Quando chegamos à boate, o lugar parecia pulsar com vida. Luzes frenéticas piscavam ao som grave da música, enquanto uma multidão se acotovelava tanto do lado de fora quanto dentro. Otávio, como sempre, parecia preparado para qualquer situação. Ele abriu sua mochila e tirou algumas identidades falsas, distribuindo com uma confiança que só ele tinha.
— Amei meu nome: Larissa Gonçalves — comentou Stacey, com um sorriso debochado, balançando a identidade entre os dedos.
Eu olhei para a minha. Yara Gonçalves. Então, aparentemente, éramos parentes nessa pequena farsa. Ri para mim mesma, decidindo não criticar o esforço dele.
— Ei, gatinha — a voz de Kevin me chamou de volta à realidade. Ele estava perto, quase íntimo demais, e sua expressão carregava algo entre zelo e autoridade. — Fica perto de mim, tá bom?
Revirei os olhos, tentando não ceder ao controle disfarçado em preocupação.
— Esses dois ainda vão brigar hoje — murmurou Stacey para Otávio, que apenas deu um sorriso cúmplice e concordou com um aceno de cabeça.
Saí do carro, ignorando as provocações, e segui para a fila que serpenteava em direção à entrada. Antes que eu percebesse, senti braços ao meu redor. Me virei e dei de cara com Kevin. Ele sorria daquele jeito travesso, mas seus olhos denunciavam irritação.
— Vamos passar a noite toda assim? — perguntei, tentando esconder minha impaciência.
Kevin soltou meu braço imediatamente, mas sua expressão endureceu.
— Se você quer assim, tudo bem. — A resposta saiu seca, como uma barreira erguida entre nós.
Suspirei, buscando ignorar a tensão que começava a se formar. Stacey percebeu o clima e, tentando aliviar, lançou uma pergunta casual:
— Vocês vão beber hoje?
— Claro que sim — respondi antes mesmo de pensar.
Kevin me lançou um olhar carregado de reprovação, mas sua voz foi tranquila quando respondeu:
— Eu não vou, mas se ela quer beber, por mim tudo bem.
Antes que pudesse rebater, a fila começou a andar rapidamente. Mostramos nossas identidades falsas e entramos sem problemas. Lá dentro, a boate estava ainda mais lotada do que eu imaginava. O ar era denso com o cheiro de suor, bebida e perfume, enquanto corpos se moviam como se fossem parte de uma única entidade ao som da música.
Os meninos nos guiaram até o bar, mas eu e Stacey não demoramos muito a pedir nossas bebidas e correr para a pista de dança. A música nos envolveu rapidamente, e em poucos minutos estávamos rindo e dançando como se não houvesse amanhã.
Otávio e Kevin nos observavam de longe, trocando olhares preocupados como dois guardiões tentando decidir o momento certo de intervir. Eu ignorei completamente.
— Eles são obcecados demais. Às vezes cansa. — confessei a Stacey, minha voz já meio arrastada pelo efeito da bebida.
— Concordo. O Otávio nem se fala. Aposto que daqui a pouco ele vem me puxar daqui. — Ela riu alto, quase tropeçando nos próprios passos.
Enquanto isso, Kevin, que inicialmente não beberia, já estava na terceira cerveja, provavelmente tentando manter a calma. Quando percebi, fui até ele, irritada com sua atitude.
— Já chega de beber, não acha? — perguntei, cruzando os braços.
Ele riu, ignorando meu tom, e pediu outra bebida.
— Então vai ser assim? — desafiei, mas ele continuou me ignorando.
Decidi que, se ele queria jogar, eu também sabia jogar. Puxei um pouco o vestido para cima, deixando as pernas e parte do quadril mais à mostra, e voltei para a pista de dança. Otávio já havia puxado Stacey para longe, provavelmente para evitar confusão, mas eu fiquei.
Kevin notou o gesto imediatamente. Sua expressão fechou, o ciúme quase palpável. Continuei dançando, sabendo que ele estava observando cada movimento. Quando um desconhecido se aproximou, tentei ser educada.
— Tenho namorado. — Apontei para Kevin, que ainda estava parado no bar, tentando se controlar.
