Projetando a realidade

Robson suspirou, exausto, enquanto sentava na cama velha de madeira no barracão. O silêncio da noite ao seu redor parecia amplificar a confusão em sua mente. Ele fechou os olhos, tentando bloquear os pensamentos que o atormentavam, mas as lembranças o alcançaram como um rio em cheia, impossível de conter.

A imagem de sua avó Francisca surgiu em sua mente. O cheiro do café fresco misturado com o perfume floral barato que ela usava parecia quase real. Ele se lembrou de como ela o acolhia nos braços, com palavras de conforto e amor. "Robson, menino, você tem que ser forte, mas nunca deixe o mundo endurecer seu coração", ela dizia, enquanto tricotava em sua cadeira de balanço.

Ao lado dela, estava Caio, seu primo mais novo. Sempre sorrindo, sempre sonhador. Os dois eram inseparáveis quando crianças. Passavam horas jogando bola no quintal ou correndo pelas ruas de terra da comunidade. Francisca era o elo que os unia, a base da pequena família que tinham. Mas tudo mudou com a morte dela.

Robson viu a si mesmo mais jovem, afastando-se dos parentes, tomado pela revolta e pela dor. Ele havia jurado nunca mais depender de ninguém, decidido a sobreviver no mundo cruel à sua maneira. Isso o levou ao caminho que trilhava agora, onde, com punhos de ferro, se tornou o dono do morro, um título que lhe trouxe respeito e poder... mas também o afastou das únicas pessoas que realmente o amavam.

Abrindo os olhos, ele encarou o teto com um olhar vazio. Seu maior medo pulsava em sua mente: E se Caio e o resto da família descobrirem o que ele havia se tornado?

Robson nunca quis que seu primo visse o homem que ele era agora. Caio, com seus sonhos e determinação, lembrava o menino que Robson um dia foi e não podia mais ser. Será que ele me desprezaria? A ideia de perder o respeito de Caio o corroía por dentro, mais do que qualquer ameaça de facção ou da polícia.

Foi então que Robson lembrou-se de Cleber. A expressão curiosa e a relutância com que ele deixou o barracão não passaram despercebidas. Cleber era esperto e ambicioso, sempre de olho em subir dentro da facção. Se ele ligasse os pontos sobre Caio...

"Eu não posso deixar isso acontecer", Robson murmurou, levantando-se da cama com o coração pesado. Ele precisava proteger seu segredo a qualquer custo. E, mais do que isso, proteger Caio do mundo ao qual ele agora pertencia.

Mas, no fundo, uma voz sussurrava: Até quando você conseguirá manter isso escondido?

Wallaf e sua mãe entram em casa após dias exaustivos no hospital. Ela, aliviada, olha ao redor, sentindo o conforto do lar.

— Nossa, como é bom estar em casa! — exclama com um sorriso.

Wallaf ri, tentando aliviar o clima.

— Esses dias foram... emocionantes, pra dizer o mínimo — comenta, com um tom que mistura cansaço e sarcasmo.

Sua mãe sorri de volta e vai para a sala, onde liga a televisão, buscando algo leve para distrair a mente. Enquanto isso, Wallaf, ainda parado no corredor, sente o peso da tensão que carregava. Seus olhos caem sobre um porta-retratos em cima de uma estante. Ele caminha até ele e o pega nas mãos.

No retrato, ele e Ketelin sorriem lado a lado, parecendo felizes. Era de um tempo em que tudo parecia mais simples. Um tempo em que ele acreditava ter controle sobre sua vida, seu relacionamento e seu futuro.

Mas agora, tudo parecia tão distante. O amor que ele sentia por Ketelin ainda estava lá, mas era como uma chama que lutava para sobreviver em meio ao vento do orgulho ferido e à humilhação do casamento cancelado. Ele apertou o porta-retratos, sentindo uma mistura de saudade, raiva e frustração.

Wallaf se sentou no sofá, com o olhar perdido. O respeito que ele tinha por Ketelin havia se esvaído no momento em que ela o rejeitou diante de todos. E, ao mesmo tempo, havia algo ainda mais sombrio em seu peito: o desejo de posse. Não por amor, mas por orgulho. Ela era minha. Como ela teve coragem de me deixar assim?

Esses pensamentos o consumiam, mas Wallaf também sentia uma confusão interna. Ele sabia que algo estava errado em pensar dessa forma. Ele sabia que o que sentia não era saudável, mas ainda assim, não conseguia controlar.

— Wallaf, você tá bem? — perguntou sua mãe, espiando da sala.

Ele respirou fundo, tentando esconder o turbilhão em sua mente.

