Conexões e Conflitos

Sonya olhou para Caio, ainda surpresa pela ousadia dele. Um pouco sem jeito, ela respondeu:

— Nossa, você é bem ousado, né?

Caio deu uma risada leve, tentando aliviar a tensão.

— Na verdade, sou bem tímido.

Sonya arqueou uma sobrancelha, com um tom sarcástico:

— Imagina se não fosse.

Havia algo nos olhos de Caio que a deixava desconfortável. Era como se ele estivesse tentando enxergar além das máscaras que ela usava. Ele continuava a encará-la, mas não de forma invasiva. Parecia estar analisando, tentando entender quem ela era de verdade.

— Bom, o que você quer? Que eu peça desculpas? — Sonya perguntou, tentando disfarçar o desconforto. — Foi mal, então.

Caio manteve o olhar firme, mas a voz saiu tranquila.

— Não é bem isso. Confesso que fiquei com raiva quando você fez aquilo na lanchonete, mas depois pensei... "Ela deve ter um motivo pra isso".

Sonya o encarou, surpresa com a resposta inesperada.

— Você tá achando que é o quê? Psicólogo? — rebateu com certo sarcasmo, tentando mascarar a vulnerabilidade. — Escuta, se eu precisar de terapia, eu procuro um.

Caio sentiu que havia tocado em algo sensível. Por um momento, pareceu desconfortável, mas não recuou.

— Eu só queria que você soubesse que ainda dá pra fazer amigos hoje em dia. Porque, sinceramente, tá óbvio que você está tentando chamar atenção com esse seu jeito.

Sonya arregalou os olhos, visivelmente abalada pela observação direta.

— Não é bem assim... — respondeu, desviando o olhar.

— Então me explica. — Caio a desafiou, mas com um tom que soava mais como um convite do que uma exigência.

Sonya permaneceu em silêncio por alguns segundos, como se estivesse ponderando se podia ou não confiar nele. Suas mãos estavam inquietas, e seu olhar parecia buscar algo no vazio.

A tensão entre os dois era palpável, mas, ao mesmo tempo, havia uma conexão que nenhum dos dois esperava.

Sonya desviou o olhar de Caio e focou em seu pai, que conversava animadamente com um homem desconhecido próximo ao bebedouro.

Caio percebeu o movimento e perguntou, curioso:

— Quem é aquele homem?

— Meu pai. — respondeu Sonya, com um tom casual. — Sabe como é, a gente é novo aqui no bairro, então ele decidiu vir à igreja para fazer amizades.

Caio concordou com um aceno de cabeça.

— Bom, realmente é uma boa ideia.

— Sim, é uma ideia ótima. — confirmou Sonya, começando a relaxar.

Caio, intrigado, perguntou:

— Então, você está aqui só para ajudar seu pai?

Sonya hesitou por um momento, mas depois, com um leve sorriso, respondeu:

— Pior que não. Eu vou à igreja desde criança, e eu adoro.

Caio ficou surpreso com a revelação e soltou uma risada sem jeito.

— Por essa eu não esperava.

Sonya, percebendo o tom de surpresa, devolveu a curiosidade:

— E por que você achou que eu só viria aqui obrigada?

Caio, um pouco desconcertado, respondeu:

— Porque, bom... meio que eu fui obrigado a vir pra cá.

Sonya arqueou as sobrancelhas, agora ainda mais curiosa.

— Caramba, sua mãe ou seu pai?

Caio deu uma risada breve, antes de responder:

— Na verdade, meu chefe.

Sonya não conseguiu segurar a risada e soltou um riso sincero.

— Já vi mãe, pai, avó... mas chefe obrigar a ir à igreja? Essa é novidade!

Os dois caíram na risada, e pela primeira vez, a tensão entre eles parecia ter diminuído. O clima leve foi interrompido pelo início do culto. As pessoas começaram a se sentar, e o silêncio se espalhou pelo salão.

Sonya olhou para Caio, como se quisesse continuar a conversa, mas hesitou. Depois de alguns segundos, ela sussurrou:

— Quer conversar lá fora?

Caio olhou em direção a Djalma, que estava sentado, concentrado no culto.

— Pode ser, mas meu chefe não pode me ver saindo.

— Quem é ele? — perguntou Sonya, curiosa.

Caio apontou discretamente para Djalma, que estava na fileira da frente, atento a tudo que acontecia no altar.

Sonya segurou uma risada, e os dois começaram a sair do banco, abaixados e tentando não chamar atenção. Ao atravessarem o corredor em silêncio, trocaram olhares cúmplices e quase deixaram escapar uma risada.

