...𝐴𝑛𝑛𝑖𝑘𝑎 𝐻𝑎𝑟𝑑𝑒𝑛 ⸙...
Pela manhã, acordei como se um caminhão tivesse passado por cima de mim. Meu humor não estava dos melhores e eu só me levantei graças a maldita luz do dia e fui fazer xixi, tomar um banho, escovar os meus dentes e depois descer para o café.
Na cozinha, todos os funcionários responsáveis por ela conversavam baixo como de costume, mas até os sussurros fizeram minha cabeça latejar.
Daniel perguntou se havia algum problema comigo e eu o ignorei, presa nos meus próprios pensamentos, e inconscientemente raivosa. Não queria ouvir a voz de ninguém então tomei rapidamente o meu café e fui até a biblioteca, em busca de paz e sossego. Fechei as cortinas e me deitei no chão, encarando as estantes e tentando ocupar a minha mente contando os livros que meus olhos conseguiam ver.
Não demorou para que meu momento de sossego fosse destruído com uma das empregadas entrando e se assustando com a minha presença ao ligar a luz. Ela se desculpou e eu só me levantei e saí. Fui até a sala de estar e me joguei no sofá, colocando o braço sobre meu rosto para evitar a luz do dia que adentrava sem pedir licença.
Minha noite foi uma bela merda.
Despertei diversas vezes durante a madrugada por conta dos pesadelos, esses bem diferentes dos que estava acostumada a ter, mas que me fizeram suar de desespero tanto quanto. Em certo horário, decidi que ficar acordada era a melhor opção, mas eventualmente fui tomada pelo cansaço novamente.
E agora, deitada no sofá, lembranças daquele sonho fizeram minha cabeça latejar numa enxaqueca terrível e tudo o que eu quero é tentar ter um pouco de sossego antes que eu me mate.
— Não, infelizmente isso está fora de cogitação. — Damian entrou na sala falando numa altura que julguei desnecessária. Peguei a almofada e coloquei sobre a minha cabeça para não ouvir a sua voz. — Victor, não seja burro. — Ele ficou em silêncio por um tempo, me obrigando a tirar a almofada do rosto para ver o que acontecia.
— Okay, faça o que quiser. — Ele findou a ligação e se jogou no sofá, quase se sentando em cima na minha perna.
— Porque você tem a porra de um Blackberry? Quantos anos você tem, sessenta? — Perguntei, chocada. Ele virou a cabeça para me olhar, parecendo particularmente ofendido.
— Primeiro, eu tenho quarenta, segundo, qual o problema? — Encarei seu rosto por alguns segundos, chocada com a sua idade, como assim quarenta?
Decidi ignorá-lo e coloquei a almofada sobre meu rosto, mas ele a puxou de mim, forçando-me a encará-lo, mas quanto mais eu o olho, mais a minha dor de cabeça aumenta. É como se dessem marteladas na minha nuca.
Se ao menos a dor fosse suficiente para não me fazer pensar naqueles sonhos.
— Disseram que está esquisita, foi pelo que aconteceu ontem? — Ele perguntou, a preocupação tingindo sua voz.
Coloquei o braço sobre os meus olhos para evitar a luz e seu rosto.
— Só não acordei de bom humor. — Falei.
— Pesadelos?
— O pior que já tive em toda minha vida. — Murmurei e pude ouvi-lo bufar. Ergui discretamente o braço, deixando uma brecha para olhá-lo.
Sua cara me trouxe imagens nítidas e eu senti vontade de gritar só para afugentá-las. Eu preferiria a morte a isso, falei mentalmente.
— Foi tão ruim assim? — Ele fez uma expressão engraçada que fez o meu estômago revirar.
— Damian, pelo amor de Deus, me deixa em paz? — Eu supliquei, virando de costas e enfiando meu rosto no braço do sofá.
— Tudo bem, então — Disse ele, desistindo rápido da ideia de ouvir minhas lamúrias — hoje ficarei ausente, provavelmente só voltarei a noite, então aproveite a minha ausência. — Terminou seu aviso e foi embora.
