Linhas Cruzadas

A cidade amanheceu sob um céu cinzento, as nuvens pesadas refletindo a tensão que pairava sobre Valentina e seus aliados.

O ataque ao depósito no sul deixara não apenas perdas financeiras, mas também uma sensação de vulnerabilidade que ela detestava admitir.

Na base principal de suas operações, os corredores estavam mais movimentados do que de costume, os sussurros e olhares desconfiados denunciando o impacto do ocorrido.

Valentina estava em sua sala de reuniões, cercada de mapas, relatórios e informações espalhadas sobre a mesa. Ela lia cada documento com atenção obsessiva, procurando qualquer pista que pudesse indicar como os Zanchetti souberam do depósito.

Seus dedos tamborilavam sobre a madeira, enquanto a mente trabalhava em ritmo frenético.

Nico entrou na sala sem bater, como de costume.

O som das botas no chão interrompeu seu fluxo de pensamentos, mas ela não levantou os olhos de imediato. Ele trazia um semblante sombrio, carregando mais papéis em uma das mãos.

– Temos mais informações – disse ele, colocando os documentos na mesa. – Confirmação de que foram os Zanchetti. Eles não só atacaram, mas usaram uma força maior do que o esperado. Parecia que queriam impressionar alguém.

Valentina ergueu o olhar, fixando-o com um misto de irritação e determinação.

– Impressionar quem? E por quê?

Nico deu de ombros, visivelmente frustrado.

– Ainda não sabemos. Mas o padrão é estranho. Eles levaram armas e alguns documentos específicos, mas deixaram coisas valiosas para trás. Não parece o estilo deles.

Valentina estreitou os olhos, um pensamento surgindo em sua mente.

– Isso não é trabalho dos Zanchetti. Eles foram manipulados. Alguém os colocou nisso – ela disse, levantando-se e começando a andar pela sala. – E alguém dentro do meu círculo pode estar envolvido.

Nico ficou imóvel por um momento, as palavras pesando no ar.

– Você acha que temos um traidor? – perguntou, a voz mais baixa, quase como se temesse a resposta.

– Ainda não tenho certeza – respondeu Valentina, parando ao lado da janela. Ela olhou para a cidade abaixo, as luzes ainda acesas na manhã cinzenta. – Mas vou descobrir. E, quando descobrir, farei questão de que seja um exemplo para os outros.

Poucas horas depois, Valentina estava em um pequeno restaurante na parte central da cidade, escolhendo o lugar com cuidado para que não atraísse atenção indesejada.

O restaurante tinha um ar retrô, com mesas de madeira desgastada e uma jukebox antiga que parecia estar ali mais por decoração do que por uso. O cheiro de café e pão fresco se misturava ao ar pesado do lugar.

Marco chegou no horário exato, o que já era esperado.

Ele era conhecido pela pontualidade e pelo cuidado com a própria imagem. Vestindo um terno cinza-escuro perfeitamente ajustado, ele parecia deslocado naquele ambiente simples, mas não se importava.

Ao avistar Valentina, sorriu daquele jeito que a fazia sentir como se estivesse em um jogo onde ele sempre tivesse a vantagem.

– Valentina – disse ele, puxando a cadeira à sua frente e sentando-se sem esperar permissão. – Sempre elegante, até mesmo na tensão.

– Poupe-me das formalidades, Marco – retrucou ela, cruzando os braços. – Eu não estou aqui para ouvir elogios.

Ele ergueu as sobrancelhas, surpreso, mas logo sorriu, recostando-se na cadeira.

– Ah, sempre direta. O que posso fazer por você hoje? Ou devo presumir que você tem algo para discutir sobre nosso pequeno acordo?

Ela inclinou-se levemente para frente, os olhos fixos nele como lâminas afiadas.

– Meu depósito no sul foi invadido na noite passada. Os Zanchetti estavam lá, mas não agiram sozinhos. Eles sabiam exatamente o que procurar. E isso... – ela pausou, deixando o peso de suas palavras pairar no ar – é algo que me incomoda.

Marco cruzou os braços, o sorriso desaparecendo enquanto ouvia atentamente. Quando ela terminou, ele balançou a cabeça levemente.

– Está sugerindo que estive por trás disso? Que eu, seu recém-aliado, traí sua confiança? – Ele sorriu novamente, mas desta vez o gesto estava carregado de cinismo. – Isso não parece comigo, Valentina. Você sabe disso.

– Então me diga por que eu não deveria desconfiar – ela rebateu. – Você sabia sobre o depósito. Sabe de muitos dos meus movimentos agora. E foi exatamente isso que os Zanchetti atacaram.

Marco ficou em silêncio por alguns segundos, seus olhos escuros estudando cada detalhe do rosto dela. Então, inclinou-se para frente, quebrando a distância que ela havia imposto.

– Valentina, se eu quisesse te derrubar, já teria feito. Você sabe disso. Isso? Esse ataque amador? Não é o meu estilo.

Ela manteve a expressão impassível, mas a dúvida persistia. Ele era um mestre em manipulação, e suas palavras sempre tinham um propósito.

– E o que sugere, então? Que alguém está tentando colocar nós dois um contra o outro? – perguntou ela, a voz carregada de ironia.

Marco deu de ombros, como se a resposta fosse óbvia.

– Sim. E, honestamente, isso é o que eu faria se estivesse no lugar de quem quer nos derrubar. Criar discórdia entre os líderes é o primeiro passo para enfraquecer qualquer aliança. Pense nisso.

Ela o encarou por mais alguns segundos, procurando sinais de falsidade. Mas, como sempre, Marco era uma parede impenetrável.

– Vou investigar – disse finalmente, levantando-se. – E, se eu descobrir que você está mentindo, Marco, não haverá lugar seguro para você nesta cidade.

Ele sorriu, levantando-se também.

– Confio no seu julgamento. E espero que confie no meu.

De volta à base, Valentina começou a investigar as informações sobre o ataque.

Reuniu seus informantes mais confiáveis, vasculhou registros e analisou cada detalhe do ataque. Com o passar das horas, começou a perceber algo: padrões estranhos, sinais de que os Zanchetti talvez tivessem agido sob ordens de um terceiro.

Nico entrou na sala novamente, desta vez com uma expressão mais tensa.

– Descobrimos algo – disse ele, entregando um pequeno relatório. – Um dos nossos homens esteve em contato com os Zanchetti nos dias anteriores ao ataque.

– Quem? – perguntou Valentina, pegando o papel imediatamente.

– Rafael. Ele desapareceu ontem à noite. Não conseguimos localizá-lo.

Valentina apertou os dentes.

Rafael era um de seus homens de confiança, mas agora estava claro que algo havia mudado. Ele poderia ser a chave para entender o ataque – ou poderia ter sido apenas um peão em algo maior.

Enquanto isso, no coração do território Zanchetti, um homem misterioso estava reunido com os líderes do grupo. Vestido de maneira simples, ele parecia deslocado entre os mafiosos, mas sua postura exalava autoridade.

– Os Rizzo e Valentina já estão desconfiados um do outro – disse ele, com um sorriso sombrio. – É só uma questão de tempo antes que eles entrem em confronto direto. Quando isso acontecer, aproveitaremos a fraqueza de ambos.

O líder dos Zanchetti, um homem corpulento chamado Donatello, assentiu lentamente.

– E se eles resolverem suas diferenças antes disso? – perguntou.

O homem misterioso deu de ombros, um sorriso frio se espalhando pelo rosto.

– Então garantiremos que não o façam. Eles já estão no jogo. Só precisamos ajustar as peças.

...

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