Capítulo 10: É Assim Que Me Agradece?

...𝐴𝑛𝑛𝑖𝑘𝑎 𝐻𝑎𝑟𝑑𝑒𝑛 ⸙...

Ela me olhou assustada, com os olhos arregalados para o meu pedido. Passei as mãos pelo meu cabelo e o prendi, sentindo meu corpo começar a esquentar de suor. Ela apenas ficou me observando, imagino que para ela, eu pareça completamente descontrolada. Tentei organizar na minha cabeça uma explicação minimamente válida, que não parecesse delírio, mas nada veio à mente a não ser a mais pura verdade.

— Qual o seu nome? — Perguntei.

— É Ana.

— Olha, Ana, você é francesa? — Perguntei, juntando as mãos em frente ao rosto enquanto falava.

— Não, sou de Portugal.

— Perfeito, eu sou do Brasil, podemos conversar sem que nos entendam! — Falei animada. — Ana, eu fui enganada no meu país e trazida para cá. Fui literalmente comprada por aquele homem que está lá fora, eu não tenho celular, muito menos uma forma de pedir ajuda. Você é minha única saída. — A bombardeei de informações, tentando manter a calma, mas pareceu piorar, olhei de relance o meu reflexo e eu parecia completamente fora de controle.

— Senhorita, fique calma, eu vou chamá-lo para lhe ajudar. — Ela disse e fez menção de sair.

Em completo nervosismo, agarrei-a pelo colarinho de seu blazer e a empurrei contra a parede do provador, fazendo-a gritar de susto. Tapei a sua boca, seus olhos estavam arregalados.

— Não! Não faça isso, por favor. — Supliquei num sussurro. — Só chame a polícia, ninguém saberá que foi você quem chamou, é a única coisa que eu lhe peço!

  Ela me olhou, atordoada, mas balançou a cabeça positivamente. Lentamente, eu libertei-a das minhas mãos e ela escorregou pela parede até a porta do provador e saiu correndo, pude ouvir os seus saltos baterem contra o piso.

Senti que minhas chances se resumiram a zero nesse momento, ela não vai me ajudar, merda! Chutei a parede do provador, tremendo em desespero.

  Respirei fundo, segurei o ar por uns segundos e soltei, tentando voltar a apatia de antes. Me encarei no espelho e sequei as lágrimas teimosas com minhas mãos completamente trêmulas, as sacodi no ar, tentando tirar esse sentimento de mim por alguns instantes.

  Me despi — ficando com o short que estava por baixo da minha roupa — e catei o vestido preto com colar para vestir. Se meu pedido de ajuda não funcionar, preciso ao menos fingir que nada ocorreu nesse meio tempo. O vestido é bem simples e não ficou tão ruim quanto imaginei que ficaria em mim, caiu bem em meu corpo.

  Saí do provador e caminhei de volta para a loja, Damian estava sentado em um dos sofás com as pernas cruzadas, apenas aguardando por mim. Quando percebeu a minha presença, ele me encarou por longos segundos, me deixando constrangida. Enquanto ele tecia elogios ao vestido, me alienei por um tempo a procura da menina que pedi por ajuda, e ela não estava em nenhum lugar da loja.

Meu Deus, ela deve estar fofocando com as outras mulhedes sobre como eu sou descontrolada.

— O que você achou dele? Quer levá-lo? — Dei de ombros para a pergunta e o mesmo revirou os olhos, insatisfeito. — Vai experimentar os outros. — Ordenou e eu voltei para o provador.

  Tirei o vestido rápido e peguei um marrom, bem feio diga-se de passagem, não gostei dele nem no manequim. O vesti e voltei depressa para o lado de fora dos provadores, Damian torceu o nariz quando me viu no vestido e eu balancei a cabeça em concordância para a sua cara de nojo.

  Sondei o lugar mais uma com os olhos e quando encontrei a menina, ela estava saindo dos fundos. Nossos olhares se encontraram e ela e balançou a cabeça discretamente. Ela chamou a polícia, senti vontade de gritar de felicidade ao saber que atendeu ao meu pedido. Corri de volta para o provador, agora só preciso enrolar tempo o suficiente até a chegada da polícia.

  Dei pulinhos de felicidade, controlando-me para não berrar em plenos pulmões. Tirei o vestido horroroso de cor marrom e coloquei o preto na qual vim vestida e esperei.

  E esperei.

  Vários minutos se passaram, e a aflição me tomou novamente, com medo de que eu tivesse entendido erroneamente o aceno de cabeça de Ana. Mas como uma resposta para as minhas dúvidas, leves batidinhas foram dadas na porta e eu abri, dando de cara com ela.

