A noite era uma camada pesada de silêncio, em contraste com a agitação abafada da boate ao fundo. As luzes coloridas e os sons ritmados pareciam parte de outro mundo, distante e indiferente. Cambaleando pelas ruas desertas, encontrei uma garrafa de vodca jogada no chão. Nem pensei; apenas a peguei e continuei andando em direção ao beco.
O mesmo beco. Onde tudo aconteceu.
Durante o dia, aquele lugar parecia um cenário de filme de crime, exposto à luz cruel do sol. Agora, na escuridão, havia uma calma estranha, quase mórbida. O cheiro metálico do sangue já havia desaparecido, mas as manchas ainda estavam ali, sombrias e secas. Sentei-me perto delas, encarando a cena. Por que eu voltei aqui? A pergunta martelava minha cabeça, mas não havia resposta. Era como se eu estivesse tentando me castigar, revisitar aquele momento onde eu fui completamente vulnerável.
Passei os dedos pelo concreto frio, tentando evocar memórias. Um grito, o toque áspero de mãos que não deveriam estar ali, a sensação de pânico absoluto. Mas a imagem era fragmentada, distorcida pelo medo. A única lembrança nítida era ele. O homem que apareceu do nada e colocou um fim àquilo.
Minha risada seca ecoou pelo beco vazio. Que coisa idiota de se pensar. Tentei me levantar, mas meus joelhos cederam. Caí de volta ao chão, abraçando a garrafa como se fosse a única constante naquela noite insana.
Então ouvi passos.
De início, pensei que era o álcool pregando peças, mas o som se intensificou. Alguém passou correndo, mal percebendo minha presença, e desapareceu pelas escadas que levavam ao topo do prédio. Fiquei olhando por um momento, minha mente embriagada tentando processar. Uma parte de mim sabia que deveria ir embora. A outra...
Com esforço, levantei-me, cambaleando até as escadas. A subida foi lenta, cada degrau ameaçando me derrubar de volta. Não olhei para baixo, evitando a tontura que já estava me consumindo.
Quando finalmente cheguei ao terraço, fui recompensada com uma vista impressionante da cidade. As luzes brilhavam como estrelas no chão, e por um breve instante, quase me esqueci de tudo. Sentei-me na beirada, balançando as pernas no ar enquanto bebia. A garrafa estava quase vazia, mas eu não me importava. O mundo lá embaixo parecia tão pequeno, tão insignificante.
— Você tem um péssimo senso de sobrevivência. — A voz veio de repente, grave e cheia de sarcasmo.
Virei-me devagar, o álcool retardando minha reação. Um homem de preto estava parado ali, com um capuz cobrindo parte de seu rosto e uma máscara escondendo o restante. Ele segurava um taco de beisebol como se fosse uma extensão natural de seu corpo.
— Não estou com humor para isso. — Revirei os olhos, voltando a encarar a cidade.
— Nem eu, mas parece que estou preso cuidando de uma bêbada com tendências suicidas. — Ele começou a se aproximar, os passos leves, quase predatórios.
— Não sou suicida. — Minha voz saiu arrastada. — Só estou apreciando a vista.
Ele parou ao meu lado, pegando a garrafa da minha mão antes que eu pudesse protestar. Levantou a máscara o suficiente para tomar um gole, depois me devolveu com um sorriso cínico.
— Que droga... — murmurei, encarando-o incrédula.
— Você sempre é tão agradecida assim? — O sarcasmo em sua voz era quase palpável.
Algo clicou em minha mente. O ataque. Ele estava lá. Era ele.
— É você. — Minha risada foi involuntária, mas explosiva. — Claro que é você. Estou bêbada, e minha cabeça está criando alucinações heroicas.
— Alucinações não carregam tacos de beisebol. — o tom frio, mas com um leve toque de curiosidade.
— Isso é exatamente o que uma alucinação diria. — Eu ri novamente, incapaz de me conter.
Ele suspirou, claramente irritado.
— Saia daí. É perigoso.
— A vista é ótima. — Ignorei-o, balançando a garrafa vazia.
Ele se aproximou mais, puxando-me pela mão para longe da beirada.
— Olha, eu não sou sua babá, mas você realmente precisa aprender a evitar situações idiotas.
— E você precisa aprender a ser menos mandão. — Retirei minha mão da dele, tropeçando para trás. — Mas já que você está aqui... Obrigada.
Ele ficou imóvel, como se minhas palavras o tivessem paralisado.
— Eu sei que você não é real, mas obrigada por aparecer naquele dia. — Minha voz falhou, e senti uma lágrima quente escorrer.
Ele desviou o olhar, dando alguns passos para trás.
— Não precisa agradecer. — Sua voz estava mais baixa, quase um sussurro. — Um monstro como eu não merece gratidão.
Antes que eu pudesse responder, ele virou-se e desapareceu na escuridão, deixando-me sozinha com a cidade e o eco de suas palavras.
De algum jeito surpreendente, consegui descer as escadas sem me machucar ou despencar lá de cima. Talvez tenha sido sorte, ou pura teimosia embriagada. O que eu sabia era que precisava ligar para o meu pai. Essa ideia martelava na minha cabeça como a única coisa lógica que restava antes de eu apagar de vez.
Tateei os bolsos e finalmente achei o celular. As mãos trêmulas tornavam o simples ato de discar um número uma tarefa monumental. Quando ele atendeu, sua voz foi curta e firme. "Estou chegando", foi tudo o que ele disse. Ou pelo menos foi a última coisa que consegui captar antes do mundo à minha volta apagar por completo.
Acordei no dia seguinte, surpreendentemente em minha cama. O quarto estava como eu havia deixado, mas minha cabeça latejava como se um tambor estivesse sendo tocado incessantemente dentro dela. Passei a mão no rosto, tentando lembrar como tinha voltado para casa. Nada. Era um borrão completo.
Levantei com dificuldade, sentindo o corpo pesado, e fui até a cozinha. Meus pais estavam lá, tomando café, cada um imerso em suas próprias rotinas. Eu hesitei na porta por um momento, esperando alguma explosão de perguntas ou um sermão épico. Mas nada. Eles apenas me cumprimentaram com um "Bom dia" casual, como se tudo estivesse absolutamente normal.
Aquilo me deixou desconcertada. Será que eu tinha imaginado tudo? Ou eles decidiram ignorar o que aconteceu? Por mais que tentasse entender, minha mente ainda estava confusa. A única certeza que eu tinha era que, de alguma forma, eu havia passado do limite.
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Atualizado até capítulo 42
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