Capítulo 9: Chame a Polícia.

...𝐴𝑛𝑛𝑖𝑘𝑎 𝐻𝑎𝑟𝑑𝑒𝑛 ⸙...

SETE DIAS SE PASSARAM desde o dia de minha fuga. 

  E nesses sete dias eu não saí do quarto, muito menos da cama. Nos três primeiros, Damian aparecia pelo menos cinco vezes ao dia, deduzo que para checar se eu não havia tirado a minha própria vida. Apenas abria a porta e se me visse de olhos abertos, ia embora, mas se estivessem fechados, verificava a minha respiração. A primeira vez em que ele fez isso eu me assustei.

Seus empregados sempre traziam comidas em horários específicos. Às 07:00 o café da manhã, 13:00 o almoço e às 20:00 o jantar. Mas nos últimos quatro dias as comidas começaram a vir com mais frequência, às vezes seis vezes ao dia. Comidas essas que ficavam sobre o criado mudo até que alguém se disponibilizasse a buscá-las.

  Uma de suas empregadas, Amélie, uma mulher na faixa dos quarenta anos, vinha ao quarto me verificar constantemente e muita das vezes me forçava a pelo menos beber um copo d'água, já que eu me recusava a comer e até mesmo falar.

  Os dias e as noites se passaram diante dos meus olhos, por muitas vezes perdi a conta de quantos dias passei em claro. As vezes em que levantei foram porque não consegui segurar o xixi por muito tempo, mas imaginei que permanecer deitada em cima do meu próprio mijo não fosse tão ruim.

  O vestido amarelo já criava vida após tantos dias com ele. Não tomei banho, sequer escovei os dentes nessa semana, apenas desejei que a morte adentrasse o quarto e me levasse.

  Minha melancolia foi interrompida pela porta se abrindo e Damian entrando como um jato, rumando para as janelas e abrindo as cortinas. A luz amarela do sol iluminou todo o cômodo me fazendo apertar os olhos com a claridade assustadora. Pela primeira vez em muito tempo, me mexi, apenas para cobrir minha cabeça com a coberta.

— Vamos, levante-se. — Ele ordenou, puxando a coberta de cima de mim, arremessando-a do outro lado do quarto. Fiquei encolhida, abraçada as minhas pernas. Talvez se eu me mantiver paralisada, ele desista e vá embora.

  Mas ao contrário do que eu desejava, Damian me agarrou e me jogou sobre seus ombros. Sem forças, não consegui me debater ou protestar contra. Ele caminhou até o banheiro e me colocou dentro do boxe, tive de me esforçar para permanecer de pé, pois a fraqueza é tremenda.

  Fui tomada pela água gelada caindo sobre a minha cabeça com força, fazendo cada músculo do meu corpo travar. E como se não fosse suficiente, Damian pegou a ducha do suporte e jogou o jato de água diretamente no meu rosto, me sufocando.

— Para! — Esbravejei em português, colocando a mão na frente do jato d'água, mas ele continuou.

— Não sei o que isso significa. — Ele disse e se inclinou sobre mim pegando um dos produtos para cabelo e o jogando sobre a minha cabeça. — Você está um nojo.

  Fiquei parada enquanto ele gastava o vidro inteiro de shampoo em mim. O produto escorreu pelo meu rosto e eu só fechei os olhos enquanto ele terminava de desperdiçar tudo na minha cabeça e o jogava no lixo logo após. Me mantive encolhida enquanto Damian esfregava meu cabelo de forma desajeitada.

  Em seguida, ele voltou com a ducha para auxiliar na remoção do shampoo. Damian continuou com o processo de lavagem, passando condicionador dessa vez.

Ele esfregou meu couro cabeludo sem muita delicadeza, arrisco dizer que ele nem sabe o que está fazendo.

Me enfiou debaixo da água de novo para tirar o condicionador do meu cabelo. Passei a mão pelo rosto para retirar o sabão dos meus olhos, o encarei debaixo d'água. Por que ele só não me deixa morrer e depois me enterra no quintal? Não é como se alguém fosse vir atrás de mim.

Ele pegou o sabonete e estendeu para mim.

— Consegue assumir daqui ou vou ter que fazer o resto? — Ele questionou, apenas ergui os ombros e balancei a cabeça. Nisso, Damian me entregou o sabão e saiu do banheiro.

