Não é isso

O sinal tocou e logo todos começaram a se dirigir para suas respectivas salas. Kevin, com a típica confiança que ele tinha, me agarrou pela cintura e me deu um beijo prolongado, de forma tão inesperada e intensa que fez até Amanda e Matt desviarem o olhar, visivelmente constrangidos.

— Meu Deus, Kevin — eu disse, tentando recuperar o fôlego enquanto ele sorria, o olhar de satisfação estampado em seu rosto.

— Só me despedindo, da minha garota — ele respondeu, rindo, como se a situação fosse a mais natural do mundo.

Com um suspiro, eu me afastei lentamente, as bochechas ainda queimando de vergonha. As meninas, ao nosso redor, não demoraram a se despedir, mas as palavras de Amanda logo cortaram o silêncio.

— Você e o Kevin já deviam ter transado, essa tensão sexual de vocês dois é muito evidente — disse Amanda, com uma expressão de quem não estava nem aí para o que os outros pensassem.

O comentário fez meu rosto esquentar ainda mais, e antes que eu pudesse formular uma resposta, Stacey interveio, com um tom de deboche que parecia sair quase que naturalmente dela.

— Deixa eles, Amanda, nem todo mundo precisa sair transando por aí igual a você e o Matt.

Eu não queria me envolver naquilo. Evitei responder, e um nó se formou no meu estômago. A última coisa que eu queria era ter que encarar essa conversa. Eu sabia onde isso ia dar: "O que aconteceu no ano passado não pode afetar sua vida", ou "Mas o cara nem chegou a fazer nada com você". Eu não estava pronta para isso. E, sinceramente, não queria dar espaço para Amanda fazer mais perguntas sobre algo que já estava resolvido na minha cabeça. Portanto, o melhor era me calar.

— O professor já entrou na sala, vou indo. Bora, Stacey — falei, me afastando na direção da sala de aula.

Stacey me seguiu sem hesitar, enquanto Amanda se dirigia para sua própria aula. Agradeci mentalmente por nosso primeiro horário não coincidir. Eu estava aborrecida com ela, e sabia que, se começasse a conversar, Amanda seria insistente até conseguir uma resposta detalhada. Eu estava preparada para dar uma resposta curta e seca, se fosse necessário.

A aula seguiu com meu foco perdido em pensamentos. Eu tentava organizar minha cabeça, pensando na melhor forma de explicar a Kevin e a minhas amigas que a razão pela qual ainda não havia avançado em nosso relacionamento não tinha nada a ver com o que eu havia vivido no passado. Eu já tinha tratado isso na terapia, estava bem resolvida. Eu sabia que o toque de Kevin não me causava medo; na verdade, eu até desejava que ele me tocasse mais. O problema era que, apesar disso, ainda não me sentia preparada. Mas eu não sabia o porquê. Era uma sensação estranha, algo que eu ainda não conseguia entender completamente.

Sem que eu percebesse, a aula havia terminado. Stacey me olhava com aquele olhar atento, quase como se perguntasse: Você tá bem?

— Precisamos encontrar os garotos, vamos indo — eu disse, puxando ela pela mão, tentando dar uma distraída.

Ela riu, mas ainda parecia preocupada com o que eu estava pensando. Dentre todas as minhas amigas, Stacey era a mais sensível aos sentimentos dos outros, e eu sempre me surpreendia com a forma como ela e o Otávio se davam tão bem. Era uma conexão curiosa.

— Você não ficou pensando no que a Amanda disse, né? — ela disse, me cutucando com o braço, quebrando o silêncio.

Eu hesitei em responder, mas então dei um suspiro profundo.

— Eu fiquei, mas não da forma que você pensa. Ou você esqueceu que passei por vários terapeutas? Eu não estaria aqui se estivesse mal sobre o que aconteceu no ano passado — disse, tentando passar uma sensação de calma, oferecendo um sorriso tranquilizador.

Ela me analisou com o olhar, como se quisesse garantir que eu realmente estava bem, e então a pressão sobre seus ombros pareceu se aliviar.

— Eu odiaria se o que a Amanda te disse trouxesse algum trauma do ocorrido, mas vejo que não é o caso — disse, me abraçando de forma calorosa.

Enquanto nós duas nos abraçávamos, Otávio e Kevin chegaram, interrompendo o momento.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou Kevin, com um tom de preocupação que estava além do normal.

Eu e Stacey nos afastamos e fomos cumprimentar os meninos, tentando disfarçar a tensão no ar.

— Elas estão se descobrindo, deixa elas — disse Otávio, com um sorriso meio sarcástico.

Esse cara só podia ter algo errado na cabeça. O que me irritava era que, por mais que ele estivesse tentando aliviar a situação, parecia que só piorava as coisas. Soltei um suspiro, e então me aproximei de Kevin, colocando meus braços ao redor de seu pescoço.

— Você não deveria ficar tão preocupado comigo. Eu não vou quebrar, Kevin — disse, tentando tranquilizá-lo.

Mas isso não adiantou. O rosto dele estava ainda mais sério, e a expressão que ele tinha agora parecia mais preocupada do que antes.

— Ayara, eu não sei o que faria se você se machucasse — disse ele, olhando nos meus olhos com uma intensidade que me fez parar por um momento.

Eu me afastei dele, sentindo uma necessidade urgente de mudar de assunto. Eu realmente queria evitar esse tipo de conversa.

— Vamos deixar isso pra lá, ok? — tentei desviar o foco, buscando uma forma de aliviar o clima.

Kevin me olhou por um instante, como se ainda estivesse ponderando o que eu dissera, mas então soltou um suspiro e assentiu, como se finalmente tivesse aceitado o que eu dizia.

— Tudo bem, Ayara — disse ele, a voz mais suave agora, com um sorriso que parecia querer me tranquilizar. — Mas você sabe que, sempre que precisar de algo, pode contar comigo, né?

Eu sorri, sentindo uma onda de calor tomar conta de mim, não apenas pelas palavras dele, mas pela forma como ele me olhava. A preocupação ainda estava lá, mas algo mais doce também havia se instalado em seu olhar.

— Eu sei, Kevin. Você sempre sabe como usar as palavras certas — respondi, minha voz mais suave, enquanto um leve rubor subia às minhas bochechas.

Ele se inclinou levemente, aproximando-se mais, e sussurrou, quase como se fosse um segredo entre nós dois:

— Porque eu me importo com você, Ayara. Mais do que você imagina.

Meu coração deu uma leve aceleração. Eu tentei sorrir de volta, mas as palavras que ele dissera ainda estavam ecoando em minha mente, tornando tudo ao meu redor um pouco mais intenso, mais real.

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