capítulo 19

Sonya encarava Nice com firmeza, enquanto a mulher mais velha, ainda atordoada pela invasão inesperada, cruzava os braços defensivamente.

— Quem você pensa que é para entrar assim na minha casa? — disse Nice, com a voz carregada de irritação. — Isso é invasão de propriedade, garota. Deveria chamar a polícia!

Sonya deu um leve sorriso de deboche, mas manteve o tom firme.

— Pode chamar, se quiser. Mas eu só saio daqui depois de ouvir uma boa explicação. Porque, sinceramente, expulsar o próprio filho de casa é o cúmulo. E tudo isso por preconceito?

Nice estreitou os olhos, claramente incomodada.

— Olha aqui, menina, você nem saiu das fraldas ainda. Não sabe nada da vida para vir aqui me dar lição de moral. Vai cuidar da sua família e me deixa cuidar da minha!

Sonya deu um passo à frente, sem recuar.

— Pode ser que eu seja nova, dona Nice, mas uma coisa eu sei: nunca faria algo assim com alguém que amo. Caio é seu filho! Ele pensa diferente, só isso. Isso não faz dele uma pessoa má.

Nice riu de nervoso e balançou a cabeça.

— Você acha que sabe de tudo, não é? Mas deixa eu te ensinar uma coisa: desviar da palavra de Deus tem consequências. O diabo está por aí, tentando, e o Caio caiu nessa armadilha.

Sonya respirou fundo, tentando manter a calma.

— Então foi por isso que a senhora o expulsou? Para ensinar uma lição?

Nice cruzou os braços, em um gesto defensivo.

— Talvez, sim. Ele precisa sentir na pele o que é estar sem casa, sem família. Talvez, assim, ele perceba o inferno que está escolhendo para si.

Sonya piscou, incrédula.

— A senhora acha que isso é amor? Porque, para mim, isso parece tudo, menos amor.

Nice hesitou por um momento, mas manteve o tom firme.

— Você não entende. Estou fazendo isso para salvá-lo.

— Salvar? — Sonya respondeu, elevando um pouco o tom. — Salvar o quê? O amor e a compaixão também fazem parte da nossa fé. Respeitar o livre-arbítrio é um dos pilares. Caio é seu filho, e ele é incrível do jeito que é!

Nice ficou em silêncio, mas seu rosto mostrava que as palavras de Sonya estavam surtindo efeito, mesmo que ela não admitisse.

— Eu sei que é difícil, dona Nice — continuou Sonya, suavizando o tom. — Mas o Caio precisa de você, não de um castigo. Jogar fora a relação de vocês por isso... é uma escolha que só vai trazer arrependimento.

Nice desviou o olhar, claramente mexida, mas ainda teimosa.

— Ele só volta para casa quando entender que está errado.

Sonya suspirou, agora mais cansada do que irritada.

— Espero que não seja tarde demais quando a senhora perceber que quem está errando é você.

Sem esperar resposta, ela deu meia-volta e saiu, deixando Nice sozinha, pensativa, no meio da sala.

Caio abriu os olhos lentamente, piscando algumas vezes para se ajustar à luz suave que entrava pela janela. Ele olhou ao redor do quarto e percebeu que Sonya não estava lá. Com cuidado, ele se sentou na cama, ainda sonolento, até que seus olhos caíram sobre uma bandeja de café da manhã cuidadosamente posicionada na cabeceira.

Um sorriso surgiu em seus lábios enquanto ele pegava a bandeja.

— Ainda bem, acordei com a maior fome — disse, meio para si mesmo, enquanto olhava o café, o pão e as bolachas.

Enquanto comia, seus pensamentos começaram a vagar. Ele lembrou-se da conversa da noite anterior, especialmente do desabafo de Sonya.

— Caramba... terceiro semestre de medicina — murmurou, tomando um gole de café. — Ela não pode desistir desse sonho.

Suspirando, Caio colocou a xícara de lado e passou a mão pelo cabelo, pensativo. Uma ideia lhe veio à mente, e ele pegou o celular rapidamente.

— Falando em sonho... — disse, enquanto abria o aplicativo de mensagens.

Ele digitou uma mensagem para Renato:

“Bom dia, mano. Estou pensando em passar aí pra gente trabalhar no nosso projeto. O que acha?”

