A noite caiu sobre a cidade como um cobertor pesado, abafando até mesmo os ruídos habituais de motores e passos apressados.
O silêncio incomum fazia Valentina se sentir ainda mais inquieta.
Ela estava em sua sala de reuniões, mas seus pensamentos estavam longe dali. Sentada à mesa, com mapas, relatórios e anotações desordenadas espalhados ao redor, ela encarava a escuridão além da janela.
O brilho distante das luzes da cidade era um lembrete constante do que estava em jogo.
O encontro com Marco Rizzo naquele dia havia plantado uma dúvida insidiosa em sua mente. Sua oferta era tentadora demais para ser ignorada, mas também carregava o peso da desconfiança.
Um homem como Marco nunca fazia algo sem um objetivo maior. Ele era ambicioso, como ela, mas seu verdadeiro jogo ainda não estava claro.
Valentina fechou os olhos, tentando reunir os pensamentos.
A memória do olhar dele atravessou sua mente como uma lâmina afiada. Havia algo ali, uma mistura de desafio e respeito, que a deixava desconfortável.
Ele era o tipo de homem que fazia você se perguntar se estava segurando uma corda ou a própria forca.
Um som familiar a tirou de seus devaneios. Nico entrou sem bater, o estalo de suas botas ecoando no piso de madeira.
– Você está quieta demais – disse ele, o tom carregado de preocupação. – Isso nunca é bom. O que aconteceu hoje?
Valentina o encarou por um momento antes de responder.
Ela sabia que Nico era leal, mas também sabia que ele era mais emocional do que estratégico. Contar-lhe sobre a proposta de Marco era um risco, mas ela precisava de alguém para dividir o fardo.
– Marco Rizzo – começou ela, a voz baixa, quase um sussurro. – Ele me ofereceu uma aliança.
Nico congelou. O nome parecia pesar no ar como chumbo.
– Aliança? Esse cara quer te engolir viva, Valentina. Ele é um predador. Isso só pode ser uma armadilha.
– Eu sei disso – respondeu ela, mantendo a calma. – Mas e se não for? E se ele estiver falando a verdade? Ele sabe que sozinho não vai longe, e o mesmo vale para nós. A guerra está à nossa porta, Nico. Não podemos vencer sozinhos.
Ele cruzou os braços, as sobrancelhas franzidas em descrença.
– E o que acontece quando ele decide que não precisa mais de você? Porque é exatamente isso que vai acontecer.
Valentina suspirou, cansada.
– Eu não confio nele. Mas confio na ambição dele. Ele sabe que, se tentar me derrubar, vai perder muito mais do que ganhar.
O silêncio pairou entre eles por alguns segundos, quebrado apenas pelo som distante de sirenes. Nico balançou a cabeça.
– Só me diga que você está preparada para o que vem depois – disse finalmente. – Porque uma vez que você entrar nesse jogo com ele, não há como voltar atrás.
– Eu sempre estou – respondeu Valentina, mais para si mesma do que para ele.
Horas depois, Valentina estava sozinha em sua cobertura, uma taça de vinho esquecida sobre a mesa ao seu lado. A vista da cidade se estendia diante dela, brilhando como um milhão de estrelas artificiais.
Ela costumava amar essa visão, mas naquela noite, parecia mais uma provocação do que uma recompensa. Tudo o que ela queria estava ali, ao alcance dos olhos, mas tão longe quanto uma miragem.
O telefone vibrou em sua mão. Uma mensagem.
Marco.
"Você pensou sobre minha proposta? Não demore. A janela está se fechando."
Valentina leu as palavras uma, duas, três vezes.
Ele estava jogando, claro. Criando urgência, plantando sementes de dúvida. Mas ela sabia que ele tinha razão. A indecisão era a pior arma contra alguém como Marco.
Ela respirou fundo, os dedos pairando sobre a tela. Depois de alguns segundos de hesitação, digitou:
"Amanhã. Meio-dia. Mandarei o local."
Ao apertar o botão de enviar, sentiu um peso sair de seus ombros — apenas para ser substituído por outro, mais pesado.
O jogo estava em andamento.
Mais tarde...
O local escolhido por Valentina era perfeito para o tipo de conversa que teria. Um armazém abandonado nos arredores da cidade, cercado por paredes de concreto e janelas quebradas.
O lugar cheirava a óleo e ferrugem, e o silêncio era interrompido apenas pelo som distante de pássaros e pelo eco ocasional de passos.
Valentina chegou primeiro, seus homens posicionados nas sombras, prontos para agir ao menor sinal de problema. Ela usava um casaco preto longo, que lhe dava uma aparência quase régia, apesar do cenário desolado.
Marco chegou poucos minutos depois, dirigindo ele mesmo um carro preto reluzente. Ele saiu com a mesma calma calculada que sempre exibia, o terno impecável contrastando com o ambiente sujo. Ele olhou ao redor com um sorriso satisfeito, como se estivesse entrando em seu próprio território.
– Valentina – disse ele, caminhando em sua direção. – Parece que você gosta de dramatizar as coisas.
– E parece que você gosta de se exibir – retrucou, seca.
Ele riu, mas não respondeu. Em vez disso, tirou um mapa dobrado do bolso e o abriu sobre uma mesa improvisada no centro do galpão.
Os pontos marcados no mapa eram áreas de interesse estratégico: rotas de contrabando, depósitos de armas, territórios de grupos rivais.
– Se trabalharmos juntos – começou ele, apontando para os locais –, podemos dominar essas áreas em semanas. Nenhum outro grupo terá chance.
Valentina ouviu em silêncio, analisando tanto o mapa quanto o homem à sua frente. Ele falava com a confiança de alguém que acreditava já ter vencido.
– E o que me garante que você não vai me trair assim que conseguirmos o que quer? – perguntou ela finalmente, os olhos fixos nele.
Marco sorriu, aquele sorriso enigmático que a irritava e intrigava ao mesmo tempo.
– Se eu quisesse te trair, já teria feito isso. Hoje, ontem, no momento em que percebi que você era a maior ameaça aos Rizzo. Mas estou aqui porque vejo valor em você. E porque sei que você vê o mesmo em mim.
Houve um longo silêncio. Finalmente, Valentina disse:
– Eu tenho uma condição.
– Qualquer coisa – respondeu Marco, com a confiança de quem já sabia o que ela diria.
– Eu controlo as finanças. O dinheiro passa pelas minhas mãos. Sem exceções.
Por um momento, Marco pareceu surpreso, mas logo o sorriso voltou.
– Você não perde tempo, não é?
Ele estendeu a mão.
– Temos um acordo?
Valentina olhou para a mão dele como se fosse uma cobra, hesitando. Mas, depois de alguns segundos, ela apertou a mão dele.
No caminho de volta, o peso da decisão parecia maior do que nunca.
Valentina sabia que havia aberto uma porta que talvez nunca pudesse fechar. Mas antes que pudesse processar o impacto disso, Nico a encontrou na entrada de sua base.
– Temos um problema – disse ele, entregando-lhe um relatório. – Os Zanchetti atacaram nosso depósito no sul. Levaram tudo.
– Os Zanchetti? – Valentina repetiu, incrédula. – Como eles souberam?
Nico hesitou.
– Só posso pensar em uma coisa. Alguém nos vendeu.
A mente de Valentina disparou.
O nome de Marco ecoava como um alarme, mas ela o afastou rapidamente. Seria ele tão óbvio? Ou isso era um teste para sua lealdade?
De uma coisa, ela tinha certeza: o jogo estava apenas começando, e cada movimento contaria.
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Atualizado até capítulo 49
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