escolhas difíceis

Helena encara Sonya com um olhar duro, enquanto a tensão no ar parece sufocar qualquer tentativa de conciliação.

— Eu quero que você se afaste do Caio — Helena repete, com a voz firme, mas agora com um tom mais autoritário.

Sonya cruza os braços, sentindo a raiva pulsar em seu peito.

— E por quê, mãe? Porque ele não acredita em Deus? Porque uma mensagem num grupo mexeu com a cabeça desse bairro hipócrita?

— Não é só isso! — Helena rebate, elevando a voz. — Nós acabamos de nos mudar, Sonya! As pessoas estão falando da nossa família por causa dele. E eu não vou permitir que o nome dos Mendoza seja associado a... a esse tipo de coisa.

— Esse "tipo de coisa"? — Sonya diz, franzindo o rosto em indignação. — Você está ouvindo o que está dizendo? O Caio é meu amigo, e ele não fez nada de errado. É todo mundo ao redor que está errado, mãe!

Helena respira fundo, claramente tentando manter a compostura.

— Você acha que eu não me importo? Eu me importo, sim. Mas o mundo lá fora não vai mudar por causa de você ou do Caio. E nós temos que nos proteger, Sonya. Nossa reputação está em jogo.

Sonya balança a cabeça, incrédula.

— Sabe o que eu acho, mãe? Que a senhora está mais preocupada com o que os outros vão pensar do que em fazer o que é certo.

Helena hesita por um momento, o olhar dela vacilando, mas logo recupera a firmeza.

— Não, Sonya. Estou preocupada em proteger você. Esse bairro é pequeno, e as pessoas são cruéis. Eu só quero evitar que você seja envolvida em algo que pode te machucar.

Sonya dá um passo à frente, os olhos brilhando de determinação.

— Eu não vou me afastar do Caio. Não importa o que a senhora ou qualquer outra pessoa diga. Se isso vai prejudicar a nossa reputação, então que seja. Mas não vou abandonar meu amigo por causa da ignorância dos outros.

Helena parece mais abalada agora, a voz vacilando pela primeira vez.

— Não me diga que você também... — Ela hesita, então completa: — Não me diga que você também está duvidando de Deus, Sonya.

Sonya suspira, a voz saindo mais controlada.

— Eu acredito em Deus, mãe. Mas sabe o que eu não acredito? Que Ele aprovaria tudo isso que estão fazendo com o Caio. Se a senhora não consegue ver isso, então eu sinto muito.

Helena leva a mão à testa, como se processar aquelas palavras fosse difícil.

— Quer saber? Não vou mais insistir. Você vai perceber sozinha o erro que está cometendo.

Sonya ergue o queixo, com uma calma surpreendente.

— Não, mãe. O único erro aqui é permitir que o preconceito e o medo guiem suas decisões.

Helena fica sem palavras, e Sonya aproveita a oportunidade para se afastar, com passos firmes e decididos.

Caio segura Júnior pela camisa com força, os olhos carregados de fúria.

— Anda, confessa logo, seu desgraçado! Eu sei que foi você que mandou aquela mensagem! — Caio vocifera, aproximando o punho fechado do rosto de Júnior.

Júnior, apavorado, gagueja com a voz trêmula:

— C-Caio, presta atenção... Eu juro que não fui eu! Você precisa acreditar em mim!

Mas Caio, já sem paciência, ergue o punho, pronto para desferir o golpe. Júnior fecha os olhos, esperando o impacto, mas um grito interrompe a cena:

— Caio, não!

Sonya aparece correndo, com uma expressão de pânico. O grito faz Caio hesitar; ele abaixa o punho lentamente e solta Júnior, que cai sentado na calçada, ofegante.

— Violência não vai consertar nada, Caio! — Sonya diz, se aproximando, o tom firme, mas repleto de preocupação.

Caio se vira para ela, ainda tenso.

— Mas eu tenho certeza que foi ele, Sonya! Ontem mesmo ele veio me perguntar sobre o fato de eu ser ateu. Agora isso acontece? Coincidência demais!

Júnior, ainda no chão, ergue as mãos em um gesto de rendição, as lágrimas começando a encher seus olhos.

— Por favor, Caio, você precisa acreditar em mim! Eu jamais faria isso!

Sonya olha para Júnior, observando atentamente seu rosto. Há algo na expressão dele que a faz hesitar.

— Caio... — ela diz suavemente. — Talvez ele esteja dizendo a verdade.

Caio solta um suspiro pesado, tentando controlar a raiva. Ele encara Júnior por um momento, os olhos ainda cheios de desconfiança, mas lentamente recua.

— Tá... Vou dar um crédito pra você. Mas se eu descobrir que está mentindo...

— Eu não estou, juro! — Júnior responde, quase implorando, antes de se levantar apressadamente e sair em direção à sua casa.

Quando ele desaparece, Sonya se senta na calçada e puxa Caio para se juntar a ela.

— É assim que vamos resolver isso, Caio. Juntos, com calma e cabeça no lugar.

