Tudo sobre aquele dia

— Mas você nunca fez isso antes, o que aconteceu? — pergunto, sentindo a confusão tomar conta de mim. Meu olhar busca respostas no rosto de Kevin, mas tudo que encontro é tristeza.

Ele baixa os olhos por um instante antes de responder, sua voz baixa e carregada de emoção:

— Um cara te agarrou, e eu... eu quase o matei por isso.

A memória da noite passada começa a ganhar forma na minha mente. Fragmentos de imagens surgem: Kevin me olhando com um desespero que eu nunca tinha visto, sua voz alterada, meu próprio pânico. Tudo aquilo ainda me deixava tensa.

— Eu... eu preciso sair daqui — digo, abrindo a porta. Preciso de ar, de espaço.

Antes que eu possa dar outro passo, Kevin me envolve em um abraço repentino. É diferente de qualquer abraço que já recebi dele. Não é apenas caloroso; é desesperado. Ele olha nos meus olhos, e o vazio que vejo ali me deixa sem palavras.

— Eu sei, você está com medo — ele murmura, acariciando meus cabelos. Sua voz está firme, mas o peso de suas palavras me atinge em cheio. — Eu também estou.

Minha garganta aperta. Kevin nunca admite essas coisas. Ele sempre foi o otimista, aquele que parecia carregar tudo com leveza. E agora eu percebo o quanto ele está ferido.

— Quando você foi atacada... — sua voz falha, mas ele continua, determinado. — Me senti um inútil. Eu deveria ter te buscado naquele dia, deveria ter te protegido.

As lágrimas começam a escorrer pelo seu rosto, e eu o abraço ainda mais forte. Meu peito se aperta de culpa. Eu tinha sido tão egoísta, tão focada em enterrar aquele dia no fundo da minha mente, que nunca pensei no impacto que ele teve em Kevin... ou nas pessoas que eu amo.

— Kevin, eu... — tento falar, mas ele me interrompe.

— Quando eu vi aquele cara te agarrando ontem, eu só consegui pensar no que aconteceu com você naquele beco. E... me veio um ódio que eu não consegui controlar. Talvez eu não esteja tão bem quanto finjo estar — ele admite, com um sorriso forçado.

Eu o abraço mais uma vez, apertando-o como se isso pudesse apagar a dor. Precisamos conversar sobre aquele dia. Eu preciso ser honesta com ele e com todos que me cercam. Isso vai ser difícil, mas é necessário.

— Que tal sairmos mais cedo hoje? — sugiro, tentando mudar o clima. Dou uma piscadela para ele, tentando trazer um pouco de leveza.

Ele parece surpreso pela minha iniciativa, mas o traço de um sorriso surge em seu rosto.

— Parece uma boa ideia — ele responde, beijando minha testa com carinho.

Saímos do banheiro, e vejo Stacey e Otávio nos esperando do lado de fora, visivelmente preocupados. Kevin toma a frente, ainda tentando parecer mais animado do que realmente está.

— Vamos faltar a aula hoje, o que acham? — ele sugere, forçando um tom descontraído.

Eles trocam olhares curiosos, mas concordam sem fazer muitas perguntas. Apenas nos seguem.

— Que tal irmos ao rio Glenwood? — sugiro, tentando trazer um pouco de entusiasmo ao grupo.

Stacey e Otávio ainda estão cautelosos, claramente preocupados comigo e com Kevin, mas acabam cedendo.

— Vocês estão bem? — Stacey finalmente pergunta.

Minha primeira reação é mudar de assunto, como sempre faço, mas sei que isso não resolve nada. Respiro fundo e decido que é hora de encarar as coisas.

— Eu preciso conversar com vocês — digo, minha voz séria. Kevin me olha surpreso, mas não questiona.

— Vamos indo — ele diz, e todos concordam.

No caminho para o rio, Kevin permanece em silêncio. Ele parece estar se preparando para o que está por vir, e eu não o culpo. Chegando lá, tiro minha blusa e minha saia, pronta para entrar na água. Stacey sorri e faz o mesmo. Os meninos olham confusos, mas acabam nos imitando.

— Quem chegar por último é mulher do padre! — Stacey grita, rindo.

Corremos para o rio e mergulhamos, como nos velhos tempos. Fazia tanto tempo que não visitávamos esse lugar juntos. As lembranças de mim, Stacey e Amanda passam pela minha mente. Eu ainda precisava resolver as coisas com Amanda, mas isso ficaria para outro momento.

Depois de alguns mergulhos, volto para a beirada do rio e respiro fundo.

— Pessoal, agora que estamos aqui... preciso falar sobre aquele dia.

O silêncio é imediato. Todos me olham espantados. Eu nunca tinha falado sobre o que aconteceu com eles, apenas com meus pais, a polícia e os terapeutas.

— Você tem certeza? — Kevin pergunta, preocupado.

Eu aceno com a cabeça, determinada.

— Sim, mas preciso que vocês me escutem. Não me interrompam.

Eles se sentam na beirada do rio, atentos. Então começo a contar. Relembro cada detalhe, embora omita o que aconteceu com o homem que me ajudou. Não queria que ele se envolvesse nisso novamente.

Quando termino, há um silêncio pesado. Os rostos deles mostram uma mistura de emoções que eu não consigo decifrar completamente. Kevin parece furioso, mas tenta controlar a raiva. O alívio é visível em seus olhos, e sei que agora eles não precisam mais imaginar o que aconteceu. Eu mesma contei.

— Obrigada por confiar na gente — Stacey diz, me abraçando, seu corpo frio pelo mergulho.

Retribuo o abraço. Tenho sorte de ter amigos como eles. Otávio se aproxima e se junta ao abraço, e Kevin não demora a fazer o mesmo, como se não pudesse ficar de fora.

— Gente, vocês estão me esmagando! — digo, rindo, mas com o coração aquecido.

Otávio puxa Stacey e volta para o rio, enquanto Kevin permanece comigo. Ele me abraça firme, e posso sentir seu coração batendo acelerado. A raiva ainda está ali, mas ele a segura por mim. Só espero que ele consiga lidar com isso antes que ela o consuma.

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