Só pode ser brincadeira

Amanheceu uma sexta-feira, e mal acordei já senti uma necessidade urgente de fazer planos para o dia, de me afastar ao máximo dos meus pais. Eu sabia que era errado, que evitá-los assim não era o certo, mas, no fundo, era o que eu queria — fugir de uma conversa que eu não sabia como começar, sobre algo que me incomodava demais. Me arrumei rapidamente, vestindo a primeira roupa que vi no armário, e, enquanto pegava o celular, mandei uma mensagem para Kevin, dizendo que já estava pronta. Ele ficou feliz que eu finalmente tinha recuperado meu celular, mesmo sabendo que tive que inventar que o havia perdido dentro do meu próprio quarto. Pedi para ele passar mais cedo, para me pegar, e então fiquei esperando aquele som familiar da buzina, sinalizando que ele estava ali.

Logo, escutei o som da buzina. Levantei e fui até a porta, mas, para minha surpresa, não demorou muito até ele já estar dentro de casa, sentado à mesa com meus pais, tomando café. A raiva subiu instantaneamente, mas tentei disfarçar. Sentei à mesa com eles, mas era um esforço. Não culpo Kevin, ele não tinha ideia do que estava acontecendo, e eu não tinha tempo para explicar nada.

— Então, vocês fizeram as pazes, fico feliz — disse minha mãe, sorrindo, com aquele sorriso que parecia forçado, como se ela tivesse algo a esconder.

Eu assenti com a cabeça, fingindo um sorriso, mas não passou despercebido por Kevin, que me olhava com um leve franzir de testa, como se tentasse entender o que havia de errado.

— Eu não sei o motivo de vocês brigarem, se dão tão bem. Você sabe que é como um filho para mim — afirmou meu pai, passando a mão no ombro de Kevin, com aquele tom amigável que só me fazia sentir ainda mais incômoda. Eu só queria que essa situação acabasse. Era como um teatro, uma farsa.

— Também considero vocês como minha segunda família — respondeu Kevin, agradecendo com um sorriso discreto.

Eu não conseguia me concentrar em nada, apenas naquelas palavras que soavam falsas, no peso do que estava acontecendo, e na vontade insuportável de fugir dali. Comi minhas torradas sem nem perceber o gosto, fazendo o maior esforço do dia para manter a compostura. Meus pais nem sequer olhavam para mim, apenas falavam com Kevin, como se eu fosse invisível, parte do cenário. Levantei-me, tentando ser o mais tranquila possível, e levei meu prato à pia. A gentileza foi apenas um disfarce para o que eu realmente queria fazer — pegar aquele prato e arremessá-lo na parede.

— Meu amor, podemos ir? — perguntei, indo até Kevin e o beijando de maneira apressada, tentando não parecer tão desesperada para sair.

Meus pais continuaram com o teatro, apenas concordando com um aceno, como se nada estivesse acontecendo.

— É, vocês vão se atrasar, pode deixar que eu recolho o prato de Kevin — disse minha mãe com um sorriso que eu mal conseguia engolir.

Kevin, no entanto, fez questão de recolher os pratos e levá-los até a pia.

— Não é como se eu não pudesse fazer isso, senhora Oliveira — disse ele, com um tom quase brincalhão, mas eu senti um leve toque de tensão no ar.

Oliveira? Aquele sobrenome. Até quando ela iria continuar com ele? Isso foi a gota d’água. Me virei sem dizer uma palavra e saí pela porta. Já tinha aguentado demais aquele teatro ridículo. Entrei no carro e, sem muito mais o que fazer, esperei que Kevin se juntasse a mim. Não demorou.

— Imagino que não queira falar nada, então vou em silêncio — disse ele, beijando-me suavemente assim que entrou no carro.

Deus, como eu amava esse garoto. Ele ligou a música, e eu deixei o som me envolver, tentando deixar de lado meus pensamentos tumultuados, tentando afastar tudo o que estava acontecendo dentro de mim.

Stacey e Otávio estavam nos esperando, mas não estavam sozinhos. Matt e Amanda estavam com eles, e a simples visão de Amanda fez meu estômago se revirar. A raiva que eu estava tentando controlar se intensificou a cada segundo que passava. Kevin percebeu a tensão em mim e, sem dizer uma palavra, colocou a mão suavemente sobre minha perna. Ele sabia o que estava acontecendo, sabia o quanto eu estava tentando me manter calma, mas ele também sentia o peso no ar. Até ele, normalmente tão calmo, estava visivelmente desconfortável.

— Não se intrometa, Kevin — falei, tentando não deixar a voz tremer de nervosismo. Tinha algo dentro de mim que se recusava a deixar ele tentar resolver isso. Não era sobre ele, era sobre mim.

Ele me olhou por um segundo, como se tentasse medir a situação. Eu podia ver a frustração em seus olhos, mas também entendia que ele estava tentando me proteger da maneira dele.

— Eu não vou, mas... não se exalte, nem brigue, Ayara. Você não precisa fazer isso — disse ele, com uma seriedade que fez minha raiva aumentar ainda mais. Eu não queria ser tratada como alguém que não sabia se controlar, como se eu fosse incapaz de lidar com a situação.

Revirei os olhos, uma forma de liberar um pouco da tensão que me dominava, e saí do carro rapidamente. Ele me seguiu, como sempre, e passou o braço pelo meu pescoço, me puxando para mais perto de si. Sua respiração quente se misturou com o som da cidade, e eu senti um arrepio correr pela minha espinha quando ele sussurrou, quase como um aviso.

— Eu falei que não era pra revirar os olhos, Ayara... espere pela sua punição. — Ele disse de um jeito suave, mas a ameaça no tom de voz não era de se ignorar.

Uma onda de calor subiu pelo meu corpo, misturada com uma frustração crescente. Mas antes que eu pudesse processar o que ele disse, Amanda se intrometeu, a voz dela cortando o silêncio que nos envolvia. Ela nunca sabia quando parar, quando respeitar um limite. E naquele momento, eu estava em todos os meus limites possíveis.

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