verdades não ditas

Caio encara a mensagem no celular de Djalma. Suas mãos começam a suar, e um silêncio pesado toma conta da sala. Djalma, com a expressão carregada, repete a pergunta, desta vez com mais ênfase:

— É verdade, Caio? Você é ateu?

Caio tenta manter a compostura, mas sua voz sai hesitante:

— Sim... é verdade.

Djalma dá um passo para trás, como se tivesse levado um golpe. Seus olhos refletem uma mistura de incredulidade e desapontamento.

— Como você pôde? Você enganou todo mundo esse tempo todo!

Caio respira fundo e tenta explicar:

— Eu não enganei ninguém. Só... nunca achei que fosse o momento certo para falar sobre isso.

Djalma balança a cabeça, indignado.

— Então todas as vezes que foi comigo à igreja? Era só fingimento?

Caio, já perdendo a paciência, rebate:

— Djalma, você me obrigou a ir! Você usa suas superstições para controlar todo mundo aqui.

A tensão na sala aumenta. Djalma o encara, com o rosto ficando vermelho de raiva.

— Superstições? Está chamando a minha fé de ridícula?

Caio percebe o erro e tenta corrigir:

— Não, não foi isso que eu quis dizer. Eu respeito suas crenças, mas não acho certo obrigar os outros a seguirem algo que não acreditam.

Djalma, ainda ferido, cruza os braços e responde com frieza:

— Não se preocupe, Caio. Eu não vou mais te obrigar a nada.

Caio suspira, acreditando que a situação havia se acalmado.

— Que bom que você entendeu...

Djalma o interrompe, com um tom cortante:

— Claro que entendi. E por isso, você está demitido.

As palavras atingem Caio como um soco. Ele pisca, sem acreditar.

— O quê? Você não pode fazer isso!

Djalma mantém o olhar firme.

— Posso, sim. Você sempre foi um bom funcionário, Caio, mas isso vai contra tudo o que eu acredito. Não quero alguém como você aqui.

Caio tenta argumentar:

— Isso é injusto! Você está me demitindo só por eu não acreditar no mesmo que você?

Djalma aponta para o vestiário, ignorando o protesto:

— Pegue suas coisas. Não há mais nada para conversar.

Sem alternativa, Caio vai até o vestiário. Ele arruma suas coisas em silêncio, lutando para não demonstrar a mistura de raiva e tristeza que o consumia. Ao sair da loja, ele olha para trás uma última vez.

Djalma o observa pela janela, com uma expressão que mistura arrependimento e convicção.

Caio vira as costas e caminha pela rua, o peso da injustiça em seus ombros. Ele murmura para si mesmo:

— Tudo bem... Vou seguir em frente. Não preciso da aprovação dele.

E assim, ele desaparece na esquina, pronto para enfrentar as novas batalhas que viriam.

 

Caio chega à Rua 2, e o local que sempre o acolheu agora parece pesado e opressor. Ele respira fundo, tentando se recompor, mas o peso da injustiça o consome.

Renato o avista de longe e, percebendo o semblante abatido, corre até ele:

— Caio? O que aconteceu, cara? Por que essa cara?

Caio hesita, mas acaba desabafando:

— O Djalma me demitiu.

Renato para abruptamente, surpreso:

— Demitiu? Como assim? Você é o funcionário mais dedicado que ele tem!

Caio respira fundo, escolhendo as palavras:

— Ele descobriu que eu sou ateu. Alguém espalhou isso no grupo da rua, e ele disse que não posso mais trabalhar lá.

Renato fecha as mãos em punho, indignado:

— Isso é absurdo, Caio! Ele não pode te demitir por isso! É discriminação!

Caio, cansado, tenta manter a calma:

— Eu sei que é, mas o que eu posso fazer? Não vou brigar com ele. Só quero seguir em frente.

Renato cruza os braços, pensativo:

— Seguir em frente? Não, cara. Não dá pra deixar isso barato. Ele te humilhou e feriu seus direitos.

Antes que Caio pudesse responder, o celular de Renato vibra. Ele lê a mensagem no grupo da rua, enviada por Isabela:

"Sabia que você não era tão perfeito assim, Caio. Por quanto tempo mais você ia mentir para todo mundo?"

Renato, mostrando o celular a Caio, diz com raiva:

— Olha isso! Esse é o nível deles!

Caio suspira, exausto:

— É só o começo, Renato. Isso vai virar um inferno.

Renato, com determinação:

— Não se preocupa. A gente vai resolver isso juntos. Confia em mim.

Caio, preocupado, responde:

— Reúne a Sonya e a Bianca na sua casa. Eu preciso falar com a minha mãe primeiro.

Renato concorda e parte em direção à casa das garotas.

