Algumas horas depois, Victor invadiu a biblioteca chamando por mim.
— Annika!
Me espreguicei e bocejei, abri os olhos para
vê-lo de bermuda e sem camisa na porta da biblioteca. Esfreguei os olhos, tentando limpá-los, as coisas sempre ficam embaçadas ao acordar. Me sentei, vendo as coisas girarem por um instante e o encarei para entender melhor a situação.
— Aconteceu alguma coisa? — Perguntei.
— Sim, uma coisa gravíssima. — Ele disse aflito, me deixando preocupada e em seguida,
soltou uma risada. — O sol está de matar e você tá dormindo na biblioteca? Vai colocar um biquíni e me encontre na piscina.
Dito isso, ele saiu.
Suspirei, criando coragem para me levantar. Levei bons minutos sentada, com os olhos fechados, pensando se valia a pena ou não. Eu precisava acordar de qualquer maneira, não posso ficar dentro dessa sala pra sempre.
E com esse pensamento, me levantei e rumei para fora do cômodo, me rastejando como um zumbi. Subir as escadas foi outro desafio, praticamente remei para o andar de cima. Aproveitei a ausência de Victor para buscar a minha escova e pasta de dentes no meu banheiro e fiquei por lá mesmo para escová-los.
Jogar água no rosto me ajudou a despertar.
Fui até o meu guarda-roupa, e levei um tempo para encontrar roupas de banho, pelo menos isso Damian não se preocupou tanto em comprar. Encontrei apenas dois biquínis perdidos nas gavetas: um preto e um amarelo.
Optei pelo colorido.
Tirei o meu pijama e vesti o biquíni, tendo um pouco de dificuldade em amarrar a parte de trás do sutiã dele. Voltei ao banheiro só para verificar se ele estava bom e depois saí do quarto, trombando em Damian que se preparava para abrir a porta do quarto.
— Desculpe, não sabia que estaria aqui. — Ele falou e parou por um instante, se afastando e me olhando de cima abaixo.
Abracei o meu corpo, me sentindo envergonhada.
— Nós vamos ficar na piscina. — Falei.
— Que bom que o biquíni serviu, fiquei com medo que ficasse pequeno já que... — Ele fez gestos na frente do peitoral, claramente insinuando que meus peitos são grandes.
— Da pra você me respeitar? — Eu falei, indignada.
— O que foi? — Perguntou, confuso.
Apenas revirei os olhos e caminhei para longe dele, sem a mínima vontade de ouvir sua piadas. Mas ele parecia disposto a me perturbar. Pude ouvi-lo caminhar atrás de mim e em seguida sua mão segurou a minha.
— Ficou chateada? — Ele perguntou.
Franzi o cenho.
— Que bicho te mordeu, homem? — Perguntei, ainda não estou acostumada com essa postura preocupada.
Ele ergueu os ombros.
— Não quis te ofender, as vezes essas coisas só escapam, desculpa. — Ele se aproximou mais e levou sua mão direita a minha cintura.
Engoli em seco e me afastei do seu toque cautelosamente.
— Victor está me esperando, aparece por lá depois. — Fui gentil e desci as escadas correndo.
Merda, se ele continuar agindo assim eu vou acabar ficando maluca.
Saí da casa e apertei os olhos quando o sol forte bateu contra o meu rosto. O dia estava lindo, o céu estava completamente livre de nuvens escuras. Caminhei pelo jardim, contornando a casa até chegar na piscina.
Victor estava deitado em uma das espreguiçadeiras, usando óculos escuros e bebendo algum suco. Aproximei e puxei outra espreguiçadeira, roubando a sua atenção devido ao barulho que ela fez ao ser arrastada.
— Você está linda. — Ele disse, colocando o óculos escuros na cabeça. Se inclinou para o lado oposto, pegando outro copo cheio e me entregou.
— Obrigada. — Falei sem jeito, descobrindo que era suco de laranja.
— Como você está? — Ele perguntou, deixando sua bebida de lado e deitando-se virado para mim.
— Normal, acho que já me acostumei um pouco. — Dei de ombros.
— Eu não fazia ideia, acredite. Jamais pisaria naquela casa se eu tivesse noção, ela sempre me tão bem... — Ele disse pensativo.