Do lado de fora da igreja, ambos respiraram aliviados, prontos para continuar a conversa em um tom mais descontraído

Caio e Sonya se sentaram na calçada em frente à igreja, onde o ar fresco e o som distante do culto criavam um ambiente de calmaria. Sonya, ainda intrigada, virou-se para Caio com um sorriso curioso.

— Me diz uma coisa: por que seu chefe queria tanto te trazer para a igreja? Você tá fazendo algo errado?

Caio soltou uma risada leve, balançando a cabeça.

— Não, que isso. Eu sou bem tranquilo. Mas o Djalma tem uma superstição boba de que a loja só faz sucesso se todo mundo estiver frequentando a igreja. É meio loucura.

Sonya riu, divertida com a explicação.

— Loucura, talvez. Mas, de certa forma, a fé dele me parece ser algo louvável.

Caio refletiu por um momento antes de concordar.

— Bem, tirando essas ideias dele, o Djalma é realmente um homem exemplar.

Sonya cruzou os braços, pensativa, e deduziu:

— Pelo que percebi, você não parece muito fã de igreja, né?

Caio ficou visivelmente desconfortável com a observação. Sonya percebeu e sorriu, aproveitando a situação para brincar:

— Ah, agora é você que tá desconfortável. Viu como é bom brincar?

Caio relaxou, rindo da observação.

— Tá, na verdade... eu sou ateu.

Sonya ergueu as sobrancelhas, um pouco surpresa, mas logo suavizou a expressão com um sorriso compreensivo.

— Bom, isso faz muito sentido.

Caio, curioso, perguntou:

— Isso te incomoda?

Sonya respondeu de maneira sincera:

— Claro que não. Eu acredito em Deus, tenho minha religião, mas respeito as escolhas das pessoas.

Caio respirou aliviado, aliviado com a honestidade dela.

— Que bom ouvir isso.

Sonya, com um tom brincalhão, acrescentou:

— Relaxa, não vou te queimar na fogueira!

Ambos riram, sentindo-se mais à vontade.

Sentados na calçada, Sonya olhou para Caio com um olhar mais sério, percebendo a sinceridade dele sobre ser ateu.

— Você não parece dizer isso pra qualquer pessoa. — comentou ela.

Caio suspirou e confirmou:

— Bom, só quem sabe disso é você, meus amigos da rua, e meu melhor amigo, Renato.

Sonya franziu a testa, intrigada.

— Sua família não sabe?

Caio desviou o olhar, hesitante.

— Não. Minha mãe e minha irmã são da igreja... Meu chefe também. Não quero decepcioná-los.

Sonya ponderou, medindo as palavras antes de perguntar:

— Você acha que eles não aceitariam?

— Na verdade, não tem como prever as reações deles. — disse Caio, pensativo. — Mas, por enquanto, é melhor deixar assim.

Sonya respeitou a posição de Caio e sorriu levemente.

— Entendi. Vamos mudar de assunto?

— Com certeza. — respondeu Caio, aliviado.

Os dois começaram a conversar sobre coisas mais leves, compartilhando risadas e deixando o ambiente descontraído.

Na Rua 2

Enquanto isso, Ketelin caminhava pela rua 2 com passos rápidos e uma expressão determinada. Ao chegar na casa de Isabela, ela bateu na porta e chamou:

— Isabela!

Depois de um breve silêncio, a porta se abriu e Isabela apareceu, um pouco surpresa.

— Ketelin? O que você tá fazendo aqui?

— Podemos conversar? — perguntou Ketelin, com um tom sério.

Isabela assentiu e abriu o portão, gesticulando para que ela entrasse.

— Claro, entra.

As duas entraram, e o clima parecia tenso, indicando que o encontro tinha algo importante para ser resolvido.

Na Casa de Isabela

Ketelin sentou-se na cama de Isabela, abraçando um travesseiro com as mãos, enquanto suspirava profundamente.

— Faz tempo que a gente não conversa, né? — disse Ketelin, tentando criar um clima mais descontraído.

Isabela, sentada na cadeira ao lado, assentiu.

— É verdade. E aí, amiga, como você tá? Aquele seu casamento foi uma loucura.

Ketelin forçou um sorriso, mas sua expressão denunciava a confusão interna.

— Bom, eu não amava o Wallaf tanto assim... por isso estou aqui. — confessou, hesitante.

Enquanto Ketelin falava, Isabela, quase imperceptivelmente, mexeu no bolso, mas disfarçou ao notar que Ketelin não percebeu.

— O que você queria falar? — perguntou Isabela, voltando sua atenção à amiga.

Ketelin respirou fundo antes de dizer:

— Isso vai ser difícil, mas você é minha melhor amiga. Posso confiar em você?