A voz no fundo da minha cabeça começou a sussurrar, como se desejasse me levar a loucura, levantei-me antes de ser consumida por elas. Senti a minha cabeça girar pela rapidez com que me levantei e apoiei-me nas coisas pelo caminho para tentar me recompor.
Caminhei até as escadas e voltei para o meu quarto, fechei as janelas e as cortinas, ficando no completo breu. Deitei-me sobre o colchão e abracei as minhas pernas, não querendo conceber a ideia de estar tendo sonhos quentes com este homem.
Isso não passa de um delírio de uma mulher presa sem ter para onde ir, você está há tanto tempo sob esse teto que tá começando a enlouquecer, disse a mim mesma. Quis acreditar fortemente em minhas palavras, mas aquela voz no meu subconsciente não silenciava.
Comecei a cantarolar músicas aleatórias que fizessem minha mente ficar barulhenta o suficiente para não pensar.
— Mas como eu não tenho ninguém, eu levo a vida assim tão só... — Cantei fora de ritmo, mas me toquei de que a letra não ajudava em nada. Cacei outra música na minha mente, mas nenhuma delas fora eficiente.
Me levantei e acendi a luz.
Caminhei até o guarda-roupa e o abri, vendo-o devidamente arrumado, bufei em frustração e tirei todas as roupas de dentro dele, as arremessando na cama e depois fiz o mesmo com as gavetas.
Depois de esvaziá-lo completamente, voltei, vendo aquela montanha de roupa, sorri e me sentei para dobrar cada uma delas, uma por uma, até mesmo as calcinhas. Isso tomará o meu tempo, consequentemente, meus pensamentos.
Guardei cada roupa nas gavetas, as organizando por blusa, short e peças íntimas. Os vestidos coloquei nos cabides e os pendurei organizados por cor, graças a Damian tenho roupas o suficiente para fazer essa loucura.
Damian...
Não! Você jamais se atrairia por um homem desses, jamais! Me repreendi, desferindo leves tapas no meu rosto. Mas seres humanos se atraem pelos outros, certo? É para isso que o nosso corpo foi feito, procriar. É algo involuntário, não é culpa sua, pensei, andando de um lado para o outro no quarto, feito uma louca.
Desesperada, entrei no banheiro e me despi do pijama o jogando dentro do cesto, abri o chuveiro na temperatura mais gelada e entrei debaixo dele de uma vez. Dei pulos cuidadosos sob a água, tentando me acostumar com a temperatura insuportável.
Eu não vou admitir ser traída pelo meu próprio cérebro!
Terminei o meu banho depois de alguns minutos e saí encharcada do boxe e me joguei de volta na cama, completamente nua.
— Annika? — A voz de Amélie soou junto com suas batidas típicas e ela adentrou ao quarto, se assustando comigo. — O que é isso, menina? — Ela colocou a mão sobre o peito.
— Uma mulher destruída e pelada, nunca viu?
— O que deu em você hoje? Aproveitei que ele saiu e vim te ver. — Ela fechou a porta e sentou-se na beira da cama.
— Tive um sonho esquisito com Damian e não consegui dormir direito. — Resmunguei, encarando-a.
— Pesadelo? Sinto muito querida. — Ela tocou minhas costas molhada, tentando me consolar.
— Amélie, eu tive um sonho erótico com ele. — Eu falei, frustrada. Amélie lançou-me um sorriso orgulhoso.
— Conta! — Falou afobada.
— Eu não quero pensar nisso, acha que consigo falar? — Coloquei o rosto contra o travesseiro quando as imagens tomaram conta novamente.
— Já dei o meu conselho, você deveria segui-lo.
— Ainda tenho dignidade, Amélie. — Virei a cabeça para encará-la.
Me perguntei como ela é sem o seu uniforme e com os cabelos soltos. Amélie é uma mulher extremamente bonita e seu corpo é perfeito, me pergunto por que escolheu trabalhar aqui quando poderia investir em uma área que a valorizasse devidamente.
