entre primos

Robson continua encarando Caio, a confusão e o constrangimento claramente estampados em seu rosto. Por um momento, o ambiente parece congelar, e o silêncio entre eles é quebrado apenas pela respiração pesada de Robson.

— Primo... é você? — insiste Caio, a voz carregada de incredulidade e emoção.

Robson desvia o olhar por um breve instante, como se procurasse forças para responder. Finalmente, ele solta um suspiro, o peso da verdade caindo sobre seus ombros.

— Sou eu sim, Caio... — responde ele, com um tom de voz baixo e hesitante.

A reação de Caio é imediata. Ele dá um passo para trás, o rosto uma mistura de choque e decepção.

— Como assim? Você... você é o terror do bairro? O cara que vem espalhando medo e destruição?

Robson tenta se aproximar, as mãos levantadas em um gesto de calma.

— Caio, me escuta. Eu nunca quis que você ou qualquer um da família descobrisse...

— Não encosta em mim! — Caio interrompe, recuando mais um passo, seus olhos faiscando. — Olha o que você fez com a Sonya e o pai dela. Você destruiu vidas!

Robson endurece a expressão, tentando manter a compostura.

— Eu sei que errei, mas você é meu primo. Nunca faria nada contra você, ou contra ninguém da família.

Nesse momento, Cléber, o agiota, arregala os olhos, finalmente entendendo por que Robson poupou Renato naquele dia. Ele solta uma risada debochada, balançando a cabeça.

— Agora faz sentido... o chefe não se vinga porque é caso de família!

Robson lança um olhar cortante para Cléber.

— Cala a boca.

Caio ainda tenta processar a situação, sua mente fervendo.

— Robson, me escuta. Aceita o colar da Sonya como pagamento da dívida e acaba logo com isso. Deixa essa história pra trás!

Robson observa Sonya e Marcelo, que ainda estão abraçados, com os olhos marejados. Ele hesita por um momento, analisando o colar nas mãos de Cléber.

— Tá bem... esse colar tem um valor interessante. — Ele faz um gesto com a cabeça para Cléber. — Pega e encerra essa dívida agora.

Cléber, sem perder tempo, se aproxima de Sonya e tira o colar de suas mãos, sorrindo com satisfação. Sonya o encara com ódio, mas permanece em silêncio, segurando firme o braço do pai.

Robson se volta para os presentes e, com autoridade, diz:

— Agora quero que todos vocês saiam. Tá tudo resolvido.

Sonya, Marcelo e Cléber começam a caminhar para fora, mas Robson aponta para Caio.

— Menos você. A gente precisa conversar.

Sonya para na porta e olha para Caio com preocupação.

— Vamos embora, Caio. Não fica aqui.

Caio balança a cabeça, firme.

— Eu preciso ouvir o que ele tem pra dizer, Sonya.

Ela hesita, olhando para Robson como se o desafiasse.

— Qualquer coisa, me liga. Nem que eu tenha que vir aqui com a polícia.

Robson, percebendo a tensão, levanta as mãos, sinalizando que não representa perigo.

— Relaxa, Sonya. Ele é meu primo. Eu não vou machucar ele.

Com relutância, Sonya deixa o barraco com Marcelo e Cléber, lançando um último olhar preocupado para Caio.

Quando estão finalmente sozinhos, Robson cruza os braços, encarando o primo.

— Então... vamos falar sobre o que realmente importa.

Caio respira fundo, se aproximando.

— Então, qual é a história, Robson? Quero saber como você chegou a esse ponto.

Enquanto isso, na casa da Sonya, Bianca e Renato estão sentados no sofá cuidando de Helena. Bianca observa Helena, que já está mais tranquila, e diz com um sorriso aliviado:

— Bom, pelo menos a Helena está bem melhor.

Renato olha para Helena, que repousa com os olhos fechados, e confirma:

— Realmente, nem parece que desmaiou há pouco.

Bianca solta uma risadinha, mas logo percebe o tom da fala de Renato.