— A polícia está aqui, senhora. — Ela informou.

Corri para fora do provador, ela caminhou ao meu lado o mais rápido que pôde para me acompanhar.

  No meio da loja, dois policiais conversavam com as atendentes que mostravam uma nítida confusão com a entrada deles ali, pois nenhuma delas haviam acionado o serviço policial.

Damian, que tinha metade do seu corpo virado para trás, observando a confusão, virou-se, olhando-me nos olhos. Seus lábios se repuxaram num sorriso diabólico, ele sacou na hora o que estava acontecendo. Damian apenas continuou sentado, como uma estátua dura e fria, me encarando com um olhar desafiador.

  Avancei em direção aos policiais, parando diante deles com pensamentos tempestuosos. Respirei fundo e tentei ser breve.

— Me ajudem, por favor! Os senhores falam inglês? — Perguntei, desesperada. O mais jovem deles assentiu e o outro apenas balançou a cabeça de um lado para o outro, indicando que falava mais ou menos — Eu preciso que me salvem daquele homem — Anunciei, apontando para onde Damian estava, agora de pé e com seus os braços cruzados, fazendo as atendentes exasperarem surpresas.

  Me olharam contrariados, mas assentiram e se puseram a caminhar na direção de Damian. Eu os acompanhei como um cachorro amedrontado, me mantendo atrás deles, sentindo uma pontada de felicidade por ter conseguido.

— Senhor, recebemos uma denúncia — um deles falou, olhando para seu parceiro de trabalho com um olhar cheio de dúvidas. — Podemos revistá-lo?

— Claro, mas eu poderia saber por qual razão? — Damian perguntou, se levantando e colocando as mãos atrás da cabeça e abrindo as pernas para o policial averiguar.

Ele foi apalpado de cima abaixo.

— Limpo. — Anunciou.

— Alguém alegou ter um sequestro, mas não vejo nada parecido com um por aqui. — Ele olhou em volta, estranhando a calmaria.

— Esse homem me sequestrou, me mantém presa na casa dele e não me permite sair! — Praticamente berrei, mostrando todo o meu desespero para aqueles que me encaravam.

— Olha, me desculpe senhorita, mas você me parece bem livre para mim... — O policial mais velho, que o revistou disse, me deixando ainda mais furiosa.

— Senhorita, posso falar com você um instante, em particular? — O outro se aproximou de mim, eu assenti e ele me puxou para longe de Damian. — A senhora está sobre uso de entorpecentes?

Sua pergunta me ofendeu completamente.

— Não! Eu estou dizendo a mais pura verdade, por favor senhor, vocês precisam me ajudar. — Eu choraminguei, me vendo sem saída mais uma vez.

O outro policial, que trocava palavras com Damian logo ali, se aproximou de nós dois. Tocou o ombro de deu parceiro e sussurrou algo em seu ouvido.

— Lefèvre? — Ele exasperou, preocupado.

  Foi aí que percebi que qualquer chance que eu tinha de pelo menos ser ouvida numa delegacia, foi por água baixo. Ele me olhou por um breve segundo e caminhou de volta para Damian.

— Peço desculpas por este transtorno, senhor Lefèvre. — O ouvi se desculpar.

Ah, fala sério!

— Vocês estão brincando? — Eu esbravejei. — Vão tomar no cu de vocês, papo reto. — Falei na minha língua nativa, eu estou furiosa e preciso por isso pra fora.

— Sinto muito por essa situação, muito mesmo. Os senhores poderiam me acompanhar até o estacionamento? Lá poderei explicar tudo. — Damian disse, com as sobrancelhas juntas numa cara de dar pena.

Eles assentiram ao pedido como cães obedientes. Damian se desculpou com as funcionárias da loja, falando algo em sua língua que não pude compreender, fiquei revoltada. Ana olhou-me com pena após o breve pronunciamento de Damian.

  Os policiais pediram para que eu fosse na frente e mantiveram Damian distante de mim.

  Descemos as escadas e quando chegamos no andar debaixo, me pus a correr como louca, desviando das poucas pessoas que entravam no meu caminho. Não consegui chegar na porta principal do shopping, os dois policiais me agarraram pelo braço e exigiram que eu mantivesse calma enquanto eu me debatia e atraía olhares chocados na minha direção.

  Fui arrastada contra a minha vontade até a escada rolante que nos levou até o estacionamento.

— Me solta! — Gritei.

  Damian os guiou até o carro e eu fui arrastada contra a minha vontade até lá.

  Ele abriu a porta do passageiro, assustando seu motorista que comia um hambúrguer dentro do carro, completamente alheio ao que acontecia do lado de fora do veículo, e pegou algo dentro do porta-luvas.

