...𝐴𝑛𝑛𝑖𝑘𝑎 𝐻𝑎𝑟𝑑𝑒𝑛 ⸙...
Às cinco horas da manhã fui acordada pela música irritante do despertador da Samsung ecoando por todo o meu quarto. Catei o celular embaixo do travesseiro e, sonolenta, parei a música.
Resmunguei em protesto, mas logo lembrei-me o motivo dele estar tocando e saltei para fora da cama. Com os olhos semicerrados, desbloqueei o celular, procurando por alguma mensagem sobre o meu passaporte, mas nenhum sinal da empresa.
Tentei não pensar muito para não ficar ansiosa, e fui me preparar para uma longa viagem. Já havia deixado as roupas separadas ontem, então não precisei perder tempo procurando por elas.
Tomei banho com calma e aproveitei para lavar o cabelo.
Ao terminar, me sequei completamente e enrolei a toalha no cabelo para seca-lo enquanto me arrumava. sentei-me em frente a penteadeira e cacei na gaveta algo que pudesse esconder as minhas olheiras.
Peguei um corretivo antigo, que provavelmente não estava mais em prazo de validade. Até tentei procurar pela embalagem, mas é tão velho que o nome da marca já está desgastado. Espalhei o produto com o dedo mesmo, e quando achei estar bom, levantei-me para pôr a minha roupa.
Vesti-me com calma, eu ainda tinha tempo.
Vesti as minhas peças íntimas e coloquei os meus jeans em seguida. Precisei tirar a toalha do cabelo para vestir a minha blusa. O meu cabelo agora estava apenas úmido.
Peguei o meu secador guardado no meu guarda-roupa e usei-o no cabelo, colocando-o na temperatura mais quente e na maior potência para secar rápido. Findada esta tarefa, pude prende-lo num rabo de cavalo e finalmente vestir a minha blusa e sapatos.
Fui para a cozinha e preparei um café para tomar, forte como sempre.
Olhei o relógio, cinco e meia da manhã, meu voo sai as sete. Com medo de atrasos, chamei um Uber. O valor da viagem se mostrou extremamente salgado, mas decidi abrir essa exceção. Por apenas um dia não fará mal, ainda mais nas circunstâncias de hoje.
Caminhei pela casa, me certificando de que todas as janelas estivessem trancadas e saí. Tranquei a porta e caminhei até o carro parado em frente ao meu portão. O motorista me ajudou a colocar minha mala no porta-malas, e a mochila preferi que ficasse comigo dentro do veículo.
Assim, nós partimos para o aeroporto.
Fiquei entretida com a paisagem à medida que o carro passava por ruas que jamais pisei. Prédios residenciais caríssimos e casas a beira da praia. Pessoas passeavam com seus cachorros pelas calçadas, usando roupas despojadas e óculos escuros, o sol começava postar-se quente no céu.
Às seis e meia cheguei no aeroporto, paguei o valor de duzentos reais ao motorista e agradeci a ele quando me ajudou novamente com as malas. Olhei em volta, admirada com o tamanho do lugar e adentrei, um pouco perdida para onde ir e o que fazer. Beatrice havia me dito que alguém me encontraria aqui, mas não especificou quem.
Caminhei até os bancos de espera e peguei meu celular, ansiando pelo contato deles comigo. Minhas mãos começaram a ficar trêmulas à medida que os minutos passavam, e nada acontecia. Será que fui enganada? Mordi a parte interior da minha bochecha com o pensamento pessimista. Bom, seriam quatrocentos reais de passagem de Uber jogados no lixo.
Encarei o lugar, nervosa.
Como um sinal divino, avistei uma mulher segurando uma placa com o meu nome. Imediatamente me levantei, e praticamente corri em sua direção.
— Bom dia, eu sou Annika. — Falei. Franzi a sobrancelha ao reconhecer aquele rosto. É a mulher da loja, rica com sotaque francês. — Angélique? — Imediatamente, recordei-me de seu nome.
