim se acenderam e o silêncio eminente me fez capaz de ouvir os passos pela casa e os do jardim. Não me mexi, não sai do lugar, apenas me mantive chorosa, imersa no meu próprio desespero.

  Pensei na minha mãe por horas. Sussurrei por seu nome em meio as lágrimas implorando para que ela se materializasse na minha frente e me abraçasse, dizendo que tudo ficaria bem. Mas tive que me contentar com o som das minhas lamentações e com os afagos que fiz em mim mesma na escuridão.

  As luzes da sala se acenderam e os passos cautelosos deram fim ao silêncio, rapidamente engoli o choro. Uma das empregadas colocou um copo sobre a mesinha de centro e se virou para mim com a pena estampada em sua face, ela disse alguma coisa incompreensível e se retirou.

  Saí da posição em que estava e peguei o copo, o cheirando e depois bebericando, é água com açúcar. Imagino que tenha trazido para me acalmar. Dei um leve sorriso de gratidão, mesmo que ela não estivesse aqui para vê-lo. Bebi mais um pouco da água e larguei o copo pela metade sobre a mesa.

  Me levantei e caminhei pela casa até chegar na cozinha. Os três empregados estavam a todo vapor, parecendo apressados para fazer a comida o mais rápido o possível. Quando perceberam minha presença, alguns se viraram na minha direção, me senti intimidada pelos olhares fixos em mim então só puxei a cadeira da mesa da cozinha e me sentei em silêncio. Aqueles que deram uma breve pausa para me checar, logo voltaram aos seus afazeres.

  O cheiro da cozinha estava ótimo. O aroma de comida caseira entrou pelas minhas narinas tirando um pouco da angústia do meu peito. Os observei, tentando saber o que cozinhavam pelos ingredientes que pegavam, mas eu sequer consegui identificar o que são todas essas coisas. Entretanto, o cheiro está de abrir o apetite.

  Depois de algum tempo, tudo pareceu pronto, pois começaram a andar enfileirados para fora da cozinha com as mãos ocupadas com panelas menores e mais sofisticadas. Os segui pela casa, não desejando ficar sozinha naquela cozinha espaçosa. Eles foram para a sala de jantar e começaram a preparar a mesa minuciosamente, posicionando um prato em cada extremidade da extensa mesa de madeira preta e os talheres ao lado. Encarei o relógio na parede marcando o horário das sete e meia.

  Um dos homens encarregados pela comida anunciou algo e em seguida todos se colocaram em uma linha reta paralela a mesa, como se estivessem no exército — com suas mãos para trás e a cabeça erguida. — Fiz uma careta para a atitude, mas entendi quando Damian apareceu de pé ao meu lado na entrada da sala, me dando um susto pela sua presença silenciosa. Senti meu corpo todo tremer de pavor com ele tão perto de mim de repente.

  Dei dois passos para o lado, ficando distante da figura alta.

  Ele se aproximou da mesa e esticou o braço, abrindo a tampa de uma das panelas. O cheiro tomou conta da sala e eu senti meu estômago revirar de fome. Abracei meu corpo, tentando ser discreta sobre o barulho que ele insistiu em fazer. Que constrangedor.

— Em quinze minutos nós comeremos. — Ele falou olhando diretamente para mim e se retirou da sala.

  Levei meu olhar para o relógio novamente, os ponteiros marcando sete e quarenta desta vez. Permaneci de pé junto aos outros.

  Após um tempo, olhei o relógio de novo, oito horas, então, como mágica, ele apareceu na sala de maneira mais casual — uma calça moletom da cor cinza e uma blusa de manga preta, seu cabelo escuro e molhado indicava que havia tomado um banho. — O ponteiro marcou oito e um. Um minuto atrasado, pensei comigo e segurei a vontade de comentar da mesma forma que ele fez sobre o meu hoje mais cedo.

  Ele se sentou e os empregados começaram a servi-lo.

— Está esperando um convite formal? — Ele questionou com ironia tingindo sua voz.

  Hesitante, puxei a cadeira da ponta oposta a qual ele estava e me sentei. Meus ombros encolhidos não me deixaram disfarçar meu desconforto enquanto o rapaz que parece ter minha idade me servia. Ele arrumou meu prato como se eu estivesse num restaurante chique e mais uma vez me questionei sobre essa firula. Colocou o que eu deduzi ser um purê de batata no prato, usando a colher para deixá-lo plano e por cima pedaços de frango e o molho.

  Nunca desejei tanto um feijão com arroz agora, na sala da minha casa enquanto assisto alguma novela mexicana em algum canal aberto. A verdade é que eu só quero voltar para a minha casa, meu país e para o meu trabalho de balconista de provadores. Não pensei que focar no meu crescimento pessoal fosse custar a minha liberdade.

