Dias Atuais (Nova Iorque – EUA)
– Meu Deus, como você consegue ser tão velha mesmo sendo tão jovem? – pergunta Mia enquanto se joga na minha cama.
Quando aceitei o ‘trabalho’ que Mia me ofereceu há cerca de um ano, não imaginei que minha vida pudesse mudar tanto. A presença dela trouxe um alívio muito bem-vindo para a minha rotina agitada.
É claro que já tentei várias vezes procurar outro emprego ou um lugar para ficar durante esse tempo, mas sempre que pensava em sair da casa dela, Mia encontrava uma maneira de me impedir. Eu até tenho um quarto em seu apartamento, que não fica em nenhuma área destinada a funcionários, pois está localizado bem ao lado do dela. Mia me trata como se eu fosse sua irmã.
No começo, pensei que esse trabalho fosse algo temporário. Embora eu realmente tenha me conectado com ela, imaginei que Mia era apenas uma dessas garotas ricas e mimadas, e que assim que se cansasse de mim, me deixaria de lado. Contudo, isso não aconteceu. Durante este ano, senti como se estivéssemos destinadas a nos encontrar, como almas gêmeas que vagam à procura uma da outra até finalmente se reunirem.
É claro que no início fiquei envergonhada. Para ser honesta, muitas vezes ainda fico assim, por isso tento ajudar em outras tarefas no apartamento, mesmo que Mia sempre tente me impedir disso.
Antonietta, a senhora que cuida dela desde pequena, não estava muito contente em me receber no apartamento onde elas moram no começo. Mas com o passar dos meses e à medida que fui sendo mais conhecida por ela, percebi que sua postura foi mudando gradualmente. Hoje em dia, Antonietta me trata como se eu fosse sua filha.
Mia e Antonietta se tornaram as figuras mais significativas da minha vida neste último ano. Reconheço que deveria me sentir mal por estar aqui há tanto tempo e, pior ainda, por receber uma remuneração para isso.
Isso acontece porque, cumprindo sua promessa, Mia me paga um ótimo salário mensalmente para fazer-lhe companhia, mesmo eu tendo afirmado várias vezes que não precisava disso. Um lugar para morar, segurança e comida já eram suficientes para mim.
Entendo também que já deveria ter tomado a decisão de sair, mas encontro nesta casa o carinho, o cuidado e o conforto emocional que nunca experimentei antes. Nem mesmo ao lado dos meus pais tive uma vivência assim. Essa sensação de pertencimento, unida ao amor que desenvolvi por ambas, sempre me faz hesitar em partir; assim, continuo ao lado delas.
Minha vida se assemelha à de uma ‘patricinha’ digna de um filme, pois Mia me proporcionou muito mais do que imaginei viver um dia. Inclusive, ela me levou com ela nas férias deste ano em Aspen, no Colorado.
Viajamos em um jatinho particular que seu pai enviou e ficamos trinta dias naquele lugar que, para mim, parecia um verdadeiro paraíso. Ao lado de Mia, sinto-me e ajo como uma garota comum, sem a necessidade de lutar pela sobrevivência.
Com o tempo, percebi o quão solitária Mia realmente é. Além de Antonietta, ela não tem mais ninguém ao seu redor; mesmo com mais de sete funcionários no apartamento, incluindo eu, ninguém consegue preencher a ausência da pessoa que ela mais deseja ter por perto: seu pai. Pelo que observei enquanto moro com elas, ele parece estar sempre focado no trabalho.
Notando os momentos em que conversam por telefone, consigo perceber o carinho mútuo entre eles. Mia é uma pessoa reservada e sempre que recebe uma ligação do pai, corre para o quarto para atender, me deixando sem saber o que se passa. Das poucas conversas que consegui escutar entre os dois, ficou claro que o Sr. Alessandro realmente a ama, mas também revela como o trabalho o consome e lhe deixa pouco tempo para qualquer outra coisa. Nem mesmo para sua figlia; é assim que ele a chama. Apesar da distância entre eles, considero a relação dos dois muito bonita.