— Ela ter interesse em Damian é um ótimo motivo para tratar o irmão caçula dele bem, independente do que ela pense sobre a sua cor. — Dei de ombros.
— É verdade, mas deixa ela comigo. Eu vou afundar ela na merda. — Ele me lançou um sorriso travesso e se levantou. — Vem, você não colocou o biquíni pra ficar sentada aí. — Disse ele, se jogando na piscina logo em seguida.
Deixei o suco sobre a espreguiçadeira e caminhei até as escadas da piscina, descendo devagar. A água gelada me fez estremecer.
— Me conta, como você conheceu meu irmão. — Ele perguntou, nadando até a borda para apoiar os seus braços.
Paralisei e gostaria que fosse culpa da água da piscina gelada. Eu não me preparei para essa pergunta, muito menos Damian planejou comigo essa história.
— Acho que eu e seu irmão temos versões diferentes sobre esse dia. — Falei nervosamente, tentando enrolar para pensar em alguma coisa.
— Disso eu não duvido, mas me conta. Damian deve estar há anos sem um compromisso sério, você é a primeira que eu o vejo se importar depois de tanto tempo.
Se importar? Pigarreei ao ouvir aquelas palavras.
— Eu vim pra cá para estudar, como você sabe, eu faço alguns desenhos, mas parece que o destino tinha outros planos para mim. — Falei, me apoiando na borda ao lado dele. — Nos conhecemos numa galeria de artes... Ele foi bem prepotente, mas acho que o fora que dei nele o fez se apaixonar. — Menti descaradamente.
— O que ele falou pra você? — Perguntou, entusiasmado.
Parei por um segundo, pensando no que ele diria se fosse verdade.
— De primeira eu não entendi, eu não falava francês na época. Mas agora, sei que ele disse que era o meu dia de sorte, pois ele havia me achado bonita.
Victor riu.
— E você fez o que?
— Falei em inglês que não havia entendido, ele repetiu para que eu compreendesse e foi aí que mandei ele se foder.
— Mas no fundo você se apaixonou por mim assim que me viu, admita. — Ouvi a voz de Damian gritar. Nós dois olhamos para cima, a janela do quarto dele fica bem na direção da piscina.
— Ah, claro que sim, não via a hora de me encontrar com o riquinho prepotente de novo. — Disse com sarcasmo.
— Por que você não desce e fica conosco? — Victor convidou.
— Eu adoraria, mas vou ficar trabalhando no meu escritório. Acredito que tenham muito o que falar sobre mim, não quero atrapalhar. — Ele foi irônico e saiu da janela, nos deixando rindo sozinhos na piscina.
Que bom que ele apareceu, isso fez com que mudássemos de assunto.
— Ele sempre foi assim? — Perguntei.
— Ele teve muitas fases na vida, acho que a pior foi quando arranjou a primeira namorada, ele mal tinha tempo pra mim e eu amava passar o tempo com ele. — Victor disse, seus olhos claros ganharam um sentimento novo, estavam tristes. — Quando ela morreu ele se tornou uma pedra de gelo, era quase impossível fazê-lo rir. Isso nos afastou mais do que a minha mudança, eventualmente, parei de vir visitá-lo com frequência.
— Sinto muito.
— Não sinta, querida, não é problema seu. Mas agora ele está feliz, eu consigo ver isso... Só... Não quebra o coração dele, sei que as vezes ele é difícil de lidar... — Ele soltou um riso nasal — Nós somos difíceis de lidar, essa coisa de não saber dosar as palavras e acabar sendo grossos, é de família.
E foram essas palavras que me deixaram extremamente pensativa pelo resto do dia.
Ficamos mais algumas horas na área da piscina, até decidirmos que estava na hora de entrar e tomar um banho para tirar o cloro do corpo. O sol já havia se escondido e o céu já estava escuro, ficamos tempo demais na água.
Cada um de nós fomos para seus respectivos quartos e eu tomei um belo de um banho quente e acabei lavando o cabelo mais uma vez. O cloro o deixou com um aspecto horroroso. Precisei me render aos shampoos de Damian.
Quando terminei, desci para a sala de jantar. E como de costume, os empregados estavam de pé apenas esperando Damian dar a ordem para servi-lo ou se retirarem. Puxei uma cadeira e me sentei ao lado de Victor.