  Tirei o vestido encharcado e o deixei no chão do boxe. 

  E sem muito ânimo ou força, passei o sabonete por todo o meu corpo até que ele estivesse completamente branco de espuma. Me senti leve, como se a sujeira tivesse me dado centenas de quilos a mais.

  Retirei todo o sabão e o condicionador que ainda restava no meu cabelo. Estava quase que completamente limpa, só faltava escovar os dentes; na frente do espelho não me surpreendi com a imagem decadente. As bolsas escuras abaixo dos olhos entregavam que passei dias acordada, olhar perdido e cansado era de dar pena.

  Apoiei-me na pia e comecei a escovar os dentes. Minha boca estava um nojo, ainda bem que não falei com ninguém esses dias, as funcionárias de Damian provavelmente desmaiariam.

  Me enrolei na toalha e saí do banheiro com o cabelo encharcado, deixando um rastro dos pingos e pegadas pelo piso. Damian estava sentado na cama me esperando, com as mangas molhadas e alguns respingos sobre a calça, me senti desconfortável por ele me ver numa situação tão vulnerável, como se estivesse dando de bandeja minhas fraquezas para o meu inimigo.

— Escovou os dentes? — Ele perguntou, afirmei. — Vista-se, estarei lhe esperando na biblioteca.

— Eu preciso de calcinhas, e roupas que caibam em mim. — Falei uma frase completa pela primeira vez em dias e estranhei a minha voz extremamente rouca.

— Não se esqueça. — Ele apontou para a coleira em cima da penteadeira e se retirou.

  Suspirei, mentalmente exausta.

  Apostei no vestido novamente, dessa vez um preto até os pés. A peça fazendo sentido com o sentimento ruim dentro do meu peito, peguei um short e o coloquei por baixo da vestimenta como sempre faço. Aproveitei para procurar pelo armário, na parte inferior, por alguns sapatos e por sorte, achei uma sandália preta que não ficou tão apertada quanto imaginei que ficaria.

  Peguei a droga da coleira e coloquei no meu pescoço, trazendo de volta toda a carga emocional ruim que havia amenizado por um breve momento.

  Pronta, rumei para fora do quarto indo para o andar inferior. Desci as escadas me escorando ao corrimão, sentindo minhas pernas muito fracas. Trombei com Amélie no caminho e a mesma sorriu para mim, parecendo feliz em me ver de pé, mas não disse nada, apenas foi cumprir suas tarefas. Virei à esquerda no fim da escada e caminhei para a biblioteca.

  Abri a porta com cautela e coloquei a cabeça para dentro, esquadrinhando o cômodo a procura de Damian. O mesmo, diante de uma das estantes gigantes, com roupas diferentes das de antes, deve ter trocado após se molhar tentando me dar um banho.

Ele percebeu a minha presença e fez sinal para que eu entrasse. Damian sentou-se em um dos pufes despojados pela sala — com um objeto em mãos que remeteu a um envelope — e sinalizou para eu me aproximar. O fiz, hesitante.

  Ele estendeu aquilo para mim e eu o peguei com certa curiosidade.

— Seus documentos novos. — Informou ele. Surpresa, o abri me deparando com uma certidão de nascimento e uma identidade nova, com nomes de pais fictícios. Fiquei espantada.

  Annica Perez, torci o nariz para o sobrenome genérico na certidão de nascimento falsa.

  Nascida em noventa e um, México. Senti meu estômago embrulhar, a certidão inteira em espanhol, com nomes latinos genéricos para meus "pais". Olhei a identidade, sendo pega de surpresa com o segundo sobrenome impresso no papel.

  Annica Perez Lefèvre.

  Meus joelhos falharam e precisei me apoiar em qualquer coisa que me mantivesse de pé, o erro ortográfico no meu nome se tornou um detalhe tolo ao ler o sobrenome dele ali. Respirei fundo e engoli o sentimento ruim.

Estou subindo muito rápido de cargo, pensei, tentando aliviar o meu terror com uma piada.

— Decidi manter seu primeiro nome, para que fique mais fácil. — Disse despretensiosamente.

— Annika está escrito errado e como você conseguiu essa foto? — Sussurrei, incapaz de elevar o tom de voz. A foto da minha identidade original estampada naquele documento falso me deixou aterrorizada.

— Você ficaria surpresa. Agora você precisa se alimentar. — Falou ele.

