15

Capítulo 15

O sol ainda estava baixo quando entrei na cozinha, onde Dante já estava sentado, como sempre, com uma xícara de café em mãos. O cheiro forte e amargo do café misturado com o aroma da manhã me envolveu enquanto eu me aproximava da mesa, sem saber ao certo o que esperar daquela conversa. Há algo sobre a quietude dele que me deixa desconfortável. Dante tem uma presença imponente, silenciosa e observadora, e hoje, ao me olhar, parecia mais atento do que o habitual.

Eu me sentei do outro lado da mesa, como sempre, tentando manter a calma. Peguei minha xícara, sentindo o calor da bebida contra minhas mãos frias. Tentei ignorar a maneira como meu coração batia mais rápido, como se eu estivesse prestes a ser descoberto, embora eu não soubesse ainda o que ele sabia ou se sabia alguma coisa.

— Como foi sua noite? — Dante perguntou, com o tom de voz calmo, mas seus olhos estavam fixos em mim. Era como se ele estivesse esperando algo.

— Bem, eu dormi... — respondi, tentando manter a voz o mais neutra possível. Ele parecia estudar cada palavra que eu dizia, como se estivesse analisando não só o que eu estava falando, mas também o que eu não estava dizendo.

Ele fez uma pausa antes de perguntar, de maneira casual, mas com aquele tom de quem já sabia a resposta:

— O que você tem feito tanto nesses seus momentos livres na biblioteca?

Eu congelei. Meu coração deu um pulo no peito, e por um momento, a xícara em minha mão quase escorregou. Como ele sabia disso? Como ele sabia onde eu ia? Eu não sabia o que pensar, o que sentir. O medo cresceu dentro de mim, uma sensação de estar prestes a ser descoberto, como se todos os segredos que eu tentava esconder estivessem à beira de vir à tona.

Fiquei em silêncio, incapaz de responder imediatamente. Ele continuava me olhando, os olhos penetrantes, como se estivesse esperando por uma reação. Eu tentei manter a calma, mas a ideia de que ele sabia da minha pequena fuga para a biblioteca, onde me escondia com Jonas, fez minha mente entrar em pânico.

— O que você está fazendo lá? — Dante perguntou novamente, mais uma vez sem levantar a voz, mas a pressão de sua pergunta estava ali, no ar.

Eu engoli em seco, tentando pensar em algo que não fosse uma mentira óbvia. Era como se cada palavra que eu falasse agora fosse um risco. Se eu dissesse algo errado, se ele descobrisse a verdade sobre Jonas, sobre tudo o que acontecia naqueles momentos longe dele, o que aconteceria comigo?

Minha respiração estava irregular, meu coração batia rápido demais. Ele sabia, e eu sabia que sabia. Talvez ele já tivesse notado a mudança em mim, o quanto eu parecia mais distante, mais perdido. O quanto eu estava começando a me perder dentro de mim mesmo, enquanto me permitia sonhar com algo que não era permitido.

Eu pensei em Jonas naquele momento. A maneira como ele me fazia sentir, como ele me ouvia sem pressa, sem julgamentos. Ele não sabia quem eu era. Ele não sabia que eu era a propriedade de Dante De Luca, que eu não tinha escolhas. Mas ele me fazia esquecer, mesmo que por um breve momento. E a ideia de Dante descobrir isso me aterrorizava.

— Eu... — comecei, tentando manter a voz firme, mas sentindo que ela falhou na metade da palavra. — Eu só... gosto de ler lá. É um lugar tranquilo.

Dante continuou me observando, os olhos sempre fixos, estudando-me com uma paciência quase calculada. Ele não disse nada imediatamente, mas havia uma tensão no ar, como se ele estivesse esperando que eu dissesse mais. Algo no jeito como ele me olhava fazia meu coração bater mais rápido, mas não apenas pelo medo. Havia algo mais, algo que eu não conseguia identificar completamente.