— Annika, acorda pra vida, dignidade não irá te servir de nada dentro dessas paredes. O que você espera ganhar com isso? Um cantinho no céu? — Ela falou, coberta de indignação
Se levantou e eu a acompanhei com os olhos, precisando virar o corpo para observá-la. Ela foi até a minha penteadeira e abriu a gaveta, bisbilhotando meus desenhos. Ela tirou os incontáveis papéis dali de dentro, analisando-os um por um.
— Para quem está falando de dignidade, você me parece bem obcecada. — Ela pontuou ao folhear os desenhos. — Um, dois, três, quatro. Annika? Sete desenhos da cara dele? — Ela riu sarcástica.
— Não são desenhos agradáveis de qualquer maneira. — Resmunguei.
Ela voltou a sentar-se na cama, me olhando com pena. Odeio esse olhar.
— Desabafa, Anni. — Incentivou.
— Eu não posso me envolver com um cara que me comprou, Amélie. — Eu falei.
Amélie é a única que eu confiei para contar a verdade sobre a minha chegada aqui, lembro de como ela entrou em pânico depois que lhe disse tudo, lembro-me de chorar enquanto ela tentava me acalmar.
Contei a ela do que me lembrava daquele dia no teatro e ela ficou horrorizada, abraçada comigo. O único além dela que deve saber é Maurice, já que ele estava no dia que cheguei aqui.
Amélie se deitou ao meu lado e colocou sua mão sobre minha bochecha, olhou-me nos olhos com típico olhar bondoso.
— Eu não consigo imaginar como está se sentindo, mas você precisa tentar ver o copo meio cheio. — Ela sussurrou — Não se martirize tanto pelo que não tem controle, você passou por coisas ruins demais para se deixar consumir por um sonho. Você não precisa ouvir o que eu digo, nem seguir meus conselhos bobos se não quiser, mas tente pensar pelo lado bom: ele pode ter salvo sua vida de algo muito pior, Anni.
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Depois de dar seus conselhos, Amélie me deixou sozinha para que eu pensasse sobre eles.
Ponderei muito sobre suas palavras, decidindo acatar o que julgo correto e deixar em segundo plano o que ainda é loucura, tentei ver o copo meio cheio pela primeira vez, então me arrumei para ficar sentada na biblioteca por horas a fio, folheando livros sem lê-los de fato.
Me levantei depois de ler a última página de um livro qualquer e fui à procura de outro.
Li atentamente a lateral de cada um ao meu alcance, em busca de algo que chamasse a minha atenção. Livros de vários idiomas compunham a prateleira, até mesmo em português.
Um com capa de couro me chamou atenção quando as escritas em prata brilharam diante dos meus olhos, o sobrenome de Damian estampado me deixou curiosa, então o tirei da prateleira.
Ao tê-lo em mãos me surpreendi com o tamanho e o peso.
O abri sem critério tomando conhecimento do álbum de fotos. Caminhei de volta ao puff e o apoiei sobre minhas pernas, folheando com cuidado. Cinco fotos tomavam conta da página, mas uma em específico roubou minha atenção. A foto de Damian com seu nome e idade estampados embaixo me fez arregalar os olhos.
O sorriso adorável estampado em seus lábios me fez estranhá-lo, o rosto liso e delicado o dava um ar angelical e inocente, quem diria, pensei. Damian foi um jovem muito bonito e seu sorriso trazia uma inocência que me faz questionar onde ela foi parar.
Continuei folheando e vi uma foto dele com um bebê gordinho de pele escura nos braços, Damian sorria como na outra, parecendo genuinamente alegre. Olhei os nomes embaixo e minha boca se abriu em choque. O irmão de Damian é negro? Passei as páginas à procura da mãe, mas não encontrei nada além de uma sequência de fotos de Damian com Victor e poucas de seu pai.
Fui para o início do álbum para ver uma foto dele ainda bebê no colo de uma mulher bonita de cabelos negros, Damian puxou seu sorriso.
De repente, a porta da biblioteca se abriu e me assustei com a presença dele tão cedo em casa.
— Pensei que só voltaria a noite. — Falei e voltei a atenção as fotos.
— São quase sete, Annika. — Ele falou e abriu a cortina da biblioteca me revelando um céu escuro.