— Minha querida, você seguiu os meus conselhos! — Disse animada, e me puxou para dar dois beijos na minha bochecha. — Aqui, o seu passaporte. Quando chegares na França, irão te buscar, okay? — Ela falou, e eu assenti.
Segurei no passaporte incrédula, olhando cada detalhe dele. Eles de fato conseguiram fazer um para mim em vinte e quatro horas. Quantos contatos influentes essas pessoas devem ter para fazer algo assim, em tão pouco tempo?
Agradeci a Angélique e corri para o balcão de atendimento para fazer o check-in.
Quanto mais os minutos se passavam e a França se tornava um sonho possível, mais nervosa eu ficava. Como será lá? Como serão as pessoas? As aulas? Serei capaz de mostrar competência ou vou fracassar mais uma vez na vida e acabar voltando para cá? Suspirei e afugentei o bombardeio de pensamentos.
Me dirigi ao portão de embarque com todos os meus documentos em mãos. Não demorou muito para chegar a minha vez na fila de embarcação e logo fizeram todo o processo de verificação de documentos.
Após alguns minutos que pareceram horas, eu estava dentro do avião, me sentando em minha poltrona após guardar minha mala e mochila no compartimento acima de mim. Minhas mãos não pararam de suar e o frio na barriga estava me fazendo querer vomitar.
Quando tudo estava pronto para decolar, a aeromoça fez as instruções de seguranças. Procurei prestar atenção em cada coisinha que ela falava, rezando mentalmente para que esse avião não despencasse.
Logo após, estávamos decolando.
Tentei-me manter acordada a maior parte do tempo só para apreciar a vista, mas à medida que as horas passavam, o cansaço foi me tomando gradualmente e eu acabei pegando no sono, perdendo o resto.
Não sei por quanto tempo dormi, só sei que fui acordada pelo burburinho.
Resmunguei em protesto e tentei voltar ao meu sono, mas o barulho de pessoas conversando e a sensação de movimento a minha volta me impediram de pregar os olhos. Olhei ao redor, sonolenta, vendo o corredor entre as poltronas abarrotado de pessoas em pé. Abri a janela e percebi que havíamos pousado.
Dei um sorriso ao ver que estava em terra firme, e na França.
Esperei que todos descessem para poder pegar minhas malas com calma e desembarcar sem ninguém obstruindo a minha passagem.
Quando vazio, peguei minhas coisas e desci as escadas do avião, sorrindo para os funcionários de pé na saída. Acompanhei o fluxo de pessoas para dentro do aeroporto, arrastando minha mala de rodinhas e com a minha mochila pesada nas costas. Do lado de dentro, passamos pelo portão de desembarque e eu procurei por alguém que estivesse segurando uma placa.
Um homem bem-vestido estava em meio as pessoas, usando um terno cinza e com meu nome escrito num pedaço de papel. Envergonhada e nervosa, caminhei na direção dele.
— Você é Annika? — Ele perguntou em inglês e eu afirmei, contente por ter entendido sem dificuldades.
O homem amassou o pedaço de papel e tomou a mala da minha mão, se pondo a caminhar pelo local. Não tive outra escolha a não ser acompanhá-lo. O lugar estava cheio, pessoas conversavam na língua do país, outras em inglês e algumas em idiomas que eu sequer conseguia identificar.
Sendo minha primeira vez em um aeroporto internacional, estranhei tantos idiomas juntos. Nem quando fui ao Cristo Redentor haviam tantos assim.
Chegamos a uma van preta e ele colocou minhas coisas no porta-malas e abriu a porta do veículo para mim, tudo isso em completo silêncio. Um frio na barriga se fez presente quando entrei na van, mas este foi diferente. Algo em meu subconsciente pareceu mandar um alerta para todo o meu corpo.
— Pode me informar para onde estamos indo? — Arrisquei meus anos de aula de inglês nesse momento. Ele me encarou pelo retrovisor e sorriu.
— Você saberia se localizar se eu dissesse? — Ele indagou, com acidez.
Fiquei quieta.