— Tô sim, mãe. Só... pensando.

— Pensando em quê?

Ele hesitou, olhando mais uma vez para o porta-retratos antes de colocá-lo de volta no lugar.

— Nada importante.

Ela sorriu, sem perceber o conflito interno do filho, e voltou sua atenção para a TV. Wallaf, por outro lado, permaneceu sentado, se perguntando o que faria a seguir. Afinal, não era só Ketelin que ele havia perdido. Era também o controle sobre si mesmo.

Cléber caminha pela rua, com as mãos nos bolsos e o olhar distante. As luzes fracas dos postes iluminavam o caminho irregular, mas sua mente estava focada em algo bem mais sombrio. A maneira ríspida com que Robson o mandou embora do barracão ainda o intrigava.

— O que será que ele tá escondendo? — murmurou para si mesmo. — Só pode ser algo grande.

Cléber sabia que Robson não confiava nele completamente, mas isso não era surpresa. No mundo em que viviam, confiança era um luxo que ninguém podia se dar. Mesmo assim, algo no comportamento de Robson parecia diferente. Ele viu uma possibilidade. Uma fraqueza. E no jogo do poder, fraquezas eram oportunidades.

— Se eu descobrir o que ele tá escondendo, posso usar isso a meu favor... — pensou, com um sorriso malicioso.

Mas Cléber era esperto o suficiente para saber que não poderia agir sozinho. Robson era perigoso, e qualquer passo em falso poderia custar sua vida. Ele precisava de aliados. Alguém com ambição suficiente para querer derrubar Robson, mas também com coragem e habilidade para agir.

Foi então que um nome surgiu em sua mente: Bagulhinho.

Bagulhinho era conhecido por sua esperteza e pela habilidade de manipular as pessoas ao seu redor. Ele estava preso, mas Cléber sabia que ele ainda tinha influência no morro. E, mais importante, ele tinha motivos de sobra para querer a queda de Robson.

— Amanhã eu vou atrás dele — decidiu Cléber. — Se a gente se juntar, podemos tomar o controle desse morro.

Com um plano começando a se formar em sua mente, Cléber sentiu uma onda de determinação. Ele sabia que estava entrando em um jogo perigoso, mas o desejo de poder e de se livrar da sombra de Robson o impulsionava.

Enquanto caminhava para casa, Cléber olhou para o céu escuro, respirou fundo e sussurrou para si mesmo:

— É agora ou nunca. Amanhã as coisas começam a mudar.

Ele só precisava encontrar Bagulhinho e convencê-lo de que, juntos, poderiam ser mais do que apenas peões no tabuleiro de Robson. Eles poderiam ser os novos donos do jogo.

O dia começa tranquilo na Rua 2, com os primeiros raios de sol iluminando a janela da casa de Caio. Ele está sentado à mesa da cozinha, tomando café e tentando organizar seus pensamentos para mais um dia de trabalho na loja de salgados. Mas, enquanto mastiga um pedaço de pão, sua mente volta ao que Djalma, seu chefe, mencionou nos últimos dias.

Djalma, sempre com seu jeito religioso e cheio de superstições, vinha insistindo que Caio o acompanhasse à igreja. A insistência era algo que começava a incomodá-lo. Não era que Caio tivesse algo contra religião, mas ele acreditava que cada um deveria decidir por si mesmo.

— Tomara que ele não toque nesse assunto hoje — Caio suspira, olhando para a caneca de café.

O desconforto se refletia em sua expressão. Ele não queria desrespeitar Djalma, até porque o respeitava como chefe, mas também não queria ser pressionado a participar de algo que não fazia sentido para ele.

Depois de terminar o café, ele pega sua mochila, dá uma última olhada ao redor da casa e sai. O ar da manhã é fresco, e o movimento na rua ainda está começando. Ele vê Dona Nice varrendo a calçada e acena para ela antes de seguir em direção à loja.

Enquanto anda, tenta desviar seus pensamentos. A conversa com Renato sobre o jogo indie volta à sua mente, trazendo um pouco de entusiasmo. Aquilo sim parecia uma oportunidade real para mudar de vida, para deixar de depender de trabalhos como o da loja de salgados.

— É nisso que eu preciso focar — murmura para si mesmo.

Ao chegar à loja, ele respira fundo antes de entrar, já se preparando para enfrentar mais um dia. Mal passa pela porta, e Djalma, com seu jeito animado e cheio de energia matinal, já o cumprimenta:

— Bom dia, meu jovem! Tá pronto pra mais um dia abençoado?

— Bom dia, Djalma. Pronto sim.

