San Luca (Itália)
Esforço-me para abrir os olhos, mas minhas pálpebras parecem grudadas. A garganta queima e uma dor intensa se espalha por todo o meu corpo. A consciência vai voltando aos poucos, como se eu estivesse saindo de um abismo escuro e aterrorizante. Mia e Antonietta. Recordo delas, das mulheres que me receberam com tanto carinho em seu lar. Meu coração se aperta ao relembrar tudo o que ocorreu. Lágrimas surgem involuntariamente em meus olhos, permitindo-me abri-los um pouco.
A luz do ambiente me faz piscar, pois a claridade é quase insuportável. Sinto uma dor aguda no pescoço ao mover a cabeça de um lado para o outro, mas esforço-me para entender onde estou, já que isso não parece ser um hospital. Minha mente assemelha-se a um quebra-cabeça fora do lugar, e a última peça que consigo recordar é... a ligação.
Como se atraída por uma força invisível, percebo a presença de um homem sentado em uma poltrona distante da cama. Seu corpo aparenta estar tenso, como se aguardasse há muito tempo por algo. Os cotovelos apoiados nos joelhos e o corpo inclinado para frente revelam cansaço, mas isso não diminui sua intimidação.
Não preciso de palavras para identificar quem é: Alessandro, o pai da Mia.
– Você levou tempo demais para acordar, menina – ele diz com sua voz profunda que preenche o espaço, provocando calafrios na minha pele.
– Mia... – as lágrimas descem pelo canto dos meus olhos e sinto um desconforto na garganta ao tentar falar – Ela morreu? – minha voz soa baixa e frágil. Mal consigo reconhecê-la.
Um simples movimento de cabeça é a única resposta que o homem me dá, aumentando ainda mais a angústia no meu peito. Mia, minha amiga que esteve ao meu lado nos momentos mais difíceis, não está mais presente.
– Antonietta? – questiono, angustiada por respostas que temo receber.
Desta vez, ele estreita os olhos, me avaliando com atenção, mas permanece em silêncio. O clima entre nós é denso, e consigo sentir a tensão pairando no ar.
– Você está fazendo muitas perguntas logo após acordar, menina – diz ele finalmente – Vou chamar o médico para verificar como você está. Depois conversaremos.
– Onde estou, senhor? – persisto, mesmo que minha voz trêmula denuncie a apreensão que sinto ao olhá-lo. Sempre imaginei o pai de Mia como uma pessoa boa, alguém que, assim como sua filha, me acolheria e protegeria. Contudo, neste momento... algo nele me deixa inquieta.
Ele não responde à minha indagação, somente me observa fixamente enquanto pressiona um pequeno controle que tem entre os dedos. A sensação de vulnerabilidade e medo se intensifica dentro de mim.
– Por favor, senhor. Onde estou? – questiono novamente, mas o silêncio continua a nos cercar.
Oh meu Deus, por que sinto medo dele? Não consigo acreditar que ele realmente possa me ferir, mas algo em seu semblante é excessivamente opressivo e me faz tremer.
Assim que ele mencionou, um médico e uma enfermeira entram no quarto. Eles me examinam, verificam as medicações, fazem várias perguntas, tudo isso sob o olhar atento do homem que permanece impassível e sentado no mesmo lugar. Seu olhar sobre mim é como o de um gigante esperando para esmagar uma formiga.
Não conseguindo conter a ansiedade que me invade, assim que o médico e a enfermeira saem novamente, volto minha atenção para ele.
– Por favor, senhor, me diga. Onde eu estou? – Minha voz treme ao repetir a pergunta porque minhas cordas vocais parecem frágeis como vidro.
Ele finalmente decide quebrar o silêncio.
– Em San Luca, na Itália – afirma com uma frieza que me corta por dentro como uma lâmina afiada – Eu trouxe você para cá após o ataque.
Sinto um aperto na garganta. San Luca, Itália. A cidade onde Mia nasceu.
– Meu Deus, preciso ir embora. Não posso ficar aqui. – Tento me levantar da cama, mas ele é ágil ao me alcançar e me empurrar de volta para o colchão macio.
Meus pais. Estou muito perto deles. Eles vão me encontrar, vão me levar de volta, e eu vou ter que enfrentar aquele pesadelo novamente.