---

Na casa de Jefferson, ele está sentado no sofá, com um sorriso de satisfação. Ao telefone, Isabela ri baixinho:

— Parece que o plano está funcionando melhor do que esperávamos.

Jefferson, com um tom triunfante:

— Isso é só o começo. Logo ninguém vai mais olhar para o Caio como o “bom moço”.

Isabela, intrigada, pergunta:

— E a Sonya? Você acha que ela vai reagir mal?

Jefferson ri novamente:

— Claro que vai. Pessoas como ela não aceitam coisas assim. E quando ela se afastar dele... vai ser minha vez de entrar em cena.

Na casa de Caio, ele entra e encontra sua mãe, Nice, e Ketelin na cozinha. Nice percebe o semblante do filho e pergunta:

— Caio, por que você chegou mais cedo? O que aconteceu?

Ele hesita por um momento, mas decide contar a verdade:

— Eu fui demitido.

Ketelin, chocada, exclama:

— Demitido? Mas por quê?

Caio respira fundo:

— Porque eu sou ateu.

Nice deixa cair a colher que segurava. O silêncio toma conta da sala. Ela finalmente diz, com a voz tensa:

— Você tem noção da gravidade do que acabou de dizer?

Caio, já cansado, responde:

— Tenho, mãe. Tanto que só agora vocês estão sabendo.

Ketelin tenta amenizar:

— Ah, mãe, hoje em dia isso nem é tão incomum assim. Tem gente com crenças muito diferentes por aí.

Nice olha para Ketelin com severidade:

— Isso é sério, Ketelin.

Ela se aproxima de Caio, com a voz firme:

— Você tem noção de que está colocando sua alma em risco? Caminhando direto para o inferno?

Caio a encara, exausto:

— Mãe, eu não acredito em inferno. Nem no diabo. Isso é irrelevante pra mim.

Nice, chocada, recua como se tivesse levado um golpe.

— Você só pode estar fora de si!

O celular de Caio vibra. Ele olha para a mensagem de Renato:

"Já estou com a Sonya e a Bianca na minha casa."

Caio se levanta e diz:

— A gente conversa mais tarde, mãe. Agora preciso resolver umas coisas.

Nice o olha firme:

— Espero que essa volta que você vai dar te faça perceber a besteira que está fazendo.

Sem responder, Caio sai.

Ketelin observa o silêncio de Nice e decide se levantar também.

— Onde você vai? — pergunta Nice.

— Falar com o Djalma. Ele vai ter que me explicar essa demissão.

Nice fica sozinha, encarando o vazio, murmurando para si mesma:

— Isso só pode ser um pesadelo.

Na casa de Renato, o ambiente está carregado de tensão. Bianca, que não sabia do segredo de Caio, quebra o silêncio com uma pergunta, a voz preocupada:

— Gente, como isso vai ficar? Tipo... 99% da nossa comunidade é religiosa.

Sonya, inquieta, responde enquanto caminha de um lado para o outro:

— O Caio vai ter que ser muito forte.

Renato completa, decidido:

— E a gente vai ajudar ele a superar isso. Não vou deixar ele passar por isso sozinho.

Bianca olha diretamente para Sonya, intrigada:

— Espera... Você já sabia disso?

Sonya confirma com um leve aceno de cabeça:

— Sim. Ele me contou há um tempo. Sinceramente, eu não achei que fosse algo tão grande.

Renato interrompe, refletindo:

— Mas do jeito que isso foi revelado, pegou todo mundo de surpresa.

Nesse momento, a porta se abre, e Caio entra, visivelmente abalado. Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, Sonya corre até ele e o abraça. É um abraço longo, sincero e cheio de carinho. Caio suspira, sentindo-se um pouco mais leve.

— Obrigado, Sonya — diz ele, com a voz baixa.

Todos se aproximam, atentos. Ele respira fundo antes de falar:

— Gente... a coisa vai ficar feia pra mim.

Sonya, com indignação nos olhos, dispara:

— Sabe, essa história tá muito estranha. Quem será que mandou aquela mensagem no grupo?

Renato e Bianca trocam olhares, pensativos. Bianca quebra o silêncio:

— Não faço ideia... mas quem fez isso sabia exatamente o que estava fazendo.

Caio balança a cabeça negativamente:

— Não importa mais. O estrago já tá feito. Só nesses primeiros minutos eu fui demitido, briguei com a minha mãe e... sinceramente, não sei o que esperar daqui pra frente.

Sonya e Bianca se aproximam de Caio novamente, colocando uma mão em seus ombros como um gesto de apoio. Sonya fala com firmeza:

— Escuta bem, Caio: você não tá sozinho nessa. A gente tá com você, seja o que for.

Renato, com um tom sério, se vira para o grupo:

— Mas a gente precisa descobrir quem começou isso. Não foi um acidente. Essa pessoa quis ferrar o Caio de propósito.

Todos concordam silenciosamente.

