Bianca e Renato finalmente tomam coragem e tocam a campainha da casa de Bianca. Após alguns instantes de silêncio, o grande portão se abre lentamente, revelando o interior da propriedade. Renato olha para Bianca com apreensão, e ela retribui o olhar, hesitante, mas ambos seguem em frente.
Caminhando pelo amplo caminho de pedras, ladeado por um jardim perfeitamente cuidado, Renato observa ao redor com curiosidade. Os arbustos aparados em formas geométricas, as flores exóticas e uma fonte central parecem saídos de uma revista de luxo. Ele não consegue conter sua dúvida:
— Posso te perguntar uma coisa? — Renato quebra o silêncio, sua voz curiosa.
Bianca, ainda olhando para frente, responde:
— Claro.
— Como você troca uma casa dessas pelo meu bairro? Tipo, a Sonya tudo bem, os pais dela estão falidos, mas sua família me parece muito bem de vida.
Bianca para por um momento, como se buscasse as palavras certas, e então responde, com um sorriso amargo:
— É que, para a minha família, dar dinheiro é a única forma de demonstrar amor. Sempre foi assim.
Renato franze o cenho, tentando entender melhor. Bianca continua:
— Meus pais sempre me viram como um peso. Foi o Marcelo que me acolheu, me tratou como uma filha. Então, é como se eu fosse quase adotada por eles.
Renato absorve a revelação em silêncio, compreendendo mais sobre a relação dela com Marcelo e sua decisão de estar ao lado de Sonya.
Quando finalmente chegam à entrada da casa, uma grande porta dupla de madeira trabalhada, Bianca para diante dela, respira fundo e diz:
— É aqui.
Renato observa seu semblante tenso e a tranquiliza:
— Vai dar tudo certo. Estou aqui com você.
Bianca sorri levemente, mas sua apreensão ainda é visível. Ela estende a mão para a maçaneta, pronta para enfrentar o que vem a seguir.
Bianca e Renato entram na luxuosa sala de estar, decorada com móveis de design, tapetes persas e um grande lustre de cristal que domina o ambiente. Sentados no sofá, estão seus pais: Luísa, elegante em um vestido impecável, e Heitor, lendo um jornal, com o semblante sério.
Luísa é a primeira a notar Bianca e se levanta, abrindo os braços.
— Bianca, querida! Quanto tempo!
Bianca força um sorriso enquanto aceita o abraço da mãe, mas mantém um olhar nervoso para Renato.
— Oi, mãe. Oi, pai.
Heitor mal tira os olhos do jornal.
— Veio pedir dinheiro de novo?
Renato fica desconfortável com o comentário, mas Bianca mantém a calma.
— Na verdade, sim. Preciso de um favor.
Luísa lança um olhar de censura.
— Bianca, você sabe que não queremos criar dependência. Já damos tudo o que você precisa.
— Não estou pedindo para mim. É para ajudar uma pessoa que realmente precisa. — Bianca se vira para Renato. — Esse é o Renato, meu amigo.
Heitor finalmente abaixa o jornal e analisa Renato com um olhar crítico.
— E por que deveríamos ajudar?
Bianca respira fundo e, com a voz firme, diz:
— Porque vocês vivem dizendo que me amam e querem o melhor para mim. Bem, isso é importante para mim. Renato é uma das pessoas mais honestas que eu conheço, mas está passando por um momento difícil. Ajudá-lo não é apenas sobre dinheiro, é sobre fazer algo certo.
Luísa tenta mudar de assunto.
— Bianca, não se envolve nos problemas dos outros. É um peso que você não precisa carregar.
— Vocês não entendem, não é? — Bianca olha diretamente para o pai. — Sempre me cobram maturidade, mas como posso ser madura se nunca confiam em mim para tomar minhas próprias decisões?
O tom de Bianca pega os dois de surpresa. Heitor se ajeita no sofá, desconfortável. Luísa tenta responder, mas Bianca a interrompe:
— Não é sobre o dinheiro. É sobre mostrar que, pela primeira vez, vocês confiam em mim.
O silêncio pesa no ar. Heitor finalmente solta um suspiro longo e diz:
— Quanto?
Bianca hesita, surpresa pela pergunta direta.
— O valor não é muito... Só o suficiente para quitar a conta de energia e colocar a vida dele nos eixos.