— O que? Eu sequer almocei hoje, pensei que estava cedo. — Falei chocada. Estranhei que ninguém veio me chamar para comer.
— Encontrou o álbum de família? — Ele perguntou enquanto afrouxava a gravata.
— Uhum. Você foi um adolescente muito bonito. — Folheei, voltando para a foto dele sorridente e ergui o álbum para ele. Damian torceu o nariz em desgosto.
— Odeio essa foto.
— Por quê? — Encarei a imagem à procura de algum defeito que o fizesse odiá-la. — Você era perfeito, não tinha uma espinha.
— Eu era? — Ele questionou de forma irônica.
— Sim, qualquer uma se apaixonaria por você aqui.
— Até você? — Ele me pegou de surpresa com a pergunta.
— Se a personalidade fosse tão doce quanto seu sorriso, definitivamente. — Respondi, rendida aos conselhos estúpidos de Amélie. Estou tentando ver o copo meio cheio e talvez eu me arrependa amargamente mais tarde.
— Sua menstruação já desceu esse mês? — Ele perguntou de repente.
— Que tipo de pergunta é essa?
— Apenas procurando algo que justifique seu humor. — Ele falou e se aproximou, puxou o outro puff e colocou ao meu lado.
Estranhei, mas não disse nada.
— Não sabia que seu irmão era negro. — Falei, indo para página com a foto deles dois.
— Eu disse que ele é um bastardo. — Ele falou e tomou o álbum da minha mão. — Nosso pai se envolveu com uma empregada, gravidez de risco, ela não sobreviveu ao parto.
— Ele traiu sua mãe? — Perguntei.
— Não, minha mãe já estava morta há anos.
— E você lidou bem com isso?
— Sempre achei a casa grande demais e Victor fazia virar uma caixa de fósforo com sua energia. — Ele folheou distraidamente.
— E a sexualidade dele, foi tranquilo para ele se assumir? — Minha pergunta fez Damian dar um riso anasalado, pareceu ter lembrado de algo.
— Nosso pai morreu quando Victor tinha sete anos, não teve tempo para descobrir nada. — Ele fechou o álbum. — Não que ele precisasse se assumir para mim porque era bastante óbvio, mas quando ele finalmente falou, quase se mijou com medo de que eu fizesse algo ruim.
Prestei atenção no que ele falava. Tentei imaginar a cena, mas pareceu impossível pois essa pessoa na minha frente parece ser muito diferente da que ele está me contando. Tirando como parâmetro certas atitudes de Damian, o imagino gritando com Victor e o coagindo.
— E qual foi sua reação?
— Não tive reação, não era uma surpresa. Antes dele me contar, cogitei que fosse transexual, pois sempre foi muito feminino. — Divagou, parecendo se lembrar. — Aquele quarto que agora é seu, era um closet, todas as roupas da minha mãe ficavam lá, e eu demorei para ter coragem de doar as roupas, então parte da infância de Victor foi roubando os saltos e usando maquiagens mais velhas que nós dois juntos. — Ele soltou uma risada leve
— E se fosse o caso?
— Se fosse o caso, hoje eu teria uma irmã. — Ele falou, olhando-me nos olhos.
Sua resposta me surpreendeu.
Na verdade, Damian anda me surpreendendo demais nos últimos tempos. Quem diria que essa carcaça bruta não discriminou o irmão gay e seria capaz de amá-lo até se fosse uma pessoa trans.
Talvez, só talvez, ele não seja tão ruim assim.
— Uau. — Falei em choque.
— Surpresa? — Me lançou um sorriso ladino.
— Com toda certeza, você passa uma imagem diferente.
— Eu sei disso, e que continue assim. — Ele se levantou e colocou o álbum de volta na prateleira. — Quanto menos pessoas souberem que sou um ser humano decente, melhor.
— E por que seria bom para você pensarem algo assim? — Questionei, genuinamente perdida.
— No meu mundo, se você demonstra fraqueza, as pessoas montam em você. — Ele me olhou de um jeito diferente e eu engoli em seco e desviei o rosto.
