...𝐴𝑛𝑛𝑖𝑘𝑎 𝐻𝑎𝑟𝑑𝑒𝑛 ⸙...
Com a visão parcialmente estável e o corpo quase livre do clorofórmio, apertei os olhos, tentando analisar o rosto do homem ao meu lado no carro, mas a escuridão impediu-me de enxergar os detalhes. Levei meus olhar ao retrovisor, o motorista me observava por lá. Encolhi-me ainda mais dentro do paletó que me foi dado.
Passei as mangas sobre meus olhos e bochechas no intuito de secar as lágrimas e tentar me recompor. Meu nariz escorreu, me fazendo fungar pela milésima vez, tentei ser discreta e não fazer nenhum som que sobressaísse o rádio. Olhei para a minha esquerda, caçando pela maçaneta, mas o pino indicou mais uma vez que estou presa.
Não há botão para abrir a janela. Eu poderia me jogar por ela sem me preocupar em morrer no meio da estrada ou de me machucar gravemente, qualquer coisa seria melhor que estar aqui, disso eu tenho certeza. A meia calça no meu corpo começava a pinicar e o rendado da lingerie que foi colocada em mim parece ser ainda pior que as meias.
Meus pensamentos me levaram de volta para aquele lugar. Consegui sentir aquelas mãos tocando em mim novamente, me embrulhando o estômago, minha garganta fechou e eu tentei não me desesperar. Ele tocou em cada parte do corpo, pensei, enojada. Senti como se precisasse tomar vinte banhos para me livrar dessa sensação nojenta.
Minha cabeça não parou um segundo, a luta entre evitar os pensamentos, — e ao tentar evitá-los, pensar neles — e segurar o choro deixou tudo mais difícil. Meu cérebro criou cenários terríveis do que pode vir a partir do momento em que eu sair deste carro. E em nenhum deles eu consigo fugir ou sair minimamente ilesa.
Haverão cicatrizes, sejam físicas ou emocionais.
O carro virou à direita e subiu uma rua cheia de mansões exageradamente grandes. Encarei através do vidro as residências bem iluminadas, algumas davam para confundir com castelos de tão grandiosas. O veículo fez uma curva leve a direita novamente e parou por alguns segundos. Um portão preto gigantesco se abriu a frente e logo seguimos pelo caminho de pedras até pararmos de vez.
— Desça. — A voz grave ordenou rispidamente fazendo-me engolir em seco. Abotoei dois botões do paletó e abri a porta para saltar do carro.
De frente para mim, uma pequena escadaria leva para a porta principal da casa. Olhei para cima, espantada com o tamanho da residência, me perguntei quantas pessoas moram aqui para ser tão grande. Me encolhi ao ser guiada escada acima pelo homem que me comprara. Ele repousou sua mão sobre a minha nuca enquanto abria a porta e passava pela soleira junto a mim.
As luzes se encontram acesas, mas não ouvi vozes, apenas os sapatos dele e os meus pés descalços batendo contra o chão gelado. A minha esquerda, alguns passos à frente, uma escadaria para o andar de cima e a minha direita duas portas entreabertas deixavam uma luz escapar pela fresta. Não tive visão, nem tempo de tentar captar alguém naquele cômodo.
Fui levada escada acima, seus dedos pressionando a parte de trás do meu pescoço me causando incômodo. No andar superior, me guiou pelo corredor e abriu a primeira porta do lado direito, e praticamente me empurrou para dentro do cômodo.
— Este será o seu quarto. — Ele falou, seu sotaque forte e carregado o deixaria engraçado se eu não estivesse tão assustada.
Olhei em volta. Julguei-o grande demais e o comparei com o meu, que é uma caixa de fósforo. Notei a penteadeira na outra extremidade do quarto. Olhei com curiosidade e aproximei-me, abri a gaveta encontrando batons e outras maquiagens espalhadas ali dentro. O que me fez pensar sobre a dona desse quarto.
Quantas mulheres passaram por aqui? O que deu o fim nelas? Se conseguiram fugir, também serei capaz?
Agarrei-me a possibilidade dá última ter conseguido fugir por esses muros sem muitos arranhões. Me encarei no espelho, que aparência medíocre, o paletó ligeiramente maior que o meu corpo em conjunto com meu rosto inchado e olhos apáticos me deixou com aparência de uma mulher louca. Minha pior versão me encarando de volta no reflexo.
Triste, sem esperanças e completamente acabada.
Pelo espelho, o vi se retirar do quarto e senti um alívio instantâneo com a sua breve ausência. Breve até demais, alguns minutos depois lá estava ele novamente dentro do cômodo, com as mangas da blusa social arregaçadas e sem a sua gravata, os seus pés também estavam descalços agora.
Ele caminhou até mim e eu me preparei para suas mãos colocando força contra o meu corpo e me obrigando a fazer coisas que me fariam vomitar. Mas ele apenas parou há um passo de distância e estendeu a mão aberta com um objeto na palma.
Encarei confusa.
— Coloque. — Ordenou.
Peguei aquilo da mão dele, analisando. Preta, feita de metal, passei o dedo por curiosidade na superfície lisa, sentindo leves arranhões de uso sobre ela. O seu fecho pareceu ser de pressão, hesitante, coloquei-a contra o pescoço, e fechei na parte de trás com dificuldade.