Não posso afirmar que Mia não faz por mim muito mais do que eu esperava. Além de me proporcionar um lugar para viver, ela ainda me paga um ótimo salário e garante que eu nunca fique sem nada. Hoje em dia, tenho mais roupas e sapatos do que conseguiria usar ao longo da vida.
Mesmo tentando recusar, pelo menos duas vezes por mês, quando a stylist de uma grife famosa visita sua casa, Mia acaba comprando coisas para mim também. Já tivemos várias discussões porque não gosto das roupas que ela escolhe, mas ela é extremamente persuasiva quando quer. É uma verdadeira pestinha irritante, mas é alguém que eu amo mais do que qualquer outra pessoa no mundo.
Às vezes, sinto que essa compulsão dela por comprar reflete a falta que sente do pai. A garota tem tudo o que deseja e muito mais; mal consigo imaginar quanto ele deve gastar mensalmente com seus cartões de crédito sem limite. De qualquer forma, parece claro pra mim que dinheiro não é um problema para eles. Sinto que realmente somos como irmãs. A diferença é que o vínculo entre nós não é sanguíneo, mas espiritual.
– Eu não sou velha, Mia, apenas não acho que devamos sair tão tarde da noite. Seu pai provavelmente não ficaria feliz se soubesse que você foi a uma boate. – Viro o corpo, ficando de frente para ela, esperando que ao mencionar seu pai, ela mude de ideia como costuma acontecer.
Mia não fala muito dele comigo. Percebo que esse é um tema que tanto ela quanto Antonietta preferem evitar discutir na minha presença, mas sei muito bem que só o fato de mencioná-lo sempre a faz reconsiderar suas atitudes.
Já imaginei mil e uma teorias sobre o Sr. Alessandro, mas admito que nenhuma delas parece ser verdadeira. A realidade é que ele continua sendo um grande enigma para mim. Não consigo compreender como ele pôde enviar a filha, ainda tão pequena, para morar sozinha com uma cuidadora em um país estrangeiro. Ao mesmo tempo, fico surpresa que essa decisão tenha se mostrado a mais adequada para essa situação.
– Tá bom, sua chata! – Ela atira um travesseiro na minha direção, e eu o pego no ar antes que acerte meu rosto. – Vamos pedir uma pizza e ficar em casa, então – diz Mia, revirando os olhos para mim – Se depender de você, da Antonietta e do meu pai, vou passar a eternidade presa nesse castelo – Ela parece um pouco irritada com minha recusa em sair, mas ainda assim demonstra compreensão.
–Oh, meu Deus, ela é uma princesinha aprisionada na torre pelas bruxas e pelo mago maligno! – Me jogo sobre ela na cama e começo a fazer cócegas em sua barriga. Mia ri alto enquanto tenta se livrar do meu ataque, mas dobra de rir quando aumento a pressão na cintura dela.
– Para, Vittoria! – Ela grita, esticando meu nome e quase sem fôlego. Mia não é muito boa em aguentar cócegas, e eu conheço isso – Vou fazer xixi! Sua cama vai ficar fedida – Com essa ameaça, eu paro imediatamente, fazendo-a rir ainda mais – Ficou com medo, sua vaca?
– Deus me livre de dormir em cima de uma poça de xixi – Eu digo, fazendo o sinal da cruz com a mão, e ela sorri.
– Você não vai sair comigo hoje, né? – Mia pergunta novamente, fazendo aquela carinha de cachorro que caiu do caminhão da mudança.
– Hoje não, Mia. Fica para outra vez – Eu recuso, e ela faz um muxoxo com os lábios e beicinho, mas acena com a cabeça em concordância. Sabendo que perdeu mais uma vez a batalha para me convencer a sair, ela se levanta da minha cama e fica em pé.
– Certo, sua chata! Vou pedir uma pizza para a gente comer e depois vou tomar um banho. Já volto para te chamar – Assenti com a cabeça, e ela saiu do quarto, pisando forte e mostrando o descontentamento pela minha recusa.
Permaneço deitada por um tempo, pensando que nunca serei capaz de retribuir tudo o que Mia faz por mim. Mesmo se tivesse outra vida, não conseguiria expressar toda a minha gratidão, que vai além do aspecto material; é principalmente pelo amor, carinho e companhia que sempre tive desde que a conheci.