Após enviar, Caio viu que Renato ainda não tinha respondido, mas não se preocupou. Ele continuou tomando seu café da manhã, aproveitando o momento de calmaria. Mesmo assim, sua mente não conseguia deixar de pensar em Sonya e no quanto queria ajudá-la a reencontrar o caminho para seus sonhos.

Enquanto isso, Renato e Bianca ainda dormiam agarrados no sofá. Dona Neide, já de pé há algum tempo, estava na cozinha preparando o café da manhã. Depois de arrumar a mesa e dar uma geral na casa, decidiu acordar o casal.

Com delicadeza, Neide se aproximou e deu uma leve sacudida em seu filho.

— Renato... acorda, meu filho — chamou suavemente.

Renato abriu os olhos devagar, ainda meio atordoado.

— O que foi, mãe? — perguntou, piscando para tentar se situar.

Neide sorriu.

— Nada, só acordei vocês para tomarem café.

Bianca despertou logo em seguida, parecendo um pouco assustada ao perceber onde estava.

— Caramba, capotei aqui... — disse, ajeitando o cabelo rapidamente. — Desculpa, dona Neide. Foi sem querer.

Neide, sempre gentil, respondeu com um tom amigável:

— Tudo bem, querida. Isso acontece. Agora vamos tomar um café bem reforçado, que vocês precisam.

Enquanto Neide e Bianca se dirigiam para a cozinha, Renato pegou seu celular que estava em cima da mesinha de centro. Ele viu a mensagem de Caio e abriu com curiosidade.

“Bom dia, mano. Estou pensando em passar aí pra gente trabalhar no nosso projeto. O que acha?”

Renato deu um pequeno sorriso ao ler e rapidamente respondeu:

“Por mim, tudo bem. Já estamos a 50% do projeto. Pode vir a hora que quiser.”

Após enviar a mensagem, Renato se espreguiçou e se levantou, caminhando até a cozinha para se juntar às duas. A mesa estava impecavelmente arrumada, com café, pães e frutas frescas. Ele sentou-se ao lado de Bianca e, com um sorriso, agradeceu a Dona Neide pelo cuidado.

— Obrigado, mãe. Você é a melhor.

Neide sorriu, mas não resistiu à oportunidade de provocar:

— Sou mesmo, viu? E da próxima vez, avisa se for trazer a namorada para dormir no sofá.

Renato e Bianca se entreolharam e riram, meio sem graça, enquanto o clima na cozinha ficava leve e descontraído.

Já na movimentada Rua 2, Sonya voltava para casa com passos firmes, tentando digerir o intenso confronto que tivera com Nice. No caminho, cruzou com Isabela, que estava encostada no portão da casa de Júnior.

— Oi, Sonya! — cumprimentou Isabela com um sorriso falso.

Sonya forçou um sorriso educado.

— Oi, Isabela.

Isabela se aproximou, sem perder tempo em iniciar sua fofoca.

— Nossa, menina, você viu o bafafá que rolou no grupo da rua?

Sonya tentou esconder sua indignação, mas sua expressão endureceu ligeiramente.

— Pior que fiquei sabendo sim.

Percebendo que tinha uma brecha, Isabela sorriu maliciosamente e tentou plantar uma intriga.

— E aí, o que você acha? Afinal, você e sua família são da igreja. Deve ter sido um choque enorme saber que o seu novo melhor amigo é... ateu, né?

Sonya segurou a vontade de confrontá-la mais diretamente e, com um tom calmo, respondeu:

— Para mim, não foi surpresa alguma.

Isabela arqueou as sobrancelhas, fingindo surpresa.

— Sério?

Sonya continuou, firme:

— Como você mesma disse, eu e o Caio, apesar de nos conhecermos há pouco tempo, somos bem amigos. E, claro, ele me contou sobre isso.

A tentativa de Isabela de causar discórdia havia falhado. Sentindo-se desconfortável, ela tentou mudar de abordagem, agora elogiando falsamente Sonya.

— Nossa, isso é tão lindo, Sonya. Você realmente é uma pessoa incrível, sabia?

Sonya percebeu claramente a falsidade na voz de Isabela, mas manteve a compostura.