Heitor olha para Luísa, que dá de ombros. Ele pega uma caneta e um talão de cheques, escreve rapidamente e entrega o cheque nas mãos de Bianca.
— Espero que saiba o que está fazendo.
Bianca sente um misto de alívio e surpresa.
— Obrigada. Obrigada mesmo.
Renato, emocionado, tenta falar, mas as palavras não saem. Ele faz um gesto respeitoso com a cabeça para os pais de Bianca e sussurra:
— Obrigado.
Quando os dois saem da casa, Bianca sorri para Renato.
— Pronto, problema resolvido.
Renato, ainda processando o que acabou de acontecer, olha para ela com gratidão.
— Eu nunca vou esquecer isso.
Bianca apenas sorri, aliviada por ter conseguido ajudar seu amigo.
O sol da tarde penetra pelas frestas das telhas do barraco de Robson. Ele, já impaciente, está sentado em uma cadeira velha, batendo os dedos na mesa enquanto olha fixamente para o agiota.
Robson (com o tom de quem perdeu a paciência): "Eu sei que disse pra você dar mais uma chance pro Marcelo, mas, sinceramente, já tô cansado dessa palhaçada."
O agiota, encostado na parede com um cigarro aceso entre os dedos, dá um sorriso sarcástico.
Agiota: "E o que você sugere, meu amigo? A gente sabe que ele não vai pagar."
Robson se levanta lentamente, andando de um lado para o outro. O sol reflete em sua pele suada. Ele para por um momento, pensativo, e vira-se para o agiota.
Robson: "Vou dar um último susto nele. Você e mais um dos meus homens – pode ser o Cléber – vão buscar ele. Quero ele aqui na minha frente antes do anoitecer."
O agiota dá uma risada curta, jogando o cigarro no chão e apagando-o com a ponta do sapato.
Agiota: "O Marcelo vai se borrar nas calças."
Robson pega o telefone e liga para Cléber, que está no seu próprio barraco com Bagulhinho.
Cléber (atendendo ao telefone): "Fala, chefe."
Robson: "Vem aqui agora. Quero que você e o agiota busquem o Marcelo e tragam ele pra mim. Tô sem paciência pra esse cara."
Cléber: "Tô indo, chefe."
Ele desliga o telefone, coloca o celular no bolso e se vira para Bagulhinho, que está sentado no chão mexendo em algo inútil.
Cléber (com um sorriso no rosto): "Em breve, é a gente que vai tá mandando nessa bagaça."
Bagulhinho dá uma risada alta, mas não responde. Cléber sai do barraco e começa a caminhar em direção ao ponto de encontro com Robson. O sol da tarde ilumina seu rosto determinado, enquanto o vento quente carrega o cheiro de poeira no ar.
Sonya e Caio estão sentados, profundamente imersos na conversa, rindo e se apoiando. Tão distraídos estão que não percebem que a chuva já passou, e o sol agora brilha intensamente, iluminando a rua e secando as poças d’água.
Caio (notando o clima): "Olha só, agora você não precisa mais se preocupar com a chapinha."
Sonya (com uma leve risada): "Ai, como você é bobão!"
Ela se levanta, esticando as pernas, enquanto observa o céu limpo e sente o calor suave do sol.
Sonya (determinada): "Bem, está na hora de eu ir procurar aquele colar."
Caio, ainda sentado, sorri de forma encorajadora.
Caio: "Relaxa, você vai conseguir. Só não desiste, tá?"
Sonya hesita por um momento, passando os dedos pelos cabelos enquanto encara Caio com uma expressão incerta. Ela respira fundo antes de perguntar, quase como se temesse a resposta:
Sonya: "Você... você quer me ajudar?"
Caio parece um pouco surpreso com a pergunta. Ele desvia o olhar por um momento, mexendo na ponta da camisa, antes de sorrir de leve e se levantar.
Caio: "Tá bom, eu vou com você."
O alívio e a gratidão de Sonya são visíveis em seu rosto, e ela sorri de volta.
Sonya: "Obrigada, Caio. De verdade."
Os dois começam a caminhar juntos, lado a lado, voltando para a rua 2.
Bianca e Renato chegam a casa da dona Neide entram na casa simples e seguem até a sala, onde se sentam no pequeno sofá de tecido gasto. O ambiente é acolhedor, apesar da simplicidade, e o silêncio é quebrado pelos passos de Dona Neide, que se aproxima curiosa, enxugando as mãos no avental.