Caio se senta ao lado dela, passando a mão pelos cabelos em frustração.

— Eu não sei, Sonya. Parece que todo mundo tá contra mim.

Ela coloca a mão no ombro dele, transmitindo conforto.

— Eu não estou contra você. Vamos descobrir quem fez isso, mas sem brigar ou perder a cabeça.

Os dois ficam em silêncio por alguns segundos, ouvindo os sons do bairro. Era um momento de calmaria antes da próxima tempestade

Na sala da casa de Renato, ele e Bianca estão sentados no sofá, se beijando e aproveitando um raro momento a sós. Renato, com um toque de preocupação no olhar, interrompe o beijo por um instante.

— Será que a gente não deveria ir atrás da Sonya? — ele pergunta, a culpa evidente em sua voz.

Bianca sorri levemente e o puxa para perto novamente.

— Calma, Renato. A gente já vai. Mas quase nunca temos um momento só nosso, sabe?

Renato hesita, mas acaba cedendo ao charme de Bianca.

— Tá bom, mas só mais um pouco.

Os dois voltam a se beijar com ainda mais intensidade, perdidos um no outro. No entanto, o momento é abruptamente interrompido quando Neide, mãe de Renato, entra na sala e solta uma leve tosse para chamar atenção.

Renato e Bianca se afastam num pulo, ajeitando as roupas rapidamente, enquanto seus rostos ganham um tom avermelhado de constrangimento.

— E aí, pombinhos? Tudo bem com vocês? — Neide pergunta, com um sorriso que carrega uma pitada de malícia.

Bianca, tentando disfarçar o embaraço, responde educadamente:

— Estamos sim, dona Neide. E a senhora, como está?

O sorriso de Neide diminui um pouco, e ela suspira.

— Sabe, minha filha, até agora não consegui arrumar um emprego. Isso me deixa tão triste... — diz, com a voz carregada de preocupação.

Renato, tentando confortar a mãe, se aproxima e diz com firmeza:

— Calma, mãe. As coisas vão dar certo, eu prometo. É só questão de tempo.

Bianca, com um olhar solidário, se junta a eles.

— O que eu puder fazer para ajudar, dona Neide, eu vou fazer. Pode contar comigo.

Neide olha para Bianca, emocionada, e dá um sorriso genuíno.

— Obrigada, minha filha. Você tem um coração muito bom.

Renato observa a troca entre as duas, sentindo-se levemente incomodado com a ligação crescente entre Bianca e sua mãe, mas se esforça para esconder. Ele solta um suspiro e sorri para as duas.

— Bom, acho que a gente deveria mesmo ir atrás da Sonya agora, né?

Neide concorda com a cabeça e se despede dos dois, enquanto Renato e Bianca saem da sala, para procurar os dois

Nice está em sua casa, andando de um lado para o outro, claramente inquieta. As palavras de Caio durante a discussão ecoam em sua mente, e ela sussurra para si mesma:

— Será que estou fazendo a coisa certa?

Frustrada, ela olha para o alto e murmura:

— Senhor, me manda um sinal, uma luz... porque eu estou perdida.

Nesse momento, a campainha toca. Nice, um pouco surpresa, vai até a porta e a abre. É Djalma, com um semblante preocupado.

— A Ketelin já voltou para casa? — ele pergunta.

— Ainda não. Por quê? — responde Nice, cruzando os braços.

Djalma entra, ajeitando o chapéu.

— Bom... ela passou na lanchonete, querendo saber por que eu demiti o Caio.

Nice suspira profundamente.

— Eles sempre foram muito unidos. É natural ela querer defendê-lo.

Djalma tenta justificar sua atitude, falando com um tom calmo:

— Sabe, Nice, eu não acho o Caio um mau funcionário. Muito pelo contrário. Mas o fato de ele ser ateu vai contra os meus princípios.

Nice olha para ele, pensativa, e responde:

— Eu entendo, Djalma. Nós acreditamos em energias, karmas... e uma pessoa como o meu filho pode, sim, destruir a energia de um lugar.

Djalma assente, concordando, e completa:

— Exatamente. É só você olhar a confusão que está acontecendo. O grupo da rua está uma loucura, eu já briguei com a Ketelin... manter o Caio por perto seria muito arriscado. A energia dele, nesse momento, é muito ruim.

Nice baixa a cabeça, visivelmente culpada.

— Eu não queria que ele fosse assim. Eu peço desculpas pela confusão que ele está causando, Djalma.

Ele balança a cabeça, compreensivo.

— Eu entendo, Nice. Talvez o Caio só precise de um tempo pra refletir. Aposto que essa história de ateísmo é só uma fase.

Nice respira fundo, concordando.

— Eu só não sei como vou fazer ele acordar pra vida.

Djalma pensa por um instante, depois olha para Nice com um brilho nos olhos.

— Sabe, eu tenho uma ideia...

Nice, curiosa, pergunta:

— Qual?

Djalma se aproxima dela, abaixa o tom de voz e começa a explicar seu plano. Nice faz uma expressão de surpresa Djalma termina de explicar o plano Nice olha fixamente para Djalma, claramente dividida entre o que acabou de ouvir e seus próprios sentimentos.