Isabela sorriu, tentando tranquilizá-la.

— Claro, amiga.

Sentindo-se mais à vontade, Ketelin continuou:

— Eu estou apaixonada pelo Djalma.

Isabela não demonstrou surpresa, apenas sorriu de canto.

— Ah, amiga, isso já dava pra perceber.

Ketelin arregalou os olhos.

— Como assim?

— Sei lá... o jeito que você olha pra ele, fala dele. Era questão de tempo até você perceber também.

Ketelin suspirou novamente e começou a falar sobre seus sentimentos e inseguranças.

— Tenho medo de começar um relacionamento tão cedo... Acabei de desmanchar o casamento. O que as pessoas vão pensar?

Isabela balançou a cabeça, decidida:

— Não importa o que os outros vão pensar. Você tem que fazer o que te faz feliz.

Ketelin concordou, ainda receosa.

— Mas o que eu devo fazer?

Isabela sorriu, de forma encorajadora.

— Sinceramente? Vai pra cima!

Ketelin ficou pensativa, mordendo o lábio inferior.

— Mas será que o Djalma gosta de mim?

— Bom, isso só tem um jeito de descobrir. — respondeu Isabela, com um tom provocativo.

A conversa continuou, com Ketelin se abrindo cada vez mais sobre seus medos e esperanças.

---

De Volta à Igreja

Do lado de fora, Caio e Sonya ainda estavam sentados na calçada, conversando descontraidamente. No entanto, o pai de Sonya começou a notar sua ausência dentro da igreja. Ele olhou ao redor, tentando localizá-la, mas sem sucesso.

— Onde será que ela foi? — murmurou para si mesmo.

Sem pensar duas vezes, decidiu sair para procurá-la, acreditando que talvez estivesse lá fora.

Marcelo surge na calçada, chamando a atenção de Sonya e Caio.

— Vamos, minha filha, o culto já acabou.

Sonya e Caio, surpresos, se entreolham.

— Sério? O tempo passou tão rápido — comenta Sonya, levantando-se.

— Ah, pai, esse é o Caio.

Caio também se levanta, estendendo a mão para Marcelo, e ambos se cumprimentam.

— Bom saber que minha filha está fazendo amizades — diz Marcelo com um sorriso acolhedor.

Sonya dá uma risada leve, enquanto Caio olha para ela e, antes de se despedir, diz:

— Amanhã aparece lá na rua. Quero te apresentar o pessoal.

Sonya sorri e confirma com um aceno.

— Pode deixar, eu vou.

Marcelo e Sonya se afastam, caminhando juntos pela calçada. Caio os observa por um instante, depois volta para dentro da igreja e se senta em um banco qualquer, tentando não chamar atenção.

Após alguns minutos, Djalma aparece ao lado dele, com curiosidade nos olhos:

— E aí, o que achou do culto?

Caio engole seco, tentando manter a farsa.

— Nossa, realmente foi incrível.

Djalma, satisfeito, sorri largamente.

— Sabia que você ia gostar! Vamos, eu te deixo em casa.

Ambos saem juntos da igreja, com Caio aliviado por ter sobrevivido à experiência e, ao mesmo tempo, intrigado com os acontecimentos da noite.

Ketelin e Isabela continuam conversando animadamente até que Ketelin percebe o horário.

— O papo está bom, mas tenho que ir. — diz ela, levantando-se.

— Tudo bem, eu te acompanho até o portão. — responde Isabela, com um sorriso.

As duas se despedem com um abraço rápido, e Ketelin segue em direção à sua casa.

Enquanto isso, Wallaf está em casa, no sofá, assistindo a um filme. Sua mãe dorme tranquilamente no quarto ao lado. Ele está concentrado na TV, até que o celular vibra sobre a mesinha. Curioso, pega o aparelho e percebe que recebeu uma mensagem de um número desconhecido.

Ao abrir a mensagem, encontra um arquivo de áudio anexado. Intrigado, Wallaf dá play no áudio e, para sua surpresa, ouve a voz de Ketelin.

—Bom, eu não amava o Wallaf tanto assim... por isso estou aqui, Eu estou apaixonada pelo Djalma.

Wallaf paralisa por alguns segundos, o sangue fervendo. Ele sente a raiva tomando conta, enquanto olha novamente para o número.

— Quem mandou isso? E por quê? — murmura para si mesmo, tentando processar a situação.

A cena corta para Isabela em seu quarto, o celular ainda na mão, com um sorriso malicioso nos lábios.

— Agora as coisas vão ficar interessantes. — diz ela, em voz alta, antes de começar a rir sozinha.

Fim do capítulo

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