— Boa noite Damian, Victor, Daniel, Jhon e Charles. — Cumprimentei a todos presente, me certificando de não esquecer dos empregados.
Vi Damian pousar os olhos sobre mim brevemente, mas se manteve em silêncio.
Eles não responderam, maslançaram-mem sorrisos gentis.
— Dan, me passa o molho. — Eu pedi, distraidamente, ao ver que o prato de hoje é simples, macarrão com almondegas.
Daniel me olhou com seus olhos marrons arregalados e depois levou a Damian, foi quando percebi o que havia feito. Merda.
— Dan? — Damian falou, com a lateral dos lábios pendidas para baixo e a sobrancelha arqueada. Daniel ficou quieto e me entregou a
molheira enquanto eu colocava o macarrão no meu prato, sem esperar pelos outros na mesa.
— Não seja rabugento, irmãozinho, isso lhe dará mais rugas. — Victor repreendeu com bom humor e eu segurei a risada.
Acho que o pouco de liberdade que me fora dada me fez perder a noção das coisas, estou abusando da boa vontade e da mudança positiva de Damian e talvez isso me cause futuros problemas. Melhor continuar como estava, evitando conversas com os empregados e demonstração de carinho para com eles,
pelo menos na frente do Damian.
Não quero que nenhum deles receba uma bronca só pela minha falta de noção das coisas.
Nós começamos a comer após Damian dispensar todos os que estavam de pé, comemos em silêncio, mas as expressões de Damian durante todo o jantar fez seus pensamentos quase audíveis do lado de fora.
Seu cenho franzia vez ou outra, ele torcia o nariz e as vezes dava um sorriso irônico. Me perguntei se Victor também percebeu as
expressões mudando constantemente, quase como se estivesse num diálogo interno.
Diálogo esse que parecia atormentá-lo, já que a cara de bravo estava constante desta vez. Segurei a risada durante os minutos que sucederam e fui a primeira a terminar de comer, como sempre a comida estava uma delícia, Daniel nunca decepciona. Permaneci sentada, esperando que os outros dois na mesa terminassem de comer.
— Victor, sairei hoje com a Annika. Você consegue se virar sozinho por aqui? — Ele perguntou, limpando o canto da boca com o guardanapo.
Victor assentiu, concentrado em seu prato.
— Se quiser pode subir para começar
a se arrumar, Annika.
Ele falou e eu balancei a cabeça e me levantei, como de costume, carregando o meu meu prato vazio comigo e o levando até a cozinha antes de subir as escadas para o meu quarto.
Abri meu guarda-roupa e peguei aquele
vestido preto com colar que Damian quis me dar no dia que fomos ao shopping pela primeira vez.
Um arrepio subiu pela minha espinha ao me lembrar daquele dia, eu já havia esquecido daquilo e do que aconteceu depois da minha tentativa falha de fugir. Balancei a cabeça para espantar os pensamentos e manter as
memórias ruins escondidas como estavam.
Saí dali e fui para o quarto de Damian me trocar.
Tirei as roupas confortáveis e as joguei em cima da cama, ficando apenas de calcinha. Aproveitei para procurar os meus sapatos, lembro-me que os joguei em algum lugar, mas ao olhar em volta, não os encontrei.
Fui até o guarda-roupa de Damian e o abri, caçando junto aos seus sapatos, os meus saltos. Por mais que eu não goste, os saltos parecem ser mais apropriados que um tênis, ainda mais para usar com esse vestido. Os avistei brilhando atrás de um dos sociais de Damian e os peguei.
Para a minha sorte, a porta se abriu, me dando um susto.
— Jesus Cristo! — Damian soltou ao me ver semi nua diante dele. Senti meu corpo inteiro ficar quente de vergonha com seus olhos sobre mim — Eu esqueci que estaria aqui, perdão. — Ele falou, levantando a cabeça e mirando os olhos no teto.
Levei minhas mãos aos seios, os escondendo.
— Tudo bem, acontece. — Falei envergonhada.
— Eu vou me trocar no banheiro do corredor. — Ele disse, e foi até seu guarda-roupa apenas para pegar suas roupas.
— Por que não troca no banheiro do quarto? — Eu perguntei e ele virou para me olhar.
— Não vou atrapalhar? — Ele perguntou, sorri para a sua preocupação achando fofo o jeito que falara.