Neide (com expectativa): "E aí, crianças? O plano da Bianca deu certo?"
Renato respira fundo, sentindo o peso sair de seus ombros, e sorri aliviado.
Renato: "Deu sim, mãe. Tá tudo resolvido."
Bianca, sentindo-se à vontade, completa a explicação.
Bianca: "A gente já foi na agência da companhia elétrica e pagou tudo. Amanhã mesmo eles vêm religar a luz."
Dona Neide leva a mão à boca, visivelmente emocionada. Com lágrimas nos olhos, ela se aproxima e abraça Bianca com força, agradecendo de coração.
Neide (com a voz embargada): "Obrigada, minha filha. Você não tem ideia do quanto isso significa pra gente."
Bianca retribui o abraço com carinho, sentindo a sinceridade no gesto.
Bianca (com um sorriso): "Imagina, Dona Neide. Eu fico feliz em poder ajudar."
Enquanto isso, Renato observa a cena, constrangido com a intensidade do momento. Ele coça a nuca, tentando disfarçar o desconforto.
Renato (meio sem jeito): "Tá, mãe... Também não precisa exagerar, né?"
Dona Neide se afasta, mas sorri para os dois, ainda emocionada.
Neide: "Vocês dois são maravilhosos. Agora é torcer para que tudo volte ao normal logo."
Os três compartilham um momento de alívio, e Bianca sente que finalmente fez a diferença na vida de alguém.
Sonya entra na casa com Caio logo atrás, ainda um pouco hesitante. A mãe de Sonya, uma mulher elegante e de traços delicados, está na cozinha mexendo em algo no fogão. Ao ver a filha, ela sorri calorosamente.
Sonya (animada): "Mãe, esse aqui é meu amigo Caio."
A mãe de Sonya se vira para cumprimentá-lo com um sorriso gentil.
Mãe de Sonya: "Ah, então você é o famoso Caio! Seja bem-vindo."
Caio, claramente nervoso, tenta manter a compostura.
Caio (com um sorriso tímido): "Obrigado, senhora. É um prazer conhecê-la."
Sonya, percebendo o nervosismo dele, sorri divertida e completa:
Sonya: "A senhora precisa conhecer ele melhor. Caio é um amigo incrível, mãe."
Caio ri sem jeito, balançando a cabeça.
Caio: "Não precisa exagerar, Sonya."
A mãe de Sonya ri suavemente, já se simpatizando com o rapaz.
Mãe de Sonya: "Se minha filha gosta de você, Caio, então você é mais do que bem-vindo aqui. Sem falar que meu marido já comentou sobre você."
Caio fica surpreso e feliz com o comentário.
Caio (curioso): "Ah, ele já falou de mim?"
Antes que a conversa possa se aprofundar, Sonya tenta apressar as coisas.
Sonya: "Mãe, posso ir com o Caio até meu quarto? Preciso resolver uma coisa rapidinho."
Mas, como que de propósito, Marcelo surge na sala naquele exato momento.
Marcelo: "Ora, ora, então este é o famoso Caio? O jovem trabalhador como você está?."
Caio, ainda mais nervoso, estica a mão para cumprimentá-lo.
Caio: "Sim, senhor. Estou bem."
Marcelo aperta a mão de Caio firmemente e sorri.
Marcelo: "viver bem e a chave. Mas antes de vocês irem, que tal um café? Acabei de passar."
Sonya tenta disfarçar a frustração, mas Caio, sem saída, apenas assente educadamente.
Caio: "Claro, senhor. Eu adoraria."
Todos seguem para a mesa, onde a conversa flui enquanto o café é servido. Sonya, ainda ansiosa para procurar o colar, tenta manter a calma enquanto observa a interação amigável entre Caio e seus pais.
A sala está iluminada apenas por uma pequena vela sobre a mesa, dando ao ambiente um ar tranquilo e intimista. Bianca e Renato estão sentados no sofá, o silêncio preenchido apenas pelo som distante da noite. Neide já foi dormir, e a escuridão reforça a sensação de proximidade entre os dois.
Renato (olhando para Bianca): "Eu nem sei como agradecer o que você fez por mim e pela minha mãe. Sério, isso significa muito."
Bianca sorri, com um brilho de ternura nos olhos.
