— Ayara, tem como nós duas conversarmos? — Amanda disse, mais como uma ordem do que um pedido. E foi isso que me fez ignorá-la completamente. Eu estava além de conversar com ela naquele momento.
Ao invés de responder, caminhei na direção de Matt, tentando me agarrar a um mínimo de sanidade. Ele, ao contrário de Amanda, parecia mais compreensivo, mas até ele me fazia sentir que estava em um palco, e não em uma conversa de amigos.
— Me perdoa pelo que aconteceu naquele dia... Eu sei que você não teve nada a ver com aquilo. — eu disse, sentindo o peso das palavras. Eu não queria continuar carregando aquela culpa por algo que não era minha responsabilidade.
Matt olhou para mim, e eu vi a tristeza em seus olhos. Ele assentiu com a cabeça, mas sua expressão ainda mostrava um desconforto. Talvez fosse com Kevin, talvez fosse com a situação inteira, mas ele parecia relutante em deixar aquilo pra trás, como se algo ainda estivesse pendente.
— Você não pode me ignorar pra sempre, Ayara. Eu e a Stacey já fizemos as pazes, e sei que você pode fazer isso também — disse, tentando me convencer. Eu sentia que ela estava forçando uma conversa que eu não queria ter.
Ela não sabia da semana que eu estava tendo. Não sabia da raiva que eu estava acumulando, nem do peso que estava sobre meus ombros. E foi isso que me fez olhar para ela com uma raiva contida. Era o momento de dar um limite, de mostrar que não seria mais fácil do que eles imaginavam.
— Talvez, só talvez, Stacey tenha perdoado você porque você não quis dar pro namorado dela — eu disse de maneira curta, a palavra talvez pesando mais do que qualquer outra coisa. Eu sabia que aquilo a atingiria, sabia que a verdade machucava mais do que qualquer outra ofensa.
A reação de Stacey foi imediata. Eu a vi se esticar na direção de mim, o rosto vermelho de raiva, mas Otávio a segurou, tentando evitar uma explosão. A tensão era palpável, e no momento em que Stacey tentou reagir, Kevin me envolveu com mais força. Ele estava tentando me proteger, mas eu sabia que ele também estava segurando uma raiva crescente.
— Que merda, Ayara! Vai perder nossa amizade por causa disso? — Stacey gritou, os olhos incendiados de frustração. Ela não entendia. Ela não sabia o que eu estava passando, mas não podia esperar que eu simplesmente perdoasse por tudo o que aconteceu.
Nossa amizade? Eu me senti traída, de certa forma, por ela tentar me pressionar assim. Eu não sabia como reagir. Perder a amizade dela? Eu não conseguia acreditar que ela pensava assim, como se fosse algo simples. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Kevin me soltou, e sua voz se manteve calma, mas havia algo nele que não dava para ignorar. A raiva estava ali, controlada, mas queimando em sua presença.
— Você realmente se considera amiga dela? — disse Kevin, mantendo a voz controlada, mas os olhos dele estavam com um fogo que eu não podia negar. A raiva estava lá, viva, mas ele não deixava transparecer.
Eu o olhei, surpresa, admirada até com a calma dele diante de toda aquela pressão. Ele não estava tentando controlar a situação. Ele estava simplesmente sendo ele mesmo, e isso me fez pegar sua mão com força. Eu precisava de força naquele momento.
— Eu não vou me resolver com você, Amanda. Não acho que você tenha uma justificativa para o que fez, e Stacey... eu esperava mais de você — disse, tentando segurar a raiva que me consumia, antes de puxar Kevin para longe. Não podia deixar que ele e Otávio brigassem, não podia permitir que aquilo tomasse um rumo que eu não poderia controlar.
Kevin parecia mais calmo. Ele me deu um beijo suave na testa e se despediu de mim antes de seguir para sua aula. Mesmo à distância, ele continuava me observando atentamente enquanto eu caminhava em direção à sala. Quando entrei, acenei para ele, um gesto rápido e discreto, e logo ele se afastou, desaparecendo pelos corredores.
Me sentei na minha carteira e, antes que eu pudesse me acomodar, Stacey apareceu. Ela me olhou, mas havia algo na sua expressão que me deixava desconfortável. Não conseguia identificar se era arrependimento, ódio ou alguma mistura dos dois. Mas, em vez de me perder em seus olhos, resolvi focar no professor, tentando bloquear tudo ao meu redor.
Foi então que ouvi a conversa da menina ao meu lado. “Eu nem acreditei. Um cara ia roubar minha bolsa, e ele chegou e golpeou o cara. Você sabe, amiga, essa é a marca registrada dele, né? Só um golpe e o cara vai dessa pra melhor." As duas riram, sem perceberem o peso das palavras.
Eu sabia exatamente de quem elas estavam falando. O assassino de Glenwood. Aquele que, com um simples golpe, tirou a vida do meu abusador, que cuidou de mim no terraço de um prédio, que se arriscou pra entregar meu celular. Meu estômago se revirou. Agora, mais alguém tinha o encontrado, além de mim. Aquela sensação de ser a única, de ser a única que tinha o visto, desapareceu num estalar de dedos. Talvez eu não fosse tão especial como pensava. Eu havia até me esquecido dele, por um momento, mas agora... essa idiota tinha que falar sobre ele na minha frente?
A raiva cresceu dentro de mim, pulsando em minhas veias. A caneta em minha mão parecia não parar, batendo contra o meu braço com uma força cada vez maior. Queria dissipar a frustração que me consumia, mas era impossível. Então, senti a mão de Stacey segurando a minha.
— Tem como você parar? — ela disse, sua voz baixa, mas firme.
Eu a empurrei, sem olhar para ela, e continuei com o movimento repetitivo. Não queria conversar. Não agora.
— Poxa, Ayara. Você não entendeu? Eu te amo pra caralho — ela falou, quase sussurrando, mas com uma urgência que não podia ser ignorada. Ela olhou para o professor, como se isso fosse sua última tentativa de fazer tudo dar certo. — Ela me explicou o que aconteceu, e tenho certeza que, mesmo odiando, você vai tentar perdoá-la.
Eu senti uma pontada no peito. Não gostava de pensar que ela e Amanda haviam conversado sobre mim, sobre o que aconteceu. Mas eu estava evitando tantas coisas ultimamente, tantas conversas que não queria ter, que sequer tive tempo de falar sobre isso com ela, quando ela sugeriu. E agora, ali, com os olhos dela me implorando, eu sabia que tinha que tentar. Mesmo que a raiva ainda me consumisse, eu amava Stacey também.
— Tá bom, mas diz a ela pra ser rápida. Depois da aula, eu preciso fazer algo, e aí ela pode falar o que quiser — falei de forma curta, talvez mais ríspida do que deveria, mas a tensão no meu corpo não me permitiu ser mais suave.
Stacey assentiu, tentando conter a animação, mas eu podia ver o brilho nos seus olhos. Ela ainda acreditava que tudo voltaria ao normal, que poderíamos voltar a ser as mesmas de antes. Eu sabia que ela queria ver as três juntas novamente, como nos velhos tempos. E por ela, eu faria isso. Mas, antes de qualquer coisa, eu tinha que ser punida. E, mais do que nunca, eu queria que Kevin me punisse.
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Atualizado até capítulo 42
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