Capítulo 5: O Leilão

...Este capítulo contém gatilhos, leia com cautela!...

...⸙...

  Annika foi carregada por aquele homem para fora do prédio sem muitos cuidados, enquanto o mesmo reclamava sobre o seu peso e tagarelava sozinho sobre o quão cansativo é fazer aquilo. Ao menos ganhava bem o suficiente para o trabalho sujo.

Jogou-a no banco traseiro da van e após fechar a porta, foi para o banco do motorista tomar o volante e seguir até o destino final da mulher. O corpo adormecido dela solavancava no banco traseiro, quase despencando e indo de encontro com o chão do veículo, mas o homem se prestava a dirigir com cuidado, pois se a mesma chegasse com um pequeno arranhão sequer, ele entraria em problemas.

  No caminho, Annika abriu os olhos, grogue demais para proferir qualquer palavra. Sentiu sua cabeça pesada e não conseguia enxergar um palmo na frente do nariz. Logo, ela adormeceu novamente.

  Finalmente em seu destino final, o homem estacionou na parte de trás do teatro fechado para o público comum e desceu do carro, abriu a porta e pegou o corpo dela, jogando-a sobre seu ombro com certa dificuldade. Empurrou a porta dos fundos e entrou, caminhando apressadamente pelos corredores.

  Annika despertou novamente, tendo visão do chão marcado pelo tempo, das pernas e do traseiro do homem que a carregava. Resmungou enfraquecida e ele ignorou como sempre fazia. Subiu as escadas de incêndio e finalmente chegou aonde havia um fluxo maior de pessoas.

  Mulheres e homens bem-vestidos caminhavam de um lado para o outros nos bastidores. E apesar do número grande de empregados, nenhum se atrevia abrir a boca. Conversas paralelas eram perda de tempo.

  Tempo é dinheiro, ninguém queria perder um centavo.

  Eles carregavam sacolas de roupas de um lado para o outro, entrando e saindo das salas daquele corredor. Grogue e confusa, Annika conseguiu ouvir barulhos abafados de fala, mas tão longe que parecia que seus ouvidos estavam tapados. O rapaz entrou com ela em um dos camarins, a deixou deitada sobre a maca e se afastou, ficando do lado oposto da sala, observando o homem e a mulher se prepararem para deixar Annika apresentável.

  O homem responsável pela troca de roupas de Annika o encarou, como se ordenasse que saísse. Não demorou muito para que entendesse o recado e se retirou dali.

  A camiseta de Annika foi removida com o auxílio de uma tesoura pelo homem desconhecido. Ele não a olhou com desejo ou maldade, tocando nela de forma profissional e delicada para que não a ferisse. 

  Annika se remexeu, tentou empurrar as mãos dele, mas não tinha forças o suficiente.

— Sinto muito, querida. — Ele sussurrou, enquanto desabotoava o sutiã dela, deixando os seus seios à mostra.

  Annika não conseguiu enxergar o rosto dele, sua visão turva e a luz no teto a cegando tornava tudo mais difícil.

  Ele removeu seus tênis e meias, e recorreu a tesoura para cortar sua calça jeans para que fosse mais fácil de removê-la. Tirou a calcinha dela, verificando se suas partes íntimas estavam devidamente depiladas.

  Virou-a de lado, e colocou a mão em uma banda da sua bunda, afastando-a para verificar se precisaria entrar no processo de depilação. Ao constatar que não, pegou-a no colo e a carregou para fora da sala, direcionando-se ao banheiro dos bastidores.

Tentou colocá-la de pé dentro do boxe, mas quando não obteve sucesso, deixou-a sentada na cadeira de metal embaixo do chuveiro.

  Arregaçou as mangas pela milésima vez, perdendo a conta de quantas ele havia banhado naquele início de noite. Abriu um pacote de sabonete novo e o molhou antes de esfregá-lo no corpo de Annika, cauteloso, mas ao mesmo tempo, com rapidez. Eles tinham tempo contado para fazer todas essas tarefas e faltava pouco para o leilão começar.

  Escorregou o sabonete dos ombros aos seios, depois para a barriga e sem seguida, as coxas. Annika, tonta, resmungou, balançando as pernas para se livrar do toque do desconhecido, mas ele segurou firmemente uma de suas pernas para conseguir terminar.

  Colocou os braços embaixo das axilas de Annika, se molhando no processo de colocá-la de pé no boxe. O corpo amoleceu contra o dele e ele o sustentou com um único braço, enquanto passava o sabonete em suas partes intimas.

Ele não queria, mas precisava.

  Ele não sabia, mas o corpo dormente contra o seu deixava as lágrimas escorrerem por seus olhos, sentindo-se violada.

  Findada a tarefa, enrolou Annika em uma toalha e a jogou sobre os ombros novamente, levando a mulher de volta para o camarim que estava antes, colocando o corpo mole com delicadeza sobre a maca. Sua ajudante naquela noite terminou o serviço de secá-la por completo enquanto o homem buscava pela lingerie que pertencerá a Annika esta noite.