— Jamais, e o quarto é seu de qualquer maneira. — Eu disse e ele só assentiu e se trancou no banheiro do quarto.
Ri sozinha com a forma que agiu, achando a atitude peculiar e deveras adorável para ele, foi a primeira vez que o vi tão constrangido e admito, que me senti bem por ele não ter me comido com os olhos ou feito algum comentário desagradável.
Tratei de vestir minha roupa rapidamente para que não ocorresse nenhum outro incidente, e calcei os meus sapatos
Meu cabelo estava extremamente volumoso pela falta de creme para domá-lo, tenho de me lembrar de falar com Damian sobre isso depois. E ao pensar nele, o mesmo saiu do banheiro em seus trajes elegantes, me peguei o admirando enquanto passava a mão sobre os cabelos escuros, jogando-os para trás como sempre.
Analisei suas roupas, acho que é a primeira vez que o vejo de maneira menos formal para sair, mas a calça de alfaiataria ainda era lei. A blusa social preta realçou os seus músculos e como uma armadilha os primeiros botões estavam abertos, travei uma briga interna para não o olhar muito.
Ele parou e me analisou.
— Você está linda. — Ele falou. Fiquei muda por um tempo apenas encarando seu rosto.
— Você também. — Falei, desviando o olhar finalmente. Parece que a cada dia eu reparo em algum detalhe em Damian, as mangas dobradas da blusa me deram uma boa visão das veias saltadas em seus braços e tive que relutar contra os pensamentos impuros que me vieram a mente.
Damian buscou seus sapatos e sentou à beira da cama para calçá-los.
— Você se importa se eu não passar nada no rosto? — Perguntei o fazendo levantar a cabeça para me checar.
— Por que eu me importaria? Fica linda das duas formas. — Ele disse despretensiosamente e voltou a prestar atenção nos calçados. Fiquei sem palavras, ele acabara de me chamar de linda e eu não sei o que pensar sobre isso, eu deveria ficar feliz?
Levantou-se e pegou um perfume dentro do guarda-roupa para finalizar.
Me levantei e fui até o criado-mudo para pegar a gargantilha e encarei o objeto com amargor, não quero, mas sei que tenho que usá-lo. Coloquei aquilo contra o meu pescoço e o fechei na parte traseira, como um veneno, me senti mal no segundo em que ela se apertou contra o meu pescoço, mas sei que é um mal necessário.
— Aonde nós vamos? — Me virei para Damian.
— A cidade mais turística desse país. — Ele respondeu.
Levei um tempo para raciocinar, por um segundo me esqueci de onde estou. Há tantos meses que estou presa dentro dessa casa que eu simplesmente virei a chave, em certos momentos eu me esqueço de onde eu vim.
— Paris? — Perguntei boquiaberta.
......................
Não demorou muito para Maurice nos levar de carro até Paris.
Damian, sentado ao meu, com o corpo colado ao meu, apontava para os pontos turísticos iluminados da cidade. A noite já tomava conta do céu e eu pude ver a Torre ao longe, brilhante como se pegasse fogo. Fiquei chocada, nunca imaginei nem em meus melhores sonhos, que um dia estaria em Paris, perto o suficiente de um dos pontos turísticos mais famosos do mundo.
Passamos em frente ao Louvre, Arco do Triunfo e Maurice nos deixou na Torre Eiffel, Damian o liberou para andar com o carro por onde quisesse e nós ficamos.
Levantei a cabeça para olhar o monumento, embasbacada com sua grandeza. Nem quando fui ao Cristo Redentor fiquei tão impressionada.
Pessoas estavam sentadas logo abaixo da Torre, sua grande maioria casais fazendo um picnic romântico sob a luz dela que ofuscava a luz da lua.
— É linda, não é? — Damian perguntou e eu apenas assenti, ainda distraída olhando para cima.
— Imagino que muitos casais venham para cá. — Falei distraidamente.
— De turistas sim, boa parte de nós já nos acostumamos, ou você ia ao Cristo Redentor com frequência?
— Nem se eu quisesse, é bem caro. — Eu falei distraidamente.
Damian se abaixou e sentou-se na grama, senti-me na obrigação de acompanhá-lo, tomando cuidado com o vestido. Apenas apreciei a vista que pensava que jamais teria em minha vida.