– Você pode e vai ficar, garota – ele responde com seriedade – Pelo menos enquanto eu achar necessário que você esteja aqui, não irá a lugar algum.
– Por quê? – As lágrimas escorrem pelo meu rosto.
– Porque é o que eu desejo – Essa é a resposta que ele me dá e, de alguma forma, percebo que o verdadeiro inferno pode não ser retornar ao controle dos meus pais, mas sim ficar ao seu lado – Agora, pare de gritar no meu ouvido e apenas responda às minhas perguntas – ele ordena de forma brusca.
O pai de Mia se inclina um pouco mais para frente, com seu corpo robusto, mantendo os olhos fixos em mim. Isso provoca uma pressão quase insuportável sobre mim.
– Depois que eu responder, você me deixará ir embora? – Insisto mais uma vez, mas ele apenas me observa em silêncio.
– Quem é você, Vittoria? – pergunta ele, sua voz fria como o vento cortante do inverno na Itália.
Engulo em seco, minha cabeça girando enquanto busco uma resposta apropriada. Não posso revelar a verdade para ele, não neste momento. Se ele descobrir o que realmente ocorreu no meu passado, pode tentar me enviar de volta aos meus pais, e isso é algo que não posso permitir.
– Eu sou... uma amiga da Mia – respondo com cautela, tentando manter a voz controlada diante do homem que me observa como se pudesse ler minha alma – Nos conhecemos há um tempo e ela me convidou para ficar na casa dela por um período.
Alessandro permanece em silêncio, apenas continua me analisando como se estivesse tentando resolver um enigma. Uma tensão palpável toma conta do ambiente, e meu coração dispara descompassado.
– Vittoria... – ele finalmente fala, sua voz carregada de uma desconfiança que eu consigo perceber – Como você conseguiu se aproximar da minha filha sem que eu soubesse? Por que esteve escondida todo esse tempo? Não me interessa o que está à vista, menina, já sei disso tudo. Quero que me diga apenas o que está ocultando.
Respiro fundo, refletindo sobre o que devo revelar a ele e então decido contar tudo desde a primeira vez que encontrei Mia há cerca de um ano. Faço o possível para ser honesta e espero que ele perceba em meu olhar a sinceridade das minhas palavras, pois nunca faria mal a Mia ou Antonietta. Eu as amava.
– O que realmente ocorreu na noite do atentado? – Alessandro questiona sem fazer qualquer observação sobre o que acabei de compartilhar. Ele não me dá espaço para imaginar o que passa pela mente dele. O homem é como um mistério diante dos meus olhos – Como aqueles homens conseguiram entrar no apartamento de Mia?
Sinto como se o chão estivesse se abrindo sob meus pés. O tom de voz dele, baixo, deixa clara sua irritação. Sinto-me como um inseto barulhento, atrapalhando a tranquilidade do homem. Sua desconfiança em relação a mim é evidente.
– Eu... eu não sei – murmuro, minha mente funcionando a todo vapor em busca de palavras que possam convencê-lo – Fomos surpreendidas. Eu estava na cozinha quando ouvi os barulhos e...
Ele me interrompe com um gesto brusco da mão.
– Você estava na cozinha, e eles conseguiram entrar no apartamento pela sala sem serem vistos? – O pai de Mia parece cético e seu tom faz meu sangue congelar.
– Sim, isso mesmo – respiro fundo – Eu... eu não sei exatamente como isso aconteceu – reitero, sentindo o pânico aumentar com as lembranças – Foi tudo muito rápido. Estávamos comendo pizza. Quando terminamos, fui levar os pratos para a cozinha enquanto Mia e Antonietta limpavam a mesa. Ouvi os gritos delas e corri para a sala – meus olhos se enchem de lágrimas – Não havia mais nada que eu pudesse fazer. Eles eram rápidos e brutais. Eu não tive chance de ajudá-las...
– Como você conseguiu escapar? – ele pergunta, com o olhar fixo em mim, como se fosse uma faca afiada.
– No começo, não sabia bem o que estava acontecendo. Eu me joguei no chão entre as duas e, enquanto chorava, ouvi eles comentando algo sobre eu não estar de acordo com o que foi combinado. Parecia que não esperavam ver mais alguém no apartamento.
– O que exatamente eles disseram, Vittoria? O que você escutou? Repita as palavras – solicita Alessandro, olhando para mim intensamente, como se estivesse em busca de algo além das minhas respostas.
