...𝐴𝑛𝑛𝑖𝑘𝑎 𝐻𝑎𝑟𝑑𝑒𝑛 ⸙...
A semana correu bem, melhor do que eu esperava. A cada dia que passava, Damian contava um pouco mais sobre si e sobre aqueles da família que não estão mais entre nós, - como seus avós. Infelizmente, percebi que ele era quase tão sozinho quanto eu, a diferença é que Damian ainda tem o irmão consigo, mesmo que não morem sob o mesmo teto ainda mantém a comunicação e a irmandade.
Estou começando a vê-lo com outros olhos
Faltam algumas horas para o tal jantar da amiga de Damian, e a ansiedade é tremenda. Não faço ideia de como me portar muito menos do que vestir, e são apenas nove horas da manhã, e o evento acontecerá às dez horas da noite.
Entretanto a ansiedade não se dá apenas para isso, mas para conhecer Victor. Por alguma razão, estou preocupada sobre o que ele pensará de mim.
Algumas horas atrás, antes de sair, Damian informou que seu irmão chegaria na hora do almoço, e desde então estou nervosa. Mesmo que Amélie diga que ele é um "gay incrível", já que teve o privilégio de encontrá-lo diversas vezes nos anos anteriores e eu espero de coração que ela não esteja mentindo.
Por agora, tenho outras preocupações.
Encarei todas as minhas roupas jogadas em cima da cama, me perguntando qual tipo é apropriada para um jantar. Levando em consideração que Damian não é uma pessoa comum, um short está fora de cogitação, então os tirei da cama, colocando-os de volta na gaveta. Sobraram os vestidos, coloridos, de cores neutras, cores frias e quentes, estampados.
Por Deus por que ele comprou tanta coisa? Eu não uso metade, passo a maior parte do meu tempo de pijama dentro dessa casa.
— Annika! — Meus pensamentos foram roubados pelo grito abafado do meu nome no andar de baixo.
Reconheci a voz e saí do quarto às pressas para saber o que se passava, Damian nunca berrou o meu nome desse jeito e também não pensei que chegaria tão cedo.
— Oi? —Eu gritei das escadas e desci os degraus correndo, fui até sala de estar, imaginando que estaria por lá, mas a encontrei vazia.
Dei meia volta, voltando ao hall para ter o vislumbre dele carregando quatro malas, duas embaixo de cada braço e duas de rodinhas em cada mão. Corri para ajudá-lo e livrei seus braços do peso, Jesus e que peso.
— Quem está de mudança? — Perguntei em tom brincalhão.
— Mudança? Essa é minha casa. — A voz grave tomou a frente na resposta, me fazendo franzir o cenho. Encarei a figura na porta e logo saquei quem era.
Victor Lefèvre.
— Victor. — Damian falou em repreensão.
— Prazer, sou Victor, e você é a nova namoradinha do meu irmão. — Ele se aproximou sorrindo.
Primeiro, fiquei abismada com a sua beleza e depois com a certa semelhança que tinha com Damian. O formato dos olhos e o queixo são exatamente iguais.
— Annika Har-Perez. — Gaguejei, quase cometendo uma falha e trocando os nomes, Damian e eu nos entreolhamos por um breve segundo e eu espero que ele me agradeça mais tarde.
— Não sabia que gostava de mulheres de cor, irmão. Levando em consideração que todas que entraram aqui eram mais pálidas que mármore, acrescentar um pouco de cor ao seu cardápio fez bem. — Ele disse, fazendo Damian dar um riso forçado e balançar a cabeça. — Quanto tempo juntos?
A pergunta me fez olhar para Damian.
— Um ano. — Damian tomou a frente.
— E você a escondeu de mim por um ano? — Ele colocou a mão na cintura, o encarando indignado. — Se eu não aprovar, você sabe que ela vai pra rua, não é? — Ele apontou.
Me mantive observadora, sem dar uma palavra.
— Só espero que essa seja melhor que a última. Que Deus a tenha, ou o diabo. — Ele disse e fez o sinal da cruz. — Vamos, Damian, quero meu quarto de volta.
— Sobre isso... — Damian coçou o bigode, e foi a primeira vez que o vi desconcertado.
— O que foi dessa vez? Eu ainda não perdoei você por ter tomado posse dele da última vez. —Ele falou, largando as malas.