  A mulher secou o corpo de Annika com eficácia com ajuda de toalhas e secadores, e a seguir, partiu para pegar os produtos de maquiagem na penteadeira da sala.

  Enquanto o homem a vestia com a peça de lingerie vermelha, a moça fazia uma maquiagem leve, só para tirar o aspecto triste do rosto de Annika. Os olhos perdidos dela giravam, indo do homem a mulher e depois para a luz. 

  Por um momento, desejou que eles a matassem, pois algo a dizia que algo muito pior estava por vir.

— Se concentre! — Annika ouviu a mulher falar, mas a voz pareceu tão longe.

— Estou concentrado, mas você sabe como me sinto fazendo isso! — Ele falou, colocando a meia calça vermelha no corpo de Annika com cuidado para que o tecido delicado não se rasgasse em suas mãos grandes.

— Você acha que eu gosto? — Ela disse, terminando de passar pó no rosto da mulher parcialmente desacordada.

— Não parece se incomodar. — Ele disse, colocando a calcinha no corpo amolecido e resmungão na maca. Pegou o sutiã e com a ajuda de sua colega, colocou e abotoou ele em Annika. Para finalizar, retiraram a presilha de cabelo.

— Se eu tivesse escolha eu não estaria aqui, mas eu tenho dívidas e filhos pra criar! — Disse furiosa para aquela insinuação.

— Desculpe, eu só odeio fazer isso. — Ele disse, cabisbaixo.

Nenhum deles tinham escolha, suas vidas dependiam daquele trabalho — literalmente. — Desde de devedores a viciados, nenhum deles tinham expectativa de vida.

  O homem olhou para Annika com um olhar triste. Annika estava tragicamente deslumbrante.

— Me deixem. — Annika resmungou, balançando a cabeça de um lado para o outro, tateando o ar, procurando ao que se agarrar. Os dois suspiraram, sentindo pena dela e de todas as outras que entraram naquela sala hoje.

  O homem secou seu cabelo umedecido pelo processo de banhar o corpo de Annika e vestiu seu paletó cinza, abotoando para esconder os respingos de água em sua blusa branca.

  Annika foi pega no colo e carregada pelos corredores juntamente de outras garotas — igualmente sonolentas — para a entrada do palco. Dez homens se enfileiraram carregando mulheres de diversas etnias — Annika sendo a terceira na fila — para entrar no palco que tinha suas cortinas ainda fechadas e luzes apagadas.

  Uma mulher elegante, alta e bem-vestida se aproximou dos homens. Olhou o rosto de cada uma das dez mulheres, organizando a ficha delas pela ordem em que se encontravam na fila. E com um sorriso, se direcionou ao centro do palco.

  É hora do show.

  No centro do palco, uma cama de casal com lençóis vermelho estava levemente inclinada para frente, para que as pessoas da plateia pudessem ter o vislumbre das mulheres que ficarão postas ali.

  O primeiro homem da fila levou a mulher asiática com cabelos negros. Colocou-a com cuidado e algemou os pés e mãos do corpo dormente. Quando terminou, as luzes se acenderam e as cortinas se abriram.

— Boa noite, caros compradores. Como sempre, é uma honra ter a presença de vocês no nosso evento anual. — Ela falava com elegância e sofisticação, andando pelo palco mostrando uma presença imponente, segura de si. — Sei que vocês odeiam enrolações, então comecemos o nosso leilão.

  Ela sorriu, olhando a ficha da mulher presa a cama. A cabeça dela tombada para frente impedia que os homens e mulheres na plateia vissem seu rosto delicado e deslumbrante. O homem encarregado por ela tratou de erguer sua cabeça.

— Com apenas dezoito anos e vinda diretamente da Tailândia, Malee pesa quarenta e cinco quilos, tem um metro e sessenta, calça trinta e sete e ama fazer academia. — Ela leu a ficha com certo desdém, claramente o que aquela menina gosta não importa ali, mas porque não fazer uma apresentação rica em detalhes? — O valor inicial é de cem mil euros.

  Os lances iniciaram. A maioria deles dados por mulheres mais velhas, os homens não estavam interessados na moça asiática.

— Quatrocentos e cinquenta mil! — Uma socialite jovem e novata no evento gritou, determinada a ficar com Malee.

— Alguém da mais? Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três. Vendido para senhorita L. — A show woman finalizou com alegria. — Você pode ficar e tentar comprar mais uma ou pode levá-la para um teste drive. — Falou com malícia e a mulher da plateia se empolgou, levantando-se de seu assento.

  Malee foi retirada de suas algemas e levada para fora do palco. Senhorita L ansiava para conhecer aquela mulher mais de perto.

  A segunda mulher foi colocada na cama. Vestida numa camisola sensual, negra de pele retinta, com coxas grossas e bem torneadas, mais lúcida que as outras. Chegara antes de todas, tempo suficiente para o efeito do clorofórmio passar. Ela se debateu, tentando sair das algemas, mas já era tarde demais.