Em seguida, ele voltou para nós com papéis em mãos.

— Sinto muito por isso, é sempre um constrangimento. — Mostrou tristeza no olhar, me deixando pasma. — Ela é minha esposa, é diagnosticada com esquizofrenia. — Ele estendeu os papéis para os policiais, que me largaram para lê-lo. Meu sangue gelou em minhas veias, senti meu corpo tremer dos pés à cabeça. — Ela confunde as coisas, há vezes que não me reconhece e pensa ter sido sequestrada, perdi a conta de quantas vezes procurei por ela pelas ruas por ter fugido sozinha de casa. — Sua voz embargou, e descaradamente, uma lagrima escorreu e ele tratou de varrê-la para longe.

— Sinto muito por isso tudo, senhor Lefèvre. — Um deles lamentou, devolvendo os papeis.

— Espero que as coisas melhorem, de alguma forma. — O outro falou.

  Fiquei paralisada enquanto os dois iam embora.

  Desabei completamente, caindo de joelhos no chão ao ver minha única chance se esvair pelos meus dedos como areia ao vento.

Eu gritei até que minha garganta não aguentasse mais e minha cabeça começasse a doer, desejando que alguém visse essa cena e fizesse alguma coisa. Damian colocou as mãos embaixo dos meus braços, me erguendo com facilidade, e me jogou dentro do carro.

— Vamos para casa. — Disse calmamente.

  Coloquei os pés para cima no banco e me encolhi.

  Chorei todo o caminho para a casa dele, me esgoelando como uma criança desesperada, tremendo dos pés à cabeça. Não pelo que passei no shopping, mas pelo que poderia vir quando chegarmos, apavorada com o que Damian é capaz de fazer.

  O sol já se punha quando o carro subiu a rua.

  Rapidamente estávamos em frente ao portão da mansão, adentrando o jardim e depois estacionados em frente à entrada da casa.

  Damian saiu primeiro e abriu a porta do meu lado, me puxando bruscamente pelo braço, seus dedos me apertaram o pulso com força e ele me arrastou escada acima, ignorando os olhares assustado daqueles que passavam pelo hall de entrada. Tentei me soltar, mas quanto mais eu me mexia, mais ele espremia o meu braço.

  Abriu a porta do quarto e me arremessou para dentro, por sorte, eu caí contra a cama. Ele avançou para cima de mim, agarrando nos meus pulsos quando os coloquei contra o rosto assustada.

— Você ficou maluca? — Ele falou entredentes, com o rosto absurdamente perto do meu. Tentei proferir um pedido de socorro, mas o soluço e os lábios trêmulos me impediam. — Você pensa que eu sou burro ou o que, caralho. — Ele gritou, fazendo saliva voar contra o meu rosto.

  Ele apertava meus pulsos com tanta força que eu já não sentia mais minhas mãos.

— Por favor. — Implorei e ele riu.

— Agora você chora, não é? — Ele aproximou ainda mais o rosto e eu virei o meu, amedrontada.

  Ele me largou na cama e se levantou.

— Estou sendo legal com você e é assim que me agradece? — Ele falou incrédulo, andando de um lado para o outro no quarto. O segui com o olhar, com medo de perdê-lo de vista. — Tentei ser agradável, mandei pessoas checarem você nos dias em que estive trabalhando. — Gritou e avançou para a cama de novo, me fazendo gritar de medo, mas ele parou no pé, com os olhos cheios de fúria. — Eu me preocupei e é assim que me agradece? Me responde, porra!

Agarrei no travesseiro e arremessei contra ele, num grito gutural.

— EU ODEIO VOCÊ! — Eu gritei em meio ao choro, só querendo que isso acabe de uma vez.

Ele ficou me encarando, bufando como um touro. Seus olhos azuis agora completamente negros e a veia de sua testa saltada, seu peito subindo e descendo descompassadamente mostrava que estava ofegante.

  Ele levou a mão aos olhos, esfregando-os como se tentasse recuperar a calma.

— Só não faz essa merda de novo. — Ele falou derrotado, pegou o travesseiro do chão e colocou sobre a cama antes de sair.

  O arrependimento me tomou quando fui deixada sozinha no quarto iluminado pelo que restava do sol no horizonte. Afundei minha cara no travesseiro para abafar os meus gritos de ódio.

  Burra. Burra. Burra.

  Soquei a cama com raiva de mim mesma. Minha cabeça tão atormentada que não consegui distinguir qual sentimento predomina em meu peito, se é o medo ou a impotência.

  Preciso acordar para a realidade.

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railza

railza

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2025-01-06

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