Se eu dissesse a Annika de uns meses atrás que iríamos estar em Paris de frente para a Torre Eiffel, provavelmente, ela riria da minha cara.
— Você está melhor? — Damian perguntou e eu virei a cabeça pela primeira vez para olhá-lo, tentando entender ao que ele se referia — Do que aconteceu ontem.
— Ah, eu já havia me esquecido. Já aconteceu tantas vezes na minha vida que aprendi a esquecer mais rápido. — Dei de ombros, ele apenas balançou a cabeça.
— Sinto muito.
— Por que está se desculpando? Não foi culpa sua. — Falei com ternura, e ele deu um suspiro decepcionado.
— E o seu pesadelo? — Ele perguntou me fazendo encarar a grama embaixo de nós, esse era um assunto que eu não queria tocar nem tão cedo, mas fugir também não ia adiantar.
— Não foi muito legal. — Falei, respirando fundo. Sinto que ele não vai sossegar até saber dos pesadelos que me atormentam.
— Tem medo de me contar? — Ele perguntou e eu neguei com a cabeça.
— Só não quero incomodar com os meus problemas, Damian.
— Você não me incomoda, Annika. — Sua mão repousou sobre a minha e eu engoli em seco com o contato, mas não recuei.
Num suspiro eu comecei a forçar minha mente para me lembrar com detalhes do meu pesadelo.
— Eu estava paralisada na cama e havia um tipo de caixa gigante diante de mim. Quanto mais eu me mexia, mais o meu corpo afundava como se estivesse em areia movediça, foi desesperador. — Contei enquanto ele me olhava atentamente.
— Chamei por você, mas acho que não funcionou. — Dei um sorriso amarelo e continuei — a caixa estava amarrada com correntes, e em determinado momento ela começou a chacoalhar até elas despescassem. A porta se abriu e uma figura escura saiu de lá de dentro. — Falei, editando um pouco para não ter que falar sobre a parte em que ele faz uma participação especial.
Damian ficou alguns minutos em silêncio, parecendo pensativo.
— Talvez haja algo dentro de você que esteja querendo sair, talvez a raiva que guarda de mim há tanto tempo. — Ele falou e soltou um riso anasalado, o acompanhei brevemente.
Quem me dera fosse raiva, Damian.
— Espero que esteja errado. — Praticamente sussurrei.
— Por quê? — Ele franziu o sonho confuso, e num suspiro eu decidi contar.
— A outra parte do sonho tem você. — Eu falei, ele não pareceu surpreso com a minha revelação. Acredito que tenha em mente que venho tendo pesadelos com ele há meses. — Só que meus sonhos com você têm sido diferentes. — Falei, claramente com relutância.
— Eu posso saber ou prefere deixar como está? — Questionou.
— Esse último estávamos num jardim ou clareira, não sei ao certo, mas era muito bonito, o céu era límpido e a grama extremamente verde. — Falei, desviando o rosto para um casal que sentava logo a nossa frente, colocando suas coisas sobre a grama. — Parecíamos... Um casal. — Balancei a cabeça ao me tocar da loucura que saia pela minha boca.
Damian segurou em meu queixo delicadamente e me fez encará-lo.
— E onde está a parte ruim para considerá-lo um pesadelo? — Ele perguntou, tão próximo que senti aquele calor novamente. Meus olhos caíram involuntariamente para os seus lábios.
Merda, Annika!
— É loucura. — Minha voz saiu fraca, meu corpo entregava meu real desejo.
— E quem se importa? — Ele falou, sua voz tinha algo diferente que me causou um formigamento no pé da barriga.
Ele aproximou mais o corpo do meu e sua respiração quente bateu contra o meu rosto, tão perto que pude sentir seu hálito mentolado.
A voz no meu subconsciente emitia um alerta vermelho para todo o meu corpo, mas no momento estava modo avião, eu não quero saber dos riscos nem do erro que estou prestes a cometer.
Do meu queixo, sua mão parou na minha nuca, seus dedos afundaram no meu cabelo num afago tenro e meu estômago revirou-se em borboletas. Senti a estranha vontade de rir pelo nervosismo, como se estivesse de volta a quarta série, prestes a dar o meu primeiro beijo.
— Eu posso? — Ele pediu e eu assenti levemente, envergonhada por estar tão desesperada por ele. E como num ato de misericórdia, ele acabou com a curta distância entre nós.
