...𝐴𝑛𝑛𝑖𝑘𝑎 𝐻𝑎𝑟𝑑𝑒𝑛 ⸙...
Acordei sentindo dores por todo o meu corpo.
Adormeci no chão do quarto, bloqueando a passagem da porta. Resmunguei e me espreguicei, sentindo minha coluna e meus braços estalarem. Apoiei a palma das mãos no chão e me levantei, tonta pela velocidade cambaleei até onde pudesse me apoiar. Mirei os olhos na janela e o sol começava a nascer no horizonte, sem nenhum relógio ou celular para me orientar das horas, deduzi que poderiam ser entre cinco e seis da manhã.
Fui para o banheiro e escovei os dentes, encarando a maldita coleira no meu pescoço. Segurei a escova entre os lábios e enfiei meus dedos indicadores entre o objeto e o meu pescoço, tentando tirá-lo na força bruta, mas pareceu apertá-la ainda mais. Que merda! Desisti dela ao perceber que seria em vão continuar puxando, mas agora me incomodava mais do que nunca. Cuspi a pasta na pia do banheiro e tirei minhas roupas para tomar um banho rápido.
Não me demorei muito no boxe.
Peguei a toalha branca e me enrolei, rumando em direção ao armário do quarto. Arrastei os cabides, procurando algo que coubesse. Um vestido amarelo florido chamou a minha atenção, tirei-o imediatamente do cabide, segurando-o pela alça para olhá-lo melhor, deve servir, pensei.
Joguei a toalha molhada na cama e vesti a roupa, tendo dificuldade na hora de passar a minha bunda por ele ser um pouco menor que meu corpo. Me encarei no espelho, não está de todo o mal. Fiquei satisfeita com o vestido batendo um pouco abaixo dos meus joelhos. Vesti um short como um substituto da calcinha e saí do quarto.
Caminhei pelo corredor até chegar as escadas.
O silêncio se fazia presente como no dia anterior, como se seus empregados fossem desprovidos do dom da fala. Abri a porta da sala, procurando por qualquer pessoa, mas a encontrei vazia, fui até a cozinha, e a mesma estava igualmente deserta e silenciosa. Olhei o relógio preso na parede ao lado do armário.
Cinco e meia da manhã.
Fiz o caminho de volta para o hall de entrada e abri as portas da casa, finalmente sentindo o vento do lado de fora. A parte externa só não mais silenciosa que o lado de dentro por conta do barulho dos passarinhos e dos dois cachorros, fechei os olhos e respirei profundamente, sentindo meus pulmões serem preenchidos com o cheiro da manhã.
Isso aqui seria o paraíso se eu não fosse prisioneira
Desci os degraus da entrada, sentindo o chão gelado contra meus pés descalços e olhei em volta, analisando o que meus olhos alcançavam no jardim, um dos seus cachorros andava de um lado para o outro, mas devidamente acorrentado em sua casa. Senti um arrepio ao vê-lo e fui para o lado oposto. Segui até a área próxima à piscina e avistei um senhor sentado em frente aos arbustos com uma tesoura de jardineiro em mãos.
Me aproximei dele.
— Olá. — Falei, chamando sua atenção, parecendo assustá-lo, imaginei que estivesse distraído demais para notar a minha presença. Suavizou sua expressão assustada deixando o sorriso simpático tomar conta. — Você... Fala inglês? — Perguntei envergonhada.
— Um pouco, menina. — Ele disse, levantando-se de seu banquinho de madeira e retirando suas luvas para me cumprimentar. — Quem seria você? Nova namorada do senhor Damian? — Perguntou sorridente. Engasguei-me com a suposição.
— Não, não, não. Definitivamente, não. — Falei, quase que desesperada, dando um sorriso nervoso para esconder o meu constrangimento para a pergunta. — Eu sou Annika, prazer.
— Que falta de educação a minha, sou Vincent. — Sorriu novamente.
— Eu acordei agora a pouco, andei pela casa, mas não encontrei ninguém. — Perguntei despretensiosamente para saber se ele poderia me dizer alguma coisa sobre a ausência de pessoas.
— Senhor Damian libera seus funcionários às quartas feiras, por isso está tão vazio por aqui. — Vincent falou e eu apenas balancei a cabeça.