  Se levantou e me guiou para fora, com a mão repousada em minhas costas. Ainda estava perplexa com os documentos, segurando-os, lendo e relendo na esperança de que ao menos o último nome desaparecesse, se relevando loucura da minha cabeça perturbada.

  Na cozinha, seus funcionários estavam arrumando-a, guardando tudo em seu devido lugar. Olhei para o relógio de parede e fiquei um pouco chocada com as horas. Três e meia da tarde.

  Damian ordenou que preparassem comida às pressas para mim, de forma grosseira e autoritária. Cansada, me dirigi a mesa da cozinha e me sentei, jogando os documentos sobre ela e deitando a cabeça sobre os meus braços, meus olhos estavam extremamente pesados.

— O que a senhorita gostaria de comer? — O homem responsável pela cozinha se direcionou a mim.

— Feijão e arroz, por favor. — Resmunguei.

  O mesmo assentiu, e começou a coordenar os outros funcionários na cozinha para preparar de forma rápida.

— Vamos esperar na sala de jantar. — Damian falou.

— Estou bem aqui. — Disse, ainda com a cabeça na mesa. Para a minha sorte, ele não disse mais nada, apenas puxou uma cadeira e sentou-se em silêncio, talvez estivesse me poupando por eu estar como um trapo velho.

  Meus olhos pesavam e eu tentei focar nas pessoas andando para lá e para cá na cozinha, em todos os armários que abriam, nos temperos que pegavam, mas estava difícil. Eu sequer sentia fome, apenas cansaço. Desejava voltar para o quarto e viver como um morcego na escuridão por mais alguns dias até definhar naquela cama.

  O cheiro do arroz sendo refogado adentrou minhas narinas, trazendo consigo a lembrança de casa. Nunca senti tanta falta como agora. Me perguntei como Elena e Gabriel estão, se estão preocupados com o meu sumiço, devem pensar que estou ocupada demais com meus estudos, que sequer tive tempo para contacta-los. Ou talvez, não estejam pensando em nada, nunca fui comunicativa, se um deles me ligasse eu encarava o celular até que o mesmo parasse de tocar, sempre fui muito ausente por escolha minha.

  Só queria acordar e perceber que tudo foi um pesadelo, enquanto uma cliente me chama de burra e incompetente por dormir no trabalho. Fechei os olhos por um momento, cochilando sobre a mesa da cozinha.

  Meu cochilo me fez sonhar com Damian me libertando, avisando que eu estava livre para ir embora e com as passagens de avião de volta pra casa em mãos. O agradeci e prometi que tudo isso ia ser apenas uma lembrança e fui-me para bem longe daqui.

— Annika. — A voz dele me despertou, me fazendo saltar na cadeira e levantar a cabeça depressa. As coisas giraram por um segundo até que minha cabeça se estabilizasse. Passei a mão no canto da boca, limpando a baba que escorreu pelos meus lábios.

— O que? — Perguntei levemente atordoada. Ele apontou o olhar para a mesa, minha comida já estava posta. Feijão, arroz e salada de legumes, meu estômago roncou alto demais, olhei em volta e só estávamos eu e ele no ambiente. Damian deu um sorriso amarelo e incentivou que eu comesse.

  Dei a primeira colherada, sem me importar se estava quente demais. Queimei a minha língua no processo, puxando o ar pela boca para tentar esfriar, mas estava tão gostosa que quase não me importei. Comi tudo como uma desesperada, dando uma colherada atrás da outra, faminta.

  Me senti estranhamente revigorada, já não sinto mais tanto sono, mas ainda estou com fome, então me levantei e preparei o meu prato. Damian me encarava, entretanto, seu olhar não me dissera nada como sempre, então apenas sentei-me e comi mais uma rodada de feijão e arroz, como se fosse a comida mais gostosa do mundo.

— Se sente melhor? — Ele questionou, me fazendo parar de comer para olhá-lo. Senti como se ele estivesse tirando sarro da minha cara com aquela pergunta. Eu só estaria melhor no meu país e na minha casa, senti vontade de dizer isso a ele, mas tive medo das consequências.

— Um pouco. — Falei.

— E mentalmente? — Agora tenho certeza de que está zombando de mim.

— O que você acha? — Perguntei e ele suspirou, levando as mãos ao rosto e massageando a têmpora.

— Olha, Annika, eu não pretendo machucar você. — Disse calmante.