— Olha as coisas que você fala, Renato...

Ele rapidamente percebe o absurdo de seu comentário e leva as mãos à cabeça, constrangido.

— Desculpa... às vezes eu falo sem pensar.

Bianca, com ternura, se aproxima, olhando fundo nos olhos dele. Antes que ele possa dizer mais alguma coisa, ela o beija suavemente. Renato, pego de surpresa, perde o fôlego, mas retribui o beijo, como se o tempo tivesse parado.

Quando o beijo termina, Bianca encara Renato com um sorriso carinhoso e diz:

— Não precisa se preocupar. Eu sei que você não faz por mal. Aliás, adoro o seu humor.

Renato, com um brilho nos olhos, responde:

— E eu adoro esse seu jeito de querer consertar o mundo.

O clima entre os dois fica carregado de romance, uma troca de olhares que fala mais do que mil palavras. No entanto, o momento é interrompido pela chegada de Sonya e Marcelo.

Helena, ao perceber que eles entraram, rapidamente se levanta e corre para abraçá-los.

— E aí? O plano deu certo? O agiota aceitou o colar?

Sonya, ainda visivelmente abalada, responde com um suspiro:

— Sim, mãe, deu certo. Tá tudo resolvido.

Renato olha ao redor, preocupado.

— E o Caio? Cadê ele?

Marcelo solta um suspiro pesado, sua expressão carregada de preocupação.

— Isso é uma longa história...

Sonya, tentando aliviar a tensão, completa:

— Vamos sentar aqui no sofá que eu explico tudo.

Os três se acomodam, e Sonya começa a resumir o que aconteceu, explicando a revelação de que Robson e Caio são primos e como Robson pediu para conversar com Caio a sós. O rosto de Helena demonstra alívio e apreensão ao mesmo tempo.

— Eu ainda acho que o Caio não deveria ter ficado lá sozinho — conclui Sonya, mordendo o lábio com nervosismo.

Renato e Bianca trocam olhares preocupados, enquanto Helena segura firme a mão da filha. O ambiente fica pesado, todos se perguntando como Caio está lidando com a situação.

No barracão, o ambiente estava silencioso enquanto Caio e Robson se encaravam. Robson, visivelmente desconfortável, quebra o silêncio.

— Quando a nossa vó morreu, eu me senti... deslocado.

Caio, tentando entender, pergunta:

— Mas por que esse sentimento?

Robson suspira, abaixando o olhar.

— Bem, todo mundo tinha alguém, sabe? Eu só tinha a nossa vó. Quando ela se foi, parecia que eu não tinha mais ninguém. Então decidi me afastar... tentar amadurecer.

Caio franze a testa, confuso.

— E como isso te levou para essa vida?

Robson solta uma risada amarga.

— Tentar amadurecer é lindo no papel. Todo mundo diz que você vai crescer, que as coisas vão melhorar. Mas, na real, mudanças geralmente só trazem tristeza. Eu nunca estudei, só fui até a terceira série. Arrumar emprego era quase impossível. O dinheiro foi acabando, e aí tive a sorte — ou azar — de fazer amizade com o antigo chefe do morro. Comecei de baixo, aprendi muito, e com o tempo ele passou a confiar em mim. Quando ele morreu na cadeia, o posto caiu no meu colo.

Caio observa o primo atentamente, percebendo a mistura de arrependimento e aceitação em suas palavras. Ele respira fundo antes de perguntar:

— Você não pensa em mudar de vida?

Robson dá um sorriso triste.

— O crime é um caminho sem volta, primo. Ainda mais no nível que eu estou.

Caio tenta conter a emoção, mas não resiste e abraça Robson. O gesto pega Robson de surpresa, mas, no fundo, traz um alívio inesperado.

— Isso quer dizer que você me perdoa? — pergunta Robson, a voz carregada de esperança.

Caio se afasta, encara o primo e responde:

— Perdoar é uma palavra muito forte. Mas você é meu primo, né? Infelizmente, esse foi o caminho que você escolheu. Eu não posso mudar isso.