  Terminado de nos servir, os funcionários saíram, nos deixando a sós.

— Já comeu Coq au Vin? — Ele perguntou, enquanto dava sua primeira garfada.

— Coca o que? — Perguntei, fazendo uma careta para a palavra esquisita que ele falou. Ele balançou a cabeça em negação e deu uma risada leve da minha cara.

— Coq au Vin, é um clássico francês, por favor. — Ele disse como se estivesse ofendido pela minha falta de informação.

— Não tive tempo de estudar sobre a culinária do seu país. — Falei indiferente e me pus a comer.

  Quando coloquei o primeiro pedaço de frango na boca, senti como se estivesse chegado ao céu antes da hora.

  Nunca comi algo tão gostoso e tão bem temperado desde que a minha mãe morreu, o frango macio desmanchando na boca me fez fechar os olhos para aprecia-lo. Meu Deus, talvez eu devesse ter descoberto o que era um Coq au Vin mais cedo, pois conhecer uma comida tão boa como essa na situação em que eu me encontro parece uma piada ácida.

— Gostou? — Ele perguntou.

  Não respondi.

  Me mantive calada durante todo o jantar, sentindo seus olhos em mim vez ou outra. Nesse período, tentei não pensar em nada que fugisse do que estava no meu prato, pois quando eu deixava os pensamentos me levarem para outro lugar, automaticamente ficava atormentada, mas também sinto que não posso relaxar diante da situação em que eu me encontro, preciso cogitar o pior, me manter em alerta sempre.

— Annika! — Ele deu um tapa sobre a mesa, fazendo meu corpo saltar na cadeira no susto. Estava tão imersa em meus pensamentos que não o ouvi chamar por mim.

— Desculpe. — Minha voz saiu baixa, me senti mal ao proferir as palavras de forma completamente submissa.

— Ouviu o que perguntei? — Questionou, neguei de prontidão. — Você tem família? Irmãos? Primos? — Ele sondou. Balancei a cabeça em negação novamente.

— Minha mãe morreu há uns anos e nós duas éramos sozinhas. — Falei, empurrando o prato vazio e apoiando meus cotovelos sobre a mesa. Apoiei meu queixo na mão e encarei o vazio com minha mãe em meus pensamentos.

— Do que ela faleceu? — Questionou, limpando a boca com o guardanapo de tecido.

— Assalto a mão armada. — Falei cabisbaixa. Seus olhos pareceram surpresos por um segundo, mas logo voltaram ao vazio de antes.

  De repente, ele se levantou e fez sinal para que eu o seguisse. Olhei hesitante para a mesa ainda posta, achando injusto deixar tudo ali em cima para que arrumassem, mas o estalar de dedos dele fez com que eu me apressasse. Segui atrás, a passos lentos e cautelosos, encarando meus pés descalços pelo caminho.

  Ele parou de repente me fazendo trombar com tudo em suas costas e quase cair pela minha distração. Damian me encarou com desdém enquanto eu cambaleava para trás.

— Desculpe. — Falei, recebendo dele apenas uma revirada de olhos.

  Damian abriu a porta de seu escritório e acendeu a luz, dando passagem para que eu entrasse primeiro. Fiquei de pé no tapete felpudo enquanto ele fechava a porta do cômodo, indo sentar-se em sua cadeira a seguir, me encarando dali sem nenhuma vergonha. Desviei o olhar para as janelas fechada com persianas atrás dele, incapaz de sustentar aquele olhar intimidador.

  Inclinou-se para trás e apoiou seus pés sobre a mesa, cruzando-os, ainda me encarando como se eu fosse uma peça de museu. Apontou para a cadeira a frente da mesa, sinalizando para eu tomar o meu lugar em uma delas. Sentei-me na da esquerda, mantendo minhas mãos cruzadas entre as minhas coxas, encarando qualquer coisa que não fosse ele.

— Olhe para mim. — Dessa vez seu tom saiu mais como um pedido do que como uma ordem. Levei meus olhos a ele, com medo do contato visual.

  Senti um arrepio esquisito subir pela minha espinha quando meus olhos encontraram a íris azuis. Contrai os dedos dos meus pés no tapete. Meus olhos vacilaram para o lado, e com medo de represálias, voltei novamente para o rosto dele, reparando melhor.

  Seu bigode bem aparado destoava um pouco da barba em crescimento, deduzo que talvez tenha começado a deixá-la crescer há pouco tempo. Damian é alguém que eu consideraria bonito em outras circunstâncias, nas atuais ele só é louco. Seus olhos precisos em mim, fez-me questionar o que se passava na cabeça dele neste momento.