— Obrigada, Isabela. Agora, se me dá licença, eu preciso ir para casa.

As duas se despediram com uma falsa cordialidade. Assim que Sonya virou a esquina, Isabela pegou o celular rapidamente, nervosa. Ela abriu o chat com Jefferson e digitou apressadamente:

“Nosso plano tem um problema. A Sonya já sabia sobre o ateísmo do Caio e, pelo jeito, está do lado dele.”

Isabela suspirou, guardou o celular e, com uma expressão preocupada, entrou de volta para casa.

Jefferson estava jogado no sofá, assistindo TV sem muito interesse, quando o som de notificação do celular o tirou de seu torpor. Ele pegou o aparelho e abriu a mensagem de Isabela. Sua expressão tranquila rapidamente se transformou em puro ódio ao ler que Sonya estava apoiando Caio.

Com os punhos cerrados, ele quase atirou o celular contra a parede, mas conteve o impulso e gritou, frustrado:

— Desgraçado de merda! Esse Caio tá se tornando um problema maior do que eu esperava!

Do outro lado da casa, Júnior ouviu o grito e correu para a sala, preocupado.

— Mano, o que aconteceu? Tá tudo bem?

Jefferson percebeu que precisava disfarçar. Respirou fundo e respondeu, tentando soar calmo:

— Nada não, mano. Só perdi uma partida aqui no celular.

Júnior, aliviado, soltou o ar com força.

— Caramba, cara, você quase me matou de susto!

Jefferson deu uma risada nervosa.

— Ah, você sabe como esses jogos deixam a gente competitivo.

Júnior concordou com um aceno. Jefferson, aproveitando a oportunidade, mudou o tom e perguntou:

— A propósito, você lembra daquela história que te contei sobre o Caio ser ateu?

— Lembro, sim — respondeu Júnior, intrigado.

Jefferson fingiu estar preocupado e continuou, escolhendo as palavras cuidadosamente:

— Engraçado... foi só eu te contar e, do nada, a história vazou no grupo.

Júnior franziu o cenho, se sentindo na defensiva.

— Eu sei o que parece, mas eu juro que não mandei nada no grupo. A única pessoa com quem eu comentei foi o Vitor.

Jefferson arqueou as sobrancelhas, fingindo surpresa.

— Será que o Vitor teria mandado essa mensagem?

Júnior hesitou, mas acabou explicando:

— Bem, ontem eu e ele meio que brigamos. Pra você ter uma ideia, cheguei até a olhar o celular dele pra ver se achava aquele número desconhecido que estava vazando as coisas, mas não vi nada demais.

Jefferson assentiu lentamente, mantendo a fachada amigável.

— Bom, acredito em vocês. Deixa isso pra lá, então. Vou voltar pro meu jogo.

Júnior, ainda desconfiado, deu de ombros e voltou para o quarto. Assim que ficou sozinho, Jefferson largou o controle do videogame e ficou encarando a tela da TV, perdido em pensamentos.

"Como vou me aproximar da Sonya até o Natal?" — ele murmurou para si mesmo, os olhos estreitos e cheios de determinação.

Ketelin e Djalma estavam no sofá da casa dele, trocando carícias e conversando. Djalma a abraçava com carinho, enquanto Ketelin repousava a cabeça em seu ombro. Ele sorriu e disse:

— É tão bom estar assim com você, ainda mais depois daquela nossa briguinha.

Ketelin deu uma risada leve e concordou:

— É, a gente é meio cabeça-dura, mas até que sabe se resolver rápido.

Djalma assentiu, mantendo o sorriso, mas Ketelin aproveitou o momento para lembrá-lo de algo importante.

— Ah, e não esquece de conversar com meu irmão, tá? Isso é sério.

Djalma arqueou uma sobrancelha, hesitando.

— Pode deixar, eu vou falar com ele... Mas você acha mesmo que ele vai ouvir?

Ketelin cruzou os braços, fingindo estar ofendida.

— Claro que vai! E você também vai me ajudar nisso, não tem desculpa.

Djalma deu uma risada, tentando aliviar a tensão, mas Ketelin teve uma ideia repentina e, animada, sugeriu:

— Aliás, por que a gente não vai lá agora? Meu irmão deve estar dormindo. Vai ser a chance perfeita.