Nesse momento, Ketelin entra em casa, visivelmente irritada.

— Não acredito que você veio até a minha casa, Djalma! — diz ela, com tom acusador.

Nice, tentando apaziguar a situação, intervém:

— Ele estava preocupado com você, minha filha.

Ketelin a encara, descrente.

— E com o meu irmão? Ele ficou preocupado?

Djalma, mantendo a calma, responde:

— Você sabe que eu tenho meus motivos, Ketelin.

— Motivos? — retruca Ketelin, com os olhos cheios de frustração. — Você pode até achar que tem seus motivos, mas isso não justifica o que você fez!

Djalma se aproxima dela, com um olhar carregado de arrependimento e carinho.

— Me perdoa, Ketelin. Eu te amo. Pode parecer que eu sou o vilão, mas no final, tudo o que eu quero é ajudar seu irmão.

Nice, percebendo a tensão no ar, tenta amenizar a situação.

— Olha, por que vocês dois não dão uma volta? Assim, vocês conversam com calma e fazem logo as pazes.

Ketelin cruza os braços, relutante, mas após alguns segundos de reflexão, responde:

— Tá bom...

Djalma sorri, aliviado.

— Que tal eu te levar naquela padaria que você adora?

Ketelin revira os olhos, mas acaba cedendo.

— Tudo bem, mas não pense que vai ser fácil me convencer.

Os dois saem juntos, com Djalma visivelmente esperançoso. Nice, agora sozinha, se senta no sofá e fica pensativa.

— Será que eu devo colocar o plano do Djalma em prática?

Enquanto isso, em outra parte da rua, Sônya e Caio estão sentados na calçada, conversando...

Sonya olha para Caio, visivelmente revoltada.

— Você acredita que minha mãe quer proibir nossa amizade?

Caio dá uma leve risada, tentando aliviar o clima.

— Do jeito que as coisas estão, atualmente eu acredito em tudo.

Ambos soltam uma risada curta, compartilhando o momento. Então Caio pergunta:

— E aí? O que você falou pra ela?

Sonya o encara com admiração e responde:

— Disse que não iria me afastar da pessoa mais importante desse bairro.

Caio, visivelmente tímido, desvia o olhar.

— Nossa... Sou tão importante assim?

Sonya sorri e o observa com carinho.

— Acredite, você é. Você me ajudou muito, tanto a me adaptar ao bairro quanto a salvar a vida do meu pai quando ele estava naquela dúvida estúpida.

Caio, um pouco sem jeito, coça a cabeça.

— Bom, é isso que os amigos fazem, né?

Os dois ficam por um momento sem saber o que dizer, mas Sonya acaba concordando com um sorriso.

— É, é isso mesmo.

Antes que o silêncio tome conta, Renato e Bianca aparecem, se aproximando do grupo. Bianca quebra o clima:

— E aí, Caio, alguma novidade?

Caio suspira, visivelmente cansado.

— Nada ainda. Não faço ideia de quem mandou aquela mensagem.

Renato coloca a mão no ombro de Caio, tentando animá-lo.

— Fica tranquilo, cara. Uma hora a gente descobre. E, quando isso acontecer, pode apostar que essa pessoa vai se arrepender.

Caio força um sorriso e decide mudar de assunto.

— Bom, gente, acho que o melhor agora é a gente ir dormir, né? Hoje foi um daqueles dias...

Bianca e Sonya concordam, ainda visivelmente preocupadas.

— É verdade. Boa noite, pessoal, — diz Bianca, enquanto ela e Sonya se despedem e vão para casa.

Renato olha para Caio e também se despede.

— Vamos descansar. Amanhã a gente pensa em como resolver isso.

Caio acena com a cabeça e segue para sua casa, o peso do dia ainda em seus ombros.

Caio entra em casa exausto, passando as mãos pelo rosto, mas para ao ver sua mãe, Nice, sentada no sofá com uma mala cheia ao lado dela. Ele franze a testa, confuso.

— Mãe, o que é isso?

Nice levanta a cabeça lentamente, revelando lágrimas escorrendo pelo rosto. Sua expressão é uma mistura de tristeza e determinação.

— Isso, Caio... — ela aponta para a mala — São suas coisas.

Caio, incrédulo, dá um passo para trás.

— Minhas coisas? Como assim?

Nice enxuga as lágrimas com pressa, tentando parecer mais firme do que realmente está.

— Enquanto você não mudar de ideia sobre essa bobagem de ateísmo, você não mora mais aqui.

O choque atravessa Caio como uma onda. Ele fica paralisado, encarando a mãe sem conseguir acreditar no que ouviu.

Baixar agora

Gostou dessa história? Baixe o APP para manter seu histórico de leitura
Baixar agora

Benefícios

Novos usuários que baixam o APP podem ler 10 capítulos gratuitamente

Receber
NovelToon
Um passo para um novo mundo!
Para mais, baixe o APP de MangaToon!