— Não tem problema algum, ele meio que virou o meu estúdio, mas eu retiro as minhas coisas de lá. — Falei nervosamente. Porque estou me preocupando em dar desculpas e ajudar Damian? Eu só posso ter perdido um parafuso.
Damian, surpreso pela minha resposta, tratou de pegar as duas malas de mão e subir com elas em direção ao meu quarto com Victor logo atrás. Meu corpo inteiro estava suando, minhas axilas estavam encharcadas e tudo por causa de uma mentira que eu sequer tinha a obrigação de ter contado.
Abri a porta do meu quarto para os dois entrarem e Victor parou para olhar a bagunça em cima da cama. Dei um sorriso sem graça e catei todos os meus vestidos e corri ao guarda-roupa para pendurá-los.
— O que são essas caixas? — Ele apontou para as caixas de papelão ao lado da escrivaninha.
— Tinta, caneta, coisas pra ela trabalhar. — Damian falou, deixando as malas ao lado da cama.
Continuei pendurando cada peça de roupa, afobada. Parece que não acaba nunca, senhor. Ouvi o ranger típico da gaveta da penteadeira e olhei para a direção, aflita. Victor a abria e tirava de lá um maço de papel, folheando-os com uma expressão enigmática.
— Parece que alguém é a musa inspiradora de outro alguém? — Ele disse com um sorriso travesso e ergueu um dos meus desenhos do rosto de Damian. —Ela melhorou sua cara nesse.
Engoli em seco, sentindo meu corpo inteiro esquentar. Caminhei rapidamente até ele e tomei os desenhos de suas mãos.
— Era surpresa. — Inventei. Abri a gaveta da penteadeira para pegar o restante dos desenhos percebendo que tive sorte o suficiente para que ele não pegasse os piores. Acarretaria em muitos questionamentos.
Fui para a escrivaninha, trancando-os dentro da gaveta com chave, sem me esquecer de escondê-la dentro do meu sutiã discretamente.
— Por que suas roupas estão no meu armário? — Ele apontou, curioso.
— Não tinha espaço no meu guarda-roupa, então ela trouxe pra cá. — Damian respondeu, fiquei grata pois nada me veio à mente.
Victor se jogou na cama e cruzou as pernas. Me esgueirei até estar ao lado de Damian, ficando próxima a porta para poder sair assim que seguro. Se eu estava com medo do que ele pensaria de mim antes, agora estou com vontade de vomitar depois desse breve bombardeio de mentiras.
— Preparada para conhecer Vivienne? — Victor perguntou, seu sorriso me fez ficar desconfiada.
— Eu deveria me preparar? — Arqueei a sobrancelha. Victor olhou para Damian indignado e ele coçou a barba, desconcertado de novo.
— Você não contou a ela? — Ele balançou a cabeça em negação, estalando a língua no céu da boca repetidas vezes. — Vivienne é apaixonada pelo meu irmão, eles tiveram um casinho há anos atrás e ela não superou.
— Não foi um caso, Victor. — Damian falou, passando a mão no rosto.
— Ah, mil perdões — ele levou a mão ao peito como se estivesse arrependido — eles foderam.
— Foi numa bebedeira e foi há anos atrás. Ela está casada agora. — Ele disse, nitidamente nervoso. Então essa é a dinâmica entre irmãos?
— Você sabe muito bem que marido nunca foi um empecilho para ela quando o assunto é você. — A voz de Victor estava cheia de malícia e maldade, ele veio disposto a testar a paciência.
Okay, o jantar é na casa de um antigo affair, ou foda, seja lá o que for, eles tiveram algo. E como eu deveria agir sobre isso? Ficar irritada? Enciumada? Fazer piada? O que uma pessoa num relacionamento de um ano faria ao descobrir algo assim?
Devido fazer o que me pareceu sensato e saí do meu quarto, atravessando o corredor para o dele. Bati a porta e esperei.
Damian entrou segundos depois e fechou a porta.
— Me desculpa por isso, e sobre a Vivienne... — ele tentou começar a se explicar, mas ergui a mão para que ele ficasse quieto.
— Eu não quero saber de Vivienne, Damian. — Sussurrei, com medo de que Victor ouvisse do outro quarto. — Você disse que ele vinha para o almoço!
— Sim, eu sei. Mas ele me ligou e pediu pra eu ir buscá-lo. — Ele se aproximou de mim com cara de cachorro arrependido.