Robson assente, compreendendo a posição de Caio.

— Faz sentido. Mas quero que saiba que, mesmo assim, eu farei de tudo para te proteger.

Caio dá um leve sorriso.

— Obrigado. Mas, sério, tenta sair dessa vida. Se quiser, eu te ajudo.

Robson balança a cabeça lentamente.

— Não dá, primo. Infelizmente, acho que eu nasci pra isso.

Caio olha o relógio e percebe que já está tarde.

— Bom, preciso ir. Se não, a Sonya vai surtar.

Robson dá um sorriso malicioso.

— Ah, falando nisso... aquela Sonya é uma mulher incrível. Parabéns, viu?

Caio fica sem graça, balançando as mãos.

— Não, não. Ela é só minha amiga.

Robson ri, divertido.

— Por enquanto. Mas, pelo jeito que ela me enfrentou hoje, logo logo sai casamento.

Ambos dão risada, quebrando um pouco a tensão. Quando Caio se aproxima da porta, ele para e diz:

— Ah, Robson. Não se preocupa, não vou espalhar seu segredo para a família.

Robson assente com um olhar de gratidão.

— Valeu, primo.

Caio acena e sai, deixando Robson sozinho, ainda pensativo, mas com um pequeno sorriso no rosto.

No barraco de Bagulhinho, a luz fraca de uma lâmpada balançava no teto, iluminando as paredes manchadas. Cléber estava sentado em uma cadeira velha, com uma expressão de satisfação enquanto terminava de relatar os acontecimentos do barraco de Robson. Bagulhinho ouvia atentamente, os olhos arregalados de surpresa.

— Então quer dizer que o Robson tem família aqui na quebrada? — perguntou Bagulhinho, inclinando-se para frente.

Cléber balançou a cabeça, confirmando.

— Tem sim. E, pelo que vi, parece que o moleque é importante pra ele.

Bagulhinho coçou o queixo, processando a informação.

— Nunca imaginei que o chefão do morro tivesse esse tipo de fraqueza.

Cléber sorriu maliciosamente.

— Pois é. E é exatamente isso que podemos usar contra ele. Se a gente jogar as cartas certas, Robson vai perder o controle da situação.

Bagulhinho deu um tapa na mesa de madeira, empolgado.

— É isso, parceiro! Quando ele menos perceber, o poder vai estar com a gente.

Ambos se entreolharam, e a atmosfera do barraco ficou carregada de ambição. Eles começaram a rir, comemorando silenciosamente o plano que começava a se formar.

Bagulhinho apontou para Cléber, animado.

— Mas me diz, Cléber. Esse parente dele... a gente já sabe o suficiente pra começar?

Cléber deu um sorriso confiante.

— Ainda não. Mas é questão de tempo. Robson está tão focado em manter isso em segredo que, se cutucarmos o suficiente, ele vai acabar mostrando o que não devia.

Bagulhinho riu novamente e acendeu um cigarro, o olhar fixo na janela.

— Esse morro vai ter um novo chefe em breve. E esse chefe vai ser a gente.

Cléber apenas concordou com a cabeça, enquanto ambos saboreavam a ideia de derrubar Robson do trono.

O relógio na parede marcava o tempo com um som constante, aumentando a tensão na sala. Sonya, Renato, Bianca, Marcelo e Helena estavam inquietos, andando de um lado para o outro. A demora de Caio trazia uma preocupação que pairava no ar.

Sonya, com as mãos juntas, tentava disfarçar sua angústia.

— Ele está demorando muito... Será que aconteceu alguma coisa? — perguntou, olhando para Marcelo.

Antes que alguém pudesse responder, a porta se abriu. Caio entrou com um semblante calmo, mas visivelmente cansado.

Sonya correu até ele e o abraçou com força, deixando escapar as palavras de uma só vez:

— E aí, você está bem? Ele machucou você? Fala comigo!

Caio deu uma leve risada, tentando aliviar a tensão.