Decido também aproveitar para tomar banho, e quando Mia volta ao quarto vestindo uma camiseta larga e um short para me avisar que a pizza chegou, ela me lança um olhar acusador devido à minha negativa em ir à boate com ela.
Sento-me ao lado de Mia na mesa da sala de jantar e logo Antonietta aparece da cozinha carregando duas caixas de pizza. Ela se junta a nós, colocando as caixas de papelão sobre a mesa de vidro.
– Espero que vocês estejam com bastante fome, meninas, porque a Mia pediu pizza para um batalhão hoje – comenta Antonietta, sorrindo.
– Estamos sempre com fome de pizza, não é mesmo, Vittoria? – responde Mia, animada. Essa é a comida favorita dela.
– Sempre, Mia – eu sorrio de volta, pois depois de conhecê-la, também me tornei fã de todo tipo de massa. – Essa pizza parece maravilhosa, Antonietta.
– Parece mesmo! – Antonietta olha para Mia. – Você pediu no mesmo lugar de sempre, filha?
– Não, vi um anúncio dessa pizzaria em uma rede social e decidi experimentar – responde ela, enquanto pega uma fatia de pepperoni com a mão e a leva direto à boca, sem usar o prato.
– Muito gostosa mesmo – comento, ainda com a boca cheia.
– Tenham um pouco de educação, meninas – Antonietta nos admoesta. – Uma pega a pizza com a mão, a outra fala de boca cheia. – Ela revira os olhos para nós duas. – Parece que sou eu quem deveria educá-las!
Nós rimos muito com a bronca de Antonietta, mas isso é algo recorrente. Ela sempre nos vê como duas garotas travessas e desobedientes. Na verdade, Antonietta me trata como se eu fosse irmã de Mia, o que talvez me faça sentir que realmente pertenço a esse lugar. Gosto de estar com elas e aproveitarei cada momento ao lado das duas enquanto puder. No final das contas, eu e Mia somos apenas duas jovens se apoiando enquanto enfrentamos nossos próprios desafios.
Enquanto terminamos nossa pizza, o ambiente é leve e descontraído. Conversamos sobre assuntos simples, rindo e desfrutando da companhia uma da outra. Antonietta nos faz rir ao compartilhar histórias engraçadas sobre as travessuras que Mia fazia quando era criança.
– Não sei como não morri de medo com essa garota – diz Antonietta entre risos – Você não imagina as peripécias que essa menina aprontava quando era pequena.
– A responsabilidade é sua, Antonietta. Você me mimou demais! – responde Mia.
– Então, ela sempre foi uma princesa? – Pergunto para provocar Mia, sabendo que esse apelido não a agrada, mas lembrei do que ela comentou no quarto sobre se sentir aprisionada em um castelo.
– Isso mesmo, Vittoria. Uma princesa rebelde. – Mia responde, me surpreendendo e fazendo um sorriso brotar em meu rosto.
A noite avança rapidamente enquanto continuamos a comer, conversar e rir juntas. Este é apenas um dos muitos momentos valiosos que compartilho com elas, duas pessoas que quero ter ao meu lado por toda a vida.
– Vittoria – Mia inicia, agora com uma expressão mais séria – Me promete que nunca vai embora?
– Mia... – Hesito, pois já tivemos essa conversa inúmeras vezes no último ano, mas mesmo assim não consigo prometer o que ela deseja ouvir de mim – Você sabe que não posso ficar aqui para sempre, certo? Mas você sempre estará em meu coração e na minha vida, onde quer que eu vá.
– Não quero que você se vá, Vittoria! Já passei por tantas perdas e você é como uma irmã para mim, escolhida pelo meu coração.
Percebo pelo canto do olho que os olhos de Antonietta estão cheios de lágrimas.
– Você também é uma irmã para mim, Mia. Vocês duas são as melhores surpresas que a vida me trouxe. – Ambas conhecem toda a minha trajetória, e sei que entendem a sinceridade das minhas palavras.
– Somos uma família, meninas – diz Antonietta, emocionada – Independente do que aconteça, sempre estaremos juntas.