  O valor inicial foi de em quinhentos mil euros. Mulheres negras valem mais, aqueles lobos na plateia sentiam como se voltasse aos velhos tempos onde podiam comprar corpos negros para satisfazerem suas vontades.

  Kahina foi levada por um três milhões e oitocentos.

— Uau! Será que teremos um valor maior que esse esta noite? — Disse entusiasmada.

  Annika já estava sendo posta na cama, seus olhos molhados pelas lágrimas, mas incapaz de protestar sobre alguma coisa. Ela sequer entendia o que estava sendo dito. A luz em seu rosto fez os olhos arderem ainda mais.

  Tudo o que ela enxergava eram borrões na plateia, e a mulher a sua frente no palco. Ela queria vomitar.

— Esta é Annika, uma artista, e melhor ainda... — Fez um breve suspense antes de continuar a falar — Brasileira! Há anos não tínhamos uma brasileira em nossos leilões, não é mesmo? Ela tem vinte e cinco anos, um e setenta e cinco de altura e pesa cinquenta e cinco quilos, magrinha como os senhores gostam. Começaremos também com quinhentos mil euros.

  O falatório começou, Annika sendo disputada entre os homens e as mulheres daquele lugar como se fosse uma peça exclusiva de leilão e de certa forma, ela é.

  Da plateia, o homem que se manteve quieto durante todo esse tempo, levantou-se, dando o maior valor até então.

— Cinco milhões de euros. — Ele falou, calmo, confiante de que ninguém daria um valor maior.

  Mas estava errado.

— Cinco milhões e oitocentos. — Um rapaz jovem que acabou de ganhar sua fortuna, gritou, determinado a levá-la consigo e claro, determinado a competir com o veterano.

  A mulher no palco se deleitou com aquela disputa.

— Temos o valor final? Cinco milhões e oitocentos? — Seu sorriso tomava conta do rosto, indo de orelha a orelha.

— Dez milhões! — Disse o primeiro, fazendo todos exasperarem.

— Alguém da mais? — Ela perguntou, ninguém se atreveu. — Vendida para o senhor D, que há anos não participava de nossos eventos.

  Sem cerimônias, ele saiu de seu lugar em meio aos aplausos e se direcionou para os bastidores receber sua peça limitada. Já familiarizado com o teatro, soube bem onde pegar seu produto.

  Ele se direcionou para os fundos do teatro. Subiu as escadas que o levou até andar superior. Ele caminhou calmamente pelo corredor de carpete vermelho no chão — que julgava extremamente de mau gosto — até a porta guardada pelo rapaz de terno cinza. Quando se aproximou, aquele que estava entristecido pelo que está prestes a acontecer com Annika, apenas se retirou. 

  Jamais ficaria para ouvir os gritos e protestos da mulher.

  Senhor D entrou no cômodo, deparando-se com Annika sentada na cama com as mãos postas em seu rosto, chorosa. Sua cabeça começava a ganhar lucidez, mas por um instante desejou voltar a ficar grogue novamente.

  Com o bater da porta, Annika ergueu a cabeça e, apavorada, rastejou no colchão para o mais longe que a cama permitia ficar daquele homem, encolhendo-se contra a cabeceira e abraçando um travesseiro contra seu corpo para cobrir-se. Sua cabeça estava pesada, sentia-se suja.

  Sem cerimônias, tirou seu paletó e arremessou em sua direção.

— Enfile ça — Ele ordenou, fazendo-a franzir a sobrancelha ao não entender o que foi dito. — Vista-se. — Repetiu em inglês.

  Cautelosa, Annika vestiu o paletó. Com os olhos fixos no homem, com medo de que ele fizesse algum movimento brusco na direção dela. Se encolheu dentro da roupa, com os joelhos dobrados contra o peito.

— Levante-se. — Ordenou, impaciente.

  Assustada, se levantou da cama, segurando o paletó na frente para que ele não tivesse o vislumbre de seu corpo seminu, e, sem escolhas, foi lentamente na direção daquele homem, sentindo as pernas fracas.

  Ele colocou sua mão sobre a nuca de Annika, guiando-a pelo local como se fosse um cachorro. Ela chorou em silêncio até o estacionamento coberto do teatro, controlando os soluços para que o homem não o notasse.

  O barulho dos sapatos sociais do homem colidindo contra o chão e ecoando pelo estacionamento deserto causou uma inquietude irracional em Annika, sentindo-se num filme de terror, olhou em volta, desejando que um assassino a matasse antes que aquele homem a tocasse de maneira imprópria.

  Mas ninguém apareceu. Ninguém aparecerá para livrá-la de seu destino.

  Próximos do carro, o rádio ligado em som ambiente é possível ser ouvido do lado de fora. O senhor de meia idade sentado no banco do motorista do carro luxuoso consertou sua postura relaxada quando o comprador de Annika deu batidinhas contra o vidro.

  Contra sua vontade, Annika foi empurrada para o banco traseiro do carro. Ela se encolheu, colada contra a porta oposta a que o homem estava. Tentando evitar aproximação enquanto pudesse.

  Assim, saíram dali. Annika derrotada e o homem imerso em seus próprios pensamentos.

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