— Mas se precisar, o fará. — Eu disse, desviando o olhar para o meu prato e voltando a comer, a fim de evitar a conversa.

— O que aconteceu na semana passada foi consequência da sua atitude, se tivesse seguido as regras, estaria bem.

  Respirei fundo, ele estava me culpando.

— Você é um completo babaca. — Falei na minha língua nativa, fazendo-o ficar confuso.

— Nova regra, nada de falar em português.

— Qual será a próxima? Proibido andar pelo jardim? — Perguntei desafiadora.

— Continue assim e não sairá do seu quarto. — Ele semicerrou os olhos para mim.

— Você estaria me fazendo um favor. — Respondi indiferente. Ele deu um suspiro alto e balançou a cabeça para mim.

  O silêncio pairou por alguns segundos, mas logo ele o quebrou.

— Você veio para cá com intenção do que exatamente? — Ele questionou, estranhei o seu interesse repentino. Parei por um instante, curiosa sobre seu intuito com essa pergunta.

— Desenho. — Respondi. Seu lábio estendeu num bico, como se estivesse impressionado.

— E você sabe desenhar? — Perguntou ele. Assenti brevemente. — Daniel! — Ele gritou de repente, me fazendo tremer de susto com sua voz grave, me senti acuada. O homem denominado Daniel apareceu na cozinha em questão de segundos, com suas mãos para trás, postura ereta e cabeça erguida.

— Sim, senhor Lefèvre. — Ele saudou.

— Traga um papel e uma caneta para mim por favor.

  Observei toda a cena atenta. Daniel saiu da cozinha e não se demorou muito, logo estava com um pedaço de papel e uma caneta preta em mãos, os depositou em cima da mesa e se retirou em seguida, nos deixando a sós novamente. Damian empurrou o papel e a caneta na minha direção e ficou me encarando. Arqueei a sobrancelha, ele quer que eu desenhe? Assim? Me perguntei.

— Vamos, rabisca alguma coisa. — Ele falou e me senti ofendida com sua fala. Afastei o prato e peguei o papel e a caneta, sentindo um forte bloqueio, como se eu não soubesse por onde começar, nem o que fazer. Olhei em volta, não senti sua cozinha interessante o suficiente para que eu desenhasse.

  Entretanto, meu olhar caiu sobre ele, dei um sorriso contido ao pensar em como desenhá-lo.

  Comecei a fazer o esboço de forma precisa, iniciando pelo formato do rosto. Tracei sua mandíbula marcada e o queixo gordinho com um furo no meio, depois, seu nariz fino e longo e os olhos semicerrados. Os lábios foram o que me deu mais trabalho, o fiz sorrindo, com caninos gigantes como os de um cachorro. Rabisquei alguns pelos para representar sua barba e depois o bigode.

  Olhei para ele vez ou outra para me lembrar do que não tive certeza.

  Terminei fazendo seus cabelos escuros e ondulados, com uma mexa cacheada caindo sobre sua testa e dois chifres de diabo em cima da cabeça. Larguei a caneta e empurrei o papel na direção dele. Ele o ergueu, analisando minuciosamente o desenho. Fiquei apreensiva, me dando conta do que havia acabado de fazer com seu rosto. Merda, ele vai me matar.

  Seus ombros temeram e logo ele soltou uma gargalhada alta. 

— Você me fez com chifres e dentes de vampiro? É assim que você me vê? — Ele disse, cessando a risada aos poucos. Desviei o olhar, envergonhada. Se eu o desenhasse como o vejo precisaria pintar um quadro, com uma sombra preta e um sorriso maligno. — E qual era seu objetivo? Abrir uma galeria de artes?

  Não pude deixar de soltar uma risada para a sua pergunta.

— Se eu conseguisse trabalhar com ilustrações já seria suficiente. Mas o meu objetivo era aprender tudo que envolve arte, desde o básico até pinturas. — Falei cabisbaixa já que tudo foi por água abaixo.

— Entendi. — Ele disse, pondo um ponto final na nossa breve conversa. Levei meu prato até a pia da cozinha e o lavei, sequei e depois guardei-o em um dos armários.

— Você não deveria estar trabalhando ou algo assim? — Questionei ao voltar a me sentar, me sentindo menos desconfortável agora, tentando afugentar os pensamentos ruins que me rondam.

— Fui bem cedo, mas decidi não ficar muito. — Respondeu ele.