— Eu não sei por que estou me importando em te ajudar nessa mentira, eu deveria gritar a verdade pra todo mundo ouvir. — Sussurrei raivosa.
— A escolha é sua Annika, eu já disse! — Ele sussurrou de volta.
A porta do quarto abriu e Victor invadiu sem pedir licença. Nossas posturas mudaram quase que imediatamente, Damian se pôs logo ao meu lado, próximo demais.
— Olha, me desculpa, eu fui babaca. Não deveria ter falado daquele jeito, só imaginei que você fosse mais uma vagabunda pobre que tenta dar um jeito de se aproveitar da nossa família. — Ele disse, fiquei pasma com as palavras. — Não que eu não pense que você é pobre e que pode ter algo dentro de você que queira de fato se aproveitar da nossa família, mas vagabunda você não parece ser.
Agora sei de onde veio a falta de tato e a indiferença em como as palavras podem afetar as outras pessoas. Isso é de berço, tá no sangue deles. Como pode? Ele nem me conhece!
— Já deu, não acha? — Damian falou.
— É só que, porra, eu vi como você ficou depois da última. Tudo bem, ela morreu, mas de certa forma foi embora. Eu só não quero você sendo um merda pra fingir que não tem sentimentos de novo! — Ele nos bombardeou com palavras e eu fiquei sem as minhas.
Essa é a tal namorada que Vincent falou há meses atrás. O falecimento dela deve ter destruído mesmo o Damian. Que merda, agora eu estou com pena dele.
Respirei fundo, tentando levar oxigênio o suficiente para o cérebro que me ajudasse a assimilar. Eu não acredito no que eu vou fazer.
— Victor, pode ficar tranquilo que a última coisa que eu quero é me aproveitar do seu irmão. Ele sabe muito bem que se dependesse de mim eu estaria na minha apertada, deitada num sofá vendo alguma novela mexicana qualquer até pegar no sono. — Falei, soltando as palavras mais sinceras em meses, não quero nada que venha de Damian, eu sequer queria estar aqui pra começo de conversa. — Eu nem sabia quem ele era até ser trazida pra cá. E sendo bem sincera com você, eu tô cagando pro legado da família Lefèvre e pro seu maldito dinheiro.
As palavras foram cuspidas como bolas de fogo, senti um alívio imediato ao falar tais coisas. Boa parte delas estavam presas há tanto tempo que pensei que morreria entaladas um dia. Por Deus, eu quero que a família Lefèvre se foda. Um sorriso nos lábios de Victor surgiu para a minha surpresa.
— Você tem potencial para ser a minha favorita, espero que não estrague tudo. — Ele falou e saiu.
Respirei aliviada e me sentei na beira da cama enfiando meu rosto nas mãos.
Acho que Amélie me mandando aproveitar o status de Damian fizeram essas palavras duras ficarem entaladas na garganta. Não me atreveria a falar dessa forma com ela jamais. Ela ficaria chateada e eu magoada por tê-la magoado. Agora, para melhorar tudo, terei que ir a um jantar onde a anfitriã já trepou com Damian e que não respeita o próprio casamento.
A ansiedade aumentou ainda mais agora.
— Esqueci uma coisa no carro, já volto. — Ele disse e eu só ouvi o barulho da porta abrindo e fechando, não levantei a cabeça, apenas continuei com as mãos no rosto para não encarar minha realidade.
Para o meu azar ele não demorou muito e logo a porta do quarto fez barulho de novo, levantei a cabeça para vê-lo com uma caixa nas mãos. Ele se sentou ao meu lado e me entregou, me fazendo lançar lhe um olhar exausto, não aguento mais receber nenhum presente.
Bufei e puxei a corda delicada que envolvia a caixa e a abri, deixando a tampa de lado. Afastei os papéis que cobriam o presente para dar de cara com um vestido da cor vinho.
— Você precisa parar de comprar essas coisas. — Falei e tirei o vestido da caixa, dando uma boa olhada nele. O mesmo possuía alças finas e um decote nas costas, muito bonito.
Me levantei para vê-lo melhor.
O coloquei contra o meu corpo e percebi a abertura na lateral das pernas indo até o meu joelho.
— É para esta noite. — Ele falou, admirando o vestido.
— Preciso te agradecer por isso, não fazia ideia do que por. — Falei, dando-lhe um sorriso leve. Dobrei o vestido e o guardei de volta na caixa.
