CAPÍTULO 12

O sol já estava começando a se esconder atrás das montanhas distantes quando me encontrei de volta à pequena casa que dividíamos. O cheiro da terra e do mato ainda estava em mim, carregado da tarde que passei explorando a cidade e suas ruas movimentadas. A tensão do festival ainda se sentia no ar, mas agora o foco era outro. Era hora de agir.

Ronan estava sentado na mesa, os dedos inquietos passando por alguns frascos de poções que preparávamos para a noite. Ele parecia imerso, mas a verdade era que sua mente estava longe, se debatendo com o que havíamos decidido. Ele parecia mais distante do que o habitual, e isso me incomodava.

— Você está se preocupando demais — eu disse, tentando desarmar um pouco a tensão crescente entre nós. Ele levantou os olhos, mas não respondeu de imediato. Ronan nunca foi de falar muito quando estava inseguro, e eu o conhecia o suficiente para saber que algo pesava em seus pensamentos.

Me aproximei da mesa e comecei a amarrar a corda que usávamos para amarrar os frascos de poções. O som do cordão se puxando era suave, mas o peso da decisão que tomamos pairava sobre nós, mais forte que qualquer outra coisa.

— Kaela... — ele começou, a voz baixinha, quase hesitante. Ele não queria duvidar, mas estava com medo. Medo do que poderia acontecer.

— Ronan, não podemos continuar fugindo. Não podemos viver com medo de ser caçados, ou de sermos encontrados. O Astromante disse o que precisava ser dito. Não resta outra opção senão acreditar — falei, com firmeza, tentando transmitir toda a certeza que não só eu, mas ele também precisava ouvir. O Astromante, com aquelas palavras enigmáticas, havia nos mostrado um caminho. Não podíamos voltar atrás.

Havia algo em minha voz, algo que estava diferente. Eu sabia que estávamos indo para um caminho sem volta, mas ao mesmo tempo, era o que eu queria. Era como se minha pele tivesse sido marcada por um destino que eu não poderia evitar. Eu não sabia se era a Deusa da Lua ou o filhote em minhas mãos que me guiavam, mas a verdade é que eu já estava em um ponto em que não havia retorno.

Ronan balançou a cabeça, os cabelos escuros caindo sobre seus olhos. Era uma visão curiosa. Como se sua cabeça estivesse em conflito com o que seu coração queria. Ele queria me seguir, queria confiar, mas o medo de perder tudo o impedia. Ele estava vulnerável, algo que raramente deixava transparecer.

— Eu sei que você tem razão — ele finalmente disse, a voz rouca. Havia um peso de relutância nas palavras dele, como se fosse difícil para ele aceitar que não havia mais como fugir da verdade.

Eu me agachei ao seu lado, sentindo o calor do seu corpo próximo ao meu. Aquilo, eu sabia, era algo que ele fazia com um certo propósito, como se procurasse me proteger, como sempre fazia. Mas eu também sentia que ele estava se entregando a algo que não conseguia controlar. Não era só o plano que estava se formando entre nós, mas algo mais profundo. Algo que eu não sabia como definir.

— Você pode ter medo, mas eu não vou permitir que o medo nos domine. É melhor caçar do que ser caçado, certo? — Eu sorri, mais para mim mesma do que para ele, tentando aliviar o peso que parecia crescer entre nós.

Ele olhou para mim, um brilho estranho nos olhos, algo que eu não conseguia entender totalmente. Ele queria dizer algo, mas se calou. Era sempre assim entre nós. Falávamos com os gestos, com o olhar. Havia uma conexão que ia além das palavras. Mas também havia uma resistência. Uma barreira invisível que ambos erguíamos, mesmo quando nossas almas pareciam quase se tocar.

Eu terminei de amarrar a corda e comecei a guardar as poções. Era o último passo antes de partirmos. Meu corpo estava em movimento, mas meus pensamentos estavam focados no momento seguinte, no que viria. O filhote precisava de proteção, e Damien não iria descansar até tê-lo. Mas ele não entendia a urgência, nem o que estava em jogo.

Ronan ficou em silêncio, como se me observasse, atento a cada movimento meu. A tensão aumentava, e eu sabia que ele sentia o mesmo que eu. Algo em nós estava se alterando, mudando de uma forma que não podia mais ser ignorada.

Quando finalmente me virei para olhar para ele, percebi que seu olhar estava mais suave, mas ainda havia aquela sombra de preocupação. O rosto dele estava iluminado apenas pela luz suave da lâmpada na mesa, mas seus olhos brilhavam de uma maneira que me fez perceber que ele estava começando a compreender, ou talvez aceitando, o que estava acontecendo entre nós.

— Eu não gosto disso, Kaela. Eu... — Ele parou, como se se esforçasse para encontrar as palavras certas. Eu não precisava que ele dissesse mais nada. Eu sentia a luta interna dele em cada fibra do corpo dele. Ele queria lutar, mas também queria me proteger.

— Não precisa gostar. Só precisa confiar. — Eu disse, e pela primeira vez, minha voz falhou um pouco. Talvez fosse o cansaço. Talvez fosse o peso do que ainda estava por vir. Mas, mais do que tudo, eu queria que ele soubesse que não estava sozinha nesse caminho. Que não íamos fazer isso sozinhos, mas juntos.

Ronan se aproximou mais, e por um momento, o silêncio nos envolveu. Ele me observava como se tentasse encontrar algo que ainda não sabia como decifrar. Seus dedos estavam perto dos meus, mas ainda havia uma distância. Uma linha tênue entre o que poderíamos ser e o que estávamos nos tornando.

Eu finalmente respirei fundo e me afastei, pegando as últimas coisas. Não dava para esperar mais. O destino estava chamando e, seja qual fosse a nossa jornada, ela estava prestes a começar.

— Vamos acabar com isso, Ronan. — Eu disse, mais para mim mesma do que para ele.

Ele assentiu. E, pela primeira vez, me dei conta de que ele também não estava mais recuando. Ele estava pronto.

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