Caio suspira e olha para os amigos:

— Mesmo se descobrirem, isso não muda o que já aconteceu.

Renato insiste:

— Talvez não mude o passado, mas ajuda a evitar mais problemas no futuro.

O grupo começa a criar teorias, tentando conectar os pontos sobre quem poderia ter enviado a mensagem e quais motivos teriam para fazer isso.

A lanchonete está movimentada, com Djalma atendendo os clientes atrás do balcão, quando Ketelin entra com passos firmes. Sem rodeios, ela diz em um tom indignado:

— Que história é essa de demitir o meu irmão? Você tá ficando louco?

Djalma, pego de surpresa, demora alguns segundos para reagir. Ele suspira e responde:

— Não, Ketelin, eu não estou louco. Eu sei muito bem o que estou fazendo. Louco eu seria se deixasse ele continuar trabalhando aqui.

Ketelin estreita os olhos e rebate:

— Olha, eu sou uma pessoa de fé, eu entendo suas superstições, mas isso aqui é puro preconceito. Demitir alguém assim é errado, Djalma. Muito errado.

Djalma se aproxima, tentando manter a calma.

— Escuta, Ketelin. O Caio é um ótimo funcionário, sempre foi. Mas ele simplesmente não se encaixa mais na equipe. É só isso.

Ketelin cruza os braços, irritada:

— "Só isso"? Liga pra ele agora e desfaz essa besteira.

Djalma, em um tom firme, olha nos olhos dela:

— Não posso fazer isso. Nem por você. Eu espero que entenda.

Ketelin respira fundo, visivelmente frustrada. Ela dá um passo para trás e diz:

— Entender? Difícil. Mas, já que você insiste, eu vou te dizer uma coisa: enquanto você não resolver isso, nosso relacionamento vai ficar parado.

Djalma fica sem palavras enquanto a observa sair pela porta da lanchonete. Assim que ela desaparece de vista, ele coloca as mãos no rosto e murmura para si mesmo:

— Eita, mulher briguenta... mas dessa vez, não tem jeito.

Ele volta ao trabalho, mas o desconforto evidente em seu rosto mostra que a conversa deixou marcas.

De volta à casa de Renato, Caio está pensativo, os olhos fixos no chão, enquanto os outros observam em silêncio. De repente, ele dá um pulo do sofá e exclama:

— Eu sei quem mandou a mensagem no grupo!

Sonya, Bianca e Renato se viram para ele, curiosos.

— Quem foi? — perguntam quase em uníssono.

Sem responder, Caio sai apressado em direção à porta. Sonya, Bianca e Renato se entreolham, preocupados. Renato tenta ir atrás dele, mas Sonya o impede, colocando uma mão em seu ombro:

— Fica aqui com a Bianca. Eu vou.

Sonya sai correndo e, já na rua, avista Caio mais à frente.

— Ei! — grita ela. — O que você vai fazer?

Caio para abruptamente e vira-se para ela, o rosto carregado de raiva.

— Resolver essa palhaçada de uma vez por todas.

Sonya corre até ele, segurando-o pelo braço.

— Com esse ódio todo, a única coisa que você vai conseguir é criar uma confusão maior. Não vai adiantar nada.

Caio abre a boca para responder, mas é interrompido por uma voz firme que ecoa na rua:

— Filha! Vem aqui!

Sonya olha por cima do ombro e vê sua mãe, Helena, do outro lado da rua, chamando-a com um tom rígido.

— Agora não dá, mãe! — responde Sonya.

Caio, ainda irritado, balança a cabeça.

— Vai lá, Sonya. É melhor ver o que ela quer.

Relutante, Sonya dá um passo para trás.

— Tem certeza?

— Tenho. Vai.

Ela hesita, mas acaba indo em direção à mãe, enquanto Caio segue rua abaixo.

---

Caio anda a passos rápidos, com o coração acelerado, até avistar Júnior sentado na calçada, mexendo no celular. Sem pensar duas vezes, ele se aproxima e o segura pela camisa de maneira agressiva.

— Foi você, né? Foi você que mandou aquela mensagem no grupo, seu desgraçado!

Júnior, pego de surpresa, larga o celular e o encara, os olhos arregalados.

— O quê? Tá maluco?

— Confessa! — grita Caio, apertando mais a camisa de Júnior. — Eu sei que foi você!

---

Enquanto isso, no outro lado da rua, Helena encara Sonya com uma expressão séria.

— Eu vou ser direta.

Sonya cruza os braços, já imaginando o que está por vir.

— O que foi agora, mãe?

Helena nem hesita.

— Eu quero que você se afaste do Caio. Imediatamente.

Sonya fica em silêncio, o impacto das palavras da mãe a atingindo em cheio. O momento é pesado, carregado de tensão, enquanto as duas se encaram.

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