Saio do banheiro e me deixo cair pesadamente na cama, totalmente nu. Meu corpo sente o peso de tudo o que venho enfrentando nos últimos dias. Estamos em busca do traidor da nossa organização como tubarões famintos atrás de suas presas nas profundezas do mar, e até agora não conseguimos encontrar nenhuma pista.
Quem quer que seja esse infeliz, ele sabe disfarçar seus rastros com maestria. Há muito tempo não enfrentamos um problema tão sério no nosso clã. No entanto, tenho certeza de que é apenas uma questão de tempo até conseguirmos alcançá-lo, e quando isso acontecer, ele se verá arrependido da traição.
Por conta da necessidade de manter a discrição, somente os membros mais altos do clã estão cientes dessa caçada ao traidor. Estamos fazendo o possível para estarmos presentes nos maiores números possíveis de locais. Meus quatro coronéis e eu estamos quase em todos os lugares ao mesmo tempo.
Nesta noite, estive em uma das boates dos nossos parceiros. O que parecia ser uma visita cordial da minha parte não foi mais do que uma busca desesperada por qualquer indício de que o indivíduo era o traidor. O problema é que, novamente, não encontrei nada.
O anfitrião me ofereceu três mulheres encantadoras para me fazer companhia durante a noite, mas isso não ajudou em nada a aliviar a tensão que venho sentindo nos últimos dias. Tenho a impressão de que estaremos prestes a sofrer um golpe doloroso, não algo que nos derrube como fiz com Riccardo anos atrás, mas certamente um impacto que irá nos desestabilizar.
Como bom italiano, mantenho meu lado supersticioso e intuitivo bem ativo; assim, confio em meus instintos, pois eles nunca me decepcionaram até agora.
Quando meus pais e minha irmã faleceram, procurei afastar de mim tudo o que pudesse me deixar vulnerável, incluindo alguns ensinamentos tradicionais italianos que minha mãe me transmitiu. No entanto, certas coisas são impossíveis de eliminar de nosso ser. Elas permanecem como marcas indeléveis, cicatrizes que nunca desaparecem.
Falei com Enrico sobre essa sensação de estarmos à beira do abismo enquanto dirigíamos entre a boate e minha casa. Pedi a ele que reforçasse nossa segurança. Não vou cometer o mesmo erro do Riccardo anos atrás e permitir que meu orgulho me faça baixar a guarda.
Não, eu estarei pronto para lutar se for preciso. Assim como meus coronéis, estarei na linha de frente, sem me esconder atrás de uma mesa como um covarde.
Confesso que o banho quente que acabei de tomar, combinado com o sexo de horas atrás, ajudou a aliviar um pouco da tensão que eu estava sentindo, mas não foi suficiente para me fazer desligar completamente. Desligo o alarme do celular e fecho os olhos, tentando forçar o sono e prometendo a mim mesmo que vou dormir o quanto meu corpo precisar esta noite.
Conforme o sono se aproxima, percebo meus músculos relaxando lentamente enquanto meus olhos ficam cada vez mais pesados. Não demora muito até que a escuridão me envolva totalmente. Não sei quanto tempo passei dormindo até ouvir o celular de segurança tocar em cima da cômoda.
Levanto-me da cama e, ainda meio zonzo pelo sono, olho para ver que já passa das 03:00h. Apenas eu, meus coronéis e Mia temos esse número, então já sei que, seja qual for a situação, é algo sério.
– Mia? Minha filha? – Atendo à chamada com o coração acelerado quando vejo o número do celular de segurança dela na tela – Você está bem? O que aconteceu, filha? – Não disfarço a preocupação, porque sei que apenas ela tem acesso a esse aparelho.
– Não sou a Mia – diz alguém, mas mal consigo ouvir sua voz. Com aquilo, sinto meu sangue gelar – Sou Vittoria. Fomos atacadas. Por favor, senhor, me ajude!
– Quem está falando, droga? – grito, tentando atrair a atenção da garota do outro lado – Você me escuta? Onde está a Mia? – Não obtenho resposta – Você está me ouvindo, menina? Onde ela está? – Repito a pergunta, mas só o silêncio responde enquanto apresso-me para colocar uma calça jeans e uma camisa de botões no armário do meu quarto.