Bianca: "Você não precisa agradecer, Renato. Você é uma pessoa incrível. Eu faria qualquer coisa por você."
Renato fica visivelmente sem jeito, desviando o olhar por um momento.
Renato (tímido): "Bom, só isso já foi mais do que suficiente. De verdade."
Bianca ri levemente, quebrando um pouco da tensão.
Bianca: "Tá bom, mas saiba que, se precisar, eu sempre estarei aqui."
Renato esboça um sorriso, mas logo muda de assunto para disfarçar o nervosismo.
Renato: "Nossa, ficar sem luz é muito estranho, né? Parece que a gente voltou pra idade da pedra."
Bianca observa o jeito dele, com um olhar carinhoso.
Bianca: "Sabe... eu acho isso meio romântico."
Renato é pego de surpresa, sem palavras. Ele tenta formular algo, mas antes que consiga, Bianca se inclina lentamente e o beija, um gesto cheio de emoção e coragem.
Por alguns segundos, o tempo parece parar. Quando o beijo termina, Renato a olha, ainda processando o que acabou de acontecer.
Renato (quase sem voz): "Isso tá acontecendo mesmo?"
Bianca dá uma risadinha suave, divertida, mas com sinceridade nos olhos.
Bianca: "Sim, Renato. Faz tempo que eu queria fazer isso."
Os dois riem juntos, um pouco sem graça, mas cúmplices. Renato, ainda tímido, tenta manter a compostura.
Renato (sem jeito, mas sincero): "Ah... então... acho que a gente podia continuar, né?"
Bianca sorri, inclinando-se novamente. Desta vez, o beijo é ainda mais intenso, selando o momento em que os dois finalmente reconhecem o que sentem um pelo outro.
Enquanto isso, Sonya, Helena, Marcelo e Caio estavam na mesa tomando café. Sonya olhava ao redor, tentando encontrar uma desculpa para sair e procurar o colar, mas nada lhe vinha à mente. De repente, a campainha tocou.
Marcelo se levantou prontamente e disse:
— Eu atendo.
Ao abrir a porta, ele se deparou com uma visão que fez o sangue gelar: o agiota e Cléber estavam ali. O agiota sorriu com malícia e disse:
— E aí, meu bom amigo? Pronto pra acertar as contas?
Marcelo tentou manter a compostura, mas seu tom sério traiu a tensão em sua voz.
— O que vocês querem?
Cléber, sem rodeios, puxou uma arma e respondeu friamente:
— Um passeio com você.
No interior da casa, Helena ouviu algo, mas os detalhes eram vagos. Preocupada, gritou:
— Está tudo bem, amor?
Marcelo, tentando evitar pânico, respondeu firme:
— Tudo bem, querida! Já volto!
Relutante e sem escolha, ele seguiu com os dois homens até um carro preto estacionado. O barulho da porta batendo e o som dos pneus cantando no asfalto foram altos o suficiente para chamar a atenção de Sonya e Caio, que correram até a porta, seguidos por Helena.
Sonya observou o carro desaparecer e, desesperada, gritou:
— Meu Deus! Eles levaram meu pai!
Caio, preocupado, colocou a mão no ombro de Sonya e disse com determinação:
— Precisamos achar esse colar agora!
Helena, confusa, tentou entender o que estava acontecendo.
— Que colar? O que está acontecendo?
Ninguém parecia prestar atenção nela, até que, tomada pelo desespero, Helena gritou:
— EU EXIJO SABER O QUE ESTÁ ACONTECENDO!
Sonya parou no meio do caminho para o quarto, respirou fundo e, tentando manter a calma, respondeu:
— Mãe... O papai está devendo para um agiota. Por isso ele chegou machucado aquele dia. E... agora eu preciso encontrar aquele colar de diamantes. Só assim podemos salvar a vida dele.
Helena ficou em choque, suas pernas fraquejaram, e, antes que pudesse dizer mais alguma coisa, sua pressão caiu. Ela desmaiou no chão.
Sonya e Caio correram até ela, divididos entre socorrê-la ou continuar a busca pelo colar. Sonya, com lágrimas nos olhos, segurou a mão da mãe, enquanto Caio olhava para ela, claramente preocupado.
— O que a gente faz agora? — Caio perguntou, angustiado.
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Atualizado até capítulo 36
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