— E mais uma coisa. — Ele se levantou e abriu a gaveta da mesinha de cabeceira, tirando dali o controle da coleira no meu pescoço. Ele apertou um dos botões e veio até mim, removendo-a do meu pescoço. O olhei espantada e toquei meu pescoço livre daquilo pela primeira vez em meses. — Não faça eu me arrepender.
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Me chequei pela milésima vez no espelho do banheiro do quarto de Damian, me certificando de que o coque no cabelo estava preso o suficiente para não desmanchar daqui algumas horas, precisei usar metade do gel de cabelo dele no meu para manter meus cachos alinhados e pesos. O colar no meu pescoço faiscava com a luz batendo sobre a pedraria e o brinco não fugiu da métrica, este ao menos sendo pequeno o suficiente para não roubar a atenção do restante.
Damian como sempre exagerado em seus presentes.
Para a minha sorte, Victor tinha maquiagens da sua marca dentro de suas malas, foi o que me salvou de não sair com a cara completamente limpa. Fui obrigada a colocar um dos saltos que ganhei de presente de Damian há meses atrás, e eu espero que possa me sentar assim que chegar, pois não sou a pessoa mais apropriada para estar num sapato como estes.
Andei com cuidado pelos corredores, insegura e com medo de cair, senti-me como se estivesse aprendendo a andar. Fui me segurando nas paredes até chegar às escadas, do topo, tive a visão de Victor muito bem-vestido num terno preto elegante, Damian num vinho e o seu rosto livre da barba e do bigode, fiquei surpresa ao vê-lo pela primeira vez assim e em como ele fica muito mais jovem.
Seu terno quase do tom do meu vestido me fez questionar se havia sido de propósito a escolha.
Ele se arrumou no meu quarto, me deixando ter privacidade para me aprontar. Acabou que não tive tempo de vê-lo arrumado antes.
Segurei no corrimão e desci cada degrau com cautela. O barulho do salto batendo contra o piso chamou a atenção dos dois para mim, Victor abriu a boca parecendo chocado e Damian apenas me encarou até que eu estivesse no último degrau e eu me vi distraída com os olhos azuis e o rosto bonito, imediatamente me lembrei de sua foto jovem e que ainda há um pouco daquela energia presente nele, só estava escondido embaixo do bigode.
Confesso que fiquei desconcertada e precisei me concentrar um pouco mais para não tropeçar nos meus próprios pés.
— Estou sem palavras, você escolheu este vestido? — Victor perguntou a Damian, e sem tirar os olhos de mim, ele apenas assentiu, se aproximou e estendeu sua mão para eu pegá-la. Sorri em agradecimento, e, levemente envergonhada, segurei-a.
Ele entrelaçou nossos braços e eu fiquei internamente grata por ter no que me apoiar até o carro, tentando andar sem parecer um pato manco.
Do lado de fora, Damian abriu a porta do carro para mim e eu entrei, tomando o lugar ao lado da janela, ele se sentou ao meu lado e Victor logo ao seu. Esse carro nunca pareceu tão pequeno quanto agora, as duas vezes em que estive dentro dele, Damian ficou num canto e eu no outro e agora estamos mais colados do que nunca.
Acho que vi um espaço sobrando entre ele e Victor, mas não me atrevi a dizer nada.
O motorista de Damian deu partida e manobrou o carro em direção ao portão e saímos. Seguimos para a esquerda, descendo a rua de casas e caindo na principal. Victor se inclinou e pediu para que o homem ligasse o rádio pois o silêncio estava insuportável.
— Está tudo bem? — Damian sussurrou, inclinando levemente o corpo para mim, sacudi a cabeça positivamente. — Parece nervosa.
— Você raspou o rosto. — Sussurrei, encarando os carros andando junto conosco na estrada.
— Está ruim? — Virei a cabeça para olhá-lo e prontamente neguei, a última coisa que está, é ruim.
— Só é diferente.
Nossa breve conversa aos sussurros se encerrou e seguimos em silêncio e apenas o som do rádio tomava conta do veículo.
Demorou pelo menos quarenta minutos para chegarmos. Soube que estávamos no nosso destino quando o carro diminuiu a velocidade e entrou numa fila de outros veículos para seguir até a entrada de uma mansão que, diga-se de passagem, é três vezes maior que a de Damian, e eu já acho a dele um exagero para tão pouca gente morar.