Esse silêncio me deixa inquieto e, assim que a chamada se encerra, meu celular toca com uma chamada em grupo de Diego, Mariano Lucca e Enrico.
– O que aconteceu? – a voz de Enrico é a primeira que escuto, logo seguida por perguntas diversas dos outros.
– Me diga que ela está bem.
– A Mia está segura?
– Preciso que o jatinho esteja pronto em menos de trinta minutos – anuncio, sem me preocupar em responder à pergunta que fizeram, pois sei que poderei explicar a situação durante o voo – E também preciso de uma equipe médica a bordo, além de qualquer suporte necessário para transporte hospitalar, se for o caso.
– Caramba! – Lucca exclama, e logo escuto o som de passos e coisas caindo no chão enquanto todos começam a se organizar, assim como eu.
– Vou cuidar disso. Nos encontramos no aeroporto – diz Diego, e eu encerro a chamada. Não consigo continuar a conversa por telefone. Nem sei se é seguro.
Pego meu celular e rapidamente checo todas as câmeras de segurança do edifício onde Mia mora. Assim, consigo confirmar que ela está dentro do apartamento, pois a câmera registrou o momento em que ela entrou no prédio com uma garota pela manhã e não saiu mais.
Acesso o relatório diário que recebo da equipe de segurança dela, mas não encontro nada que me chame a atenção. Nada fora do comum na rotina dela, e nem mesmo a menina que acompanhou Mia até o apartamento é mencionada.
Furioso, atualizo o sistema das câmeras para o horário atual, mas não vejo nenhuma movimentação no corredor da cobertura. Imediatamente me arrependo de ter atendido ao pedido de Mia e deixado a parte interna do apartamento sem monitoramento.
Revejo as gravações de todas as câmeras do prédio e não encontro nenhum dos meus seguranças. Somente o porteiro está se movendo pela entrada. Confiro que, por volta das 20:00h, os seguranças de Mia ainda estavam no corredor. Eles entregaram duas caixas de pizza para Antonietta, mas depois...
– Droga! – resmungo, batendo a mão na parede ao ver dois homens vestidos com uniformes de pizzaria e com balaclavas cobrindo o rosto. Eles descem pela escada de emergência e atingem a cabeça dos três homens que faziam a segurança da porta do apartamento de Mia.
Pego as chaves e saio correndo. Entro no meu carro e arranco acelerando pelas ruas de San Luca. Sinto um nó no peito e sei que vou trazer o caos se, como suspeito, alguém teve a ousadia de tocar na minha filha.
Em menos de 30 minutos, chego ao aeroporto. A equipe médica já se preparava para levantar voo. Diego, Mariano, Lucca e Enrico também me esperam. Eu sabia que eles queriam entender o que aconteceu com Mia, mas preciso de um tempo; por isso, acompanho atentamente todos os preparativos para a partida.
Quando o piloto anunciou que a decolagem estava liberada e nos orientou a seguir os procedimentos padrão, a atmosfera na cabine se tornou tensa. Ninguém teve coragem de quebrar o silêncio por um bom tempo.
Assim que a aeronave se estabilizou no ar e conseguimos soltar os cintos, sem precisar pronunciar uma palavra, fui em direção à parte de trás do avião, onde uma equipe de médicos e enfermeiras organizava um espaço para funcionar como leito hospitalar. Havia também uma espécie de antessala com uma mesa para reuniões. Eu sabia que meus coronéis me seguiam para lá.
Solicitei aos médicos que nos deixassem sozinhos por um momento e finalmente pude abrir meu coração para os únicos homens em quem confio. A sensação é como se um elefante estivesse pressionando meu peito, então sinto que preciso compartilhar tudo com eles.
– Aqueles filhos da mãe... – minha voz ressoa amarga, e todos me olham com expectativa – Eles pegaram a Mia.
– Droga! – Mariano resmunga – Você conferiu as câmeras – Não é uma pergunta, mas sim uma constatação, porque todos sabemos que essa é a primeira ação a ser tomada.
– Você acha que eles... – Diego para de falar como se temesse minha reação ao finalizar seu pensamento. Eu aceno com a cabeça, indicando que concordo.
