Alguns Dias Depois...
– Raquel, onde está a menina? – pergunto enquanto me acomodo à mesa para o café da manhã.
– Creio que ela está no quarto, senhor.
– Ela tem almoçado aqui embaixo ou continua se mantendo isolada como nos primeiros dias?
– Ela não sai do quarto, Sr. Alessandro – responde Raquel, e eu aperto os dentes para não deixar transparecer o quanto as informações sobre a garota me afetam mais do que deveria.
É impossível não recordar as emoções que ela despertou em mim naquele dia após o jantar, logo depois de abrir seu coração e compartilhar todas as atrocidades pelas quais passou na infância. Tive que domar a fúria dentro de mim para não sair imediatamente e acabar com a vida dos infelizes que fizeram dela um ser tão sofrido.
Sim, acreditei nas palavras de Vittoria. Vi a verdade em seu olhar e senti sua dor por tudo que viveu. Ela é uma verdadeira sobrevivente. Já havia decidido que não faria mal à garota, mas ainda não sabia o que fazer com ela.
A razão me diz para afastá-la de mim, mas, por outro lado, sinto a necessidade de mantê-la por perto, e isso tem me feito passar muito tempo refletindo sobre meus próximos passos.
Como mencionei a Mariano há alguns dias, assim que ela sair para a rua, seja aqui ou nos Estados Unidos, correrá o risco de ser morta pelo vagabundo que mandou matar minha filha. E, por alguma razão que ainda não consigo compreender, eu não quero que isso aconteça.
Certamente posso designar alguns homens para garantir a proteção dela, mas algo dentro de mim me faz acreditar que ela só estará verdadeiramente segura ao meu lado e sob minha vigilância.
Talvez esse instinto protetor tenha surgido por ela ter sido uma pessoa significativa para Mia. Ou quem sabe pelo que ela despertou em você naquela noite, meu cérebro traiçoeiro provoca e escarnece do meu autocontrole ao relembrar aquele jantar.
– Vá chamá-la, Raquel. Diga que estou esperando por ela aqui para o café da manhã – ordeno, e minha governanta acena afirmativamente antes de se dirigir à escada que leva aos quartos no andar de cima.
Apoio os cotovelos na mesa e entrelaço as mãos, descansando a cabeça sobre elas, enquanto a dor que me acompanha nos últimos dias aumenta consideravelmente.
Depois de tanto tempo enfrentando a solidão, eu pensei que já teria me acostumado com a dor, mas perder Mia e perceber que nem mesmo à distância ela está presente é um golpe muito difícil de suportar.
Um pouco depois, vejo Raquel descendo as escadas acompanhada por Vittoria, que anda devagar por causa da bota ortopédica que ainda vai precisar usar por um tempo. Percebo que ela parece ainda mais magra do que antes. Seus olhos estão mais fundos em relação ao rosto. O escurecimento ao redor deles mostra que ela não tem conseguido dormir há tempos.
– Bom dia, Sr. Alessandro – diz ela ao parar perto da mesa.
– Sente-se, Vittoria. Venha tomar café comigo – Tento ser menos autoritário, mesmo sabendo que ela entende que é uma ordem. Com um gesto, indico a cadeira vazia e logo a vejo assentir com a cabeça, fazendo exatamente o que pedi.
– Vou pegar uma xícara para você – Raquel diz, indo em direção à cozinha e nos deixando sozinhos.
Vittoria não pronuncia uma palavra para mim, então aproveito para observar sua postura por um instante. Ela mantém a cabeça baixa o tempo todo, com as mãos sobre o colo. O leve movimento dos braços revela que está torcendo um dedo no outro.
– Alessandro, eu preciso falar com o senhor. Mia... – Ela inicia, mas a interrompo.
– Calma, Vittoria. Eu realmente te convidei para conversar, mas primeiro você precisa se alimentar.
Raquel retorna e coloca a xícara na frente dela.
– É verdade, senhor. A menina não tem se alimentado corretamente há dias. – comenta ela, apontando a situação da garota, mas logo parece se arrepender e me dirige o olhar – Desculpe, senhor. Eu não deveria ter falado isso. Não era meu lugar.
– Você deve me informar sobre tudo o que ocorre sob este teto, Raquel, independentemente do que seja. – digo à mulher sem tirar os olhos de Vittoria.
– Eu já disse que não precisa se preocupar comigo, senhora Raquel. Estou bem. – Os olhos dela rapidamente se enchem de lágrimas. A funcionária a observa com um carinho que é difícil esconder.
– Saia, Raquel. – ordeno de forma rápida.
– Com licença, senhor.
– Vittoria – chamo seu nome, e ela levanta o olhar para mim – Eu compreendo a dor que você está sentindo – Fico impressionado com a tristeza visível em seus olhos claros e percebo que ela está se permitindo mergulhar no luto – Você é jovem. Não pode se deixar dominar por isso. É necessário lutar contra essa dor que sente. Tenho certeza de que encontrará seu caminho e conseguirá seguir em frente. – digo como um conselho.
