Eu estava de braços cruzados, o corpo tenso, a mente um turbilhão. Damien estava ali, à minha frente, com aquele sorriso que, por mais que tentasse ignorar, me deixava inquieta. Ele parecia tão tranquilo, tão à vontade, como se nada tivesse mudado, como se não fosse o mesmo homem que eu quase matei com minhas próprias mãos.
— Está pronta para ouvir o que eu tenho a dizer? — Sua voz soou suave, mas carregada de uma ironia que eu não suportava.
Eu soltei um suspiro cansado, irritada com a situação. Havia tantas coisas em minha mente, tantas dúvidas, mas naquele momento, minha paciência estava se esgotando.
— Vai logo, Damien. Estou ouvindo. — Eu disse, meu tom ríspido, a raiva se misturando com a confusão.
Ele inclinou a cabeça, observando-me com um sorriso provocador. Não se importava com minha resistência. Ao contrário, parecia se divertir. E isso me irritava ainda mais.
— Será que podemos falar como pessoas polidas? — Ele disse, fazendo um gesto com as mãos para as amarras que eu mesma havia colocado nele, como se aquilo fosse algum tipo de piada. Como se aquilo fosse algo trivial.
Eu grunhi, tentando controlar o impulso de arrancar os fios de tensão que me prendiam. Não queria admitir, mas tinha que dar o braço a torcer. Talvez fosse hora de escutar, mesmo que isso me deixasse ainda mais irritada.
Antes que eu pudesse responder, Ronan, que estava ao meu lado, cortou as cordas com um movimento preciso. Ele parecia tão calmo, mas havia algo em seus olhos que não conseguia esconder, uma mistura de insegurança e dúvida. O que ele pensava disso tudo? O que ele achava de mim agora, depois de tudo o que eu havia revelado sobre Damien?
— Muito obrigado, Ronan — Damien disse, um sorriso simpático, quase como se ele estivesse realmente agradecendo, mas algo no tom de sua voz fazia com que eu quisesse socá-lo no rosto.
Ronan apenas assentiu, um gesto curto, e me lançou um olhar carregado de significado. Algo entre ele e eu estava se quebrando, ou talvez já tivesse se quebrado. Mas agora não era o momento para isso. Eu precisava de respostas, e Damien estava disposto a me dar.
Damien puxou uma cadeira de madeira e a arrastou para perto de mim, sentando-se com um movimento lento e deliberado. Seus olhos não se afastaram de mim por um segundo, e eu senti a pressão daquele olhar, como se ele estivesse tentando me desarmar. Quando ele colocou a mão sobre a minha, eu quase senti um choque de energia. Não era só ele, mas algo dentro de mim também parecia reagir. Meu lobo, a besta que sempre estava alerta, rosnava, mas era um rosnado fraco, distante.
Eu respirei fundo, tentando manter o controle.
Com um movimento rápido, afastei a mão dele com um tapa. O som ecoou pelo silêncio da sala.
— Mantenha suas mãos sujas longe de mim. — Minha voz estava carregada de desprezo, e eu senti uma satisfação mórbida quando vi o semblante dele vacilar por um momento. Mas logo ele sorriu, como se aquilo fosse uma brincadeira.
— Tão impetuosa. Mas você não pode evitar, não é, Kaela? — Ele disse, e a frieza na voz dele era impossível de ignorar. — Não importa o que você faça, o laço entre nós está feito. Você sabe disso. Não há como voltar atrás.
Eu balancei a cabeça, sentindo a raiva crescer dentro de mim, mas também um pesar que eu não sabia como controlar.
— Não. Não vou me entregar a isso. — Eu quase gritei, mas me segurei. Não queria mostrar mais fraqueza. Não para ele.
Ronan, sentado em silêncio ao meu lado, parecia uma rocha, mas seus olhos não conseguiam esconder a dor. Ele não dizia nada, mas eu sabia o que ele pensava. Ele tinha esperanças de que as coisas se resolvessem de alguma forma, mas o que eu não sabia era se aquilo que eu sentia por Damien era apenas a influência do laço, ou se havia algo mais. Algo que eu não queria admitir.
Damien me observava como um caçador que aprecia sua presa antes de dar o golpe final.
— Eu não vou pedir para você gostar de mim, Kaela — ele disse, sua voz quase suave demais. — Só vou garantir que você não tenha mais escolha. Você vai entender que, no fim, é inevitável.
Eu o encarei, os dentes cerrados, a garganta apertada com a raiva. Mas, em algum lugar profundo dentro de mim, uma parte de mim sabia que ele estava certo. O laço estava feito, e nada, ninguém, parecia capaz de mudar isso.
E, por mais que eu odiasse admitir, uma parte de mim, uma parte muito pequena e muito escondida, temia que ele tivesse razão.
