sentimentos

Eu tento fingir naturalidade após ser atingida pelas lembranças — a risada sarcástica que ele deu, o jeito despreocupado com que falou com. Como ele pôde soar tão natural, tão próximo? Eu não conseguia acreditar que o tinha visto tão de perto, que estava ali, diante de mim.

— Tá tudo bem? — Kevin pergunta com preocupação na voz. — Você ficou séria de repente. Se for por causa do que eu disse sobre você ser minha esposa, relaxa. Não estou falando que tem que ser agora — ele ri, tentando quebrar o clima.

Acordo dos meus devaneios e forço um sorriso, acompanhando o riso dele.

— Não é isso. Só lembrei que minha mãe estava um pouco estranha hoje. Acho melhor ir para casa conversar com ela — digo, tentando disfarçar a inquietação que me consome por dentro.

Kevin e a mãe dele trocam olhares surpresos, mas logo acenam com a cabeça, compreensivos.

— Então, querida, ele vai te levar para casa. E leva a comida para viagem — a mãe de Kevin diz, tocando gentilmente a minha mão.

— Você deveria ter me contado antes. Eu teria te levado direto para casa — Kevin comenta, a preocupação clara em sua voz.

Eu me arrependo por ter usado minha mãe como desculpa. Não estava mentindo; ela realmente parecia diferente hoje. Mas o verdadeiro motivo para querer ir embora não tinha nada a ver com isso.

— Não tem problema, gente. Vou terminar a pizza — digo, pegando a fatia e levando à boca, embora o apetite tenha sumido junto com a tranquilidade.

Enquanto mastigo, sinto os olhos de Kevin fixos em mim, tentando decifrar minhas expressões. Ignoro o olhar e finjo uma calma que não existe. Quando finalmente termino de comer, me levanto, satisfeita apenas no sentido literal. A lembrança ainda pesa, tirando qualquer fome genuína.

— Deixa que eu ajudo com os pratos — ofereço-me à mãe dele, juntando as louças da mesa.

Kevin sai para pegar o carro, e ouço o som do motor sendo ligado. Apresso-me em direção ao quarto dele para pegar minhas coisas. Coloco a mesma roupa que usei na escola, jogo a mochila sobre os ombros e saio apressada ao ouvir a buzina lá fora.

No carro, Kevin se mantinha calado, e a música tocava baixinho, criando uma atmosfera quase surreal. Ele parecia tranquilo, mas eu sabia que, por dentro, estava em constante movimento. Eu podia sentir sua inquietação, mesmo sem ele dizer uma palavra.

— Eu estou bem, não estou mentindo para você — falei, tentando passar uma sensação de calma que, sinceramente, eu não estava sentindo.

Ele me olhou com aquela expressão que parecia capaz de ler tudo o que estava acontecendo comigo, e baixou o volume da música. Aquela atitude de sempre, como se ele precisasse de silêncio para entender a verdade que eu não queria contar.

— Eu acredito que você está bem, mas tem algo acontecendo — disse ele, sério, mais como uma constatação do que uma pergunta.

Virei meu rosto para a janela, tentando esconder qualquer vestígio de desconforto. Ele me conhecia tão bem que, às vezes, eu ficava irritada por não conseguir esconder nada dele. Ele via até o que eu tentava esconder de mim mesma.

— Você poderia simplesmente acreditar em mim e parar de colocar coisas na sua cabeça? — falei, irritada.

Senti a mão dele em minha perna, suave, tentando me tranquilizar. Como se dissesse que estava tudo bem, que ele me daria espaço. Mas o silêncio entre nós só fez as palavras não ditas ganharem mais peso.

O resto do caminho foi em silêncio, até chegarmos em casa. Eu desci do carro rapidamente, tentando sair antes que ele fosse insistir mais.

— Não está brava comigo, está? — ele perguntou, com um sorriso no canto dos lábios, como se fosse a coisa mais simples do mundo.

Revirei os olhos. Não queria mais discutir, mas ele sempre dava um jeito de puxar conversa.

— Você não pode simplesmente me ignorar, sabe que vou passar a noite inteira pensando nisso — ele disse, saindo do carro e me alcançando.

Eu estava quase correndo para a porta, mas algo me fez parar. Dei um passo atrás e me aproximei dele. Não sei o que me deu, mas as palavras saíram antes de eu pensar.

— Eu te amo — falei, como se fosse algo simples, embora fosse a primeira vez que eu dizia isso. Nunca imaginei que fosse tão difícil dizer essas palavras.

Ele ficou completamente sem reação, tentando disfarçar, mas a surpresa estava estampada no rosto dele. Ele falhou em tentar esconder aquilo, e isso me fez rir um pouco.

— Eu não entendi. Pode repetir? — ele perguntou, com aquele sorriso maroto, enquanto me envolvia em seus braços, me fazendo sentir como se o mundo tivesse diminuído ali, só nós dois.

Revirei os olhos mais uma vez, não conseguindo evitar o quanto ele me fazia perder a compostura.

— Se você revirar os olhos mais uma vez, vou te fazer revirar os olhos de outro jeito — disse, com tom ameaçador, mas sem conseguir esconder o sorriso, porque, no fundo, eu sabia que ele tinha noção de como fazer aquilo.

— Até amanhã, Kevin — falei, já me afastando, mas ainda sentindo o gosto do momento no ar.

Ele me segurou, não querendo me deixar ir, como se ainda houvesse algo não dito entre nós.

— Eu também te amo, Ayara Oliveira — ele disse, e o jeito como falou meu nome, com aquela intensidade, me fez sentir algo que eu não soube explicar. Ele me deu um beijo de despedida, e eu não queria mais sair, mas sabia que estava na hora.

Eu me virei, sentindo uma felicidade inexplicável, e corri para dentro de casa. Ele realmente sabia usar as palavras.

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