— Tranquilo, é? — ele repetiu, como se estivesse processando as minhas palavras. — Não sabia que você gostava tanto de livros antigos e de lugares tão... afastados.

Eu poderia jurar que ele estava brincando comigo, que havia uma leve provocação em sua voz, mas também uma curiosidade escondida. Eu não sabia o que ele queria. Mas o fato de ele saber onde eu estava indo me fez sentir ainda mais preso. Eu não sabia até onde ele iria para me controlar, para manter tudo sob vigilância.

Eu baixei os olhos, não querendo mais manter o contato visual com ele. A última coisa que eu queria era que ele visse o pânico em meu rosto, que ele soubesse que minha mente estava corrida, procurando desesperadamente uma maneira de escapar dessa conversa.

— Não é... nada demais, Dante — respondi, agora mais calmo, tentando disfarçar qualquer sinal de ansiedade. — Só... um lugar para ler. Não tem nada de errado nisso, não é?

Dante inclinou-se um pouco para frente, os olhos nunca se afastando de mim. Eu podia sentir o peso de seu olhar, como se estivesse observando até a menor reação, até o menor movimento meu. Ele era muito bom nisso, muito bom em me fazer sentir pequeno, em me fazer perceber que, apesar de todos os meus esforços, não havia como escapar de seus olhos.

— Claro, não tem nada de errado — ele disse lentamente, como se estivesse saboreando cada palavra. Então ele fez uma pausa, deixando o silêncio preencher o espaço entre nós. — Mas o que me intriga, Liam, é que você nunca me contou sobre isso. Por que você nunca mencionou que passa tanto tempo sozinho lá?

Eu não sabia o que dizer. Eu queria gritar, pedir desculpas, dizer que não queria mais ir lá, que eu nunca mais voltaria àquele lugar. Mas as palavras não saíam. Eu estava preso. Eu não podia mais voltar para a biblioteca. Se Dante soubesse de Jonas, eu teria perdido tudo.

O medo apertou minha garganta, mas eu tentei esconder. Eu apenas olhei para a mesa, procurando algo para focar. A xícara de café estava quase vazia, e a minha mão tremia ligeiramente.

— Não achei que fosse importante — respondi, tentando manter a voz firme. Mas, por dentro, meu corpo gritava para desistir, para não dizer mais nada. Eu sabia que estava cavando um buraco mais fundo a cada palavra que saía da minha boca.

Dante não disse nada por um momento. Ele apenas me observou, com aquela calma de sempre, mas havia algo em seu olhar. Algo que me fazia sentir como se ele soubesse exatamente o que eu estava escondendo. E, naquele instante, eu percebi que, talvez, ele soubesse muito mais do que eu imaginava.

— Bom, então — disse ele, finalmente quebrando o silêncio, — Não vá mais lá. Não vejo necessidade de você ir a lugares como aquele, sem minha permissão.

Meu coração parou por um segundo. Ele não estava apenas me proibindo de ir à biblioteca, mas... o que mais ele sabia? O que mais ele teria percebido sobre mim e sobre o que eu estava fazendo ali?

— Entendido — murmurei, sem vontade de discutir mais. A verdade era que eu não tinha mais forças para lutar contra ele.

Dante apenas me observou mais uma vez, com um olhar que parecia satisfeito com minha resposta. Mas eu sabia que ele ainda estava esperando mais. Eu sabia que, se ele quisesse, poderia forçar a verdade a sair de mim. E eu não sabia quanto tempo conseguiria manter minha fachada.

Mas, naquele momento, havia uma coisa que eu sabia com certeza: eu não iria mais à biblioteca. Eu não poderia arriscar. Eu não poderia arriscar mais nada.

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Comments

Clesiane Paulino

Clesiane Paulino

eu não sou de reclamar... mas já tô impaciente com esse jeito do Liam 😥

2025-01-30

0

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