Vivienne deve ser uma mulher de posses ou uma mulher que se casou com muitos homens de posses. Seja lá qual das opções, essa mulher está nadando no dinheiro.
O carro parou na entrada e o vidro ao meu lado foi aberto, por alguma razão me senti envergonhada ao ter meu rosto exposto para outras pessoas. Damian retirou do bolso de seu paletó o convite para o tal jantar e entregou ao segurança pela janela, que o checou e devolveu desejando-nos boa noite. O carro seguiu em baixa velocidade, dando a volta na fonte enorme no centro do jardim e parando em frente à casa iluminada.
Victor foi o primeiro a sair. Fiz menção em abrir a porta, mas Damian me impediu e se retirou, dando a volta por trás do carro e abrindo a porta para mim. Dei um sorriso rápido e segurei em sua mão para poder descer, tomando cuidado com as pedras embaixo dos meus pés.
— Você está linda, Annika. — Victor elogiou ao andarmos os três juntos em direção a entrada da casa.
— Não precisa mentir, Victor. — Falei brincalhona, apesar de concordar um pouco com ele.
— Mentir? Querida, estou procurando motivos para te ofender desde que cheguei, fique feliz por eu não ter encontrado nada ainda. — Ele falou sarcástico. Segurei o riso e balancei a cabeça em negação.
Entramos na casa e eu fiquei embasbacada com o tamanho do lugar parecendo um castelo de filmes de romance. O lustre sobre nossas cabeças me fez imaginar o estrago que ele faria caso despencasse.
Não demorou para que Victor sumisse do nosso lado para conversar com pessoas que ele conhecia e Damian parava de vez em quando para cumprimentar aqueles que o reconheciam. Ele tratou de me apresentar aqueles que se prestaram a parar para trocar mais de duas palavras, desconcertada, apertei a mão de cada um deles, agradecendo aos elogios a minha aparência e ao meu vestido.
Isso era para ser um jantar, mas estou me sentindo num baile de gala. Todos os homens e mulheres muito bem-vestidos, alguns em grupo, conversando e bebendo e outros apenas caminhando de um lado para o outro na enorme sala.
— Damian, lindo como sempre! — A voz feminina exasperou ao tê-lo sob seus olhos, vindo até nós com os braços abertos, uma mulher loira e curvilínea sorria de orelha a orelha com um vestido preto decotado completamente colado em seu corpo. Me perguntei como ela consegue andar quando está praticamente embalada a vácuo.
— Vivienne, como você está? — Ele cumprimentou, abraçando-a brevemente enquanto ela ficava na ponta dos pés para dar-lhe um beijo na bochecha, deixando seu batom vermelho marcado na bochecha.
Então essa é a tal Vivienne.
— Estou divorciada! — Ela levantou a mão esquerda, balançando seu dedo anelar livre de anel. Imaginei que aquilo fosse um recado.
Victor surgiu ao meu lado com duas taças de bebida me estendendo uma. Não hesitei em pegá-la e começar a beber, só com álcool na cabeça para suportar este lugar que eu claramente não pertenço. O desconforto começava a tomar conta.
— Victor, você veio mesmo, quando Damian falou eu não acreditei. — Ela falou empolgada e o envolveu num abraço caloroso.
— Vivienne, quero lhe apresentar Annika. — Damian cortou a breve conversa que a mulher entrou com Victor, chamando sua atenção para mim. Ela me olhou e eu pude ver seu sorriso dar uma leve vacilada.
— Prazer, querida. Não sabia que traria uma amiga, Victor. — Ela falou e eu franzi o cenho, o que a faz deduzir que sou amiga dele?
— Annika é minha esposa. — Damian prontificou e Victor que bebia seu champagne se engasgou, fazendo a bebida respingar em seu terno.
— Esposa? — Victor e Vivienne perguntaram em uníssono. Senti vontade de abrir um buraco no chão e me enterrar, por que eu me propus a vir nesse lugar?
— Não sabia que havia se casado. — Vivienne pareceu decepcionada. Imagino que estivesse feliz em anunciar seu divórcio a Damian solteiro, e agora suas expectativas foram por água abaixo.
— Não houve cerimônia. — Damian explicou.
— E pelo visto nem anel de casamento também. — Ela pontuou ao ver nossas mãos livres do acessório.