O que está acontecendo comigo? Desde quando me preocupo tanto com alguém a ponto de desperdiçar minutos preciosos dando conselhos que poderiam ser encontrados facilmente em livros de autoajuda? Que droga!
A menina está me exigindo mais do que qualquer pessoa conseguiu fazer em muito tempo.
– Eu sei que preciso superar, mas não tenho certeza se consigo, senhor – As lágrimas escorrem pelo seu rosto enquanto ela as limpa com suas pequenas mãos – Mia era tudo o que eu tinha. Ela era tudo de bom que restou na minha vida.
As suas palavras atuam como um choque que percorre minhas veias. Como ela consegue refletir tão bem os meus próprios sentimentos? Por fora, posso parecer forte e resiliente, mas faço isso porque preciso me manter inabalável. Lidar com emoções não é algo que eu conheça bem, mas a verdade é que, por dentro, cada parte de mim está em ruínas.
A principal diferença entre mim e Vittoria é que eu carrego a idade, a experiência e as cicatrizes de inúmeras batalhas e perdas. Além disso, minha carga de trabalho também ajuda; mesmo após tudo o que aconteceu com Mia, consegui manter a mente ocupada, embora meu coração continuasse vazio.
Eu pensava que a dor pela perda dos meus pais era insuportável, mas não tinha ideia do que significava perder um filho. Como pode um pai se adaptar à ausência de uma criança? Como é possível dormir sabendo que seu filho nunca mais vai despertar? Que não haverá novas lembranças a serem criadas, nem um futuro para ser compartilhado?
Hoje, compreendo que a maior dor que alguém pode sentir é a saudade deixada por um filho que se foi. Eu já deveria ter percebido o quão frágil é a vida. Quantas vidas eu já tirei com minhas próprias mãos? Ser uma fera nas ruas não impede que eu seja humano quando estou sozinho em meu quarto.
O amor que nutro por Mia e as poucas boas recordações que guardo estarão sempre comigo, me lembrando de quão especial ela continua sendo. É essencial vivenciar o luto, mas também é fundamental saber levantar a cabeça e enfrentá-lo como um verdadeiro guerreiro. Onde quer que eu esteja, sei que Mia estará cuidando de mim.
Agora, ao ver a garota emocionalmente arrasada diante de mim, tenho plena convicção de que ela também cuidará de Vittoria, assim como eu, que acabei de decidir que não a deixarei ir. Eu a defenderei como deveria ter feito com Mia. Vou mantê-la ao meu lado até que eu possa me vingar do infeliz que levou de mim o que eu mais valorizava na vida.
Espero que Vittoria compreenda que essa saudade perdurará eternamente, mas com o tempo, a dor que parece nos dilacerar por dentro irá se amenizar. E mesmo quando seu coração apertar com as lembranças, as memórias guardadas serão o impulso necessário para continuar.
Durante o café da manhã, ficamos em completo silêncio. Cada um preso em seus próprios pensamentos, talvez encarcerados na própria dor e saudade. Notei que Vittoria se serviu apenas de uma xícara de café com leite e o pedaço de bolo em seu prato permaneceu quase intocado.
Raquel tinha razão em me avisar. Vittoria parece estar se apagando diante dos meus olhos e, pela primeira vez, me sinto perdido sobre o que fazer. Mia sempre foi uma jovem sensata e responsável. Deve haver um motivo relevante para ela ter trazido Vittoria para viver em sua casa, e eu preciso descobrir qual é.
A princípio, pensei em dar um tempo para que ela se recuperasse e depois pedir que procurasse outro lugar para morar. Não importava se seria aqui ou nos Estados Unidos; eu compraria a casa que ela escolhesse. Afinal, como eu poderia suportar a presença constante da sombra de Mia na casa?
Queria manter a garota o mais longe de mim possível. Mas agora que decidi mantê-la perto, não sei como lidar com a situação entre nós.
– Podemos ir até o escritório agora? - pergunto ao perceber que Vittoria realmente não vai comer nada.
– Sim, claro, responde com uma voz fraca enquanto se levanta.
– Eu já disse para não me chamar de senhor.
– Desculpe – pede ela enquanto a ouço caminhar a passos lentos logo atrás de mim.
A dor do luto pesa sobre a garota como uma imensa pedra de solidão. Vittoria parece ser apenas um amontoado de carne: oca, vazia e repleta de saudade.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 52
Comments
Luceli Coffani
Sei bem como é. Perdi minha filha com 29 anos há 7 anos. Não existe dor maior 😢
2024-11-24
1
Elenita Treptow
Me emociona ler o quanto a perda de filho é dolorosa e para sempre
2024-11-24
1
Solange Coutinho
A dor da perda é inesquecível
2025-03-14
1