Minhas pernas tomaram um ritmo frenético de balanço, fazendo meu corpo chacoalhar no banco traseiro. Virávamos em diversas ruas desconhecidas rápido demais, ele até avançou alguns sinais vermelhos, parecendo com pressa. O clima era ameno, não estava frio como imaginei que poderia estar, mas minhas mãos suavam como se estivesse no centro do Rio de Janeiro.
Minhas axilas estavam tão molhadas quanto minhas mãos. Então mantive meus braços colados ao corpo para evitar certo constrangimento.
A van parou e logo o motorista desceu. Saltei para fora e olhei ao redor.
O fim de tarde seria bonito se a rua não fosse composta por terrenos baldios, e casas abandonadas e destruídas. O prédio a minha frente também não está em sua melhor condição. Com sua pintura descascada, portas de vidro quebradas, — provavelmente alguém arremessou alguma coisa nelas — e as janelas com madeiras pregadas.
Engoli em seco, amedrontada.
— Eu acho que houve um engano. — Falei, tomada pelo nervosismo.
— Me dê seu celular. — Ele pediu e estendeu a mão.
— Eu não vou te dar meu celular. — Um riso trêmulo escapou pelos meus lábios e o homem revirou os olhos.
Ele investiu contra mim de repente, apalpando a minha bunda em busca do meu telefone. Tentei afastá-lo, empurrando-o, mas ele foi mais rápido e agressivo, girando o meu corpo e enfiando a mão no bolso da minha calça.
Ao não encontrar, ele passou as mãos pela minha cintura, encontrando-o do lado direito.
Meu coração bateu como louco contra meu peito, minha respiração ofegante atacou minha ansiedade me fazendo tremer e quase não me deixando de pé. Minha cabeça começou a girar, me faltava oxigênio.
Ele arremessou o meu celular contra o chão, me fazendo gritar em protesto. O que tá acontecendo? Por que ele está fazendo isso?
— Entre, e suba. — Ele ordenou. Atordoada, não consegui me mover. — Você é surda, porra? Entra, agora! — Ele berrou, fazendo meu corpo tremer dos pés à cabeça.
Trêmula, subi os degraus e empurrei a porta empoeirada do prédio.
Esquadrinhei rapidamente a recepção abandonada dali. O balcão de madeira escura completamente deteriorado, descascado e empoeirado, o quadro com chaves penduradas atrás dele igualmente imundo e o chão, só por Deus, não via uma água sanitária há pelo menos dez anos.
O cheiro remeteu a mijo misturado a madeira velha. Quantos mendigos e pessoas drogadas já não devem ter dormido por aqui?
— Você é burra? — O homem perguntou, com o rosto perto do meu ouvido. Me encolhi e caminhei cautelosamente escada acima.
Os únicos sons do ambiente eram dos nossos sapatos contra a madeira velha e o ranger dos degraus à medida que subíamos. Caminhamos pelo corredor igualmente imundo e fui jogada para dentro de um dos quartos, recebendo em cima de mim minhas malas de viagem. Rastejei para trás até bater contra a parede do cômodo.
O terror dominava o meu corpo me fazendo bater queixo pelo nervosismo, mas não consegui chorar, o choque me impediu de derramar qualquer lágrima. O homem parou diante de mim, me encarando com ar de superioridade e desdém. Desviei o rosto, senti-me acuada com seu olhar bruto.
Ele avançou na minha direção.
Encolhi o corpo e fechei os olhos esperando o pior. Mas só ouvi sua gargalhada alta ecoando dentro da minha cabeça. Abri meus olhos e ele se deleitava do meu desespero.
— Não vou te bater, me matariam se eu danificasse você. Mulheres da sua cor valem uma fortuna. — Ele falou após recuperar o fôlego. Franzi o cenho com sua frase.
— Onde eu estou? — Minha voz trêmula quase me fez incompreensível, por pouco não consegui formular a frase.
— Você está na França, Mon Chérie. — Debochou.
Pareceu se divertir.