Djalma sorri, mas Caio percebe aquele brilho no olhar que indica que o chefe tem algo a dizer.

— Aliás, Caio, tava pensando...

Caio suspira internamente, já imaginando o rumo da conversa.

— Lá vem... — pensa, enquanto força um sorriso educado e espera para ouvir o que Djalma tem a dizer.

Enquanto Caio se prepara para o que acha que será mais uma conversa sobre ir à igreja, Djalma o surpreende completamente:

— Sabe, Caio, tenho pensando em você, rapaz. Você é dedicado, trabalha direitinho, sempre chega na hora... E, por isso, tô pensando em aumentar seu salário.

Caio arregala os olhos, completamente surpreso.

— Sério, Djalma? Caramba! Mas... tem certeza? Será que isso não vai prejudicar o orçamento da loja?

Djalma dá uma risada tranquila, cruzando os braços.

— Relaxa, meu jovem. Eu tenho tudo sob controle. Já fiz as contas e sei que dá pra ajustar as coisas. Considero isso um investimento, sabe? Reconhecer quem trabalha bem.

Caio mal consegue esconder o sorriso. Aquele aumento viria em um momento perfeito, já que ele precisava de mais dinheiro para o projeto do jogo indie com Renato.

— Poxa, Djalma, muito obrigado mesmo. Você não faz ideia do quanto isso vai me ajudar!

Djalma sorri, satisfeito com a reação de Caio.

— Você merece, rapaz. Agora vai lá, tem cliente chegando.

Caio, ainda sorrindo, se apressa para atender o cliente, mas no fundo está comemorando. Aquela notícia fez seu dia começar da melhor forma possível, e ele se sentia ainda mais motivado a continuar batalhando pelos seus sonhos. Enquanto serve o cliente, não consegue deixar de pensar:

— Esse aumento vai fazer toda a diferença. Tá dando certo... as coisas estão começando a melhorar.

Caio, com a rotina no balcão, decide limpar o freezer quando ouve uma voz doce e inesperada:

— Oi.

Ele se vira e, para sua surpresa, é sua nova vizinha, Sonya. Ele a reconhece imediatamente.

— Você é minha vizinha, né? Sonya, certo?

Ela confirma com um leve aceno e pergunta:

— É... mas como você sabe meu nome?

Caio, tentando soar casual, explica:

— Ah, meu amigo Renato conversou com a Bianca, sua amiga, e ela comentou.

Sony dá uma risada breve, mas com um toque de incômodo, e diz:

— Claro... o povo daquela rua é o clichê da pobreza, né? Tudo um bando de fofoqueiros.

Caio sente o comentário atravessar como uma faca. Ele pensa em confrontá-la, mas, lembrando que está no trabalho e precisando manter a postura, decide ignorar o comentário.

— Vai querer algo? — pergunta ele, com um tom mais sério.

Sonya responde sem pensar muito:

— Sim, me vê três coxinhas.

Caio pega as coxinhas, embala rapidamente e entrega a ela. Sonya paga sem sequer agradecer, e sai da loja com a mesma postura de superioridade.

Caio a observa indo embora, mas algo dentro dele muda. A curiosidade e o leve encanto que sentiu antes agora desaparecem completamente.

— Que arrogância... — ele murmura para si mesmo, enquanto volta ao balcão. A imagem que ele tinha de Sony já não é mais a mesma. Para ele, ela não era apenas uma vizinha rica que se mudou para sua rua; agora, parecia alguém presa a preconceitos que Caio não tinha paciência para aturar. Ele balança a cabeça, tentando não pensar mais no assunto, e volta ao trabalho, determinado a focar apenas no que realmente importa.

Sonya chega em casa ainda com o rosto fechado, mas tenta disfarçar ao subir para o quarto. Quando entra, vê Bianca sentada em sua cama, concentrada no celular.

— E aí, conversou com sua mãe? — pergunta Sonya, curiosa.

Bianca solta um suspiro exagerado e responde:

— Ah, acredita que minha mãe pediu pra eu me afastar de você? Só porque sua família fugiu da mansão e agora tá aqui.

Sonya cruza os braços e ri de maneira amarga:

— Claro que eu acredito. Se eu pudesse, também me afastaria de mim mesma.

Bianca para de mexer no celular e olha para Sonya com um sorriso reconfortante.

— Minha família é mesquinha, Sonya. Nunca nos demos bem, então nem se preocupe. Eu não vou me afastar de você, nem da sua família.

Sonya dá uma risada sincera pela primeira vez no dia e responde:

— Você é literalmente minha irmã postiça, Bianca.