— Então às quartas a casa fica praticamente deserta? — Perguntei, vendo uma luz no fim do túnel, ele balançou a cabeça em afirmação.
Talvez eu possa sair daqui mais rápido do que imaginei, mas quem destrancaria o portão para mim? Analisei Vincent por um momento, o senhor grisalho e alto parece ser de bom coração, mas não posso colocar ele em risco.
Lembrei-me de não o vir quando Damian me mostrou a casa.
— A senhorita está aqui há pouco tempo? Não lembro de tê-la visto, mas com a quantidade de mulheres que entram e saem dessa casa fica difícil memorizar seus rostos. — Disse descontraído, torci o nariz. Essas mulheres que ele citou estiveram aqui por livre e espontânea vontade ou são como eu? Deduzo que não, não faria sentido.
— Hoje faz três dias que estou aqui. — Falei, distraidamente. — Senhor Vincent, o que o Damian faz da vida? — Questionei pela primeira vez, curiosa sobre a fortuna dele. O senhorzinho me olhou como se eu fosse de outro planeta, mas logo suavizou a expressão.
— Damian herdou a empresa da família, ele também é dono de alguns restaurantes famosos espalhados pela França e fora dela também. Seu irmão mais novo tem uma linha famosa de maquiagem ou algo relacionado com a pele. — Ele deu uma breve pausa e se aproximou mim, sussurrando — O irmão dele é gay. — Ele disse, dando uma risadinha contida. O acompanhei, por um instante, ele pareceu uma criança após contar um segredo de alguém.
— E a família dele? Pai, mãe... — Indaguei.
— Damian jamais conheceu a mãe e seu pai morreu quando completou vinte e dois anos. Eles eram como unha e carne, era lindo de ver o amor de pai e filho, mas quando o mesmo adoeceu, o menino ficou arrasado e desde então ele é focado no trabalho e em trocar de mulher a cada semana. — Contou cabisbaixo.
Fiquei calada por um breve momento e Vincent voltou a se sentar no banquinho de madeira, colocando suas luvas de volta para concentrar-se em seu serviço. Olhei para o portão de entrada, titubeando se era ou não a hora certa de tentar sair daqui.
— Senhor Vincent, Damian está em casa? — Perguntei, ele ergueu a cabeça, apertando os olhos por culpa da luz do sol e balançou a cabeça negativamente.
— Ele sai muito cedo para ir trabalhar. — Disse ele.
Fiquei espantada. Ao julgar pelas horas, Damian deve ter saído pelo menos umas quatro e pouco da manhã para trabalhar. Além de insano e nojento, é viciado em trabalho, esse homem tem mais alguma característica negativa? Se sim, não quero descobrir nem tão cedo.
— Vincent, posso fazer mais algumas perguntas, se não for lhe incomodar?
— Fique à vontade, menina. — Ele convidou-me para sentar-se ao seu lado, mas recusei pelo fato do short embaixo do vestido ser um pouco largo, seria desastroso ter formigas andando por onde não deveriam.
— Como ele é com as mulheres que traz para cá? — Fui cautelosa, escolhi bem as palavras para que a pergunta não soasse mais estranha. Eu só preciso traçar uma linha de personalidade para Damian, para que eu consiga entender com o tipo de pessoa eu estou lidando.
— Olha menina, acho que você deveria saber, não? — Desconfiança tingiu sua voz.
— Só quero saber onde estou me metendo. — Inventei uma narrativa de interesse.
— Não posso te informar sobre sua vida amorosa, Damian só teve uma namorada em sua vida e a mesma faleceu há alguns anos. Mas em todos esses anos que estou aqui nunca presenciei nada que o condenasse se é isso que quer saber. — Deu de ombros — Nunca o vi sendo agressivo ou desrespeitoso, nem com sua falecida namorada e nem com seus casos de uma noite só. — Ele divagou, voltando a se concentrar em cortas as plantas.
Fiquei pensativa. A vida dele parece ser um acúmulo de desgraças, nunca conheceu a mãe, seu pai faleceu quando era novo, e seu primeiro amor está morto. Senti um pouco de pena, mas repensei ao lembrar sobre quem estávamos falando, seu sofrimento foi um karma antecipado e espero que ele passe por coisas piores daqui para frente.
— Obrigada pelo papo, senhor Vincent. — Falei, decidindo deixá-lo trabalhar sem mais perturbações.