Timidamente, nossos lábios se tocaram num beijo suave. Seus dedos se enroscaram no meu cabelo, dando um leve puxão que quase me fez gemer. Tive que travar uma briga interna para não ultrapassar os limites do aceitável, mesmo que um simples beijo parecesse o contrário de tudo que eu chamo de aceitável.
Sua língua invadiu a minha a boca, enviando arrepios para o meu corpo. Coloquei minha mão livre em sua nuca, puxando-o mais para mim com a intenção de aprofundar o beijo que tanto desejei.
Eu não me importei se haviam pessoas nos olhando, eu precisava disso como um alcoólatra com o álcool. Na verdade, um alcoólatra numa sala vazia com uma garrafa de whisky ainda conseguiria se conter, estou mais para um dependente químico ansiando pela colher quente e a seringa.
Damian levou sua outra mão a minha cintura, apertando os dedos contra ela e num ato rápido, me puxou para si e caímos sobre a grama. Nossos dentes se colidiram e eu não consegui conter a risada, sendo acompanhada por ele.
— Acho que me empolguei. — Ele sussurrou.
Olhei em seus olhos, mas dessa vez permiti me perder neles.
— Isso não parece certo, Damian. — Fui sincera.
— E quem ditou isso, Annika? — Ele segurou em meu rosto, acariciando minha bochecha. Lutei contra a vontade de fechar os olhos e aproveitar aquela carícia.
— Eu, Damian. — Falei entristecida e saí de cima dele, voltando a me sentar na grama.
— Eu não entendo. — Ele me olhava confuso.
— Não é normal que eu me entregue a você. Seria apenas por falta de escolhas, e você por capricho. — Fui sincera com as palavras pesadas.
Ele sempre será uma escolha pelo simples fato não existirem outras, estou presa a ele.
— Se dissesse isso há uns meses atrás, talvez. Mas comecei vê-la de outra forma, mesmo me ignorando ou sendo monossilábica, eu fazia questão de entrar naquele quarto só pra ouvir você dizer um mísero obrigado.
Intercalei entre seus olhos, caçando um resquício de mentira, falsidade ou brincadeira, mas eles nunca me olhara com tanta sinceridade.
Suas palavras me atingiram em cheio, me deixando sem resposta. Então Damian me deseja há meses? E nunca tentou nada, sequer investiu contra mim desrespeitosamente.
— Amélie não diz em voz alta, mas sei que me acha burra por não me entregar a você. — Falei e ele me olhou confuso — Ela disse, já que eu não tenho para onde fugir, que aproveitasse.
Ele entreabriu a boca um pouco chocado.
— Espera um segundo, contou a ela?
— Sim, depois de você gritar comigo e desencadear meus piores pesadelos. — Eu falei e virei o rosto para encarar as luzes da torre. Tento constantemente não pensar muito sobre aquele dia, pois ainda é algo que me machuca profundamente. Ele não disse nada e eu suspirei com tristeza, olhando para o seu rosto perfeito. — Não posso me apaixonar por você.
— Acho que já é tarde demais, Annika — Ele acariciou minha bochecha com o polegar — Para nós dois.
Ele findou a frase, me deixando sem o que dizer, mas meu coração batendo descompassadamente parecia uma boa resposta.
Como eu gostaria que nossas circunstâncias fossem diferentes, que estivéssemos num cenário típico de filmes de romance onde nos esbarramos por acaso em um desses pontos turísticos ou numa cafeteria, quem sabe. Por um segundo, imaginei Damian nas praias do Rio de Janeiro prestes a comprar uma caipirinha pelo triplo do preço original, simplesmente por ser gringo e eu o salvando de uma burrada.
Pensei sobre, segurando a vontade de sorrir como uma menininha inexperiente.
— Sobre o que está pensando? — Ele perguntou ao me ver sorrindo para o vento.
— Sobre como eu gostaria que tivéssemos nos conhecido de outra forma.
— E no que pensou? Em você indo em uma entrevista comigo e tropeçando ao entrar na minha sala? — Ele deu um sorriso sarcástico.
— Não, que terror! — Torci o nariz o fazendo rir.