— E você faz o que exatamente? — Minha pergunta o fez soltar o ar pelo nariz.

— Eu sou o dono, faço a parte boa.

— Que seria... — Incentivei que continuasse.

— Fecho contratos, compro franquias, construo lojas, contrato pessoas, demito pessoas e fico em casa quando eu quiser. — Disse ele, ergui as sobrancelhas e balancei a cabeça.

— O senhor no jardim, Vincent, disse que tem um irmão. — Sondei, tentando fazê-lo falar um pouco mais sobre si mesmo. Ele deu outra risadinha anasalada para a minha pergunta.

— Victor, é um veadinho bastardo, — ele disse, me fazendo arregalar os olhos pela forma repentina que falara do irmão — mas é prodígio, extremamente inteligente.

— Você não gosta dele? — Ele fez uma careta para minha pergunta.

— Por que eu não gostaria? — Ele perguntou, mas não deixou que eu respondesse e logo continuou a falar — Vamos, você não estava precisando de roupas?

  Ele ficou de pé e eu o encarei confusa com o cenho franzido. Damian me apressou, fazendo sinal com as mãos para que eu me levantasse. Saímos da cozinha e fomos direto para o hall de entrada, Damian abriu a porta principal para mim, e ainda desconfiada, saí.

  Encarei o céu repleto de nuvens acinzentadas, mas o sol ainda se fazendo presente em meio a elas. Damian pediu para que eu o esperasse ali e sumiu da minha vista. O jardim estava como da última vez: com a grama verde e muito bem aparada. Avistei Vincent próximo aos cães de guarda, os acariciando sem medo, me arrepiei só de me imaginar perto deles, mas pude dar um leve sorriso para a cena.

  O carro já esperava por nós na frente da casa. Damian abriu a porta para mim e eu entrei escorregando para a outra ponta do banco. Procurei ficar o mais distante o possível, cada um em uma extremidade do banco. O motorista começou a guiar o carro para o portão principal e logo a lembrança da semana passada me veio como um soco no estômago. Agarrei na costura do banco, aflita, enfiando minhas unhas curtas no couro.

— O choque por distância está desativado. — Ele avisou. Segurou na minha mão e abriu meus dedos agarrados no banco de couro, com uma delicadeza inédita.

  Puxei minha mão para longe dele, julgando esquisita essa atitude repentina.

...──◇──...

  Fiquei distraída a todo momento em que estive dentro do carro, com a testa franzida e encarando o vazio. Vez ou outra, minha atenção era atraída por Damian quando passávamos por algum local turístico ou restaurante que o pertencia. Entretanto, eu estive longe a maior parte do tempo, pensando em muitas coisas por segundo.

  Levei minha atenção para fora e o carro virou na rua para adentrar o estacionamento de um shopping. Me inclinei um pouco, encostando a testa no vidro para ver o tamanho do lugar. O motorista dirigiu pelo estacionamento externo e seguiu para o coberto, estacionando o mais próximo da entrada para o shopping.

  Não há muitos carros ao redor, talvez por ser meio da semana, pensei.

  Saí do carro juntamente a Damian e como sempre, ele me guiou para dentro do shopping com sua mão em minha nuca. Me mantive encolhida por conta da proximidade e pelo frio exagerado no interior do lugar. Meus pelos se arrepiaram com a mudança térmica repentina.

  Subimos as escadas rolantes e sua mão repousou sobre meu ombro. O desconforto continuou.

  Olhei em volta, me espantando com as lojas, me dando conta de que, talvez, este seja o motivo para o lugar estar vazio. Os nomes de marcas luxuosas estampada em cada lado do andar me deixaram boquiaberta. Logo o desconforto se moldou ao local, a sensação de não pertencimento me tomou, não estou acostumada, na verdade, isso me assusta mais que qualquer coisa que passei nos últimos dias.

  Fui levada até a entrada da Prada e senti vontade de vomitar.

  Me mantive encolhida enquanto Damian tomava a frente, segurando em meu pulso enquanto caminhava pela loja. Algumas mulheres presentes o observavam de longe, e outras até cochichavam enquanto ele passava. Fiz careta, me perguntando se era pela sua aparência física.

  A coleira no meu pescoço parecia mais apertada do que nunca agora, estou me sentindo sufocada aqui dentro.