— Calma, Sonya. Eu estou bem. Ele só queria me contar o ponto de vista dele, só isso.

Sonya recuou um pouco, mas seus olhos continuavam fixos nele, brilhando com admiração.

— Muito obrigada, Caio. Mesmo sem querer, foi você que salvou a vida do meu pai.

Marcelo se aproximou, emocionado.

— Ela tem razão. Se não fosse você, eu provavelmente não estaria aqui agora.

Helena, tocada pelas palavras do marido, franziu o cenho.

— Cruz credo, amor, nem fala isso! — disse, tentando afastar o pensamento sombrio. Ela respirou fundo e completou: — Mas, agora, todos nós precisamos prometer uma coisa: não pode haver mais segredos aqui em casa.

Sonya, Marcelo e Bianca trocaram olhares e, sem hesitar, concordaram.

— Combinado. Nada de segredos — disse Sonya, com convicção.

Renato, que observava tudo, sorriu e abriu os braços.

— Bom, acho que isso merece um abraço coletivo, né?

Todos riram e se juntaram em um abraço apertado, deixando escapar suspiros de alívio. O clima pesado finalmente dava lugar à esperança e ao alívio de que, pelo menos por agora, o sofrimento havia chegado ao fim.

No pequeno quarto, Isabela caminhava de um lado para o outro, inquieta. A conversa com Jefferson ecoava em sua mente como um desafio constante. Ela parou em frente ao espelho, encarando a própria imagem com determinação.

— Então é isso... — murmurou, baixinho. — Se eu quero o Djalma ao meu lado e quero derrubar a Ketelin de uma vez por todas, eu vou precisar expor o Caio.

Ela cruzou os braços, pensativa, e continuou:

— Mas imagina o baque... A rua inteira vai surtar ao descobrir que o Caio é ateu. A Sonya, coitada, vai querer distância dele.

Uma sombra de dúvida passou por seu rosto, mas logo foi substituída por um sorriso amargo.

— Sacrifícios precisam acontecer, não é? No final, quando o Djalma sair das mãos da Ketelin e cair nas minhas, tudo vai ter valido a pena.

Corta para Jefferson, sentado em uma cadeira no quintal, perdido em pensamentos. Ele tamborilava os dedos na mesa enquanto um sorriso cínico surgia em seus lábios.

— Jajá o Caio deixa de ser esse bom moço que todo mundo adora — disse para si mesmo, com um tom de escárnio. — Só assim eu ganho a aposta... E a Sonya. Ah, aquela gostosa vai ser minha, nem que seja na noite de Natal.

De repente, Júnior aparece pela porta, com um olhar curioso.

— Caramba, mano, tô te chamando faz mó tempão, e você nem responde.

Jefferson saiu do transe e tentou disfarçar.

— Foi mal, tava pensando alto aqui.

Júnior deu um sorriso provocador.

— Tá pensando em como vai perder a aposta, né?

Jefferson soltou uma risada desdenhosa.

— Perder? Você que vai perder, moleque. A Sonya vai ser minha. É questão de tempo.

Júnior arqueou a sobrancelha, curioso.

— Sei... Mas eu vejo como você olha pra ela, hein.

Jefferson tentou disfarçar, mas acabou cedendo:

— Tá, eu realmente acho a Sonya interessante. E daí?

Júnior, pensativo, provocou:

— Pena que o Caio tá bem mais próximo de conseguir alguma coisa com ela, né?

A expressão de Jefferson mudou rapidamente para raiva. Ele se inclinou para frente, com o tom mais ácido.

— Caio? Ele é um banana! Não fez nada até agora, não vai fazer nunca. A Sonya precisa de um homem de verdade, alguém com atitude.

Júnior deu de ombros, divertido com a reação de Jefferson.

— É, vamos ver, né? Natal tá logo aí.

Jefferson fechou o punho discretamente, mas se forçou a manter um sorriso.

— Você vai ver. Eu vou ganhar essa aposta, e não tem nada que o Caio possa fazer.

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