O homem se afastou, mas aquilo foi suficiente para Kevin perder o controle. Em poucos segundos, ele atravessou a pista de dança e me puxou pelo braço.
— Já chega, não acha? — murmurou entre os dentes, me conduzindo para fora da pista.
— Eu só estava dançando! — rebati, mas ele não me respondeu.
Kevin estava claramente irritado, e sua maneira de me olhar era uma mistura de preocupação e frustração. No entanto, ao invés de continuar brigando, ele pegou sua cerveja, tomou um longo gole e se virou de costas.
— Quer se divertir? Vai lá. Não vou te impedir. — disse, com uma amargura que me irritou ainda mais.
Senti o ar faltar por um momento. Ele realmente ia fazer isso? Bufei e saí dali, desaparecendo na multidão antes que ele pudesse me impedir de novo.
Aproveitei a ausência de Kevin para me perder na música, deixando o som preencher os espaços vazios dentro de mim. Estava mergulhada no ritmo, ignorando tudo ao meu redor, até sentir mãos desconhecidas no meu quadril. Meu primeiro instinto foi achar que era Kevin, e já estava pronta para enfrentá-lo, mesmo que fosse para brigar. Mas ao me virar, deparei-me com um estranho. Senti um calafrio percorrer minha espinha e, num impulso, o empurrei com força, assustada.
— Que merda é essa? — gritei, dando passos rápidos para trás.
O homem ignorou meu protesto e avançou novamente, tentando me agarrar. Antes que eu pudesse reagir, tudo aconteceu rápido demais. Num piscar de olhos, Kevin estava ali. Não houve perguntas, nem hesitação. Ele derrubou o estranho no chão e começou a socá-lo sem piedade.
A cena era brutal, quase surreal. Otávio apareceu para separar os dois, puxando Kevin de cima do homem, que já estava coberto de sangue. Eu mal conseguia respirar. Kevin parecia incontrolável, como uma força da natureza que não se continha. Por um momento, temi que ele fosse capaz de matar o cara. E, embora soubesse que ele estava tentando me proteger, a culpa me atingiu em cheio.
— Me solta! — rugiu Kevin, com os olhos brilhando de fúria.
Otávio o soltou, mas não antes de me agarrar pelo braço e me levar para fora da boate. Stacey veio logo atrás, preocupada, enquanto Kevin chutava uma lixeira com violência.
— Que merda, Ayara! Eu falei pra você ficar perto de mim! — gritou ele, com a voz carregada de raiva e desespero.
Eu não conseguia responder. As lágrimas já escorriam pelo meu rosto, quentes e incessantes. Ele não entendia? Eu só queria um momento de liberdade, de paz, sem o peso de seu controle sufocante.
— Calma, Kevin! Você não tá vendo que ela não tá bem? — interveio Otávio, com a voz firme.
Kevin virou-se para ele, ainda furioso.
— E se fosse com a Stacey? Você teria calma? — disparou, o rosto tenso de indignação.
Otávio deu um passo à frente, tentando ser a voz da razão.
— Se fosse com ela, eu faria a mesma coisa. Mas sabe o que eu não faria? Gritar com ela enquanto ela está chorando. Isso eu não faria.
A tensão entre eles diminuiu um pouco, mas a raiva de Kevin ainda pairava no ar. Stacey me puxou para o outro lado, tentando me acalmar enquanto os dois ficavam para trás, discutindo em tons mais baixos.
Eu já não conseguia chorar. Era como se algo dentro de mim tivesse se quebrado, deixando apenas um vazio anestésico.
— Amiga, quer que eu te leve pra casa? — perguntou Stacey, a voz cheia de preocupação.
Respirei fundo, tentando recuperar algum controle sobre mim mesma.
— Relaxa. Eu vou ligar pro meu pai. Só leva o Kevin daqui, tá bom?
Minha voz saiu fria, distante. Stacey hesitou, mas entendeu que eu precisava de espaço. Pouco depois, ela chamou Otávio, e os dois foram embora com Kevin. Quando fiquei sozinha, a realidade da noite caiu sobre mim como uma avalanche.
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Atualizado até capítulo 42
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