  Fingi uma tosse, tentando escapar do constrangimento.

— Preciso de uma massagem nos ombros. — Ele falou. O encarei por um breve segundo, sem acreditar no que acabei de ouvir.

— Eu não vou... — Minha voz saiu estridente, mas o seu olhar repreendedor me fez calar a boca. Suspirei com pesar e me levantei, dando a volta na mesa e ficando atrás de sua cadeira.

  Levei minhas mãos até seus ombros e pressionei a região levemente, fazendo movimentos circulares, sem ter ideia do que eu estava fazendo. Encarei o grampeador sobre a mesa, pensando em algumas possibilidades do que poderia fazer com ele.

  Talvez se eu o pegar e batê-lo contra sua cabeça diversas vezes, eu consiga correr. Quanto tempo levaria para os funcionários ouvirem o grito de Damian? Cinco minutos? Talvez menos? Seus seguranças soltariam os cachorros para me pegar.

  Olhei para as gavetas da mesa, pensando se há alguma tesoura por ali. Poderia tentar pegar e enfiar em seu pescoço, mas ele me pararia antes mesmo das minhas mãos chegarem no puxador. Mirei os olhos em sua nuca, enquanto faço movimento repetitivos em seus ombros, subindo para o pescoço. Enforcá-lo é uma opção, mas seria em vão, ele é mais forte.

— Ai, porra! — Ele exasperou de repente. Não percebi, mas apertei forte demais. Damian girou a cadeira para ficar de frente para mim e eu afastei-me abruptamente, quase me enrolando na cortina atrás de mim.

  Engoli a seco e me agarrei discretamente no tecido da cortina, apertando-o com força. Ele me encarou como um louco, seus olhos fixados na minha cara, analisando cada detalhe meu. Fiquei com medo de que ele me agredisse pelo meu descuido em machucá-lo, mas ele não fez nada além de estender a mão.

  Encarei a palma da mão estendida diante de mim para que eu a segurasse. Temerosa, estendi a minha cautelosamente e ele a segurou, abrupto, como se ansiasse por isso. Ele me puxou para mais perto, e minha garganta fechou com a aproximação. Damian acariciou as costas da minha mão e eu senti meu estômago revirar.

  Por favor, não, falei mentalmente, desejando que ele não fizesse nada que me levasse ao suicídio mais tarde. Meus olhos marejaram, virei o rosto para outro ponto na sala, tentando evitar que as lágrimas caíssem novamente.

  Seu toque subiu pelo meu antebraço, até a curva do meu cotovelo, acariciando minha pele, fazendo um arrepio subir pelo meu corpo. Me deixa ir embora, eu só quero ir embora, pensei.

— Amanhã, seus documentos novos chegarão, já providenciei tudo. — Ele comentou, ainda distribuindo carícias. Sua mão grossa me causa ânsia, mas coloquei o sentimento de lado por um segundo para focar nas suas palavras.

— Documentos novos? — Perguntei confusa.

— Eventualmente pessoas saberão da sua existência. — Ele disse, finalmente largando minha mão. Meu braço todo formigava, ainda com o sentimento do toque na região. Agarrei-o, passando a mão por todo o trajeto que ele havia feito, tentando tirar de mim aquela sensação.

— Não estou lhe entendendo. — Falei. Ele permitirá que pessoas saibam da minha presença nessa casa? Ele é tão confiante assim de que não pedirei ajuda?

— Tens uma aparência incrível, acha que não exibirei você como troféu em algumas ocasiões? — Perguntou cinicamente, arqueando a sobrancelha.

  De cachorro a troféu, estou subindo rápido na hierarquia doentia dele. Qual será o próximo título? Primeira dama? Senti nojo ao pensar na possibilidade. Damian levantou-se, aproximou-se e agarrou na minha cintura, puxando-me para ele. Engoli em seco, mantendo minha cabeça baixa, encarando o tecido de sua blusa.

— Posso ir para o quarto? — Minha voz vacilou, saindo áspera e baixa. Ele respirou fundo e se afastou de mim, encostando-se na mesa e fazendo sinal para que eu saísse. O alívio me tomou e eu me apressei para sair da sala claustrofóbica. Corri degraus acima e entrei no quarto com a respiração ofegante.

  Chorei novamente, enojada com o toque íntimo sem consentimento, com a proximidade e com as carícias. Me encolhi no chão, encostada contra a porta, proferindo palavras de ódio contra aquele, que agora, é meu dono.

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Comments

Silvana Dos Santos

Silvana Dos Santos

tô gostando

2025-02-21

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