Sentada à mesa tomando café, percebo subitamente que estou atrasada para a escola. Meus pais, tranquilos como se nada estivesse errado, nem notaram minha correria enquanto deixo a xícara de lado e disparo escada acima para me arrumar. Vinte minutos depois, desço as escadas ainda ajeitando a mochila no ombro. Meu pai estava na porta, despedindo-se da minha mãe. Por um instante, a cena parecia tão normal que era difícil acreditar que eles tinham brigado. Talvez o jantar tenha ajudado eles fazerem as pazes. Isso explicaria o clima de calma que pairava na sala.
— Papai, pode me dar uma carona? Estou super atrasada.
Ele assente sem hesitar, com aquele olhar cansado que sempre carrega, como se o peso do mundo estivesse sobre seus ombros. Me despeço da minha mãe, que me lança um olhar meio preocupado, embora tente disfarçar. Não engana ninguém. Mas seja lá o que fosse, não era o momento para conversar sobre isso.
Entro no carro. Não um carro qualquer, mas o carro da polícia. O rádio local sussurra notícias enquanto meu pai dirige pelas ruas vazias da manhã. O silêncio é quebrado por ele, num tom que mistura alerta e curiosidade.
— O assassino de Glenwood foi visto ontem à noite perto da boate onde você estava.
Meu coração salta. O som das palavras me faz congelar. Ele esteve tão perto de mim, e eu não tive chance de agradecer. Como eu poderia ter perdido essa chance? A sensação de estar tão próxima dele, sem saber, faz um frio correr pela minha espinha. Eu queria ter agradecido a ele, queria ter dito algo, qualquer coisa, por ter me salvado.
— Como você sabe que eu estava lá?
— Porque você me ligou, Ayra — ele responde, e pela primeira vez na manhã, vira o rosto para mim. Seus olhos carregam uma mistura de cansaço e preocupação. — Você me pediu para te buscar.
Minha mente se embaralha.
— Eu... te liguei? — repito, mais para mim mesma do que para ele. A voz sai fraca.
Ele confirma com um aceno de cabeça.
— Sim. Era quase três da manhã. Você estava assustada. Disse que havia algo errado e que queria ir para casa.
Uma sensação de náusea me atinge. Eu tento me lembrar da ligação, mas tudo o que vem à mente é um borrão de luzes, música e risadas na boate. Depois disso, nada.
— Não lembro de ter ligado para você — murmuro, quase como um segredo.
— Não estou surpreso. Você parecia fora de si. Bebeu, não é?
Ele não estava me acusando; sua voz era neutra, mas ainda assim, eu me senti incomodada.
— Foi só um pouco. — Desvio o olhar para a janela.
— Não importa quanto foi, Ayra. Você estava vulnerável. Se eu não tivesse ido, quem sabe o que poderia ter acontecido.
Eu suspiro, sentindo o peso das palavras dele.
— Tá. Eu entendi. Obrigada por ter ido.
Ele assente levemente, mas o tom sério não desaparece.
— O pior é que você ainda tenta defender esse homem. — A voz dele ganha um tom mais firme. — Você sabia que ele estava lá, não sabia?
— Não, eu não sabia. — A resposta sai mais baixa do que eu esperava, mas sincera. — Como eu ia saber disso?
— Porque você tem uma conexão estranha com ele. Uma obsessão. Você sempre defende o que ele faz.
Eu respiro fundo, tentando manter a calma.
— Ele salvou a minha vida, pai. Isso não desaparece.
— Claro que não desaparece — ele responde, mas o cansaço está evidente na voz. — Mas isso não apaga os outros dez assassinatos.
O silêncio se instala entre nós. Tento encontrar as palavras certas, mas tudo parece complicado demais para ser dito agora.
— Eu só quero que você tome cuidado, Ayra. Por favor.
Olho para ele e, por um momento, vejo o cansaço no rosto dele, a preocupação sincera. Isso me desarma.
— Eu sei, pai. E obrigada por ter me buscado ontem.
O resto da viagem segue em silêncio, mas algo dentro de mim continua ecoando: por que eu o chamei? E o que aconteceu naquela noite que me fez esquecer?
Me despeço do meu pai. Ele ainda parece preocupado, mas se despede de volta, tentando esconder a tensão com um sorriso forçado. Entro na escola e me sento no pátio, esperando a segunda aula, já que me atrasei. Procuro meu celular na bolsa, mas, honestamente, nem sei onde ele está. E, para ser bem sincera, não tenho ideia de nada que está acontecendo agora. Só queria entender o que aconteceu comigo.
Os pensamentos sobre o Assassino... sobre o homem que me ajudou, não saem da minha cabeça. Eu realmente não sei o que pensar. E, meu Deus, que tipo de bebida eu tomei? O que aconteceu com a minha memória? Isso me corrói, e eu preciso de respostas.