Eu o encarei com olhos frios, tentando esconder o turbilhão que se passava dentro de mim. A frustração, o medo, e, sim, algo mais, algo que eu não queria admitir, um traço de curiosidade. Mas eu não deixaria que ele visse isso. Não agora, não quando ele parecia tão seguro de si, tão certo de sua própria força.
— Então diga — eu disse, com desprezo, a minha voz cortante como uma lâmina. Eu sabia que ele estava tentando me manipular de alguma forma, mas não ia deixar que ele conseguisse. Eu era mais forte que isso.
Damien se acomodou na cadeira, com um sorriso satisfeito. Ele sabia que estava me provocando, mas eu não ia dar o gostinho de que ele havia me derrubado. Ele respirou fundo, como se fosse contar uma história antiga, algo que ele já tivesse ensaiado várias vezes, e começou a falar com uma calma que fazia minhas veias se revirarem de impaciência.
— Tudo começa com o lobo, Kaela — ele disse, a voz suave, mas firme. Ele não parecia incomodado pela raiva que eu sentia. Na verdade, ele parecia mais confortável do que nunca, como se estivesse jogando um jogo onde ele já sabia as regras. — O lobo não é só uma criatura, uma besta. O lobo é mais. Ele é o guardião do equilíbrio, da ordem. Mas, com o passar dos séculos, nós, Lycans, perdemos isso. Perdemos a nossa conexão com o que realmente importa.
Ele se inclinou ligeiramente para frente, seus olhos fixos nos meus, e eu não pude evitar um arrepio na espinha.
— O Lycan King, o atual rei, ele não entende isso. Ele busca poder, controle, e tem usado a linhagem da Deusa da Lua para seus próprios desejos egoístas. Ele quer o lobo para domá-lo e controlá-lo — Damien continuou, sua voz quase um sussurro, mas carregada de uma intensidade que fazia cada palavra parecer mais pesada. — Mas o que ele não entende, o que ninguém entende, é que o lobo não pode ser possuído. O lobo não pode ser manipulado. Ele é livre. E, por isso, o rei falhou. Ele falhou porque ele acha que pode controlar o lobo. Mas o lobo não é algo a ser controlado. Ele é algo a ser entendido.
Eu estava em silêncio, absorvendo suas palavras, tentando fazer sentido daquilo tudo. O que ele estava sugerindo? O que ele queria de mim?
Damien deu uma pequena pausa, como se estivesse me permitindo digerir suas palavras, e então, de forma lenta e deliberada, ele foi direto ao ponto.
— O filhote, Kaela — ele disse, cada palavra soando como uma pedra jogada no silêncio que se formara entre nós. — Ele é a chave para tudo. O sangue dele contém a verdadeira linhagem da Deusa da Lua, não é só uma marca de poder. Ele é a linhagem ancestral, a conexão direta com o que o Lycan King perdeu. Ele é o último elo de uma era que o rei ignorou, e que agora, por sua ambição, está prestes a destruir.
Eu queria gritar, queria berrar para ele que eu não acreditava naquelas palavras, que ele estava mentindo. Mas a verdade... a verdade estava ali, diante de mim. Eu não podia negar. O filhote... ele era mais do que qualquer um de nós imaginava.
Damien observou a luta interna em meu rosto, e seu sorriso se alargou, mas ele não parecia satisfeito, apenas ciente da batalha silenciosa que acontecia dentro de mim.
— Eu não sou seu inimigo, Kaela — ele disse, de repente, sua voz mais grave, mais intensa. — O rei, sim, ele é. Ele e suas intenções. Eu estou aqui para destruir o que ele quer criar. Ele quer consumir, controlar o lobo. Eu quero derrubá-lo, Kaela. E você... você tem a chave para isso.
Eu não consegui controlar a expressão de incredulidade que tomou conta do meu rosto. Ele estava me oferecendo algo que parecia impossível.
— Você quer... o que, exatamente? — Eu perguntei, minha voz abafada pela confusão que estava se formando dentro de mim. A ideia de trabalhar ao lado dele, de fazer o que ele sugeria... parecia surreal. Como eu poderia confiar em alguém como ele, alguém que era parte daquilo que eu odiava?
Damien se recostou na cadeira, como se soubesse que eu estava indo de encontro a algo que me aterrorizava. Ele não se apressou, não tentou apressar minhas respostas. Ele sabia que eu estava tentando entender o que ele queria de mim.
— Eu quero que você seja minha aliada. Eu quero que você ajude a derrubar o Lycan King. Você é indomável como o vento, teimosa o suficiente para não se curvar a um tirano. E isso é tudo que eu preciso. Que o reino precisa.
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Atualizado até capítulo 52
Comments
~Elle~
Ronan" o q estou fazendo no meio dessa dr". "valha minha nossa senhoraa".
2025-02-21
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