— Entendo, eu acho. — Falei, focando os olhos no tapete
— Vou tomar um banho e vamos jantar, me espere na mesa. — Ele falou e se retirou da biblioteca.
Fiquei pensativa sobre suas palavras.
Damian tinha tudo para ser uma pessoa bondosa, mas algo o corrompeu. Me pergunto se foi a morte do seu pai que o fez assim, duro como mármore e frio como o Alaska. Por quanto tempo perdurou aquele sorriso doce e o que o matou? Um homem cheio de segredos a serem descobertos e creio que eu tenha tempo o suficiente para desvendá-los.
Ri com meu pensamento irônico e me levantei, rumando para a sala de jantar. Daniel e os outros responsáveis pela cozinha já arrumavam devidamente a mesa, então puxei uma cadeira e me sentei. Optei por sentar-me ao meio, ficando assim mais perto de tudo na mesa.
— Está melhor? — Daniel sussurrou enquanto colocava o prato a minha frente, sem me olhar e prestando atenção no seu trabalho.
— Estou sim. — Sussurrei de volta o observando organizar os talheres. Fiz menção em falar mais uma coisa, mas ouvi os passos de Damian e mantive o silêncio. Aprendi a reconhecer suas passadas para que não houvesse dor de cabeça para os funcionários e para saber quando estava em casa ou não.
Daniel colocou o prato de Damian no lugar de costume, a ponta da mesa, mas ele o pegou, transferindo-o para o meu lado. Daniel e eu nos entreolhamos por um segundo, imagino que pensou o mesmo que eu: o que deu nesse homem, logo ele, sistemático como um gato, para mudar de lugar.
Damian logo pediu para que se retirassem e nós nos servimos e começamos o jantar em completo silêncio. A comida como sempre impecável e saborosa.
— Esse fim de semana haverá uma comemoração, uma amiga de longa data fará um jantar e você irá comigo. — Ele quebrou o silêncio, o olhei por um tempo e depois virei o rosto.
— Confia em mim o suficiente para me deixar sair de novo? — O questionei.
— Com certeza não, mas quero lhe dar essa chance. — Ele falou dando um gole no copo d'água ao seu lado. — Victor virá para este jantar. — Arqueei a sobrancelha surpresa com a notícia, será a primeira vez que verei seu irmão.
— E ele sabe sobre mim? — Mantive meus olhos no prato, cutucando a comida com a ponta da faca.
— Da sua existência, sim, de como você chegou aqui, não, a última coisa que eu quero é meu irmão decepcionado comigo. Então se você puder ficar de boca fechada, eu apreciaria.
— E por que eu deveria ter o mínimo de consideração por você? — Levantei a cabeça.
— Faça o que desejar, Annika. — Ele deu de ombros. — Só espero que não se arrependa depois. — Aquele sorriso por trás do bigode me arrepiou, havia algo ali ou talvez seja coisa da minha cabeça.
Como Victor deve ser? Não havia tantas fotos dele no álbum, apenas na adolescência de Damian quando Victor ainda era uma criança. Me perguntei sobre sua personalidade também, mas isso é algo impossível de se imaginar. E se pegar Damian como parâmetro, será uma decepção.
Terminei de comer em silêncio e me levantei para levar o prato a cozinha.
Daniel terminava de passar pano no chão da mesma. Ele apenas me lançou um olhar de repreensão por eu estar sujando seu chão limpo. Coloquei o prato na pia e voltei a sala de jantar.
— Não pensei que voltaria. — Ele disse, limpando a boca com o guardanapo. — Sabe que está fazendo o serviço deles, não é?
— Minhas mãos e pernas estão em perfeito estado, não vejo problema em recolher a mesa toda se necessário.
— Se necessário, o que não é o caso. — Ele disse e se levantou. — Venha.
Ele ordenou e eu o acompanhei.
Segui-o até a porta da casa e saímos. No jardim, os seguranças passeavam com Lilly e Lima, se não fossem tão grandes eu teria coragem de chegar perto delas.
— Como era sua vida antes de vir para cá? — Ele perguntou.
— Trabalhava numa loja de roupas.
— E você vendia bem? — A pergunta me fez rir.