Talvez em outro cenário, Damian jamais olharia para mim, sequer me daria uma chance. Não sou uma pessoa religiosa, mas se Deus existe, seria ele capaz de colocá-lo no meu caminho se não para um bem maior? Pensar sobre isso me faz sentir egoísta, o que eu tenho de especial para receber um presente enquanto tantas outras estão sofrendo por aí?
Encarei seu perfil perfeito, como se esculpido por anjos.
O que você procurava naquele leilão, Damian? Dentre tantas mulheres, o que te fez me escolher? Seria você de fato, a minha salvação? Se não estivesse lá aquela noite, o que seria de mim agora? Estaria morta? aprisionada em algum quarto escuro onde todas as noites aquele que deu o lance maior invade sem permissão?
Tantos questionamentos e nenhuma resposta.
— Eu já volto, espere aqui um segundo. — Damian falou de repente e se levantou, fiquei sem entender, sequer tive tempo de falar alguma coisa enquanto ele corria até um grupo de três adolescentes reunidos tirando fotos.
Não consegui ter uma visão decente para entender o que estava acontecendo por estarem muito longe de mim, mas não demorou muito para que Damian voltasse com as mãos ocupadas.
— Olha o que eu comprei. — Ele sacudiu a câmera Polaroid me deixando incrédula.
— Você comprou uma Polaroid de um bando de adolescentes? — Ele só pode ter enlouquecido.
— Mil euros fazem milagres. — Ele apontou a câmera para mim e eu só tive tempo de tampar o meu rosto antes do flash. O olhei irritada enquanto sacudia a foto impressa. — Não ficou tão ruim. — Disse e me entregou.
Olhei a fotografia e até que não estava tão ruim assim.
Damian estendeu a mão para mim e me puxou de uma vez, quase nos derrubando. Passou seu braço ao redor da minha cintura e esticou o outro com a lente da câmera virada para nós dois, tirando mais uma foto.
Balançou como necessário e me mostrou. Seu sorriso era discreto, mas os olhos fechadinhos mostravam a sinceridade dele, já o meu pareceu envergonhado, engessado, fiquei praticamente patética. Mas ainda assim, era uma bela foto.
Damian fez questão de gastar quase todo o rolo da câmera com fotos da torre, minhas e poucas de nós dois. Fiquei grata por ele ter feito isso, pois tudo o que eu queria era registrar esse momento.
Nós andamos um pouco pelo centro, conversando sobre assuntos bobos que jamais pensei que teria com Damian, desde filmes a livros. Descobri que ele leu a saga Harry Potter inteira e fez questão de assistir os filmes também e não pude deixar de imaginá-lo usando uma daquelas capas.
Não demorou muito para que eu começasse a me sentir cansada e Damian tratou de ligar para Maurice para nos buscar. E assim nós fomos embora. Damian com sua energia mais leve que nunca e eu feliz com as mãos ocupadas por pelo menos vinte fotografias desse momento. O objetivo de Damian de me ajudar a espairecer foi cumprido.
Finalmente chegamos em casa.
Quando paramos, Damian abriu a porta do carro para mim, carregando a câmera nas mãos.
Entramos em casa enquanto ele abria o compartimento de filmes da Polaroid, vendo que ainda tinha rolo suficiente para mais algumas fotos.
— Ainda não acredito que você deu mil euros em troca de uma câmera. — Falei entre risadas.
— Mil euros é o preço de uma das suas calcinhas, Annika. — Ele disse com sarcasmo, me fazendo desviar o olhar em constrangimento.
Amélie saiu da área da cozinha assim que começamos a subir os degraus e lançou-me um olhar cheio de maldade, sorte que Damian não o notou por estar de costas para nós.
— Boa noite, senhorita Annika, senhor Lefèvre. — Ela nos desejou.
— Boa noite Amélie. — Damian e eu respondemos juntos.
— Damian, posso falar com Amélie por um instante? — Pedi. Ele parou no topo da escada, intercalando o olhar entre nós duas e depois assentiu.
— Só não demore muito, está tarde. — Deu-nos um sorriso e virou no corredor.
Amélie tratou de agarrar em meu pulso e me arrastar escada abaixo até a sala de estar, fechando a porta quando entramos.
— Porque você dormiu no quarto dele, para onde vocês foram e porque ele está educado? — Ela me bombardeou, me fazendo rir.
— A gente se beijou. — Eu falei, mordendo o lábio inferior para impedir o sorriso. Amélie levou as mãos aos lábios e deu leves pulinhos.