Bianca sorri,

— Ah, falando em família, que história é essa de você ter falado com um tal de Renato? Questiona Sonya

Sonya ergue as sobrancelhas, surpresa, mas antes que possa dizer algo, Bianca já começa a falar, com brilho nos olhos:

— Tenho uma história incrível pra te contar!

Bianca começa a relatar, de maneira empolgada, como Renato apareceu na hora certa para ajudá-la durante um assalto na rua. Ela descreve cada detalhe com entusiasmo, desde a coragem de Renato até o jeito como ele a tranquilizou depois.

Sonya ouve tudo com um misto de curiosidade e ceticismo, mas no fim, dá uma risadinha.

— Nossa, pelo jeito esse Renato mexeu mesmo com você.

Bianca suspira, ainda emocionada.

— Não é todo dia que alguém te salva de um assalto, né?

Sonya concorda com um aceno e sorri, mas logo se levanta.

— Bom, agora deixa eu me arrumar. Tenho um compromisso com meus pais.

Bianca a observa por um momento e, antes de voltar ao celular, comenta:

— Só não vá comprar mais coxinhas por aí, hein?

Sonya ri, mas não responde, apenas pega uma roupa e segue para o banheiro.

Enquanto isso na pimposa

Caio estava finalizando a organização do estoque quando Djalma apareceu na porta, com aquele sorriso que Caio já conhecia bem.

— Então, Caio, o que você acha de acabar com essa sua enrolação? — disse Djalma, cruzando os braços de maneira amigável.

Caio, já suspeitando do que se tratava, suspirou.

— Você tá falando do fato de eu não ter escolhido uma igreja pra frequentar, né?

Djalma confirmou com um aceno de cabeça.

— Isso mesmo! Olha, rapaz, vamos resolver isso logo. Vai comigo hoje na minha igreja.

Caio tentou escapar, mantendo um tom educado:

— Sabe, Djalma, acho que isso não é muito pra mim...

Mas Djalma não desistiu.

— Como você sabe, se nunca tentou? Vamos lá, rapaz, só hoje. Te garanto que não vai se arrepender.

Caio olhou para o relógio, tentando pensar em uma desculpa, mas percebeu que não havia saída.

— Beleza, um dia só não vai me matar, né?

Djalma abriu um grande sorriso, quase como se tivesse ganhado um prêmio.

— Isso aí! Sabia que você ia aceitar.

Os dois finalizaram o fechamento da loja juntos, trancaram as portas e seguiram até o carro de Djalma.

— Você vai gostar, Caio. Minha igreja é cheia de gente boa, e o pastor é incrível!

Caio apenas assentiu, tentando esconder seu desconforto. Ele olhou pela janela enquanto o carro se movia pelas ruas, pensando em como a noite seria e já contando os minutos para voltar para casa.

Caio e Djalma chegam à igreja, que já estava movimentada. Djalma cumprimentava praticamente todo mundo, com o entusiasmo de quem se sente em casa. Enquanto isso, Caio, visivelmente desconfortável, seguia atrás dele, tentando passar despercebido.

Ao entrar no salão principal, Caio começou a observar o ambiente. Apesar de ainda se sentir deslocado, algo chamou sua atenção: Sonya estava sentada com seu pai em um banco, aparentemente esperando o culto começar. Caio ficou surpreso ao vê-la ali.

"Deveria conversar com ela sobre a forma como me tratou hoje cedo", pensou ele. "Aqui, eu não sou funcionário, e ela precisa entender isso."

Enquanto ponderava, viu o pai de Sonya se levantar e caminhar em direção ao bebedouro. Essa parecia a oportunidade perfeita.

— Djalma, vou me sentar ali. — avisou Caio, apontando para um banco mais próximo de Sonya.

— Claro, meu jovem. Vai lá, fique à vontade. — respondeu Djalma, sem dar muita atenção, ocupado cumprimentando mais pessoas.

Caio caminhou até Sonya e, ao chegar, perguntou:

— Posso me sentar aqui?

Sonya, distraída e sem olhar muito para ele, respondeu com indiferença:

— Sim.

Caio se sentou ao lado dela, respirou fundo e, depois de um breve silêncio, perguntou:

— Posso te fazer uma pergunta?

Sonya, intrigada, ergueu uma sobrancelha e finalmente o olhou, avaliando-o rapidamente.

— Pode.

Caio, sem hesitar, disparou:

— Como uma garota rica e tão linda como você pode ser tão arrogante e prepotente?

Sonya o encarou, surpresa com a ousadia dele. Por um momento, ficou sem reação, enquanto o peso das palavras de Caio ecoava em sua mente.

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