— Óbvio que não, por mim aquele lugar poderia acabar em cinzas.
— Então já sabemos de quem é a culpa caso aconteça. — Ele fez piada me tirando uma risada e revirei os olhos. Uma pena que não estou mais lá para me culparem. — Tinha amigos?
— Colegas de trabalho. Elena e Gabriel que tentou durante anos sair comigo. — Comentei, me lembrando das investidas do rapaz. Confesso que sinto falta.
— E você nunca deu essa chance? — Neguei com a cabeça — e por que não?
— Estou velha demais pra me envolver com colega de trabalho. — Falei rindo. — E você? Já foi casado?
— Não.
— Nunca conheceu ninguém que te despertasse a vontade? —Ele ficou em silêncio, parecia pensar sobre uma resposta.
— Houve alguém, mas as coisas não aconteceram como eu esperava. — Ao falar de algo triste, esperava dele algum sentimento, mas ele se manteve apático.
— Quantas iguais a mim já estiveram nessa casa, Damian? — Perguntei algo que sempre me deixou atormentada.
— Você é a segunda, Annika. — Abri a boca surpresa com a resposta, então isso é um desejo recente? — O que você fazia para se distrair antigamente?
Antigamente soa como se fosse há anos, mas estou aqui há tão pouco tempo, logo fará quatro meses.
— Eu trabalhava, ia para casa e aos fins de semana eu assistia novela o dia inteiro no sofá até dormir.
— Cativante.
— E você?
— Trabalho, casa, trazer uma mulher diferente a cada dia da semana, jantares importantes. Nada muito diferente da sua vida. — Disse ironicamente.
— E o que te fez parar com as mulheres?
— Seria deselegante, não acha? Tenho modos, Annika. Jamais comeria alguém com você no quarto do outro lado do corredor. — Ele deu um sorriso ladino.
— Que honra, Senhor Lefèvre. — Damian olhou-me e depois deu risada
— No jantar que haverá daqui uns dias, peço para que tenha paciência com Vivienne. Ela consegue ser desagradável quando quer.
— Você tem algum amigo que seja decente ou todos são racistas e desagradáveis? — Perguntei com sarcasmo, ele deu um sorriso amarelo.
— Vivienne é só desagradável até onde eu sei.
Continuamos a conversar e a caminhar pelo jardim extenso. Demos a volta completa sob a luz da lua, eventualmente, nos sentamos nas escadas na entrada da casa.
Damian me fez várias perguntas, curioso sobre minha relação com minha mãe, e sobre como era o meu antigo ambiente de trabalho. Aproveitei para perguntá-lo sobre o seu, como é em sua empresa e se já aconteceu de algum funcionário dar em cima dele.
Damian contou-me que uma vez, ocorreu de uma moça ir sem calcinha para uma entrevista de emprego com ele, algo que me deixou absurdamente chocada, segundo ele, foi a primeira vez que alguém fora tão descarada. De acordo com Damian, nunca deu brecha a nenhuma que tentasse, e se já contratada, tratava de dispensá-la e colocar outra pessoa em seu lugar.
Segundo ele: jamais se renderia a um rabo de saia qualquer sabendo que pode escolher a dedo alguém competente, não iria em alguém que só deseja um cargo maior através da vagina, pois leva seu trabalho e o legado de sua família muito a sério. Nunca faria algo desmoronar dando brecha para uma qualquer. Fiquei impressionada.
— Acho que a época mais atormentadora foi a que aquele filme estava em alta... — Ele estalou os dedos tentando se lembrar — Cinquenta tons de cinza. — Ele falou.
— Não me diga que as mulheres começaram a tropeçar para dentro do seu escritório? — Falei, entre risadas.
Ele assentiu, apertando os olhos com vergonha.
— Foi uma época sombria, precisei me ausentar e colocar uma funcionária de confiança para essa função. — Ele disse, seu rosto estava vermelho, e essa foi a primeira vez que o vi envergonhado
Até que não é tão ruim assim.
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Atualizado até capítulo 31
Comments
Andre Santos
Estou gostando agora. Acho que ele vai se apaixonar por ela.
2025-01-23
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