O sinal toca, interrompendo meus pensamentos. Logo vejo Stacey vindo em minha direção com os olhos arregalados, como se tivesse acabado de ver um cadáver. Ela me abraça com tanta força que quase me derruba.
— Eu só me atrasei um pouco, e sou recebida assim? — brinco, tentando quebrar a tensão no ar, mas noto que ninguém sorriu.
— Amiga, eu te liguei mais de cem vezes! Eu estava surtando! Não sabia se você estava viva, se chegou em casa... — Stacey diz, o tom de voz nervoso e quase desesperado. Ela é do tipo que se preocupa com tudo, e isso fica claro no seu olhar.
Eu preciso de respostas, urgentemente. O que aconteceu comigo ontem? Estou começando a me sentir como uma personagem de um filme de suspense.
— Acho que perdi meu celular... mas como podem ver, estou bem — digo, tentando aliviar a tensão, piscando para Kevin, que está mais distante.
Kevin desvia o olhar de forma tão óbvia que me faz levantar uma sobrancelha. Eu já percebi, no fundo, que ele está escondendo alguma coisa. Isso me deixa ainda mais intrigada. Então vou até ele, passo os braços ao redor de seu corpo e o puxo para um abraço apertado, algo que o pega de surpresa. Eu amo quando ele se desconcerta assim.
— Você está me evitando por quê? — pergunto, fazendo uma voz fofa, e dando um sorriso de lado, como se estivesse brincando. Mas, no fundo, eu sei que há algo estranho ali.
Ele me encara, os olhos cheios de confusão. A reação dele me deixa ainda mais curiosa. Ele hesita, mas retribui o abraço, embora de forma um pouco rígida. Algo não está certo.
— Você se lembra de alguma coisa de ontem à noite? — pergunta Otávio, com uma expressão tensa e uma leve frustração na voz.
Eu começo a rir, uma risada nervosa. Olho para eles, ainda totalmente confusa.
— Eu não faço a mínima ideia do que aconteceu. Só lembro de dançar e de, de repente, aparecer em casa no outro dia... Ah, e meu pai me disse que liguei para ele às três da manhã, desesperada, ou algo assim — falo, ainda abraçando Kevin com força. — Eu estava esperando que vocês me lembrassem.
Eu sinto o coração de Kevin bater mais rápido, e isso me deixa ainda mais intrigada. Ele está tão nervoso quanto todo mundo ali, e isso está começando a me irritar. Por que ninguém simplesmente me fala a verdade?
— Amiga... Eu preciso te contar o que aconteceu ontem — Stacey diz, com o rosto vermelho de tanto nervosismo. Ela é a mais impulsiva do grupo, sempre se precipitando e, às vezes, sem saber controlar as próprias emoções.
— Não, deixa que eu mesmo falo — Kevin interrompe, puxando minha mão de forma abrupta, como se não quisesse que ninguém mais soubesse. Ele tem aquele jeito protetor, mas algo nele está fora do lugar hoje.
Otávio e Stacey nos observam com um olhar cheio de preocupação, mas eu sigo Kevin, sem entender o que está acontecendo. Ele me leva até o mesmo banheiro de ontem, o local onde nós... onde nós nos beijamos e ficamos, de uma forma que eu não consigo esquecer. Era difícil não lembrar disso, mas havia algo mais importante agora. Algo que me martelava na cabeça.
— Ontem à noite... — ele começa, gaguejando, os olhos desviando dos meus, como se tentasse evitar o contato visual. Ele nunca foi de demonstrar fraqueza, mas hoje estava totalmente perdido.
Eu fico nervosa, me afastando dele, um frio no estômago. Não queria ouvir o que ele tinha a dizer.
— Não me diga que você me traiu — digo, tentando controlar a voz, mas o nó na garganta me impede. Não sei o que seria pior: saber que ele me traiu ou entender que ele está me escondendo algo maior.
Ele fica ainda mais tenso, o corpo rígido, mas nega com um movimento rápido.
— Merda, claro que não. Nós brigamos... Eu gritei com você, e... fiz umas coisas que não devia — diz ele, virando o rosto, com a expressão fechada. Kevin sempre foi calmo, quase imune a qualquer tipo de pressão. Mas hoje, ele estava claramente desmoronando.
Eu respiro fundo, tentando processar o que ele acaba de dizer. Há um alívio por ele não ter me traído, mas, ao mesmo tempo, sinto um peso no peito. Ele gritou comigo? Isso não é coisa dele. Ele sempre foi o tipo de pessoa que mantinha a calma, o equilíbrio.
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Atualizado até capítulo 42
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