Djalma arregalou os olhos, desconfortável.

— Agora? Olha, Ketelin... eu não sei se é uma boa ideia.

Ela o encarou, curiosa.

— Por quê? Qual o problema?

Djalma desviou o olhar, coçando a nuca.

— É que... sabe... eu ainda tô meio assim de aparecer lá. Não sei como sua mãe vai reagir.

Ketelin estreitou os olhos, desconfiada.

— Hum, tá com medo de alguma coisa, Djalma?

— Não é isso, amor. É só que, bem... sua mãe tava decidida naquela conversa, mas eu não sei se ela fez o que combinamos.

Ketelin, percebendo a hesitação, decidiu pressioná-lo.

— Djalma, se você não for, vou achar que tá escondendo alguma coisa. Vamos logo, ou eu volto a ficar brava com você.

Djalma suspirou profundamente, percebendo que não tinha saída.

— Tá bom, tá bom, você venceu. Vou me arrumar aqui rapidinho.

Ketelin sorriu, vitoriosa, e esperou enquanto Djalma se levantava para pegar os sapatos.

— Isso, assim que se fala. E pode deixar que eu resolvo qualquer coisa com a minha mãe.

Apesar de sua aparente calma, Djalma não conseguia esconder o nervosismo enquanto se preparava para visitar a casa de Ketelin e enfrentar a possível tensão que os aguardava.

Nice estava sentada no sofá, pensativa, as palavras de Sonya ainda ecoando em sua mente. Ela suspirou profundamente, balançando a cabeça como se tentasse afastar as dúvidas.

— Será que expulsar meu filho foi realmente a coisa certa? — murmurou para si mesma.

Antes que pudesse refletir mais, ouviu o som da porta se abrindo. Ketelin entrou animada, acompanhada de Djalma.

— E aí, mãe! Cadê o Caio? Tá dormindo?

Nice congelou por um momento, desviando o olhar para Djalma, que também ficou visivelmente desconfortável. Ketelin percebeu o clima estranho e franziu o cenho.

— O que foi? Vai responder? O Djalma precisa pedir desculpas pra ele!

Nice, sem conseguir mais evitar a verdade, se aproximou da filha e, com um tom pesado, confessou:

— Eu o expulsei de casa, minha filha.

O sorriso de Ketelin desapareceu no mesmo instante. Ela olhou para a mãe incrédula.

— Como assim? Que palhaçada é essa? Por quê?

Nice tentou manter a calma, mas sua voz tremia.

— Eu tenho os meus motivos, Ketelin. Não queria um homem sem fé trazendo energia pesada pra dentro da nossa casa.

Ketelin recuou um passo, completamente abalada. Sua voz saiu em um tom alto e cheio de indignação:

— Que tipo de mãe faz isso com o próprio filho?

Djalma, percebendo que a situação estava prestes a explodir e que a relação entre mãe e filha corria risco, decidiu intervir. Ele respirou fundo e confessou:

— Na verdade, a ideia de expulsar o Caio foi minha.

Ketelin virou-se lentamente para Djalma, o choque estampado em seu rosto.

— O quê?

O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor. Ketelin olhou para ambos, uma mistura de ódio e decepção.

— Vocês dois... são inacreditáveis.

Ela saiu da sala abruptamente, deixando Nice e Djalma se entreolhando em silêncio, tomados pela culpa.

Já No pequeno barraco, Bagulhinho estava sentado em um velho sofá, mexendo em um celular barato. Cléber entrou no local, visivelmente animado, com um sorriso largo no rosto.

— Jajá é Natal, meu amigo!

Bagulhinho olhou para ele, confuso, e arqueou uma sobrancelha.

— E isso é motivo pra tanta felicidade?

Cléber riu e se sentou ao lado dele.

— Claro que é! Porque vai ser no Natal que a gente vai ter a oportunidade de se livrar do Robson de uma vez por todas.

Bagulhinho largou o celular e encarou Cléber com uma expressão de surpresa.

— Tá falando sério?

Cléber apenas acenou com a cabeça, um brilho de determinação nos olhos. O suspense no ar era quase palpável, enquanto Bagulhinho processava as palavras do amigo.

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