— O que importa é o documento, um acessório pode se perder, não acha? — Falei gentilmente, tentando manter a minha voz leve.
— Concordo, mas sem um anel, como vão saber que Damian é casado? Poderia gerar constrangimentos ou até dor de cabeça para você. — Ela retrucou, ainda com o sorriso no rosto.
— Mas aí eu teria que ser muito insegura para colocar toda a minha confiança em um objeto, não acha? — Estreitei os olhos. Eu posso até querer que Damian morra na maior parte do tempo, mas eu não vou deixar nenhuma branca entojada falar o que quiser pra mim. Estou cansada desse tipo de gente.
— Espero que esteja certa, querida. Vou conversar com os outros convidados, fiquem à vontade. — Ela disse e tocou o peitoral de Damian antes de sair.
Virei todo o champagne da taça. Preciso de algo mais forte que isso para durar essa noite. Damian passou a mão no rosto na tentativa de tirar a marca de batom, mas ela só se espalhou mais.
— Fiquem aqui, eu vou tirar isso da minha cara. — Ele falou e se afastou de nós dois.
— Esposa? Você definitivamente está tentando dar um golpe. — Victor riu incrédulo.
— Victor, eu não quero dar golpe algum no seu irmão. — Falei exausta.
Um garçom passou por nós e eu tratei de deixar a taça vazia sobre a bandeja e pegar mais duas cheias.
— E quer que eu acredite? — Ele bebericou seu champagne.
— Olha Victor, a sua aprovação não importa para mim, para o seu irmão, talvez. O que você pensa não irá mudar os fatos e nem o meu destino, ficarei com Damian até que Deus, ou seja lá no que você acredite, me faça ir embora. — Falei aquelas palavras me sentindo mal ao saber que meu futuro não depende mais de mim e virei minha segunda taça da noite de uma vez só.
Damian voltou para nós com o rosto devidamente limpo. Lhe entreguei a taça cheia e ele me agradeceu.
Para a minha infelicidade e a de Victor, nada mudará minha história, estou aprisionada. Como eu gostaria de poder voltar para casa sem um centavo do seu irmão o deixando devidamente tranquilo. Outro garçom passou por nós e eu peguei outra taça cheia.
E assim seguimos a nossa noite.
Vivienne dava as caras constantemente para jogar piadinhas a Damian e eu abandonei o champagne quando vi o vinho chegar. Por mais que ela parecesse disposta a me incomodar, os petiscos estavam muito bons para que eu me preocupasse com a sua cara harmonizada. Victor já estava mais tranquilo e já conseguia conversar como uma pessoa civilizada, acho que a bebida o deixou agradável. Quando não aguentei mais ficar em pé nos saltos, Damian guiou-me para os sofás da casa e quando me sentei foi um alívio..
Eu odeio e abomino saltos, me pergunto em que momento as mulheres olharam para essa merda e acharam apropriado colocar nos pés. Que tivessem deixado para os homens como era o objetivo.
Terminei de beber o restante do vinho e entreguei a taça vazia a Damian.
— Eu quero ir embora. — O inglês voou pelos meus lábios, estava incapacitada de raciocinar depois de tantas taças de vinho.
— Iremos logo. — Ele falou e colocou sua mão sobre a minha coxa. Algo dentro de mim esquentou e eu coloquei a culpa no vinho e na vontade de ir ao banheiro.
— Preciso mijar. — Eu falei lentamente, a bebida me deixou sonolenta.
Damian se levantou e me ajudou a fazer o mesmo em seguida e me levou em direção aos banheiros, para a minha tristeza, tive que subir as escadas enormes para chegar neles.
— Estarei lhe esperando aqui. — Ele disse e eu apenas assenti.
Entrei no banheiro e parei de frente ao espelho que cobria toda a parede a esquerda, apoiando-me na pia para desabotoar os meus saltos. Quando toquei o chão com os pés livre dessa tortura, a dor tomou conta da planta dos meus pés.
Deixei os sapatos sobre a pia e fui fazer o meu xixi.
Coloquei a mão por baixo do vestido para abaixar a minha calcinha e depois enrolei o comprimento até a altura da minha barriga e me sentei na privada. Quis gemer em alívio assim que o xixi começou a sair, por Deus eu estava prestes a explodir.
Peguei um pedaço de papel e me sequei. Me levantei puxando a calcinha e soltando o vestido e depois voltei para a pia para lavar minhas mãos.
