Capítulo 16: Mais Um Sonho.

...𝐴𝑛𝑛𝑖𝑘𝑎 𝐻𝑎𝑟𝑑𝑒𝑛 ⸙...

Chegamos em casa e não esperei cordialidade de Damian, abri a porta e saí do carro antes que as lágrimas escorressem na frente de todos eles. Mesmo com ele gritando pelo meu nome e pedindo para que eu o esperasse, corri para dentro de casa e subi as escadas, ignorando também Amélie que as descia. Entrei no quarto de Damian e fechei a porta, joguei meus saltos longe e me tranquei no banheiro.

  Me sentei no chão gelado e me encolhi contra a parede, deixando que o sofrimento me tomasse. Sempre me recusei a chorar sobre isso, pois minhas lágrimas não farão com que o mundo mude da noite para o dia. Mas hoje, foi como se tudo estivesse potencializado.

— Annika. — O ouvi chamar por mim do outro lado da porta e me mantive em silêncio, incapaz de proferir palavras coerentes, segurando a vontade de gritar em desespero pela dor dentro do meu peito.

  Ele girou a maçaneta e abriu a porta, me encontrando no chão.

  Damian se ajoelhou ao meu lado e me envolveu em seus braços, me puxando para o seu peito e me apertando contra o seu corpo. Não fiz nada além de me encolher em seus braços e apertar o tecido do terno com força enquanto as lágrimas desciam incessantemente. Ele ficou em silêncio apenas acariciando minhas costas, e eu fiquei grata por ele não dizer nada, pelo menos não por agora.

— Venha. — Ele me afastou para se levantar e me pegar em seus braços. Me carregou de volta para o quarto e me colocou deitada em seu travesseiro, por um momento quis voltar para os seus braços só para que ele não tivesse o vislumbre da minha cara chorosa.

  Damian me deixou na cama e saiu do quarto, em seguida seu irmão entrou e se sentou ao meu lado com um maldito Blackberry.

— V-você também tem essa coisa? — Falei em meio ao soluço e passei as mãos nos olhos para tirar as lágrimas.

— Regras da casa, ele odeia tecnologia, se dependesse dele seus secretários usariam máquina de escrever, me espanto que manteve a televisão do papai. — Ele falou, concentrado na tela pequena. Me encolhi e coloquei as mãos entre as minhas coxas, encarando o vazio enquanto ele digitava com rapidez naquelas teclas minúsculas.

  Damian adentrou o quarto novamente e parou diante de nós, virei a cabeça para olhá-lo e ele carregava um copo d'água e um comprimido.

— Calmante, vai te ajudar a dormir. — Ele disse.

— Não quero. — Falei e voltei aos meus pensamentos. Damian apenas suspirou e deixou o copo e o remédio no criado-mudo e sentou-se na cama ao lado do irmão.

— Está fazendo o que pedi? — Ele perguntou, enquanto colocava sua mão nas minhas costas, fazendo movimento de cima para baixo na minha espinha.

— Acabar com a vida dela será um prazer. — Ele falou com um sorriso travesso dançando em seus lábios carnudos. Franzi o cenho.

— Como assim? — Eu funguei.

— Ela já aplicou alguns golpes, mas não é burra, conseguiu esconder muito bem. Na época até a ajudamos com isso. — Damian disse distraidamente. O encarei incrédula, mas ele apenas me encarava com seus olhos preocupados.

— Vocês a ajudaram a acobertar fraudes? — Perguntei.

— Quem nunca, não é mesmo? — Victor disse e eu fiquei pensativa sobre. — Vou deixá-los sozinhos e terminar de resolver isso aqui no meu quarto.

  Ele falou e saiu nos desejando boa noite.

  Me sentei na cama e levei a mão ao cabelo, retirando os grampos que já começavam a me incomodar. Coloquei todos sobre o criado-mudo e enfiei os dedos no meu cabelo para soltar os cachos rebeldes. O gel o deixou parecendo palha de tão enrijecido, mas não estou com ânimo para me levantar e lavá-lo, então apenas me deitei novamente e me encolhi.

  Damian se levantou e pegou algumas roupas no seu armário e rumou ao banheiro, pude ouvir o barulho do chuveiro.