É difícil aceitar, mas diante das imagens que vi no corredor, eles entraram com a intenção de matar minha filha e saíram minutos depois, apressados e visivelmente nervosos.
– Eu vou fazer esses desgraçados sofrerem – Enrico grita enfurecido – Mas quem ligou para a segurança? Você conversou com ela? Se você acha que ela... morreu? – Mesmo Enrico, que normalmente é tão frio quanto um iceberg, mostra sinais de dor ao expressar o que temos evitado mencionar até agora. Ao longo dos anos, nos tornamos uma espécie de família, embora meio distorcida e fora do comum, mas prontos para tudo quando se trata de nossa proteção – E quanto à equipe médica, Alessandro?
– Não foi a Mia que utilizou o celular de segurança – respondo. Eles se trocaram olhares por um instante antes de me olhar, surpresos.
Mia tinha instruções claras para nunca mencionar a ninguém sobre o telefone de segurança, já que essa linha só deveria ser acionada em situações de risco, então apenas ela e Antonietta estavam cientes da sua existência. Quando minha filha queria se comunicar com um de nós, usava seu próprio celular, que já era seguro por si só. O uso desse telefone específico indicava que elas estavam enfrentando problemas.
– Quem te contou isso? – questiona Lucca.
– Ainda não sei, mas o nome dela é Vittoria. Suspeito que seja a garota que vi nas câmeras de segurança. Ela estava entrando no prédio com a Mia pela manhã.
– Uma amiga? – Mariano levanta a sobrancelha, claramente duvidando disso, assim como eu.
– Nunca encontramos nenhuma amiga nos relatórios de segurança da Mia – comenta Diego, ressaltando algo que venho questionando desde que vi as imagens.
A menina e Mia passaram pela segurança sorrindo e se cumprimentaram como se já fosse rotina delas entrar juntas no apartamento. O que não entendo é por que a garota não foi mencionada nos relatórios diários ou por Antonietta.
– Vamos descobrir isso assim que chegarmos aos Estados Unidos. – A raiva invade cada parte de mim.
– Você acredita que o ataque veio da mesma pessoa que estamos tentando capturar? – pergunta Diego, com uma expressão severa. – Acha que essa garota está envolvida?
– É bastante provável que sim – respondo, cerrando os dentes. – Estou certo de que esse traidor desgraçado está planejando algo bem na nossa frente. Somente alguém de dentro da organização poderia ter conhecimento sobre a Mia. E mesmo assim, seria complicado, pois sempre tomamos todas as precauções para protegê-la. – Explico isso, mas a culpa ainda pesa sobre mim. Pensei em resguardar todas as nossas frentes, mas falhei em relação à Mia. Jamais imaginei que chegariam até ela.
– Droga, Alessandro, atacar sua filha? – Lucca parece estar horrorizado com a possibilidade, embora tudo seja viável nesse meio – O infeliz assinou sua própria sentença de morte, tornando a situação ainda mais brutal.
– Não podemos subestimar o desespero e a ambição por poder de um homem que traiu seu próprio clã – diz Mariano em um tom sério. – Seja quem for, ele está disposto a fazer qualquer coisa para nos atingir.
Enrico assentiu com seriedade, seus olhos revelando todo o ódio que carrega. De certo modo, éramos conscientes de que essa traição interna representava uma ameaça séria, mas nunca imaginamos que pudesse afetar outras pessoas.
– Mia era minha única vulnerabilidade, e eles descobriram isso – Minha voz transparece dor e raiva, pois é doloroso falar dela como se ela já não estivesse entre nós, mas sinto que há uma possibilidade de não a encontrar mais viva. – Eles cometeram um erro, o pior de todos. Se trair o clã já era motivo para uma sentença de morte, agora a situação será ainda mais terrível.
É uma promessa.
Todos acenaram em concordância, pois independentemente do que tivermos que fazer, temos certeza de que iremos capturar aquele miserável e torturá-lo até a morte.
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Atualizado até capítulo 52
Comments
marlene cardoso dos santos
nossa será que morreram .
2024-11-27
3
Solange Coutinho
Lamento sua perda MAFIOSO BONITÃO
2025-03-13
0
jeovana❤
que triste por um descuido ela perdeu a vida
2025-02-24
1