– Amo vocês! – exclamo, pois essa é a mais pura verdade que guardo em meu coração.
– Eu também amo vocês – Mia responde olhando para mim e Antonietta.
– Eu também amo vocês! – diz Antonietta, secando os olhos com o guardanapo que estava em seu colo. – Agora vamos tirar a mesa e descansar, porque Mia tem tutoria bem cedo amanhã.
Mia revira os olhos, pois não gosta de ter aulas particulares como seu pai exige. Ela gostaria de estar em uma faculdade presencial como a maioria dos jovens da nossa idade, em vez de fazer ensino a distância. Pego os pratos sujos e vou para a cozinha, deixando as duas organizando as caixas de pizza e limpando o vidro da mesa.
– Ahhhh! – ouço antes de colocar os pratos na pia. Assim que reconheço o grito de dor de Antonietta, meus pés ficam paralisados no chão.
– Vocês duas, fiquem quietas e não dificultem meu trabalho. – escuto uma voz grossa falando na minha língua nativa. – Seu pai pensou que conseguiria escondê-la de nós. – A voz me causa arrepios. – Ele se acha o dono do mundo, mas agora vai perceber que não passa de um idiota arrogante que mal consegue proteger a própria pele!
– NÃAAAAO! – O grito de Mia me faz sentir um arrepio que vai dos pés à cabeça.
Eu sei que deveria voltar para a sala de jantar ou correr atrás de ajuda, mas fico paralisada ao ouvir o barulho de vidros se estilhaçando bem onde elas estão.
– Vittoria – a voz da minha amiga/irmã ecoa em minha mente, trazendo à tona suas palavras: – Se um dia estivermos em perigo, mas você tiver uma oportunidade, se esconda. Salve-se, por favor.
– Você está louca, garota? – Perguntei, sem imaginar que algo assim realmente poderia acontecer com a gente. – O que poderia nos ocorrer?
– Meu pai é uma pessoa importante na Itália, Vittoria. Ele tem inimigos...
Mia raramente falava sobre o pai, por isso fiquei ainda mais surpresa.
– Seu apartamento é uma fortaleza, Mia – Interrompi suas palavras para evitar que ela continuasse com essa história maluca. 'Mia' e 'perigo' são coisas que eu nunca desejaria ver juntas. – Ninguém jamais chegaria até nós.
– Você está certa. Ninguém conseguirá nos alcançar – Ela sorriu para mim. – Mas se chegarem até nós, se estivermos em perigo, onde quer que estejamos, me prometa que vai se proteger. Se esconda, Vittoria.
– Eu prometo – ela falou, enquanto eu revirava os olhos, sem acreditar naquilo, mas me sentindo incapaz de discordar dela.
– Debaixo da minha cama, entre o segundo e o terceiro estrado de madeira, tem um esconderijo. Dentro dele, há um celular de segurança. Ligue-o e procure pelo único número que está na agenda. Peça ajuda e diga que fui eu quem te deu o celular. Alguém virá para te ajudar.
Lembro que meu coração ficou apertado naquele instante, como se a possibilidade de estarmos em perigo fosse real, mesmo achando suas palavras uma grande loucura.
– Esse número é do seu pai?
– Mais ou menos. Ele e meus tios vão receber a ligação. Eles perceberão que estou em perigo, então peça ajuda a qualquer um deles que atender. Você estará segura. Me prometa que se algo acontecer, você fará isso, Vittoria – Ela segurou minha mão com tanta força naquele dia.
Sinto quase como se seus dedos ainda me apertassem agora.
– Eu prometo!
As lágrimas escorrem pelo meu rosto ao lembrar, mas mesmo querendo cumprir o que prometi à Mia, não consigo, por isso corro em direção à sala de jantar. Se algo ruim acontecer com elas, estarei junto.
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Atualizado até capítulo 52
Comments
Solange Coutinho
E agora?caracolis o que acontecerá. nos próximo capitulos
2025-03-13
1
jeovana❤
que tenso
2025-02-24
1
Helena Pontioli
estou amando teu livro.
2024-11-22
2