  Quando foi que ele ficou tão preocupado e cuidadoso? Mesmo que não estivesse sendo um babaca, me abraçar era algo que eu jamais imaginaria que fizesse. Não sei o que pensar sobre isso, na verdade, eu não quero ter que pensar sobre isso e sobre como me senti minúscula em seus braços, como um animal indefeso. Não quero pensar sobre o arrepio em minha pele enquanto ele acariciava minhas costas e nem em como isso pareceu sobressair o sentimento ruim que habita meu peito.

  No fundo, estou confusa.

  Há tantas coisas acontecendo dentro de mim nesse momento que eu não sei no que focar. A resposta racional seria na parte boa, mas a tal parte boa é completamente irracional, perigosa e até humilhante.

  Irracional, pois me sentir bem com as carícias de Damian é loucura. Perigosa, pois isso dá brecha a um sentimento que eu não posso sentir e humilhante, bom, porque é o Damian!

  Aproveitei sua ausência e saí do quarto, atravessando o corredor e entrando no meu. Victor estava sem camisa sentado na cama ainda mexendo em seu telefone, atravessei cômodo em silêncio para o guarda-roupa e peguei meu pijama e uma calcinha, está fora de cogitação dormir nesse vestido.

— Annika... — Victor me chamou, me fazendo parar na porta do quarto.

— Sim?

— Vai ficar tudo bem, okay? — Disse ele, de maneira gentil.

Forcei um sorriso e lhe dei boa noite antes de voltar ao quarto de Damian. O mesmo saía do banheiro com a típica calça de moletom e sem camisa, passando a toalha em seu cabelo para secá-lo.

— Está se sentindo melhor? — Ele perguntou ao me ver de pé, apenas assenti e passei por ele para chegar ao banheiro, mas ele me impediu, segurando em meu braço. Encarei seus olhos, agora mais escuros que o normal, suas pupilas estavam levemente dilatadas. Damian não disse nada, apenas me encarou por um longo minuto.

— Vou tomar banho. — Falei sem jeito e ele me soltou.

  Entrei no banheiro e me despi do vestido, o colocando sobre a tampa da privada junto ao meu pijama. Meu objetivo era apenas me deitar e tentar dormir, mas o corpo pediu por um banho quente. Como se isso fosse fazer o sentimento ruim escorrer pelo ralo, pensei.

Regulei a temperatura do chuveiro e entrei embaixo dele, deixando que molhasse meu cabelo e tirasse o gel endurecido do mesmo. Me ensaboei sem ânimo, lentamente, minha cabeça voou para longe, para uma realidade paralela e me permiti ficar nela durante meus quinze minutos de banho.

  Ao menos lá, eu estava feliz.

  Me recusei passar os shampoos de Damian, muito provavelmente detonaria cada fio de cabelo meu, então me contentei apenas com a água. Tirei o sabonete do meu corpo e fechei o registro, saí do boxe e cacei no armário embaixo da pia — semelhante ao meu — por uma toalha. Peguei-a e sequei meu corpo superficialmente, dando mais atenção ao meu cabelo.

  Vesti minha roupa e sequei meu cabelo o suficiente para que ele não pingasse pelo caminho. Joguei a toalha dentro do cesto de Damian e finalmente voltei para o quarto com o vestido vermelho em mãos, tendo o vislumbre dele sobre a cama, com suas costas na cabeceira de madeira antiga e os braços cruzados contra o peito.

— Onde eu o coloco? — Ergui o vestido, Damian levantou o olhar e apontou para seu guarda-roupa, então abri uma das portas e coloquei ele pendurado junto de seus paletós. Caminhei cautelosamente para a cama de casal, aliviada o suficiente por seu tamanho exagerado.

  Dei a volta na cama e me deitei do lado oposto, me certificando de estar longe o suficiente dele. Tão longe que minha bunda ficou para o lado de fora do colchão. Damian saiu da posição em que estava e se deitou com a cabeça sobre o travesseiro, virado para mim.

Ele me encarava fixamente e eu tentei não prestar atenção, mas sua voz grave a roubou.

— Como está o seu punho? — Ele perguntou, ajeitei minha cabeça no travesseiro para olhá-lo.

— Dolorido, mas valeu a pena. — Falei com sinceridade. Seus olhos caíram por um segundo e depois voltaram aos meus, pude vê-lo intercalar o olhar entre meus olhos e um ponto mais abaixo.

