Capítulo 3: Correntes Douradas
Eu encaro meu reflexo no espelho, as mãos apertando a borda da penteadeira. Estou vestido de forma impecável, mas me sinto sufocado. A camisa branca é justa demais, a gravata aperta meu pescoço como uma coleira, e o terno preto parece uma armadura pesada, feita para me prender, não para me proteger.
Minha mãe está atrás de mim, ajustando os últimos detalhes. Ela alisa o tecido do meu ombro e ajeita o colarinho com um cuidado quase mecânico, como se eu fosse uma boneca prestes a ser exibida.
— Você está lindo, Liam — diz ela com uma voz doce, mas distante.
Lindo? Tudo que vejo no espelho é um prisioneiro, condenado antes mesmo de cometer um crime.
— Mãe... — Minha voz sai baixa, quase um sussurro. — Por favor, não faça isso comigo.
Ela para, suas mãos aindaando no ar por um momento, antes de pousarem suavemente em meus ombros. Nossos olhares se encontram no espelho, e algo no fundo dos olhos dela vacila.
— Liam, eu sei que você está nervoso, mas...
Eu me viro de repente, afastando suas mãos.
— Não é nervosismo! É desespero! — Minha voz quebra, e sinto o calor subir ao meu rosto. — Como você pode fazer isso comigo? Como pode me vender assim, para uma família como a dos De Luca?
Ela suspira, virando o rosto por um instante, como se quisesse evitar o confronto.
— Dante é poderoso. Ele vai cuidar de você. Você terá tudo que precisa, Liam. Conforto, segurança...
— E liberdade? — A palavra sai amarga, quase como um veneno. — Isso ele também vai me dar?
Minha mãe hesita, e esse momento de silêncio é como uma confirmação.
— Você vai ter uma vida boa, Liam — diz ela finalmente, sua voz baixa, quase como se estivesse tentando convencer a si mesma. — É melhor assim.
Eu dou um passo para trás, sentindo como se o chão estivesse se desfazendo sob mim.
— Melhor para quem? Para mim? Ou para você e o papai, que acham que estão me garantindo uma posição nesse mundo podre?
Ela respira fundo, o cansaço evidente em suas feições.
— Liam, não fale assim. Nós fizemos isso por você, para garantir seu futuro. Você não entende o que significa estar em dívida com os De Luca. Isso não é uma escolha, é uma necessidade.
Minha garganta aperta, e meus olhos queimam, mas me recuso a deixar as lágrimas caírem.
— Eu não sou uma mercadoria. Não sou algo que vocês podem simplesmente trocar para salvar o que quer que seja.
— Liam... — Ela tenta segurar minha mão, mas eu a retiro.
— Por favor, mãe. — Minha voz agora está implorando, quase um sussurro desesperado. — Fale com o papai. Convença ele. Diga que não pode me mandar para lá, que não pode me dar para um homem como Dante.
Ela abaixa o olhar, e naquele momento, eu sei que não há esperança.
— É tarde demais, meu filho.
As palavras dela são suaves, mas pesadas como correntes.
— O que você não entende agora, um dia entenderá. Às vezes, precisamos fazer sacrifícios para o bem maior.
Eu rio, mas o som é amargo, vazio.
— Sacrifício... claro. Desde quando sacrificar a liberdade de alguém é o bem maior?
Ela não responde. Apenas se vira, pegando um pequeno prendedor de gravata na penteadeira e ajustando-o em mim. Suas mãos estão firmes, mas seus olhos... talvez haja um lampejo de tristeza, ou arrependimento.
— Você está pronto — diz ela, sem emoção.
Eu a encaro, sentindo uma mistura de raiva e dor que ameaça me consumir.
— Nunca estarei pronto para isso.
Ela não diz mais nada, apenas se afasta, saindo do quarto. Quando a porta se fecha, o silêncio que fica para trás é ensurdecedor.
Volto-me para o espelho, encarando o garoto que reflete ali. O garoto que está prestes a perder tudo.
E então prometo a mim mesmo: Se eles querem me prender, eu vou encontrar uma forma de me libertar.
O som do órgão preenche a igreja, uma melodia grandiosa e sufocante que ecoa como um lembrete do destino que me espera. Cada passo que dou no corredor central parece pesar mais do que o anterior, como se o tapete vermelho sob meus pés estivesse me puxando para baixo.
Meu pai está ao meu lado, a mão firme no meu braço, guiando-me como se eu fosse um sacrifício. Sua expressão é séria, impenetrável, como sempre. Ele não olha para mim, nem diz nada, mas a pressão de sua presença é esmagadora.
Levanto os olhos, forçando-me a encarar o altar. E lá está ele.
Dante.
Ele está parado no centro, como uma estátua de mármore esculpida à perfeição, usando um terno preto impecável que parece uma extensão de sua aura dominante. Seus olhos estão fixos em mim, e o olhar que ele lança é tão intenso que sinto um calafrio percorrer minha espinha.
Seus ombros largos e postura rígida exalam poder, controle, e algo mais sombrio — possessividade. Ele não sorri, mas há algo em sua expressão que é ainda pior: a certeza absoluta de que eu sou dele. Como se isso fosse uma verdade imutável, um fato do universo.
As pessoas ao redor observam em silêncio, com uma mistura de admiração e cautela. Todos sabem quem ele é, o peso que o nome De Luca carrega. E todos sabem quem sou eu, o ômega que foi "escolhido".
Cada passo que dou parece me aproximar de uma prisão invisível, uma cela que ele construiu cuidadosamente para mim.
Quando finalmente chego ao altar, meu pai solta meu braço e dá um leve aceno para Dante, como se estivesse passando uma mercadoria para seu novo dono.
Eu olho para Dante, tentando manter minha postura, tentando parecer mais forte do que me sinto.
Ele estende a mão, e por um momento, tudo dentro de mim grita para correr. Mas não há para onde ir. Não com ele ali.
Relutante, coloco minha mão na dele. Sua pele é quente, sua força evidente mesmo no toque mais leve.
— Você está lindo — ele murmura, sua voz baixa o suficiente para que apenas eu ouça.
É um elogio? Uma provocação? Não importa. Não respondo, mantendo meu olhar fixo em algum ponto além do altar.
Dante se inclina levemente, aproximando sua boca do meu ouvido.
— A partir de hoje, você será meu, Liam. De todas as formas possíveis.
Sua voz é um sussurro, mas carrega uma promessa que faz meu coração acelerar — não de excitação, mas de medo.
O padre começa a cerimônia, suas palavras ecoando pelo salão, mas tudo parece distante, abafado. A única coisa que sinto é a mão de Dante segurando a minha, firme, inescapável.
O peso de seu olhar permanece sobre mim durante todo o tempo, como se ele estivesse gravando esse momento em sua memória, garantindo que eu nunca pudesse escapar dele.
E naquele altar, enquanto o mundo ao meu redor celebra uma união que eu nunca quis, a única coisa que ecoa na minha mente é a promessa que fiz a mim mesmo: Eu preciso encontrar uma saída.
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Comments
Clesiane Paulino
eu espero ter uma explicação para os pais dele, tá fazendo isso 😥😥😥
2025-01-30
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