— Você foi sequestrada, mulher. Traficada, o que for melhor para sua consciência. — Ele falou, enquanto pegava minha mala e mochila do chão e abria as duas, vasculhando e arremessando para longe minhas peças de roupas e outros pertences meus.
Sem coragem para protestar, deixei que ele mexesse em minhas coisas livremente, completamente indefesa no canto do quarto. Ele pegou minha pasta de desenhos e começou a folhear, fazendo expressões esquisitas.
— Você é uma artista, uma pena que não vai te servir de nada por aqui. — Jogou a pasta na minha direção, me fazendo tampar o rosto com medo de ser atingida.
Ele terminou de mexer nas minhas coisas quando conseguiu encontrar os meus documentos. Ele saiu, batendo a porta. Rastejei até os meus pertences, recolhendo-os de maneira humilhante. Procurei em meio a bagunça algo que servisse para me defender.
Abri meu estojo, atrapalhada e desestabilizada.
Como eu queria que houvesse um estilete em meio a esse amontoado de lápis, pensei. Se ele voltar aqui e tentar algo contra mim, vou apunhalá-lo com isto, encarei a caneta em mãos, desejando ter força o suficiente para enfrentar aquele homem. Joguei minhas coisas de volta na bolsa e a fechei.
Me encostei na parede e esperei.
A única iluminação é do feixe de luz que vem do lado de fora e atravessa as frestas da madeira obstruindo a janela. Nem se eu quisesse conseguiria fugir por ali. Embarreirado e alto demais, eu quebraria uma perna na queda.
Abracei minha mochila a procura de conforto e deixei as lágrimas me tomarem. Quis gritar em desespero, mas o medo de ser agredida - ou pior - ainda é maior que a vontade de implorar por ajuda. Não sei do que ele é capaz de fazer comigo.
Como fui tão estúpida em não desconfiar, ou cogitar a possibilidade? Minha mãe sempre dizia que quando a esmola é demais, o santo desconfia. Eu deveria ter dado ouvidos a Elena quando ela se mostrou desconfiada sobre toda essa situação.
Gostaria que fosse apenas um golpe, que roubassem meu dinheiro e me deixassem ir embora.
Às horas se passaram e eu me vi no completo breu. Incapaz de piscar, olhando fixo para um ponto na parede por horas, meus olhos ardiam e minha cabeça latejava. Ninguém apareceu aqui nesse meio tempo, sequer ouvi barulhos pelos corredores.
Troquei de posição pela primeira vez, sentindo minha bunda dolorida por ficar tanto tempo sentada. Me deitei e usei minha mala como travesseiro, me mantendo abraçada a mochila. A sensação de solidão nunca foi tão atormentadora quanto agora. De fato, estou sozinha, sem ninguém, num país onde eu sequer sei a língua.
Ouvi passos no corredor e rapidamente me sentei novamente, me preparando mentalmente para tentar me defender caso este homem tente algo contra mim.
— Que breu. Você gosta do escuro? — Ele perguntou ao adentrar o quarto e acendeu a luz amarelada. Me senti estúpida por ter me mantido na escuridão por tantas horas. Ele se aproximou e abaixou na minha frente, estendendo a mão para me tocar.
Desviei o rosto, enojada e ele riu, balançando a cabeça em negação. Notei uma de suas mãos ocupada com uma garrafa de plástico pequena e um pano junto a ela. O temor novamente tomou meu peito.
— Vamos lá, você quer o jeito fácil ou difícil? — Ele perguntou. Me mantive calada. Vamos, enfie a caneta no pescoço dele e corra! Ordenei ao meu corpo, mas ele não me obedeceu.
O choque não me permitiu mover um músculo.
— Será o difícil então.
Ele jogou o líquido da garrafa sobre o pano e o pressionou contra o meu rosto. Não tive tempo, nem força para tentar me defender. O produto me deixou tonta. Meu corpo amoleceu e em questão de segundos, não vi mais nada.
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Atualizado até capítulo 31
Comments
Pedro
eu tô no chão, coitada da annika mds
2025-02-09
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Levi Ackerman
Chorando de felicidade 😭😍
2025-01-05
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