— Eu sinto muito. — Ele falou e eu forcei um sorriso. Não foi culpa dele de qualquer maneira, não tinha por que se desculpar, mas fiquei grata por suas breves palavras de compaixão. — Irei terminar de resolver isso amanhã.

— O que você vai fazer? — Franzi o cenho.

— A coisa certa, Annika. — Ele falou e se levantou para apagar as luzes no quarto.

  Felizmente a escuridão foi capaz de esconder o sorriso involuntário que tomou os meus lábios e meus olhos se enchendo de lágrimas novamente.

  Senti a cama afundar e soube que Damian havia se deitado, me mexi um pouco mais para dentro, pois cairia da cama se dormisse tão na ponta. A cama é grande o suficiente para que a distância seja mantida, pensei. Abracei o travesseiro e chorei em silêncio, policiando meus soluços para que não me denunciassem.

  Demorou um pouco, mas pude dormir sem a ajuda do remédio.

  Horas depois eu abri os meus olhos.

Me vi paralisada sobre a cama, meus músculos enrijecidos me impediam de me mover. Minha visão estava parcialmente limitada como se uma névoa escura tomasse conta dos meus olhos, impedindo que eu usasse a minha visão periférica, causando-me uma sensação claustrofóbica.

Tudo o que me era permitido ver era uma caixa gigante com correntes em sua volta.

  Me senti ansiosa, pressentindo que algo ruim viria a acontecer.

  Tentei me mexer, mas quanto mais eu fazia, mais o meu corpo pesava sobre o colchão como se fosse areia movediça, senti-me afundar e parei, evitando qualquer movimento.

A caixa balançou sem parar, fazendo um barulho ensurdecedor das correntes balançando, seja lá o que estiver ali dentro, está furioso.

  Abri a boca para chamar por Damian, mas tudo que escapou pelos meus lábios foram meros sussurros inaudíveis.

  A caixa parou de se mexer, as correntes desataram e caíram sobre chão. Ela se abriu lentamente, revelando apenas a escuridão, lágrimas inundaram meus olhos tornando minha visão embaçada e mais uma vez tentei chamar por ajuda.

  Nada, nenhum som.

  Dali, saiu uma figura alta que me fez estremecer, escura como um vulto. Não havia face ou qualquer característica reconhecível. Apertei os olhos, suplicando aos sussurros que aquilo desaparecesse, eu só quero acordar.

  Annika

  Meu nome ecoou como numa sala vazia. Abri os meus olhos e não havia nada. Nada além de grama abaixo dos meus pés e o sol ardente acima da cabeça.

  Olhei para o céu, azul como o mar e límpido, livre de nuvens. Girei em meus calcanhares a procura da fonte do som chamando por meu nome, sendo envolvida apenas pelo cheiro de grama e pelo barulho das árvores balançando ao redor.

  Annika, cadê você?

  A voz chamou-me novamente, dessa vez não era apenas um eco. A ouvi com clareza, reconhecendo a quem pertencia. Apertei os olhos quando o vi sair da sombra abaixo das árvores. Damian usava uma calça bege de alfaiataria e estava sem camisa, franzi o cenho ao vê-lo se aproximar com um sorriso largo nos lábios.

Ele me segurou pela cintura me levantando no ar e girou comigo em seus braços. Me colocou de volta no chão e abraçou-me apertado. Tão forte que me faltou fôlego.

  Abri os olhos, puxando o ar em desespero ao me sentir sufocada, o peso sobre a minha barriga me impediu de respirar. Tateei a procura do motivo e percebi o braço de Damian ao redor de mim, me apertando como se eu fosse fugir.

Na tentativa de me livrar sem o acordar, acabei gerando o oposto. Ele me apertou mais, puxando meu corpo, pude sentir sua respiração contra o meu pescoço.

  Só pode ser brincadeira.

— Damian. — Sussurrei e cutuquei seu braço para que ele acordasse e finalmente me soltasse, e ele apenas resmungou e continuou dormindo.

  Dobrei a perna e com o auxílio do pé eu sacudi o seu corpo, o fazendo estremecer, acho que o assustei.

— O que foi? — Ele resmungou quase incompreensível e afrouxou o braço ao redor de mim, aproveitei a oportunidade para me afastar e ligar o abajur.