  Damian parou, olhando um vestido específico no manequim, e olhou para mim. Encarei a peça preta, bem simples por sinal, com um colar servindo de alça em volta do pescoço do manequim.

— Gostou deste? — Perguntou ele. Me aproximei do vestido e peguei na etiqueta de preço, quase tendo uma síncope. Virei a etiqueta pra ele, completamente em choque e ele revirou os olhos. — Você custou muito mais que esse vestido. — Ele disse, me fazendo desviar o olhar.

  Uma mulher de cabelos longos e escuros, preso em um rabo de cavalo elegante se aproximou de nós com um sorriso no rosto.

— Bonjour, vous avez aimé cette pièce? — Ela disse, e foi o momento de ficar alheia na conversa enquanto os dois falavam em francês. É a primeira vez que ouço Damian conversando em sua língua nativa e eu não pude deixar de notar como ele muda completamente. Sua voz parece ficar mais... Adocicada?

  Não sei o que pensar sobre isso.

— Você fala inglês? — Ele perguntou para a atendente, fiquei tão distraída que por um segundo pensei estar entendendo o seu francês, mas era apenas ele falando em inglês para que eu conseguisse saber do que se tratava também.

  A senhorita assentiu.

— Ela gostou deste vestido e quer experimentar. — Eu o encarei por um segundo, não falei absolutamente nada sobre o vestido. A moça me encarou depois olhou para a peça, fazendo uma cara estranha.

— Infelizmente, esta peça já acabou. — Ela falou.

— E essa aqui? — Ele apontou para o manequim — Tire a peça do manequim. — A mulher ficou tão sem reação quanto eu pela forma que ele falou, mas diferente de mim, ela soube disfarçar a indignação. A mesma chamou por outra mulher, uma que aparentava menos idade que ela e ordenou que ela removesse a roupa do manequim.

  Por um instante, me vi naquela menina e a mulher que a designou aquela tarefa me remeteu aos clientes nojentos que eu já fui obrigada a conviver. Ela não moveu um dedo para ajudá-la enquanto a outra se atrapalhava em tentar retirar o manequim do suporte que o mantem em pé. Me aproximei dela e ergui o boneco, tirando de sua base para que ela removesse a peça de roupa.

  Ela me olhou com gratidão e entregou a peça a Damian, que observava toda a cena com desgosto. Ele fez menção de abrir a boca para falar, mas eu só balancei a cabeça, sinalizando a ele para não deixar a situação mais constrangedora do que já estava. Para a minha surpresa ele só ficou sério e voltou a caminhar pela loja, me puxando pelo braço para ver outras roupas.

  Ficamos mais vinte minutos rodando a loja enquanto ele pegava várias peças e jogava sobre o próprio braço, raramente me perguntando se eu aprovava ou não a roupa. Bom, eu sequer queria estar numa loja como esta, imagine escolher uma peça.

  Ele me guiou até o provador e jogou tudo nos meus braços, me empurrando para dentro da área feminina. Caminhei pelo corredor extenso e quase silencioso se não fosse por duas mulheres que conversavam em um dos provadores, provavelmente amigas que experimentavam roupas juntas. Fui até a última porta do corredor e entrei.

  Joguei as roupas em cima da poltrona dentro da cabine imensa e andei de um lado para o outro, inquieta.

— Preciso dar um jeito de meter o pé, vamos Annika, pensa em alguma coisa porra. — Olhei em volta, desesperada.

  Abri a porta do provador e coloquei a cabeça para fora, procurando por alguém nos corredores. A menina que eu havia ajudado com o manequim estava atendendo as mulheres do provador ao lado, e pela forma estridente que berravam com ela, parecia uma breve discussão.

— Menina! — Eu chamei, roubando sua atenção. Ela pediu para que as moças esperassem e veio até mim, com um sorriso no rosto.

  Segurei em seu pulso e a puxei para dentro do provador.

— Eu preciso da sua ajuda. — Disse eu, aflita.

— Claro, precisa que eu pegue alguma peça de roupa para a senhora? — Perguntou ela.

— Eu preciso que chame a polícia.

Baixar agora

Gostou dessa história? Baixe o APP para manter seu histórico de leitura
Baixar agora

Benefícios

Novos usuários que baixam o APP podem ler 10 capítulos gratuitamente

Receber
NovelToon
Um passo para um novo mundo!
Para mais, baixe o APP de MangaToon!