— Kevin foi treinar com os meninos? — perguntou, tentando soar o mais natural possível. Mas eu podia perceber que, para ela, a situação era mais desconfortável do que para mim.
Eu dei uma risada curta, quase sarcástica.
— Você sabe que sim. — Eu virei as costas, começando a andar sem pressa.
Ela não hesitou em me seguir, quase que automaticamente, embora tentasse manter a postura rígida que sempre teve. Mas havia algo mais ali, uma sensação de querer se redimir, de implorar por perdão. Mas eu não estava disposta a ceder tão facilmente.
— Podemos ir para casa juntas. No caminho, eu te explico tudo, é melhor assim — disse, tentando disfarçar a tensão que sentia.
— Pode ser. Deixa só eu mandar uma mensagem para o Kevin, avisando que ele pode ir sem mim. — digo pegando o celular, digitando rapidamente.
Eu a observei, agora ela estava mais decidida, parecendo pronta para falar. Era agora ou nunca.
— Então, vamos indo? — perguntou, já se encaminhando para o portão da escola.
Eu segui atrás dela, sentindo a necessidade de saber o que ela tinha para dizer. Estava pronta para ouvir qualquer explicação ou até uma desculpa confusa que ela tentasse justificar. Quando saímos para a rua, parei e a encarei.
— Já estamos aqui fora, pode começar — disse, firme, mantendo a postura.
Ela passou a mão nos cabelos ruivos, como se esse simples gesto a acalmasse, ou talvez desse algum tipo de força para enfrentar o que precisava dizer.
— Sabe, Ayara, você, Stacey e eu... sempre fomos um trio, né? Eu, a chata e intrometida que sempre arranjava confusão, você a quieta e tímida que se esquivava de tudo, e a Stacey, a gentil e sentimental, sempre se importando com todos — ela sorriu de forma nostálgica, e eu não pude deixar de sentir o peso daquelas lembranças.
Eu não a interrompi, permitindo que ela se perdesse na saudade dos tempos em que éramos apenas nós três. Antes de Kevin, antes dos outros meninos que surgiram. Aqueles tempos do fundamental, quando tudo parecia mais simples.
— O que estou tentando dizer, Ayara, é que muita coisa aconteceu. Nós mudamos... pelo menos, você mudou muito — ela disse, pensativa. — Quando viemos para o ensino médio, prometemos que seríamos amigas até a faculdade. Lembro até de brincar sobre irmos morar no Brasil e estudar na USP, sem preocupações com a faculdade, apenas aproveitando a vida.
Eu senti um sorriso escapar dos meus lábios, mas logo virei o rosto, o peso da nostalgia me consumindo à medida que continuávamos caminhando.
— Mas então... você e Kevin se esbarraram, lembro disso muito bem. Quase que de imediato, vocês dois se apaixonaram, não se desgrudaram mais, e isso acabou afastando um pouco eu e Stacey. Agora, não éramos mais apenas nós três... éramos nós quatro — ela disse, com um olhar melancólico. — A gente se aproximou dele também. E eu acabei criando um carinho por ele, algo que... confundi, mais tarde — a voz dela falhou um pouco.
Eu a olhei, começando a entender onde ela queria chegar. O misto de nostalgia que eu sentia agora desaparecia, dando lugar àquela tensão que eu já antecipava. Agora, ela iria falar sobre o que aconteceu entre ela e Kevin.
— Quando você foi atacada, todos nós ficamos arrasados. Kevin nem conseguia sorrir, ele parecia perdido naquele ano. E quanto mais ele ia te visitar, pior ficava. Eu... então, lembrei da minha mãe... — ela fez uma pausa, e meu coração apertou. Nunca ouvira ela falar sobre isso antes, evitava ao máximo.
Eu comecei a me arrepiar. Ela nunca mencionava a mãe, sempre fugia desse assunto desde que éramos mais novas.
— Ela foi levada às pressas para o hospital quando estava grávida, acabou perdendo o bebê, meu irmão. E ela nunca se recuperou daquilo... tentou contra a própria vida várias vezes. Meu pai, então, a internou na mesma clínica onde você ficou — ela disse, a voz trêmula. — Eu me lembro da expressão dele, parecia que ele tinha perdido tudo. E eu vi a mesma coisa no rosto de Kevin depois que você foi para a clínica... aquilo me fez surtar por dentro — ela se interrompeu, tentando segurar o choro.
Eu parei de andar, sentindo um nó na garganta, e a agarrei pelo braço, tentando acalmá-la.
— Você não precisa... — tentei dizer, com a voz suave, mas ela me interrompeu.
— Não, eu só quero que você ouça — disse, se soltando da minha mão, como se aquelas palavras precisassem ser ditas, como se o peso daquela revelação finalmente estivesse saindo.
— Os médicos disseram que minha mãe estava se recuperando... Lembro de quando fui visitá-la na clínica e a abracei. O sorriso do meu pai voltou, e achamos que tudo finalmente estava voltando ao normal... Pelo menos, era o que pensávamos — ela disse, com um tom tão frio que parecia cortar o ar. — No dia seguinte, após a nossa visita calorosa, minha mãe deu fim à própria vida.
As palavras dela me atingem como uma pancada. Eu nunca soubera como a morte da mãe dela aconteceu, e aquilo me deixou em choque. Uma lágrima escorre pelo meu rosto, mas eu a seguro, sem saber o que dizer. Não queria interromper, queria ouvir o que ela tinha a dizer, mesmo que isso me machucasse profundamente.
Ela olhou para o chão por um momento, claramente perdida em suas memórias, antes de continuar.
— Quando Kevin me contou que você estava melhorando, que finalmente estava se recuperando, ele ficou feliz. Mas isso me fez lembrar do meu pai. Ele pensou a mesma coisa na época, achou que tudo estava bem... até que não estava — ela pausou, sua voz agora falhando, como se cada palavra fosse um peso que ela não queria carregar. — Ele ficou devastado, perdido... quando ela se foi, não queria Kevin vivesse a mesma coisa. Foi aí que eu sugeri que ele terminasse com você. Falei que talvez ele estivesse se iludindo, que ele deveria seguir em frente, que era o melhor para ele. E eu... tentei beijá-lo, mas ele... recuou. Ele ficou tão surpreso, não sabia como reagir. E aí, ele simplesmente saiu.
Ela deu uma risada nervosa, mas não havia alegria em sua voz. Era mais uma maneira de tentar afastar o peso da vergonha.
— Sabe, depois disso, ele nunca mais tocou no assunto. Eu me senti... tão mal. Eu tinha confundido tudo. Não era o que eu queria. eu não queria fazer isso com você, mas acabei projetando todas as minhas frustrações em Kevin. Me arrependi, especialmente quando você voltou. Cada vez que eu implicava com você, achava que talvez assim você se afastasse de mim. Eu queria que você não soubesse o que eu tinha feito. Mas, pelo visto, você sabia o tempo todo... E, mesmo assim, continuou me tratando como se nada tivesse acontecido. — Ela parou, me encarando com um olhar frio e distante, como se o peso do passado ainda estivesse ali, preso em seu coração.
Eu a observei, em silêncio, sentindo o peso daquelas palavras. A dor dela, a confusão, tudo aquilo que ela havia guardado dentro de si. Eu não sabia como reagir, mas sabia que ela precisava daquilo.Mesmo que fosse difícil de ouvir.
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Atualizado até capítulo 42
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