Senti-me, mais uma vez, como um cachorro, até coleira eu tenho agora. Para o meu desespero, aquilo se apertou contra o meu pescoço me fazendo franzir o cenho. Agarrei na gargantilha na tentativa falha de afrouxá-la. Ele deu um sorriso para mim e ergueu um objeto retangular, menor que um controle de televisão.
— Só me certificando de que não conseguirá tirar. — Seu sorriso me causou arrepios, seu bigode dava-lhe um ar ainda mais assustador, pareceu se divertir com o meu desespero. — Há toalhas limpas nos armários do banheiro caso sinta que precise de um banho. — Ele apontou para uma porta no fundo do quarto, na parede a esquerda, próxima a janela.
— Para o que é isso? — Perguntei, enrolado, referindo-me a coleira. Meu cérebro não conseguia raciocinar em outra língua que não fosse o Português, então formular uma frase em outro idioma virou um desafio.
Ele me encarou por alguns segundos, mas não me respondeu, deu-me as costas e saiu.
Abalada, sentei-me na poltrona de frente para o espelho e ergui a cabeça, deixando meu pescoço a vista para analisar a coleira. Agarrei nela com os dedos, colocando-os por dentro em cada lado do pescoço e puxei numa tentativa falha de abri-la ou arrebentá-la — o que viesse primeiro —, mas nada mudou.
— Em que tipo de filme sádico eu me meti? — Falei para o meu reflexo, esperando palavras de conforto da imagem degradante.
Desabotoei o paletó e o joguei no chão. A lingerie pinicava e olhar para o mim mesma vestida nela me deixou enjoada. Rasguei o sutiã com o que me sobrou de força e arremessei a peça longe no quarto. Enfiei as minhas unhas na meia calça e reduzi ela a nada no meu corpo.
Me levantei e caminhei — com os trapos da lingerie ainda presos em mim — até o banheiro.
Me espantei com o tamanho, dá para fazer mais dois cômodos dentro desse banheiro. O espelho enorme a minha esquerda pareceu um castigo, a ultima coisa que eu precisava era me me ver por tanto tempo. Tirei a calcinha e o resto da meia calça rasgada e as joguei dentro da lixeira junto ao sutiã em trapos.
Abri o vidro do boxe e entrei com cuidado para não escorregar, mas pensei que talvez bater a cabeça na parede e morrer não seria uma má opção. Me pus embaixo do chuveiro e girei o registro, deixando a pancada d'água bater contra a minha cabeça.
Como uma maldição, senti os fantasmas daquele toque pelo meu corpo. Pelas minhas coxas e braços, na minha bunda e no resto.
O arrepio subiu na minha pele, mesmo embaixo da água quente, inclinei-me para frente e todo o nojo dentro de mim foi para o piso do boxe. Não consegui segurar o vômito. Apoiei minhas mãos na parede, deixando a gosma transparente escorrer pelos meus lábios, fazendo um gosto amargo tomar conta da minha língua.
Mas não foi suficiente, é como se eu estivesse infectada com uma doença incurável que vai me consumir até me matar. Levantei a cabeça, deixando minha boca transbordar com a água quente, cuspi tudo no chão e varri o vômito com os pés para o ralo. Olhei em volta caçando por um sabonete e encontrando vidros de shampoo e condicionador.
Peguei as embalagens, examinando-as. Na parte traseira de um deles indicou seu vencimento há mais dois anos. Franzi o cenho ao pensar sobre que tipo de pessoa deixa shampoo e condicionador novos vencerem e os mantém no banheiro? Fechei o registro e sai do boxe com os pés molhados, peguei uma toalha onde ele havia indicado anteriormente e me enrolei nela.
De volta ao quarto, abri a porta do armário, ficando chocada com a quantidade de roupas femininas penduradas nos cabides. Deus, por favor, que essa mulher tenha conseguido sair dessa casa, supliquei mentalmente e peguei um short de tecido fino, colocando-os contra o meu quadril. Um pouco menor do que eu esperava, mas é melhor me espremer nessa roupa do que ficar nua.
Vesti o short, sem calcinha mesmo, posso estar sem muitas opções, mas usar calcinha de uma desconhecida está fora de cogitação. Peguei uma blusa branca de manga comprida e a coloquei, tendo dificuldade de encaixar no meu corpo por conta dos meus peitos. Espero que ela tenha sido só uma mulher diminuta e não uma menor de idade.
Caminhei até a janela do quarto e abri as cortinas, encarando o jardim extenso com dois homens caminhando com cachorros enormes na coleira. Engoli em seco. Coisas que só vi em filmes, materializadas na minha frente como um pesadelo lúcido. Fitei aqueles muros e os portões, cogitando diversas possibilidades de escapar.
Pensei em amarrar várias colchas de cama umas nas outras e sair pela janela, tentar a sorte em correr pelo jardim até os portões, mas é estúpido, não daria certo, talvez se eu esperar que ele saia, me espreitar pelos cantos e passar pelos portões abertos...Tudo tão dramático e falho. Fui até a cama e me deitei, trazendo meus joelhos para o meu peito, me encolhendo como uma bola.
Fiquei nessa posição até pouco antes do dia clarear, quando finalmente fui derrotada pelo cansaço e caí num sono profundo.
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Atualizado até capítulo 31
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