– Eles afirmaram que o chefe havia ordenado a morte apenas da garota e da senhora, e que eu não seria morta porque não receberam pagamento para isso. Disseram que houve uma falha na informação e na transferência dos valores, então me agredir seria apenas um favor – um frio percorre minha coluna ao recordar – Disseram também que se o chefe pagasse para completar o serviço, voltariam para me buscar.
– Desgraçados! – Ele rosna e se levanta de forma abrupta, fazendo a poltrona tombar e me fazendo pular levemente na cama. O pai de Mia já é naturalmente ameaçador, mas neste momento? Ele se assemelha a um animal encurralado, pronto para atacar quem o aprisionou – Continue... – Alessandro quase grita, parando ao meu lado onde estou deitada.
– Eles me agrediram bastante. Acho que desmaiei em algum momento, mas depois de um tempo, recordei que Mia mencionou uma vez sobre um esconderijo para um celular no quarto dela, caso algo acontecesse e estivéssemos em perigo. Então eu me arrastei até lá e procurei pelo aparelho. Foi assim que consegui ligar para o senhor – meus olhos se enchem de lágrimas ao recordar daquela noite horrenda – Depois disso, não lembro mais nada.
Alessandro parece refletir sobre o que eu disse antes de responder.
– Vittoria, é importante que você compreenda uma coisa – afirma ele, cruzando os braços musculosos sobre o peito – O que aconteceu com Mia e Antonietta é algo que nunca irei superar ou perdoar. Portanto, se você estiver de alguma forma envolvida nisso, se tiver algo a esconder de mim... vai se arrepender.
Sinto a intensidade de sua ameaça pairar no ar e engulo em seco.
– Eu não estou escondendo nada. Eu prometo, Sr. Alessandro – respondo, tentando permanecer calma – Eu amo Mia como uma irmã e jamais faria algo para feri-la.
– Vou deixar você ter um tempo para si mesma – diz Alessandro com uma expressão difícil de interpretar – Mas tenha em mente que estarei vigiando você, Vittoria. Não vou deixar nada passar despercebido. Se você fez algo contra minha filha, não haverá perdão.
Ele me observa por mais alguns instantes antes de se virar nos calcanhares e caminhar em direção à porta do quarto.
– Quando poderei ir embora? – questiono assim que ele pega a maçaneta para sair.
– Quando eu achar que é o momento – é tudo o que ele diz antes de fechar a porta com força, deixando-me com um nó na garganta.
Sinto um alívio por ele ter saído do quarto, pois a presença do pai da Mia é bastante opressiva. Na sua ausência, solto um suspiro tenso. Olho para baixo e vejo os lençóis suspensos, avaliando todo o meu corpo. Minha perna está imobilizada por uma bota ortopédica.
Lembro que a dor foi tão intensa que não consegui ficar em pé. Provavelmente fraturei algum osso devido às pancadas que levei. Percebo as marcas arroxeadas que cobrem quase toda a minha pele e, ao levar as mãos ao rosto, sinto que está inchado. Gostaria de ter um espelho por perto para conferir os ferimentos.
Poucos minutos após a saída de Alessandro, uma enfermeira aparece com uma bandeja e se oferece para me ajudar a comer, mas eu recuso, pois consigo me servir da sopa de frango e vegetais sozinha.
Enquanto me alimento, aproveito para tentar compreender tudo o que está acontecendo comigo e faço algumas perguntas à enfermeira. No entanto, ela responde a todas de forma direta: 'É melhor você perguntar ao Sr. Alessandro'.
Percebi que todos ao meu redor parecem temer aquele homem como se temessem o próprio diabo, e começo a achar que a imagem que construí em minha mente durante este ano, de que ele era tão bondoso quanto Mia e Antonietta, pode não ser completamente verdadeira.
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Atualizado até capítulo 52
Comments
Dilma Candida De Miranda Dilminha
coitada além de ter pais abusivos em qdo encontrou Mia e foi morar com ela aconteceu essa tragédia, ela embora toda machucada ainda gera desconfiança por parte do pai de Mia
2024-11-24
2
Solange Coutinho
Quê tragédia coitada não só dela mas do BONITÃO também e de todos que estão compartilhando essas perdas
2025-03-14
1
marlene cardoso dos santos
muito bom continue assim
2024-11-27
1