O Luto da Herdeira

A madrugada avançava lentamente, como se o tempo, em sua infinita indiferença, tivesse parado apenas para ela. O silêncio dentro do apartamento era esmagador.

Valentina Mancini, sentada no chão frio do luxuoso salão, encarava o vazio.

As luzes de Nova York entravam pela janela, projetando sombras nas paredes, como se a cidade, lá fora, continuasse a girar em um ritmo frenético, indiferente à tragédia pessoal que se desdobrava em seu interior.

Ela sentia o peso da ausência do pai em cada canto da sala.

Os móveis caros, a tapeçaria de lã, as cortinas de veludo, tudo estava ali, exatamente onde sempre estivera, mas a casa agora parecia estranha, como uma casca vazia de algo que um dia teve vida.

O retrato de Vittorio Mancini, o patriarca imponente, ainda estava na parede, mas ele não estava mais ali para preenche-lo com sua presença forte e autoritária.

Ele era o homem que controlava o destino de todos ao seu redor, o líder de uma das famílias mais temidas de Nova York. E agora ele estava... morto. Morto, e tudo o que restava era a lembrança do som dos tiros, o estilhaçar do vidro, o sangue se misturando com o vinho tinto no chão do restaurante.

Ela olhou para as mãos. Aquelas mãos que tanto haviam se esforçado para construir o império, agora pareciam tão frágeis.

Seu corpo inteiro tremia, e a dor no peito era uma aflição constante, uma pressão que não a deixava respirar com normalidade.

Valentina apertou os olhos, tentando afastar as imagens da noite anterior... os gritos, o som dos tiros, o corpo do pai caindo ao chão, o olhar de desprezo do assassino, os segundos que pareceram horas. Mas o lamento, a raiva e o medo continuavam a martelar em sua mente.

Ela se levantou e foi até o bar, sem pensar.

Precisava de algo que a aquecesse por dentro, algo que fizesse a dor parar, nem que fosse por um momento.

Abriu uma garrafa de uísque, despejou um pouco em um copo, e sentou-se novamente, os olhos ainda fixos no retrato do pai. O líquido dourado desceu quente por sua garganta, mas não trazia o consolo esperado. A dor permanecia.

As memórias, como lâminas afiadas, cortavam sua alma.

"Por que ele, Dio?" Valentina murmurou para si mesma, a voz rouca e carregada de uma raiva que ainda não sabia como controlar.

Seu pai, o homem que ela respeitava, temia e amava, tinha sido tirado dela. E agora, ela estava sozinha para lidar com tudo. Só ela.

O som de um celular vibrou em cima da mesa.

Valentina olhou para o aparelho, mas hesitou. Sabia que seria apenas mais uma mensagem de condolências vazias. As palavras de lamento de homens que, na verdade, estavam mais preocupados com o poder da família Mancini do que com a morte do líder. Ela sentia o cheiro da traição no ar, como uma nuvem escura que a cercava.

Não havia amigos.

Apenas aliados e inimigos disfarçados de aliados.

Ela pegou o telefone e leu a mensagem, sua expressão endurecendo.

- Estamos à disposição\, signorina. O que precisar.- Era de Francesco\, o braço direito de seu pai\, o homem que\, por tanto tempo\, estivera ao seu lado\, supervisionando as operações da família.

Valentina sabia que Francesco não era um homem de sentimentos, mas a frieza da mensagem a atingiu de uma maneira quase insuportável. Ele não estava preocupado com ela. Ele estava preocupado com a continuidade do império.

Valentina apertou o telefone com força, sentindo a raiva crescer dentro de si.

A raiva contra Francesco, contra os inimigos que se aproximavam, contra todos que, de alguma forma, tinham colaborado para que seu pai estivesse agora entre os mortos.

Mas, acima de tudo, a raiva contra si mesma.

Ela sabia que deveria estar mais preparada para isso.

Que deveria ter se envolvido mais cedo nos negócios da família, mas sempre se manteve à margem, esperando que seu pai fosse eterno. Agora, ela era a única responsável por manter tudo de pé, e a responsabilidade era esmagadora.

Uma batida na porta a fez sobressaltar.

Valentina se levantou rapidamente, o coração disparando. Quem seria?

Sabia que ninguém ousaria vir até ela nesse momento a não ser alguém de extrema importância. Ela atravessou o salão com passos firmes, a tensão visível em sua postura.

Abriu a porta, e à sua frente estavam dois homens, vestidos de preto e com rostos sérios.

— Signorina Mancini — começou um deles, o mais velho, com uma voz baixa e reverente.

— Francesco manda avisar que a reunião com os capos será daqui a uma hora. Ele espera que você compareça.

Valentina hesitou.

Ela sabia o que isso significava.

A reunião com os capos era onde as decisões finais seriam tomadas.

Ali, ela precisaria mostrar sua força. Mas ela não estava pronta. Como poderia estar?

Ela nunca havia se preparado para isso, nunca desejara ser mais do que uma observadora, uma filha. Agora, ela precisava assumir o controle de uma guerra silenciosa que se desenrolava nas sombras.

Mas a raiva que queimava dentro dela a impulsionava. Ela não podia se dar ao luxo de ser fraca. Não agora.

— Diga a Francesco que estarei lá.

Os dois homens se curvaram ligeiramente e se afastaram.

Valentina observou-os saírem, seus passos ecoando no corredor. Ela fechou a porta com um suspiro profundo.

A decisão estava tomada.

Não havia mais volta.

Caminhou até o guarda-roupa e, com um gesto decidido, pegou um vestido preto. O luto da máfia não era feito de roupas formais ou cerimônias com lágrimas. Era feito de palavras não ditas, olhares desconfiados e decisões rápidas.

Ela vestiu o vestido com a mesma precisão com que sempre havia se preparado para qualquer evento da família: sem hesitação, sem espaço para fraquezas.

Quando Valentina se olhou no espelho, não viu mais a filha enlutada.

Viu uma mulher que estava prestes a se transformar em algo diferente.

Algo mais forte. Algo mais perigoso.

Ela respirou fundo, tentando acalmar a tempestade dentro de si.

Então, com passos firmes e a mente focada, ela saiu do apartamento e seguiu para a reunião com os capos, onde seu destino seria decidido.

E onde, talvez, ela começasse a entender o que significava ser verdadeiramente uma Mancini.

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Comments

Anonymous

Anonymous

Espero sinceramente ler uma estória de uma mulher extremamente forte e que mande seus inimigos para o lado do capeta

2025-01-25

0

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