Catei meus saltos e saí.
No corredor, vi a cena mais constrangedora de toda a minha vida. Vivienne prensando Damian contra a parede, segurando-o pelo colarinho enquanto ele a segurava pelos pulsos. Dinheiro compra tudo, mas caráter e educação não são coisas que você acha numa prateleira qualquer.
Me aproximei dos dois, cambaleando um pouco.
— Vamos? — Falei, ignorando completamente a presença de Vivienne, isso a deixou vermelha como um pimentão. A contragosto, ela se afastou e nós caminhamos de volta ao andar inferior, não me preocupei em calçar os saltos novamente.
Passei a frente de Damian e caminhei diretamente para fora da casa, pisando descalço na grama aparada do jardim. Damian me parou no meio do caminho, segurando-me pelo braço e me puxando.
— Aonde está indo? — Questionou.
— Vamos embora, agora. — Eu falei firmemente me desvencilhando de seu aperto.
— Você não consegue aguentar mais vinte minutos? — Ele voltou a me puxar.
— Você pode ficar se quiser, mas eu vou embora!
— Por que está assim? — Ele franziu o cenho.
— E você ainda pergunta? — O olhei incrédula.
— Está com ciúmes? — Um sorriso traiçoeiro dançou em seus lábios me fazendo odiá-lo.
— Damian, por mim você poderia entrar no cu dessa vagabunda e explodir! Eu só não quero ficar aqui. — Falei entredentes
— Você está sim. — Ele riu me deixando ainda mais furiosa. — Tudo bem, vou chamar Victor e vamos embora.
Ele disse e eu não esperei que dissesse mais nada, apenas cambaleei descalça até o carro estacionado na lateral do jardim. Maurice estava conversando um pouco mais distante com outros homens, então só me encostei no capô e esperei, meu corpo balançava como bambu na ventania.
Não estou completamente bêbada, apenas um pouco alta.
Não demorou muito para que eu os avistasse saindo da casa com a anfitriã os seguindo, gesticulando parecendo afobada. Eles continuaram andando e trocando poucas palavras com ela até chegarem a mim. Damian fez sinal para Maurice que imediatamente veio para nós. Me afastei do capô e fiquei de pé ao lado da porta apenas esperando que o carro fosse destrancado para pular para dentro dele.
— Damian, você não pode ir embora assim. — Ela disse indignada.
— Sinto muito, Vivienne, mas Annika não está se sentindo bem. — Ele inventou e veio para o meu lado para entrar no carro.
— Mas Damian...
— Vivienne, minha mulher não está se sentindo bem e eu vou embora com ela. — Damian a interrompeu antes que fizesse mais drama.
Seu rosto estava vermelho de raiva.
— Crioula. — Eu a ouvi resmungar e virei a cabeça para encará-la. Senti minhas mãos subitamente trêmulas e as fechei em punho. A mandíbula de Damian travou e eu o impedi que dissesse ou fizesse algo segurando em seu pulso quando ele tentou se aproximar dela.
— Você a chamou de que? — Victor se intrometeu, apontando o dedo em seu rosto cheio de plásticas. Tratei de segurá-lo pelo braço e afastá-lo dela, nunca deixei que homens resolvessem meus problemas e não é agora que vou começar.
— Repete o que você falou. — Eu ordenei, parando em sua frente encarando seus olhos verdes.
Ela deu um sorriso irônico e abriu a boca para proferir as primeiras sílabas, mas não deixei que tivesse o prazer de proferi-las. Meu punho esquerdo voou contra seu nariz antes dela conseguir raciocinar. Victor exasperou e colocou a mão sobre a boca, chocado.
Vivienne levou as mãos ao nariz ensanguentado, gritando de dor.
— A crioula aqui vai pra casa, aproveite seu jantar. — Eu falei, dando a ela o meu melhor sorriso, como se a dor no meu punho não estivesse insuportável.
— Qualquer parceria que tínhamos, acabou agora. — Damian deu sua última palavra e abriu a porta pra mim.
Todos nós fomos embora, Victor incrédulo com o que aconteceu, Damian em silêncio e eu me controlando para não me derramar em lágrimas.
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Atualizado até capítulo 31
Comments
Andre Santos
Boa resposta a Anikka deu. Adorei o bofetão ...
2025-01-23
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