— Mentira! E como foi? Ele tem pegada? — Ela perguntou e me arrastou até o sofá. Balancei a cabeça discretamente e ela jogou o corpo para trás no sofá, fingindo um desmaio.
Eu definitivamente, amo Amélie.
— Nós fomos a Paris, Amélie é tudo tão lindo e romântico. — Falei sonhadora, me lembrando de tudo que vi essa noite.
— Você vai dar pra ele hoje, né? — Ela perguntou numa empolgação exacerbada.
— Claro que não, para de ser nojenta! — Lhe desferi um leve tapa. Como pode ser tão safada?
— Mas estou feliz por você, não aguentava mais te ver naquele poço de melancolia. — Segurou em minha mão livre, fazendo um leve carinho sobre ela. — Agora suba e vá dormir de conchinha naqueles braços fortes.
Balancei a cabeça para as suas palavras e nos levantamos. Saímos da sala e subimos as escadas juntas. Amélie virou à direita para o quarto dos empregados e eu a esquerda, folheando distraidamente as fotos nas minhas mãos que esqueci de mostra-las.
No quarto, a blusa de Damian e seu cinto estavam jogados sobre a cama e eu pude ouvir o barulho do chuveiro. Deixei as fotos sobre o criado-mudo e peguei a roupa para dobrá-la, não deixando de me inebriar com o perfume dele impregnado no tecido.
O barulho da água caindo cessou e minutos depois ele apareceu só com a toalha enrolada na cintura. Tratei de desviar o olhar, não importa o que aconteceu em Paris, ainda é vergonhoso olhá-lo quase despido.
— O que falou com Amélie? — Perguntou, enquanto mexia em seu armário atrás de suas roupas de dormir.
— Nada, coisa boba. Vou tomar um banho. — Eu falei jogando sua blusa de volta na cama e corri para o banheiro.
Fiz questão de demorar bastante embaixo do chuveiro para que desse tempo de Damian pegar no sono.
Agora que nos beijamos eu não sei como vou conseguir deitar-me ao seu lado sem me sentir constrangida. Ah, aquele beijo. Meus sonhos não foram capazes de imprimir o quão bom ele seria, os lábios macios e a língua quente, suas mãos apertando minha cintura. Mesmo embaixo da água morna pude sentir meu corpo inteiro arrepiar.
Fechei o registro e me enrolei na toalha.
Me toquei de que não havia roupas minhas no quarto de Damian e praguejei mentalmente. Abri a porta e coloquei apenas minha cabeça para fora.
— Damian, você pode me emprestar uma roupa sua? — Perguntei, ir ao meu quarto não seria apropriado pois poderia acordar Victor.
Ele assentiu e foi até o armário pegar uma de suas blusas, — aproveitou para me dar a que usou hoje para colocar no cesto de roupas no banheiro. — Agradeci quando fez a gentileza de me entregar também uma cueca e fechei a porta.
Joguei suas roupas sujas no cesto e coloquei as limpas que me dera, a cueca ficou um pouco larga, mas ainda é melhor que estar pelada. Abotoei a blusa até o penúltimo botão e saí.
O quarto estava escuro, sendo fonte de luz apenas o abajur. Andei timidamente para a cama e me deitei na ponta.
Damian escorregou o corpo para baixo no colchão e virou-se para mim, encarando-me em silêncio.
— Você fica melhor sem barba e bigode. — Pontuei enquanto encarava seu rosto. Suas bochechas se repuxaram num sorriso me induzindo a sorrir junto.
— Você acha? — Ele se aproximou mais de mim na cama, ainda mantendo uma distância considerável. Assenti-lhe e um ruído ressoou da sua garganta.
— Humm
Nossa conversa cessou.
Damian apagou o abajur e eu me concentrei em dormir. Ele não se aproximou ou me agarrou nesse meio tempo, mas quando eu estava sonolenta o suficiente para não conseguir distinguir o que era sonho ou não, pude sentir uma leve pressão sobre a minha cintura.
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Atualizado até capítulo 31
Comments
Lêda Moraes
Damian foi muito gente boa com Annika. Nunca fez maldade com ela...
2025-01-11
2
Sonia Cassiano Ribeiro
Annika tá muito chata com Damian .
2025-01-22
1