Dei meia volta e segui em direção a casa. Passei os olhos por todo o local novamente, os cachorros agora dormiam embaixo da árvore próxima as suas casinhas, vi nisso uma oportunidade. Apressada, girei em meus calcanhares e a passos largos fui para o portão preto, atravessando o jardim como se minha vida dependesse disso.
Mas eu travei.
Minhas pernas travaram há alguns passos do portão menor. Me lembrei de suas palavras duras: Se sair pelo portão, a coleira ativa. Meu coração acelerou contra minha caixa torácica, minha garganta fechou impedindo a passagem de ar. Quais as chances de ser verdade? Ele seria capaz de inventar algo tão atroz só para me manipular a ficar? Não tive tempo de obter a minha resposta, o portão se abriu diante de mim revelando Damian em sua roupa formal.
Engoli em seco.
Ele ficou parado, me encarando, sabia exatamente o que eu estava prestes a fazer. Não consegui piscar, fiquei encarando-o nos olhos com medo de me mexer, como se estivesse diante de um bicho selvagem prestes a me matar. Fechei as mãos em punhos, tentando controlar o tremor.
— Quer tentar? Eu te dou essa chance, mas você não vai gostar. — Ele falou, sua voz numa suavidade assustadora. Ele se afastou da passagem, segurando o portão aberto com uma das mãos. Encarei a calçada do lado de fora coberta por folhas das árvores, a minha liberdade há poucos passos de mim.
Olhei para ele novamente e o mesmo meteu as mãos no bolso da calça e ficou parado, esperando que eu tomasse uma atitude.
Hesitante eu caminhei, pisei na calçada e nada me ocorreu. Não pensei duas vezes e não olhei para trás, apenas corri como nunca. Segui para a esquerda, em direção à rua barulhenta com buzinas de carro, mas só deu tempo de virar na curva no fim da calçada. Tudo aconteceu rápido demais. Cada músculo do meu corpo se contraiu me paralisando, não consegui respirar, tudo girou e meu corpo tombou.
Não vi mais nada.
Fui presenteada com um formigamento terrível pelo meu corpo quando abri os meus olhos. Minha respiração dificultada me fez ofegante e eu já não sinto mais a coleira no meu pescoço. Por um momento, pensei ter vivido um pesadelo, mas quando encontrei Damian sentado na beira da cama, minha esperança se esvaiu. Com os cotovelos apoiados nas coxas e os dedos cruzados diante do rosto, ele virou para me olhar.
— Como se sente? — Perguntou. Minha garganta doeu quando tentei falar e o lado esquerdo do meu rosto começou a latejar. Damian soltou o ar pelo nariz, como uma breve risada ao me ver fazer careta em repúdio a dor.
Fiquei em silêncio.
Não me importei o suficiente com o olhar alheio preso em mim para tentar segredar minha tristeza. Por que eu? O que eu fiz para merecer passar por isso tudo? São as únicas coisas que passam na minha cabeça.
— Eu lhe avisei que não seria bom. — Me encarou com as sobrancelhas juntas e os olhos cheios de pena. Suas palavras me encheram de ódio, fantasiei minhas mãos em volta do seu pescoço, esganando-o até que a vida se esvaísse de seu corpo, mas a ausência de força não me permitiu realizá-la. Agora a culpa é minha por ter acreditado numa proposta que mudaria minha vida e por não ter a porra de uma bola de cristal!
Ergui a minha mão e levantei o meu dedo do meio para ele como resposta. Damian riu.
Eu queria gritar, mas me faltam forças. Meu corpo formigava, como se milhões de insetos caminhassem sob a minha pele, uma sensação horrível e meu algoz olhando-me com dó fazia tudo ser elevado. Ele suspirou e se levantou, dando uma última olhada para mim antes de sair do quarto.
Fui deixada sozinha, imersa na minha solidão e tristeza. Não me mexi, não quis o fazer, a sensação dentro do meu peito não me permite fazer nada a não ser chorar. O sentimento de impotência nunca foi tão sufocante como está sendo agora, e eu sei que nada do que eu fizer, me tirará dessa prisão de pedra. Me enganei achando que poderia fugir, menti para mim mesma ao pensar que seria capaz.
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Atualizado até capítulo 31
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