— Só um sonho, volte a dormir. — Falei ao me sentar à beira da cama, massageando minha testa. Eu oficialmente me odeio muito.

  Damian envolveu minha cintura novamente, me puxando de volta para a cama, eu quase gritei de susto ao ser pega de surpresa por ele. Fiquei paralisada como no sonho, enquanto ele colocava sua perna sobre a minha.

— Me desculpe. — Ele resmungou sonolento, ele sequer está acordado de fato. — Se eu pudesse tomaria seus pesadelos pra mim. — Sussurrou contra o meu ouvido e caiu no sono roncando leve.

  Não consegui pregar os olhos durante o restante da madrugada por causa dessas palavras.

  Damian se mexeu poucas vezes durante a noite e quando pensei que poderia sair da cama, ele me apertava ainda mais contra o seu peito. Estava difícil pensar, o sonho ainda fresco em minha mente junto a Damian grudado em mim estavam impedindo o meu cérebro de funcionar racionalmente.

  O dia começou a clarear e a luz invadindo pela janela fez Damian me largar para tampar o rosto com o travesseiro. Aproveitei a brecha para pular para fora da cama. Apaguei o abajur que passou a noite ligada e fechei as cortinas para Damian continuar seu sono.

  Rumei para fora do quarto, dando de cara com Amélie.

— Annika? — Merda. Apertei os olhos frustrada por ter sido pega. — Mentira, você trepou com ele! — Ela sussurrou em puro entusiasmo.

— Shh! — Eu segurei seus lábios entre os dedos, não estou com cabeça para ouvir nenhuma palavra.

  Andei pelo corredor até as escadas com Amélie em meu encalço e fui direto para a biblioteca. Deixei que ela entrasse e fechei a porta, caminhei para a janela e puxei as cortinas para evitar a luz do dia e me sentei no puff, me encolhendo e fechando os olhos.

  Não falei nada, apenas deixei o cansaço me tomar e pude ouvir a porta da biblioteca ranger, deduzi que ela havia saído.

  Finalmente em paz.

  Entretanto, minha felicidade durou pouco, quando estava prestes a pegar no sono depois de longos minutos tentando me concentrar, a porta da biblioteca foi aberta bruscamente me fazendo pular de susto, abri os olhos a contragosto vendo Damian parado na porta, parecendo aflito. Seus olhos caíram sobre mim e pude vê-lo suspirar.

— Eu pensei... — Ele falou ofegante, sua voz rouca e o cabelo desgrenhado parecia que havia pulado da cama — há quanto tempo está aqui? Por que saiu do quarto? — Se aproximou, me bombardeando de perguntas, bufei cansada.

— Deve ter uns vinte minutos que estou aqui. — Bocejei — Tive um sonho e não consegui dormir. — Falei ao me lembrar.

— Pesadelo de novo? — Ele perguntou se aproximando de mim e abaixando a minha frente, apoiou suas mãos nas minhas pernas para se equilibrar.

— Mais ou menos, no início sim, mas depois... — Hesitei por um instante e continuei depois de pensar nas minhas palavras — Virou algo bom, eu acho.

Intitular bom um sonho onde havia Damian não estava nos meus planos.

— Quer conversar sobre isso? — Ele questionou e eu o olhei, seus olhos azuis tinham uma clara preocupação neles.

— Não, pelo menos não agora. — A coisa ainda estava fresca demais na minha cabeça, ele apenas assentiu e se levantou.

— Vou subir, fiquei preocupado quando não te vi. — Ele fez careta e caminhou até a porta, mas parou na soleira e virou-se para mim — Hoje à noite vou te levar a um lugar, acho que você vai gostar. — Ele sorriu e saiu da sala.

  Ultimamente, Damian estava mais sorridente e isso ainda era estranho pra mim. Havia acostumado com sua expressão carrancuda onde ele me lançava raros sorrisos, não posso dizer que não está tentando ser mais agradável. Fechei os meus olhos e decidi voltar a dormir, pois aparentemente terei um... Encontro?

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Comments

Sonia Cassiano Ribeiro

Sonia Cassiano Ribeiro

Nossa, será que eles estão apaixonados ❤️❤️❤️

2025-01-21

1

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