POV de Kaela – Meses Depois
A cidade estava viva. A mistura de sons — o burburinho das pessoas, o tilintar das moedas, os gritos dos vendedores ambulantes — era como uma música que se espalhava pelas ruas. Eu e Ronan nos mesclávamos a essa bagunça urbana com a mesma facilidade que uma sombra se esconde na noite. Nada muito chamativo, sem despertar suspeitas. A grande cidade era o lugar perfeito para se perder. E, por mais que eu estivesse sempre atenta, esse lugar, em sua imensidão, me dava uma sensação de liberdade que eu nunca soubera que desejava.
Nos meses que se passaram, a vida seguiu em um ritmo diferente. A pequena casa que alugamos — uma construção simples de pedra com janelas pequenas e um telhado gasto — tornou-se nosso refúgio. Um lugar onde eu, por um breve momento, poderia deixar de ser caçada.
Ronan e eu trabalhávamos juntos, embora de maneiras diferentes. Ele se ocupava principalmente com a venda das poções, suas habilidades com o caldeirão impressionando até os mais céticos da cidade. Poções de cura, revitalizantes, calmantes… todas feitas com precisão. Era um trabalho de paciência, que ele fazia com calma e destreza. Eu, por outro lado, buscava os ingredientes. Às vezes, ia até o mercado ou às lojas de ervas, mas frequentemente me aventurava pelas florestas e campos ao redor da cidade, coletando plantas, raízes, e até ingredientes mais raros que não se encontravam facilmente entre as bancas.
Sempre havia algo na natureza que me chamava, algo que me fazia sentir viva de novo. Eu estava em meu elemento quando estava ao ar livre, longe dos muros da cidade, longe da civilização. Mas quando voltava, a casa sempre parecia mais confortável, mais segura. Ronan e eu tínhamos nossos ritmos, nossas rotinas. Ele preparava as poções e eu ajudava no processo, misturando ingredientes, esquentando líquidos, testando as cores das infusões. Tudo em silêncio, mas um silêncio cheio de pequenas interações. Um olhar furtivo aqui, um sorriso curto ali.
Hoje não foi diferente. Eu voltei da floresta com as mãos sujas e os bolsos cheios de raízes e folhas. Entrei pela porta da frente e encontrei Ronan, como sempre, inclinado sobre o caldeirão. O vapor da mistura subia, espesso, e o cheiro das ervas penetrava o ar, um perfume terroso e reconfortante. Ele olhou para mim quando entrei, e uma leve brisa de felicidade percorreu meu corpo. Eu podia sentir sua presença de uma maneira que ainda não sabia como definir.
— Conseguiu o que precisava? — perguntou ele, sem olhar para mim. Mas a forma como ele se virou para ajustar a chama me fez perceber o cuidado em seus movimentos. Ele nunca se apressava.
— Sim. Isso deve ser o suficiente para a nova remessa. — Passei as ervas que coletei sobre a mesa, e ele começou a mexer nos frascos com as mãos ágeis, preparando tudo sem pressa. Eu observava enquanto ele trabalhava, os músculos de seu corpo se movendo de forma natural, como se ele já tivesse feito isso mil vezes. E talvez tivesse.
Eu pegava o resto dos ingredientes e jogava-os no caldeirão, mas minha atenção se dispersava, vez ou outra, para os pequenos gestos dele. Como ele inclinava a cabeça para observar a cor das poções. Como, em silêncio, me passava as ferramentas sem sequer olhar, como se já soubesse onde eu precisava delas. Eu não precisava de palavras para entender os sinais, e, aparentemente, ele também não. A rotina estava tão entrelaçada entre nós que, por vezes, parecia que falávamos mais com os gestos do que com as palavras.
— Isso vai funcionar — disse Ronan, em voz baixa, enquanto mexia o líquido verde-escuro no caldeirão. Ele sempre tinha essa confiança calma, essa certeza tranquila que me fazia confiar nele, sem questionar.
— Eu sei. — O tom da minha voz saiu mais suave do que eu pretendia. Eu quase podia jurar que ele percebeu, mas ele não disse nada. Continuou trabalhando.
O filhote, que já crescia e se desenvolvia com uma energia incansável, estava dormindo tranquilamente em seu pequeno cobertor perto da janela. O olhar de Ronan se deteve por um momento nele. Eu sabia o quanto ele se importava com aquela pequena criatura, assim como eu. Embora ele não falasse muito sobre isso, havia algo no modo como ele tocava o filhote, como se o pequeno lobo fosse algo precioso demais para se deixar cair. Algo que parecia estar fora de nosso alcance, mas que, ao mesmo tempo, conectava-nos de alguma maneira indescritível.
Enquanto ele mexia no caldeirão, sentia meu olhar vagar para ele, observando como ele trabalhava com tanta dedicação, mas sem perceber. Algo me dizia que ele estava fazendo mais do que apenas preparar poções para nos manter vivos. Havia um cuidado ali, uma atenção que ultrapassava o simples ato de fazer dinheiro. Eu podia ver isso nas maneiras que seus dedos tocavam as folhas, como se ele quisesse extrair algo mais do que apenas os compostos delas. Algo que parecia… pessoal.
— É estranho, não? — Eu disse, sem pensar muito. — Estar aqui, fazendo isso. Como se estivéssemos… apenas esperando.
Eu estava pensando no que vinha a seguir. Como o futuro parecia uma sombra constante que se aproximava, sempre prestes a nos alcançar.
Ele olhou para mim, finalmente, e por um momento, nossos olhos se encontraram. Algo nas profundezas de seu olhar me fez prender a respiração. O silêncio entre nós parecia mais pesado agora, carregado de algo que não se podia dizer.
— Estamos vivos, Kaela — ele disse suavemente, a voz mais grave agora. — É o que importa.
Eu engoli em seco, sentindo o peso das palavras dele. A presença dele estava sempre tão sólida, tão constante. Eu, por outro lado, me sentia como se estivesse flutuando entre o que sabia ser seguro e o que sabia que nos aguardava.
Mas uma parte de mim, uma parte escondida e bem lá no fundo, estava começando a gostar mais do que deveria. De Ronan. E de nós dois, juntos.
Mas eu não disse nada. Ele não disse nada. Nós dois estávamos em silêncio, imersos no trabalho, como sempre fizemos, mas algo estava mudando, e nós sabíamos disso.
Talvez não fosse só a luta pela sobrevivência que nos mantinha juntos. Talvez fosse algo mais profundo. Mas isso… bem, isso eu não podia admitir. Reconhecer sentimentos não era o meu forte, e nunca será.
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Atualizado até capítulo 52
Comments
Lucilene Palheta
poxa não quero saber se ele for um traidor , mas é o que parece quando o tal do general fala , será? Kaela vai ficar muito triste e eu TB kkkk
2025-03-31
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